A Caveira da Mrtir
Camilo Castelo Branco
Preito  virtude do trabalho realada
pela grande moralidade de instruo voluntria
AO
GABINETE PORTUGUS DO RIO DE JANEIRO
NO
RIO DE JANEIRO
OFERECE
Camilo Castelo Branco.2
PREFCIO
Entre os trinta e seis criados que, no 1 de Junho de 1834, embarcaram em Sines
com o proscrito infante D. Miguel de Bragana, distinguia-se por nascimento e
educao literria o moo da real cmara, Fernando Lus, sobrinho do tristemente
famigerado desembargador Antnio Jos Guio.
O dedicado rapaz acompanhou o seu rei at  prova da indigncia, naqueles dias
angustiosos em que o irmo de D. Pedro IV no tinha em Roma, como refere o visconde
de Arlincourt, um baioco (10 reis) para comprar o leite do almoo.
Quando o infante, apertado pela pobreza, despediu o maior nmero de criados e
dependentes, Fernando Lus de Guio dirigiu-se  Alemanha, ao passo que os seus
compatriotas voltaram a Portugal.
O sobrinho do desembargador Guio tivera na Ptria o melhor tirocnio literrio
daquele tempo, cursando humanidades com os padres do Oratrio, e completando os
estudos preparatrios no Colgio dos Nobres.
Em Roma estudara as lnguas italiana e francesa. O to faccioso quanto
inteligente arcebispo de vora, D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, tambm emigrado,
fizera-o seu amanuense. Da convivncia com este douto portugus, ganhou Fernando
farta cincia, e maio que tudo o desprendimento e afoita confiana com que o homem,
desvalido dos bens de fortuna, se aventura a julgar que toda a terra  ptria, por que o
saber  universal.
Animado, pois, pelos conselhos do sbio proslito de D. Miguel, foi Fernando
Lus procurar sua vida na Alemanha, como professor das lnguas francesa, espanhola,
italiana e portuguesa. Dizia-lhe o arcebispo que o estudo da, lnguas era prezado
naquelas pensadoras naes em que as cincias se alimentavam de fundas razes, e os
sbios timbravam em ser cosmo palitas, colhendo a histria de todos os pases no seu
prprio idioma.
Em 1837 anunciara-se Fernando Lus Guio como professor de lnguas em
Berlim. Um dos seus primeiros discpulos, no idioma portugus, sucedeu ser um doa
notveis sbios daquela cidade. Chamava-se Leonardo Leopoldo Frisch, ministro
protestante, e contava, ao tempo, idade superior aos cinquenta anos.
Maravilhou-se o mestre de aluno to respeitvel por idade quanto pela jerarquia
no sacerdcio, e perguntou-lhe como to tarde se dedicava ao estudo de um idioma
difcil.
Respondeu o clrigo que nunca tivera ocasio de instruir-se com professor
idneo, nem lhe constava que algum portugus professasse na Alemanha a sua lngua.
Acrescentou que desde tenros anos anelara ardentemente estud-la, no tanto pelo
prazer de decifrar a famosa epopeia de Cames, que os seus conterrneos, desde
Meinhard at Wilhelm von Thery, pareciam deslustrar, como principalmente para
decifrar um segredo de famlia.
Apesar da indefessa aplicao do discpulo e do engenhoso mtodo do professor,
as delongas e as imprevistas dificuldades impacientavam Leonardo Frisch.
Poderia ele dispensar-se de conhecer o idioma, que alcunhava de docemente
brbaro, e esclarecer o chamado "segredo de famlia", confiando ao portugus a
traduo do volumoso manuscrito que dizia ter, mas no mostrava, em um cofre de pau
santo; porm, o prussiano coibia-se de expor os papis, receando que o mistrio
envolvesse desonra para seus antepassados. Fernando conheceu o melindre, e sofreou
a natural mas descorts curiosidade.
Prosseguiu o clrigo desveladam.ente no estudo; e, no termo de dois anos,.3
conseguira traduzir, com exultaes imaginveis, o essencial do manuscrito. E crescia
de ponto o seu contentamento  medida que a probidade de seu av saia imaculada por
entre as confusas peas de um processo criminal.
Convencido, portanto, da inculpabilidade do seu antepassado, chamou o mestre 
confidncia do segredo de famlia, dando-lhe o manuscrito para que ele o vertesse, to
literalmente quanto pudesse, para francs.
Antes, porm, da entrega, Leonardo Frisch abriu um cofre de tartaruga com
ornatos de metal, tirou uma caveira, e disse:
* Aqui tem o segredo, que, neste ano corrente, faz justamente um sculo que
entrou na minha famlia. Foi meu av, Josse Leopoldo Frisch que fechou esta caveira
neste cofre h cem anos, contados desde 1739. Aqui tem a data, escrita neste osso que
chamam temporal.
* E foi escrita em Lisboa?! - atalhou o portugus, admirado.
* Em. Lisboa, certamente.
* Noto aqui outra inscrio no temporal esquerdo... - observou Fernando, querendo decifr-la.
* Sim, senhor: esta inscrio alem diz:
A CAVEIRA DA MRTIR
O clrigo continuou:
* Dos papis que o meu querido mestre vai traduzir no se inferem algumas
miudezas que vou referir-lhe como promio  tristssima tragdia. Meu bisav, Joo
Leonardo Frisch, ministro da Reforma luterana, foi um dos homens instrudos do seu
sculo, na Alemanha. Nasceu em 1666, e aqui morreu, em Berlim, em 1743. At aos
quarenta e quatro anos viajou por Frana, Sua, Turquia, Itlia, Holanda, Espanha e
Portugal. Casou aos cinquenta e trs, e teve um. filho chamado Josse Frisch, que no
vigor da mocidade foi a Portugal, movido por interesses das cincias naturais que
cultivava distintamente. Cheio de honestos brios, me honro em lhe apresentar neste
raio das minhas estantes, os livros que estes meus ascendentes publicaram 1 . Meu av,
Josse Frisch, que provavelmente lavou com suas lgrimas esta caveira, consta da
tradio que fora novo, alegre e feliz para Lisboa, em 1730, e voltara  ptria em 1739,
encanecido, desfeito e envenenado pela paixo de uma saudade que nunca mais o
deixou sorrir  esposa que lhe deram nem ao filho, que era meu pai, e muitas vezes me
disse: "Eu nunca vi um. lampejo de alegria no semblante do teu av". Minha av,
esposa deste homem inconsolvel, morreu sem saber o que este cofre continha.
Imaginava-se que o melanclico cismador, por demasia de cautela, fechara aqui alguns
exemplares raros das suas investigaes mineralgicas. Quanto aos papis, s meu pai
lhes deu valor, quando tentou debalde compreend-los, e acaso encontrou o apelido da
nossa famlia encravado nestas pginas indecifrveis.
No sei se ele teve modo de penetrar o segredo dos papis e da caveira; a mim
nunca mo revelou, mas  mais de crer que a Berlim no viesse portugus que o
esclarecesse, nem ele solicitasse da cincia alheia um esclarecimento, desairoso talvez,
para seu pai.
...
Fernando Lus traduziu literalmente para francs um longo processo-crime; e, ao
1 Consulte os dicionrios bibliogrficos de Bouillet, Brunet, etc., quem desejar conhecer os ttulos das
obras dos dois Frisch..4
mesmo tempo, com permisso do discpulo, extraiu um traslado na sua lngua.
O emigrado portugus, favorecido pelas liberalidades do sacerdote Leonardo
Frisch, e pelo estipndio do incansvel professorado, conseguiu doutorar-se em
Medicina na Universidade de Berlim. Habilitado a granjear na Ptria o po
independente da renncia das suas crenas polticas, voltou a Lisboa em 1844. Por
espao de vinte e cinco anos exercitou a cincia com tamanho desinteresse que morreu
pobre. Como a sua confiana nos aforismos da arte era duvidosa, barateava os
servios, escrupulizando em encarecer-se alm de um simples observador das foras da
natureza. E porque no tinha famlia, no deixou filhos que chorasse, nem que o
chorassem. Que suave morte!
A sua livraria foi leiloada a beneficio de criados. Fui parte na pequena
concorrncia de licitantes. Apregoou o leiloeiro um pacotilho de manuscritos,
cartonados e intitulados - A CAVEIRA.
Um dos licitantes, mais atento ao ttulo, observou aos outros que, provavelmente,
aquela papelada era uma descrio osteolgica da caveira, visto que o defunto era
mdico. Bata observao depreciou em. tanta. maneira o lote que mo adjudicaram por
pouco mais do peso.
Assim adquiri eventualmente o processo de uma histria comeada no
REGICIDA, sem a mnima esperana de a concluir na CAVEIRA DA MRTIR.
Este Prefcio  o resumo das vinte laudas em que Fernando Lus Guio relatava
por mido as tristezas do desterro e as alegrias do trabalho..5
INTRODUO 2
A viva de Domingos Leite e de Joo da Veiga Cabral j no tinha alma sensvel
s felicidades convencionais desta vida. Recordaes que lhe eram afronta, e saudades
atormentadoras - a imagem terrvel do primeiro marido, e a imagem amada e
deplorativa do segundo - fechavam-lhe em nuvem negra qualquer aurora de
esperanoso contentamento. Nem as carcias de ngela, nem os amorveis rogos de
Francisco Mendes a demoveram de seguir o destino que a norteara a Portugal. O ermo,
a soledade, a dor sem distraco, morrer, enfim, alheia de amparos que suavizam o
transe, era para Maria Isabel uma necessidade do corao, um sacrifcio voluntrio 
redeno de suas culpas para com Domingos Leite, e ao seu imenso amor a Joo da
Veiga Cabral. No entanto, se algum desafogo sentia ao cuidar que suas lgrimas eram
vistas desde o seio de eternidade, com certeza no eram os olhos do primeiro marido os
que lhe davam a recompensa da imolao.
Adorava a memria do segundo esposo. Santa saudade! Homem mais digno desse
culto no poderia dar-lhe o mundo outro. Ele tinha os segredos da sua vida maculada,
desde que ela lhos revelou, lembrando-se que uma vez, cega de paixo, no vira em si o
labu que a tornara infame aos olhos de seu primeiro marido. Tudo lhe desvendou,
como se os dois cadveres, que ela fizera, a estivessem acusando para envilec-la.
Pintou-se ignbil e desprezvel no deslumbramento em que a fascinara o rei; arguia-se
menos, infamava-se menos por ter sido a cega vtima do padre. Joo da Veiga Cabral
explicava indulgentemente as duas cegueiras - primeiro a da inocncia, depois a da
alucinao. Defendia-a de suas mesmas severidades. E, quando ela chorava remida pelo
amor ardente das almas castigadas, o amante pedia-lhe de joelhos que o aceitasse como
marido, no por amor da honra, mas por amor dele.
Nunca vira a ruga do arrependimento na fronte do esposo, nem os tdios
intermitentes da vida positiva, serena, sem os sustos que refinam o amor. Se ruins
lembranas do passado a sobressaltavam, Joo da Veiga escutava-lhe o gemido
recndito do corao; e, arrancando-a de si mesma, parece que a alma se lhe abria em
novo manancial de ternuras. E por isso, a mulher impura, considerando-se depurada de
suas ndoas na frgua daquele amor generoso de todas as misericrdias de um Deus,
tambm se considerou digna de morrer na tristeza das mais honradas vivas.
ngela, atribuindo a capricho de gnio especial a insistncia da me, doeu-se da
separao resistente a splicas e carcias. O hebreu definiu mais psicologicamente a
misantropia de sua sogra. At certo ponto, desde que viu frustrarem-se as meiguices da
esposa no alivio de Maria Isabel, compreendeu que as saudades de Joo da Veiga no
bastava a mitig-las o amor da filha de Domingos Leite. E notou ainda que sua sogra
parecia ter remorsos de haver procurado nas douras maternais impossvel distraco s
angstias de viva.
Entrou, pois, no Recolhimento de Nossa Senhora da Encarnao, e, ocultando as
passagens criminveis da sua existncia, logrou estar seis anos desconhecida em uma
congregao de mulheres conventuais, onde por via de regra a curiosidade das coisas
mundanas raro cede o passo  indagao das divinas.
Malogravam-se os cuidados da filha em rode-la de todas as regalias compatveis
com o seu retiro. Maria Isabel aceitava apenas a satisfao de no ser desprezada.
Quanto a recursos, as jias de sua me asseguravam-lhe alguns anos de parca
subsistncia, e dizia ela que, para o final da vida, reservava umas poucas moedas do
2 Abrange setenta anos a Introduo. Assinalaremos com traos ligeiros os vestgios da morte no decurso
de trs geraes que se contam desde o regicida at  sua ltima descendente..6
soldo de seu marido.
Porm, no h fiar-se a gente nos lutos perptuos, nos herosmos do lento suicdio,
quando so trinta e cinco os anos e as cinzas de um cadver afrouxam mas no apagam
as falas que subitamente ressaltam e nos entreluzem horizontes imprevistos.
Quem diria que uma criancinha, ao balbuciar a palavra av, descondensaria de
sobre o corao de Maria Isabel o mais espesso da sua escuridade? Como pde o
contacto de uma vida em comeo com o peito glacial da viva aquecer l dentro uns
embries de afectos desconhecidos? No se explica plenamente o estremecido amor dos
avs. Sabe-se que renasce a ternura que os pais tiveram aos filhos na infncia - ternura
que esmorecera a par e passo que os filhos se emanciparam das blandcias paternais.
O certo  que a me de ngela, quando Jorge, seu neto, perfez trs anos, saiu do
Recolhimento porque os Estatutos vedavam a entrada de crianas; e a regente, j
cansada de quebrar a Regra a rogos da extremosa av, lhe declarara no mais exceptu-la
dos estilos da casa.
Voltou, portanto, D. Maria para a companhia de sua filha, mantendo os hbitos
adquiridos no claustro - o luto, a orao, a tristeza exterior; mas l do peito adentro
brincavam-lhe as santas alegrias de embalar no seio o seu neto, guard-lo no bero, e
ganhar-lhe o amor com cimes at da prpria filha.
*
Jorge nascera em 1660.
Quinze anos depois, frequentava jurisprudncia na Universidade de Coimbra.
Sua av acompanhou-o durante a formatura.
Aos vinte e seis anos, Jorge Mendes Nobre era um dos mais famosos
jurisconsultos do reino, j nobilitado, como seu pai, com o hbito de Cristo.
Eis aqui a descendncia do regicida em 1686, quarenta anos depois da sua morte.
Maria Isabel ainda vivia quase septuagenria, com a memria de suas desgraas
atrofiada, pautando o regulamento higinico do seu passadio como quem deseja e
tenciona durar muito.
Triste e estpido egosmo da velhice! Os infortnios so comoventes, ainda
quando os grandes delitos se descontam nas paixes desatinadas. Com as mulheres
cadas desce s vezes ao fundo da voragem unia luz, que lhes d nimbo de mrtires da
sociedade que as abisma. H delas, ai mesmo, perdidas e admiradas, e, quantas vezes,
amadas! Porm, se os anos - triste regenerao! - as restauraram para o respeito do
mundo e amor dos netos, a memria das suas desgraas  serdia alegria que nos d um
involuntrio sorriso irnico.
Percebo isto e no explico bem.
O leitor, se o quer perceber melhor, contemple o retrato da George Sand de 1835 e
o da George Sand de 1875. Depois leia o romance de h quarenta anos, a Llia, e o
romance de ontem, Monte-Revche. Aquela mulher de olhar sobranceiro, que transluz
na pupila acesa o doce inferno do seu amor, que matava Mussets, e atirava as tranas
negras e os escndalos da vida e os escndalos dos livros  cara da sociedade -
assombra-me. Sinto que era foroso saud-la na morte como os lutadores ao Csar, no
circo. A outra, a Sand dos setenta anos, filtrada do iodo do mar, azotada da sadia
cozinha da provncia, com a touca de despenseira e os bands espalmados nas fontes,
esta, que faria rir a s moral vingada, a mim faz-me chorar. Ah! as mulheres, que deram
vida e morte a muitos coraes, deviam morrer cedo! - Que incalculvel expiao, 
Deus, se a velhice, que no tem esperana, tivesse saudade! O que seria a antecmara da
morte, se a deixasses,  benigna Providncia, uma janela aberta para o passado!.7
O esquecimento  o primeiro benefcio da aniquilao. Maria Isabel, a mulher de
Domingos Leite, a amada de D. Joo IV, a viva do enforcado, a amante e esposa do
gentil fidalgo de Bragana, aos sessenta e cinco anos, devia de estar esquecida... pois
queria viver! Prelibava as realizadas delcias de um bisneto. No enxugava unia
Lgrima, no respondia a uma frase, a unia reminiscncia das cinzas de h trinta anos!
No seria mais bela aquela mulher lavrada a vulto na tampa de um tmulo? A
leitora de fino sentir no quisera antes que a poesia da morte lhe tirasse de ante os olhos
o espectculo da velhice, que se resguarda dos nevoeiros e estofa de flanelas o peito,
escadeado pela ressicao dos tecidos? Verdade  que a decrepidez da mulher, que
triunfou a, vida com as magias da formosura, com os filtros da perfdia, insinuando o
amor como quem injecta mortais venenos,  uma profunda lio que refreia os mpetos
da mocidade, - quando os no desenfreia e lhes d de espora no curto estdio dos
prazeres.
Como quer que seja, a celebrada beleza da Traga-malhas, e a sua histria, na volta
dos sessenta e nove anos, se no fossem uma desgraa inconsciente, seriam suplcio de
sobra s suas culpas.
No nos deteremos a descrever-lhe a ltima fase da decomposio. Ali j no
podia dar-se o morrer que espanta. Morta j ela estava na mais viva faculdade do
vitalismo - a memria. Seriam consternadores os seus paroxismos, se ela prolongasse
um lano de olhos pelo passado, e revelasse, nas lgrimas derradeiras, saudades ou
remorsos. A filha e o hebreu  que choravam, recordando-se da vida daquela mulher, e
entrevendo-lhe no rosto morto a formosura, a apagada estrela que tantas fatalidades
influra.
Quando Maria Isabel morreu (1694), j seu neto Jorge Mendes Nobre era letrado
insigne na corte; excedia os trinta anos, e havia casado afortunadamente com a filha de
outro rico letrado, Joo Xavier Gomes, de famlia israelita.
Jorge e seu pai eram suspeitos ao esprito da intolerncia catlica, bem que
ouvissem missa quase quotidiana na capela da casa. Verdade  que o advogado Mendes
Nobre no imitava a cristandade de seus pais, alegando negcios que lhe reduziam as
prticas devotas, com mui grande mgoa sua. E, posto que no faltasse no templo em
dias santificados, esta satisfao era diminuta para a critica, e principalmente para o
Santo Ofcio, a quem constava que Francisco Mendes, trs anos depois da. morte do rei,
repusera em Amesterdo os cabedais que dali mandara vir para Portugal, quando
calculou segura a sorte das famlias israelitas protegidas pela corte, em recompensa dos
servios feitos  independncia da ptria e conservao da dinastia. Porm, assim que
viu a Inquisio excomungar D. Joo IV morto, porque ele restitura aos filhos de
alguns condenados pela Inquisio os bens de seus pais, Francisco Mendes transferiu os
seus haveres a Holanda, auferindo dos rendimentos o custeio da sua invejada abastana.
Menos cauto que seu pai, o eminente jurisconsulto era espiado, desde que ao
Santo Oficio chegou o vago boato de que ele tinha e lia livros proibidos no Index
auctorum damnatae memoriae, composto pelo jesuta Baltasar lvares, e mandado
imprimir em 1624 pelo inquisidor-geral D. Fernando Martins Mascarenhas. Agravava
esta denncia o crime de ter peregrinado terras de hereges, nomeadamente Flandres,
convivendo com heresiarcas, comendo com eles, e praticando livremente acerca dos
dogmas da f catlica.
Infelizmente, Jorge Mendes Nobre usava encarecer a sua f crist, despendendo-se
em argumentos contra os incrdulos; mas a tibieza com que atacava as razes dos
huguenotes, parecia um propsito hostil  sua mesma opinio, se no era antes uma
perigosa ironia.
Para bem averiguar o que fosse, o promotor do Santo Ofcio requereu contra o.8
doutor Jorge Mendes, alcunhando-o de heresiarca e dogmatista. Em seguida, o alcaide
recebeu o mandado de priso, que se cumpriu no ms de Fevereiro de 1701, quando o
letrado estava festejando o dcimo quarto aniversrio do seu primognito Paulo Xavier.
O preso orava ento pelos quarenta anos; ngela era ainda vigorosa; mas seu pai
perfazia os setenta. Alanceado pelo terror da sorte de seu filho, Francisco Mendes
socorreu-se das pessoas poderosas na corte; expondo os favores que prestara ao rei e
reino; mas concluindo pouco ou nada quanto  ortodoxia do ru 3 . Pelo que, a sua
aflio de pai extremoso, oferecendo grosso dinheiro pela liberdade do filho, lhe
enredava mais o processo e dificultava o perdo. O Santo Ofcio no costumava fazer
transaces de tal natureza. Se os presos eram ricos, a Inquisio no carecia de os
absolver para os espoliar.
Desde a hora em que lhe arrancaram dos braos o seu nico filho, o marido de
ngela no teve mais o reparador descanso de uma noite. Nem a esposa nem o neto o
distraam da letargia em que se atrofiou desde que as portas dos amigos se fecharam s
inteis splicas. Enquanto pde chorar, viu a esperana ao travs das lgrimas; porm,
as lgrimas secaram e a luz apagou-se-lhe nos olhos ao mesmo tempo. O infeliz
expirou, cuidando que ouvia os gemidos do seu Jorge na tortura!... Que morte a daquele
ancio cheio de virtudes
Jorge Mendes ignorava ainda, dois anos depois, que seu pai era falecido e
sepultado no seu carneiro de famlia que mandara construir na igreja de Camarate, onde
possua uma quinta. O Regimento da Inquisio castigaria com grande rigor o guarda
que noticiasse ao preso que seu pai era morto 4 .
Entretanto, a situao de Jorge Mendes era decerto menos horrvel do que se
afigurara a seu pai. Logo que foi preso e levado ao tribunal, confessou que tivera
dvidas sobre certos dogmas da religio crist, depois que lera alguns livros
condenados, os quais estavam na mesa dos inquisidores. Nomeou as pessoas com quem
no estrangeiro praticara, e os apertos em que se vira, para refutar a telogos luteranos,
atribuindo estas dificuldades  sua ignorncia dele, e no ao racionalismo dos
contendores. Esta confisso, acompanhada de lgrimas e outros sinais de ntimo
arrependimento, favorecia o preso com este artigo do Regimento, ttulo 3 intitulado dos
Confitentes:
Porm, quando algum ru depois de preso e acusado pela justia, antes de lhe
serem publicados as testemunhas dela, confessar suas culpas e a confisso for muito
satisfatria pelos sinais que mostrar da sua converso e arrependimento, e pela
declarao das culpas e dos cmplices, que deu e descobriu; podero os inquisidores
no votar em pena de crcere e hbito perptuo, seno a arbtrio; e isto mesmo poder
ter lugar no ru que posto que no merea tanto favor pela tempo, em que fez a
confisso, contudo o merecer pelo modo com que a fizer e pelos sinais que der de seu
arrependimento e declaraes que fizer das culpas e culpados do mesmo crime.
Os requeridos sinais de converso no podiam ser mais persuasivos. O ru,
chorando pela esposa, pelo filho e por seus velhos pais, revelava angstias que os
3 Francisco Mendes debalde empregara todo seu valimento para, em 1664, salvar da morte seu tio Afonso
Nobre, advogado em Vila Viosa, onde fora provedor da Misericrdia e vereador. Tinha um filho e uma
filha que, presos tambm, foram compelidos a testemunharem contra seu pai. Este filho, no auto de f,
pediu ao pai que lhe perdoasse e o abenoasse. O penitenciado a fogo respondeu: "Perdo vos dou por me
trazerdes a este estado, para que Deus me perdoe; bno, no; porque no  meu filho quem confessou o
que no fez, e, sendo cristo, disse que era judeu". E morreu queimado Afonso Nobre por negativo na
crena de Moiss.
4 As Notas so impressas no final do romance. Nota 1..9
inquisidores poderiam supor intenso pesar de haver duvidado da unidade das trs
pessoas da Trindade santssima; e, convencidos e compadecidos, poderiam, em
conformidade com a lei, mand-lo estudar melhor as santas teologias, e solt-lo do
crcere sem penitncia grave; porm, o artigo 10 do mesmo ttulo 3 do Regimento,
dizia:
Os heresiarcas e dogmatistas, posto que confessem antes de ser acusados pela
justia, sempre devem ser examinadas suas confisses (que gramtica a desta santa
gente!) com maior advertncia, para que se veja se so verdadeiras, e os sinais que do
de sua converso mostram estarem de todo apartados dos erros em que criam e que
ensinavam; e concorrendo estas circunstncias, sero recebidos com crcere e hbito
perptuo, sem remisso e com recluso, pelo tempo que parecer que convm para a sua
instruo na F... e com o hbito penitencial levaro ao auto-de-F carocha com titulo
de heresiarca ou dogmatista.
Este artigo, portanto, frustrou as lgrimas compungentes do advogado: e muitas
deviam ser as que ele chorou, desde Fevereiro de 1701 at Setembro de 1703.
E, ao cabo de dois anos e sete meses de crcere em que lhe era permitida a leitura
dos Evangelhos e a prtica semana! com algum frade dominicano, e, melhor que tudo, a
confisso mensal, com reserva da comunho, saiu enfim Jorge Mendes Nobre com
sambenito, no auto-de-f, em 9 de Setembro, a fim de abjurar em pblico os seus erros,
e ver queimar os livros que o derrancaram. A sua contrio era notria. J por entre a
multido circulava um piedoso soneto que Jorge Mendes escrevera em resposta de outro
recheado de sandias injrias 5 . O pblico, a corte e o tribunal mostravam-se
compadecidos do ru confitente, do sbio jurisconsulto, do filho do cristo-novo que to
liberalmente remira a honra de D. Joo IV infamada pelos credores holandeses.
Aumentava a condolncia geral saber-se que Francisco Mendes perecera de paixo, e
que a sua viva era um raro espectculo de desgraa e fora. Pois no obstante este
conjunto de circunstncias, a sentena lida ao ru penitenciado, antes que o inquisidor o
absolvesse e tocasse com a vara, continha estas durssimas penas:
Proibio de advogar;
Proibio de insgnias de qualquer dignidade;
Confiscao de todos os bens;
Degredo por seis anos para a cidade de Miranda.
A aspereza desta sentena amacia-se bastantemente, se meditarmos que os
inquisidores podiam queim-lo, se quisessem. Ao favor de o no queimarem, acresce a
extraordinria benquerena de o aliviarem da pena de hbito penitencial, podendo assim
Jorge Mendes Nobre, desbalizado no s dos bens, mas at do ofcio por onde podia
readquiri-los, pobre e desterrado, com me, esposa e filhos, implorar em Miranda uma
vstia de burel, visto que no poderia mendigar o hbito de penitente, que a Santa
Inquisio costumava vender caro aos que foradamente se haviam de fornecer dos seus
armazns.
*
A maior parte dos haveres de Jorge Mendes Nobre, como se disse, girava em
Holanda no trfego mercantil, mediante o rico banqueiro de Lisboa, Manuel de Castro
5 Nota 2..10
Guimares 6 . Portanto, o neto de Domingos Leite Pereira era rico, a salvo da inquisio.
Aconselharam-no em Miranda que fugisse para Amesterdo: era fcil iludir ou
comprar a vigilncia dos familiares do Santo Oficio a quem incumbia espiar-lhe o
degredo e a observncia do ritual catlico. Repeliu o conselho, receando perfdia, e,
mais que tudo, os trabalhos de uma viagem sobressaltada para sua me, que orava por
cinquenta e seis anos, e para sua mulher, que ensandecera quando ouviu tanger os sinos
de S. Domingos a auto-da-f, oito dias antes do espectculo, um tanger compassado e
lgubre como as badaladas da agonia.
Alm disso, os seus dois filhos Paulo e Francisco estudavam humanidades em
Lisboa, no colgio da Cotovia, que era casa de Provao. Os padres da Companhia de
Jesus predispunham os dois mancebos, consoante a sua usual discrio, para vestirem o
hbito. Eram ambos bons alunos, humildes e de mui devotos exteriores. O afecto dos
jesutas aos filhos do herege absolto prometia que a pena de degredo fosse comutada,
mormente se eles fizessem os trs votos. Jorge Mendes confiava tambm na influncia
da Companhia, e no impugnava a propenso dos filhos. A priso de dois anos, as
calamidades domsticas, o terror do futuro e as tristezas do desterro aniquilaram-lhe a
energia. ngela era-lhe amparo forte, como se a dor a empedrasse. Alentava-o com as
esperanas da sua religio; guardava escondida no corao a ideia pura do Cristo divino.
Escutava, chorando, os murmrios incrdulos do filho, e pedia a Deus que lhe perdoasse
pelo muito que ele padecera quando seu marido expirara traspassado da paixo do filho
nico.
Quando menos o esperava, Jorge Mendes, no quarto ano de degredo, recebeu
perdo da sentena, e a livre escolha de domiclio, com a restituio dos seus direitos
civis. O portador da nova foi um poderoso amigo que pusera o infante D. Francisco,
irmo de D. Joo V, aclamado no ano anterior, em luta com a Inquisio. Era Pedro Jos
Supico de Morais, que o leitor talvez conhea de uma Coleco poltica de vrios
apotegmas, publicada em 1720. No pense, porm, que Supico, segundo a obra indica,
fosse um grave e conspcuo escritor de mximas e sentenas. Era pontualmente o
reverso do homem que se rege por bons axiomas prprios ou alheios. Este sujeito,
quele tempo, moo da cmara e valido do perverso infante D. Francisco, havia matado,
em 1698, uma mulher por cimes. Acoitara-se em um mosteiro, e fizera-se defender no
tribunal por Jorge Mendes Nobre. No sei se foi a eloquncia do causdico, se a
influncia de Pedro II que lavraram a sentena absolutria. Supico afrontava, em 1707,
o dio de Lisboa, cavalgando o seu ginete arrogante ao lado do Gro-prior do Crato,
neto de D. Joo IV.
Quando o bacharel foi preso, Supico de Morais andava viajando com as largas
posses do seu patrimnio. Voltando  ptria, e insinuando-se na estima do infante,
precocemente facinoroso aos dezasseis anos, vingou ingerir a vontade do rei nos
decretos do Santo Ofcio, e indultar as maiores cruezas da sentena que degredara o seu
advogado, e lhe matara as poderosas faculdades de orador, fechando-lhe a tribuna.
O amigo de D. Francisco de Bragana descontara nas suas culpas a virtude
acrisolada da gratido. Jorge Mendes era livre, podia repatriar-se  capital, abrir o seu
escritrio e revestir a beca de primeiro advogado da corte.
Mas no voltou a Lisboa, nem advogou mais.
D. ngela tinha-lhe perguntado um dia:
* Se sobrevivermos ao nosso degredo, para onde iremos, meu filho?
* Para onde minha me quiser.
* Eu to direi... e, se tiveres morrido, irei dizer-te para onde vou,  sepultura.
6 No palcio que foi dos condes de Almada, s portas de Santo Anto, vive hoje o capitalista
representante do banqueiro do sculo passado..11
* Diga-mo agora, minha me, que eu receio no poder ouvi-la na sepultura. Os
ouvidos dos mortos esto cheios de vermes... A podrido  surda. Para onde iremos? Eu
no quero morrer, me! Tenho dois filhos: tenho minha mulher, que nos est ouvindo,
posto que esteja morta, e tenho minha me que me d exemplo de coragem. Hei-de
sobreviver ao degredo. Diga-me para onde iremos...
* Para a casa onde nasceu teu av, se a casa ainda existir.
* Para Guimares? Sei que meu pai tinha comprado esse pardieiro aos oficiais de
meu bisav cuteleiro...
* Comprou... Vaticinava-me o corao que eu iria acabar na casinha da rua de
Infesta onde comeara a sentir a felicidade. Pedi a teu pai que a comprasse aos mesmos
a quem a dramos, quando meu av morreu... Bem sei que me ho-de traspassar cruis
angstias quando entrar naquela casa... No importa... Se me queres acompanhar, Jorge,
vem comigo; depois, irs para Lisboa, melhorar a tua vida, que ainda pode ter algum
contentamento, e vai ver-me uma vez por outra.
* No nos separaremos - volveu o filho. - Desde que sa do sepulcro da
Inquisio ainda no vi o sol da alegria que d o sentimento ntimo da vida. Que me faz
Lisboa? que me importam os triunfos de advogado, se j os no posso repetir? No
tornarei a ser o que fui... E que fiz eu?... A desgraa apagou-me a memria. De todos os
meus estudos e triunfos apenas colhi uni amigo, um homem de quem o povo pedia a
cabea, quando eu o arrancava s mos do algoz. Salvei-o, e... desprezava-o!... mas
Pedro Supico de Morais, dando-me a liberdade e o direito ao trabalho, faria de mim o
antigo homem, se eu pudesse recompor o crebro que me fizeram pedaos e mo
arrancaram nas lgrimas. Tenho obrigao de viver, porque sou filho, esposo e pai.
Privaram-me dos meus filhos; levaram-mos como refns da minha f; sero jesutas,
sero padres, se eu quiser alguma vez, na minha vida, estreit-los ao peito e dizer-lhes
que sejam hipcritas para que seu pai no volte ao crcere. A condio para que eu viva
 que eles sejam imolados... a Deus! Seja assim... Vamos, minha me, vamos para o
pobre casebre donde saiu seu pai a implantar na terra uma rvore de vergnteas malditas
regadas com o seu sangue... Esperemos l os meus filhos; no nos resta esperar outra
alegria antes do ltimo sono do sepulcro.
Nos ltimos meses de 1707, Jorge Mendes e sua famlia residiam em Guimares,
na casa onde nascera Domingos Leite Pereira, setenta e oito anos antes. ngela, se
antevisse a cerrada tristeza que a esperava naquele recinto onde volteavam as sombras
do av e do marido, teria o egosmo de se arredar de um suplcio de nenhum modo
compensado. No engano de ngela h exemplos de muitos iludidos. Figura-se-nos que
no stio onde nos bafejou a felicidade ainda poderemos aquecer ao calor das recordaes
a alma retransida das glaciais desgraas. Pinta-se-nos na fantasia alucinada por saudades
que as pessoas mortas, que l nos floriram a vida, deixaram. toques de suave melancolia
impressos na tela desluzida da nossa mocidade. Prelibamos o agro das lgrimas que
vamos chorar; mas cuidamos que, depois das primeiras angstias, se nos h-de a alma ir
serenando em doces quebrantos daquela melancolia cismadora que  o remanso, onde a
vaga tormentosa quebra e adormece. Funesta miragem! Os repulsos das alegrias do
presente que a vo busc-las onde lhes ficou o tmulo delas, encontram a desolao, as
runas das coisas reais sobre as runas das imagens redivivas na saudade. Os mortos
amados erguem-se ante ns; mas hirtos, taciturnos, com as plpebras roxas da tabidez
dos vermes, e outra vez se reclinam no seio da sua podrido. Tudo aniquilado e perdido!
Se a h desafogo algum,  para aqueles que se compenetraram da bem-aventurana da
morte - o grande abismo de tudo, a eterna serenidade do nada.
O diadema de Santo Incio de Loiola parecia perpetuar-se na cincia da sua
progenitura espiritual. Os filhos de Jorge Mendes, Antnio e Francisco Xavier, fadara-.12
os o vaticnio dos mestres para os elevados postos da Companhia. Em 1709 eram eles os
mais distintos alunos do colgio em Coimbra; mas o brao poderoso de Pedro Supico de
Morais ousou chegar a e arrancar do tesouro da prvida Companhia aqueles dois
preconizados sucessores da dinastia do talento.
Jorge Mendes confidenciara-lhe a mgoa de se ver apartado dos filhos, sendo essa
uma cruel pena a que o Santo Ofcio expressamente o no sentenciara. Queixava-se de
que os jesutas desatassem os vnculos da famlia, degenerando em quase indiferena o
amor que seus filhos tiveram aos pais, at  hora em que a Companhia os avassalara.
Carpia-se por se ver obrigado a dissimular e transigir com essa mpia tirania, receoso de
recair nas masmorras do Santo Ofcio e enredar os filhos na sua irremedivel perdio
se o acusassem de reincidncia. Mostrava ter informaes de que os seus inimigos se
confederavam para reagir  influncia do infante D. Francisco, suspeitando-o
insidiosamente  Inquisio, que o trazia espiado pelos seus familiares em Guimares,
que eram os mais fidalgos e os mais devassos moradores da terra, Finalmente, pedia ao
valido do infante prior do Crato que por algum modo fizesse saber a seus filhos que se
no esquecessem dele, nem aceitassem como divino o sevo preceito que impe aos
filhos a barbaria de desprezarem seus pais por amor de Deus.
Pedro Supico no se considerava ainda bastante desobrigado com o defensor que
o salvou do patbulo ou do degredo perptuo. Por mediao directa de D. Francisco de
Bragana, os filhos do bacharel Mendes Nobre foram transferidos do colgio das Artes
a fim de serem empregados no servio do infante. Impugnou a Companhia alegando o
primeiro voto e a vocao dos moos devotados liberrimamente ao instituto. Por secreta
via, receberam os novios conselhos do pai e do subsecretrio de D. Francisco. Os
rapazes, desoprimidos do temor de exporem o pai s insdias de inimigos, despiram o
hbito com desafogo, e respiraram a haustos o primeiro ar de liberdade na juventude.
Paulo tinha vinte anos, e dezoito Francisco Xavier. O primeiro estudou
jurisprudncia; o segundo continuou teologia. Nenhum estorvo lhes dificultou a
carreira. Os padres da Companhia doeram-se da perda, mas no se vingaram dos
trnsfugas, conforme os ardis da Monita secreta, delatados ao dio pblico pelos
atrabilirios amanuenses do marqus de Pombal, meio sculo depois.
Os filhos de Jorge Mendes alegraram a precoce velhice de seu pai, e assistiram
aos paroxismos de sua av. ngela finou-se em 1712,  volta dos sessenta e oito anos.
Dado que cortadas de dores, as fibras desta raa de gente resistiam com rara tenacidade
de vida. Dir-se-ia que as molas orgnicas da matria se desgastam menos quando sobre
a alma  que as dores actuam.
*
Vai terminar a longa necrologia. Era foroso que a introduo se expusesse a
enfastiar o leitor que assiste  rpida passagem de duas geraes. No  meu costume
inquirir a ltima moda, o modernssimo paladar da opinio pblica em iguarias desta
espcie. No sei se aprazem as delongas de Dickens, se as nudezas de Flaubert, se as
tramias de Ponson. Ouo dizer que a sentimentalidade  hoje uma vergonhosa misria.
Comover o leitor pelo corao  coisa pouco menos nefanda que anavalh-lo pelas
costas. No realismo h tudo, tirante a verdade das lgrimas. Foliar com a desgraa,
arregaar em hilaridade burlesca as feies retradas pela agonia,  a escola novssima -
dizem eles que  novssima. Eu, h vinte e quatro anos, remedava essa novidade nos
romances de Voltaire. Escrevia a Filha do Arcediago e as Cenas da Foz. Onde isto vai!
Como as novidades de agora so antigas!
Hoje estou na verdade da dor humana. Parece-me impiedade vesti-la de fara e.13
p-la na praa, a escambo de risadas. O histrio no est perfeitamente acentuado no
escritor. Sendo a escola, alcunhada de realista, a perverso do natural, os sectrios desse
desvario j se vo gozando do direito indiscutvel de me refugarem da sua camaradagem
de novelistas. Escrevo  antiga, porque tento comover - dizem, e  verdade.
Os personagens, extintos no decurso destas trinta pginas, tinham de morrer, pelas
duas fatalidades, a da vida e a da histria. Um artista mais atento s proeminncias de
gosto pblico, rescindiria a preciso de ligar Maria Isabel Traga-malhas  sua trineta,
infausta personagem deste livro; eu, porm, que vi o bero dos meus personagens,
segui-os at  sepultura, com muita fadiga na averiguao de miudezas dignas das
insnias de unia academia, e de mim.
Est cerrada a Introduo, no momento em que a sepultura de Jorge Mendes
Nobre se fecha..14
A Caveira da Mrtir
I
Paulo Xavier e seu irmo, levados a Queluz,  presena do infante D. Francisco,
por Supico de Morais, acharam-se rodeados de grande parte de cortesos que
antepunham a libertina prodigalidade do duque de Beja  gravidade rgia de D. Joo V.
Paulo, que se licenciara em leis, foi logo despachado juiz de fora para Cho de Couce,
unia das vilas do infante; e Francisco Xavier, que se doutorara em teologia, como
agradasse  corte de D. Francisco pela singularidade do talento e da eloquncia, ficou na
comitiva do infante, e muito querido de Lopo Furtado de Mendona, conde do Rio
Grande. Este fidalgo, divorciado das bacanais de Queluz, teve artes de subtrair
Francisco Xavier ao influxo corruptor do irmo do rei, e particularmente  convivncia
de Pedro Supico de Morais, que os fidalgos festejavam em pblico e detestavam em
segredo, ciosos da privana do infante. Tamanho rancor ao amigo de Jorge Mendes
Nobre, e protector de seus filhos, rompeu, volvidos anos, na perfdia do homicdio a
punhal. Seria longa, mas estranha deste livro, a notcia da morte do autor dos
Apotegmas. Quem tiver curiosidade, veja a Nota. 3.
Os netos de ngela haviam renunciado aos apelidos do bisav e aos do pai. No
se assinavam Leites Pereiras, por causa da forca, nem Mendes Nobres por causa das
fogueiras do campo da L, nem ainda Gomes por sua me, pois que neste apelido
exsudava sangue de hebreus, muitas vezes derramado nas Inquisies de Lisboa,
Coimbra e vora.
Ora, os Xavieres de sua av materna eram sangue puro, sem glbulo de mouro ou
judeu.
Francisco, o doutor telogo, no se prendera a ordens que lhe desonestassem o
gozo dos anos da fora e das paixes. Sobejavam-lhe bens da fortuna. Eram ricos do seu
patrimnio, posto a lucro em Holanda. Paulo acrescera as rendas de seu irmo, cedendo-lhe
parte grande das suas. No seu lugar de juiz, e estado de solteiro, despendia-se
moderadamente, e folgava que Francisco, acamaradado com os nobres, os igualasse nas
pompas.
O doutor Francisco Xavier era esbelto moo. Aprimoravam-se nele os traos
peculiares de raa, aformoseados pela semelhana de seus bisavs Domingos Leite
Pereira e Maria Isabel. Muitas vezes, em menino, ouvira dizer a ngela, sua av "Como
esta criana me desenha as feies de meu pai, quando eu nem sequer penso nele!"
A moda e o corao sedento nortearam-no para o mosteiro de Odivelas. Ia no
rasto do rei e dos potentados do reino. A corrupo ali era fidalga e realenga. Soror
Paula, a trigueirinha, que ainda assim no pudera quebrar os feitios de D. Joo V com a
cigana Margarida do Monte, professara por aquele tempo, O rei disputou-a ao conde de
Vimoso, tirou-lha, e cedeu-lhe duas  escolha. Uma, a preferida, rejeitou o conde, e
deixou-se requebrar da candura de Francisco Xavier. Era D. Catarina Lusa de Miranda
e Castro, alcunhada a Muleirinha, e assim conhecida na roda dos condes, que tiniam as
esporas de ouro no ptio das erticas Bernardas.
Aquela D. Catarina era deveras e singularmente amada e linda, com vinte e um
anos. Mas Francisco Xavier era amado de duas. A outra passava dos trinta anos, tinha a
experincia que lhe cancerara e calejara o corao, a estratgia que do as cicatrizes.
Chamava-se D. Francisca Incia de Meio, por alcunha a Pimentinha. Quase todas eram
alcunhadas. Esta derivaram-lhe o apelido do temperamento clido, da irascibilidade no.15
amor, nos zelos, na petulncia com que fazia do hbito um domin do carnaval.
Qualquer das duas figurava sempre na Lista das pessoas que saiam condenadas... O
leitor moderno e descurioso de velharias de certo ignora o que eram estas Listas anuais.
Vou dar-lhe mii modelo, trasladando parte do rol manuscrito de 1716. Veja como era
divertido aquele tempo! Com tais elementos, a imprensa de hoje, se os tivesse, no
estagnaria neste mar morto de enxabidez em que a pusemos. A Lista era o peridico
satrico manuscrito, enviado ao mosteiro, em tantos exemplares quantas eram as cabeas
mais belas e doidas. Os redactores eram clandestinos; e por isso, o rei e os prceres de
maior tomo nem sempre eram respeitados, e bem assim as freiras que tinham c fora os
lacaios dos amantes armados do tagante vingador.
Era assim a
Lista das pessoas que saram condenadas por ordem de Sua Majestade e do Geral
de Alcobaa, pelas devassas secular e regular que tiraram no convento de Odivels o
corregedor do bairro dos Romulares e os visitadores da mesma religio. Primeira
abjurao de leve por culpas de presuno amante, alcovitice e outros erros.
N.os Idades Nomes Penas
1
2
3
4
5
38
42
41
30
22
O padre Pantaleo Rodrigues de S,
presbtero do hbito de S. Pedro, natural de
Odivelas, e na mesma parte morador, por dar
palestra a vrios freirticos em sua casa,
dando os escritos e recebendo respostas de
muitos tratamentos ilcitos.
O padre Roque Francisco,clrigo do hbito de
S. Pedro, por tratamento ilcito com certa
religiosa que vai na lista.
Francisco Xavier Curvo Semedo, natural de
Lisboa, onde  morador. Por presuno das
mesmas culpas.
Henrique Xavier de Pina Coutinho. O mesmo,
O doutor Francisco Xavier, natural de Lisboa,
e a morador, por se entreter em
correspondncias ilcitas com certas religiosas
que vo na lista 7 , etc.
Termo que assinou no Aljube
com promessa de no consentir
em casa semelhante gente, e 40
lguas degredado para fora da
corte.
Termo na mesma priso e 80
lguas para fora da corte.
Termo em casa do cor- regedor.
Termo em casa do cor- regedor.
Termo no Aljube e degredo.
SENHORAS
Abjurao de leve por culpas de amantes e outros erros
N.os Idades Nomes Penas
7 Seguem depois de Francisco Xavier, at ao n11, o padre Joaquim de Sant'Ana, religioso de S.
Jernimo, o cnego D. Lus da Cmara, outros cnegos Martinho de Melo e Manuel Jos de Miranda. So
relaxados e condenados a mordaa Manuel Jos de Abrantes, o dr. Antnio Veloso Henriques, D.
Loureno Vasques da Cunha, o conde de Vila Flor, Antnio Sanches de Noronha, o poeta de Odivelas,
Plcido de Oliveira, o m-lngua, etc. Diz l que o poeta Sanches vive de suas rendas na Pvoa de Santo
Adrio, atada que j muito resumidas "por despender bastantes odres de vinho com Mrcia Bela, que vai
na lista.".16
1
2
3
4
10
26
30
30
40
21
D. rsula Francisca de Morais, a Caramelo,
natural de Lisboa, religiosa em Odivelas, por
culpas de correspondncias ilcitas.
D. Francisca Incia de Melo, a Pimentinha,
pelas mesmas culpas.
D. Ana Joaquina Bandume, do reino de
Angola, pelas mesmas culpas.
D. Clara de Almeida e Vasconcelos, idem,
etc.
D. Catarina Lusa de Miranda e Castro, a
Muleirinha, por as mesmas culpas, com
agravo de outra que vai na lista.
Quinze dias de comer em terra e
6 meses privada das grades e
lugares pblicos.
O mesmo.
O mesmo.
O mesmo.
O mesmo.
So condenadas a crcere e longos jejuns D. Mariana Perptua, relaa 8 e pertinaz
e impertinente.
D. Leonor de Meneses, chamada a das Finezas, que tem 40 anos.
D. Catarina Isabel, a Caarola, que tem 18 anos.
D. Jacinta Micaela de Castro, a contratadora, 28 anos.
D. Teresa de Melo, a Vigairinha, 23 anos.
E por no guardar lealdade ao seu amante  condenada a um ms de crcere a sr
D. Maurcia Rangel de Macedo, que tem 82 anos, idade, naquele tempo, incompatvel
com menos de dois amantes, ao que parece.
Enfim, diz-nos a lista que a inspiradora do poeta Antnio Sanches de Noronha,
por amor de quem ele se desbaratava em odres de vinho, era D. Maurcia de Pina
Rebelo Freire, a quem D. Joo V chamara Mrcia bela.
A esto os nomes das mais celebradas formosuras de Odivelas.
Por onde se v que D. Catarina, a Muleirinha, era condenada por amores, com
agravo da outra; e Francisco Xavier, tambm arrolado na lista,  o nico incurso no
crime de correspondncia plural com certas religiosas.
Isto que parecera brinquedo c fora, l no interior do mosteiro ia lavrando em
guerra de intrigas, agoureira de funesto desenlace. Catarina de Castro era aborrecida das
freiras contemporneas de Francisca Melo na profisso. Os doze anos e a beleza que as
distanciavam abalizavam a arena da encarniada luta. As parciais da mais velha diziam
que a primazia era da Pimentinha por ter sido esta a que primeiro ouvira os requebros
do doutor Xavier. As poucas do bando da Muleirinha pleiteavam os direitos da sua
amiga, rindo e galhofando da outra, a quem chamavam velhota.  o costume. As
mulheres de vinte anos datam a velhice aos trinta, e dos quarenta em diante confundem
todas as senhoras na respeitabilidade de suas mes e avs.
Francisca Melo sabia que lhe ridicularizavam os serdios cimes; contorcia-se
beliscada na fibra mais sensvel; digeria a afronta, esperando a ocasio de a revessar em
fel  cara da rival.
Mas, verdadeiramente a culpa no era de Francisco Xavier. Se uma vez galanteara
Francisca, induzido pelos desonestos pensamentos que o apelido da freira e as
informaes lhe esporearam, este galanteio no o obrigara s austeras fidelidades
costumadas nos amores monsticos. O filho de Jorge Mendes estava ainda longe da
idade e do uso em que o paladar cansado carece de perrixis estimulantes. A mulher ideal
que o seu corao almejava devia ser modesta, pudibunda, arminho sem ndoa, meiga
8 Relapsa..17
sem arte, infantilmente assustadia, propensa s lgrimas, singela no dizer, ignorante
das grandes frases que tornam o amor pretexto de retrica; enfim, ele andava a cismar
com um composto de carne e esprito, que no era de modo algum aquela filha de S.
Bernardo, e esposa do Senhor, chamada ardentemente a Pimentinha.
Quando viu Catarina, alm de linda e serena como a inocncia, aureolada com a
distino de ter sido alguns dias requestada pelo monarca, adorou-a, posto que do seu
prospecto no constasse que o arminho dos seus sonhos fosse mais cndido, se o hlito
do rei o bafejasse. Adorou-a apesar disso, ou talvez por isso.
E pode ser que o despeito dela aferventasse a paixo. O rei deixou-a por causa de
Paula Perestrelo. O conde de Vimioso apareceu-lhe no lugar do rei, que lhe fazia merc
de uma das duas odaliscas. E Catarina, desprezando o substitudo na pessoa do
substituto, retemperou e aqueceu o corao no fogo do capricho, e entregou-o com
sincera e honesta dedicao a um moo que lhe falava tmido, que a contemplava
silencioso, e era de si gentilssimo, e, entre os mais fidalgos, o que parecia mestre na
cortesia, e superior na educao..18
II
Medrou o amor de Catarina de Castro na proporo do dio que lhe votava
Francisca Melo. Os amorios de Odivelas, uma vez por outra, eram mais escandalosos
que impuros. Paixes srias e elevadas  extrema consequncia do assalto ou da fuga
eram raras. Em mosteiros menos apontados  vingana do cu repetiam-se mais
frequentes as transgresses do voto virginal. Brincava-se ali, em Odivelas, com o amor.
Supurava muito abcesso de ternura em poesia m - verdadeira peste. Sarjados uns
tumores, bojavam outros. Em cada primavera, trinava pssaro novo no corao da freira,
e pululava no terreiro florescncia nova de condes, de cnegos, de poetas que, por via
de regra, eram os lnguas dos fidalgaos.
Amavam-se doidamente o doutor e a freira, porque eram felizes, zombando assim
das ironias mordazes e das intrigas impudentes da Pimentinha. Quem primeiramente
farejou intenes impuras nos colquios da grade, e propsitos impudicos, foi D.
Francisca, avisando a prelada, e citando-lhe o recente exemplo da fuga de soror
Laureana, abadessa de Sant'Ana, com um frade capucho.9
A prelada era discreta e conhecia a intrigante, j provada em outros enredos.
Ainda assim, admoestou a freira em termos severos. Catarina, respeitando-a, coibiu-se
de lhe perguntar se o seu perigo no seria maior amando o rei; e, se os conselhos que lhe
dava agora, no seriam mais oportunos quando D. Joo V, assim como a mandava ir 
grade, a podia mandar ir  sua alcova. A abadessa responderia a isto, pondo os olhos no
cu, e murmurando: "Bem sabeis, Senhor, que eu no posso obstar a estas poucas-vergonhas!"
Muito fizera ela, obrigando indirectamente o monarca a edificar casa para Paula
Perestrelo, de modo que ela se passasse do mosteiro para l. Porque at ento o rei
entrava pela portaria, demorava-se na cela da religiosa, e, ao sair, dava a mo a beijar 
prelada, que o seguia com as freiras mais autorizadas at  porta. Perguntou-lhes o rei
em uma dessas retiradas o que ia fazer.
* Vamos rogar a Deus, pela vida de vossa majestade - respondeu a monja com
solenidade.
Estremeceu D. Joo; entrou-se de escrpulos, e nunca mais se serviu daquela
porta. Mandou construir o passadio, e adornar com os sonhados esplendores de um
sulto os aposentos de Paula e de sua irm Maria da Luz. 10
As reflexes da abadessa apertaram mais os vnculos. A ideia da fuga, ao
princpio, deslumbrou-os em exultaes misturadas de terror; depois, a treva medonha
rarefez-se, e ficou apenas uma sombra que no resistia s torrentes luminosas daqueles
dois coraes alucinados. Pactuavam fugir para Amesterdo, e de l perlustrar o mundo,
gastar a vida e o ouro, envelhecer em delcias. Catarina iria para Montemor, onde tinha
me, por motivo, de doena. A fuga seria de l. Estava decidido.
No entanto Francisco Xavier, que amava e respeitava seu irmo Paulo, revelou-lhe
o segredo. Paulo foi a Lisboa pressurosamente, e com boas razes, com splicas, com
lgrimas e at com desesperadas ameaas conseguiu demover o irmo.
* No fujas! - disse ele, quando Francisco parecia vacilante. - No te percas,
perdendo essa pobre menina! Ela que v para Montemor, e vai tu tambm com o recato
que pode fazer durar o encanto do amor. No a faas absolutamente tua, se a queres
amar, no sujeites  tua dependncia do po e do vestido, se queres que ela te ame. Trs
meses de amor te diro o que tu serias aos seis, e os fastios que te esperam aos doze.
9 Nota 4.
10 Nota 5..19
Estas e outras melhores razes, que denotavam experincia no juiz de fora,
fermentavam lentamente no nimo do gal. Enfim, vieram a um acordo razovel: se
Francisco Xavier, seis meses depois da sada da freira, carecesse de expatriar-se para ser
feliz, Paulo coadjuvaria a fuga, e liberalizaria a seu irmo dobrados meios para l fora
aliar  sua fortuna de amante as opulncias de rico.
No havia preciso de comunicar  freira estas clusulas desairosas. Francisco
Xavier, de mais a mais, tencionava provar ao irmo que, sendo eterno o seu amor, a
fuga, a posse infinita do objecto amado, era necessria.
A licena da sada foi solicitada em segredo. O dom abade de Alcobaa, Fr.
Bernardo de Castelo Branco, no costumava devassar dos intuitos das religiosas que
requeriam ares ptrios. Dizia ele que os ares de Odivelas eram pestilenciais como os do
serralho de Ibrame. Se alguma queria sair, dizia ele: " porque quer ser mulher
honesta."
Quando se anunciou no convento a sada da Muleirinha, D. Francisca Melo
esvurmou as cleras que espumavam no vocabulrio da ral. Disse de Catarina
impudiccias que, repartidas pela comunidade, ainda haveria excedente de injria para
todas.
Saiu D. Catarina para Montemor-o-Velho em companhia de sua me e de seu
primo Francisco de Pina e Meio, o poeta e fecundssimo prosista, que hoje ningum
digere. A notcia deste parente de Catarina seria despropositada aqui, se ao diante no
adviessem infortnios procedentes dessa consanguinidade. A me da religiosa era da
famlia dos Meios e Pinas, suspeitos hebreus que deram muita carne para as festas da
Inquisio de Coimbra durante o sculo XVII, como vamos recordar de passagem.
Quando Catarina chegou a casa fazia-se na terra uma fnebre cerimnia. Os ossos
de sua tia-av D. Margarida de Meio, dezassete anos presa nos crceres do Santo Ofcio
em Coimbra, e a falecida, eram exumados da vala dos condenados e sepultos no
carneiro da famlia, no mosteiro dos Anjos. A Inquisio proclamou-a crist-velha no
acto particular que se celebrou em 13 de Maro de 1683; mas j estava morta, depois de
dezassete anos de trevas, nudez, fome e torturas. Esta senhora, quando foi presa, era
casada com Manuel da Fonseca Pinto, da casa de Balsemo. O marido morreu de dor, e
ela expirou sem saber que era viva.
Tangiam os sinos a finados, quando Catarina entrou em Montemor. Soava-lhe no
corao aquela toada plangente. A alegria com que sara do mosteiro agourentavam-lha
agora sinistros vaticnios. Seu primo, o festivo autor de Epitalmios e Espelhos
nupciais, tambm ia triste, meditando talvez nas longas agonias de seus ascendentes. E
tinha que meditar. Se o leitor est de pachorra, meditemos tambm.
Em 17 de Setembro de 1598 morreu lvaro de Pina Cardoso, fidalgo da casa del-rei,
e morador em Montemor. Este homem havia casado com Andresa de Andrade,
crist-nova. Deixou quatro filhos. O primognito, Rui de Pina, foi queimado no auto-de-f
de Coimbra, em 4 de Maio de 1623. No mesmo auto foi queimada sua mulher Lusa
Comes, de 59 anos. Paulo de Pina, o segundo filho, foi queimado no mesmo auto.
Salvou-se sua mulher e tambm o sogro, o doutor Manuel Rodrigues Navarro, lente da
Universidade. Amaro de Pina, terceiro filho, de 44 anos, foi penitenciado com cinco
anos de gals. Sebastiana de Pina, freira no mosteiro de Campos, foi presa e morreu
recolhida nas convertidas de Coimbra. No auto de 1625 saram penitenciados dois
sacerdotes da mesma famlia, que voluntariamente se acusaram ao Santo Ofcio, com o
fim de enredarem no judasmo seu cunhado Bento da Cunha Perestrelo, que morava em
Coimbra na sua casa de Sub-Ripas que os fabulistas chamam o "palcio de Maria
Teles." Estes padres - diz um genealogista coevo - sobre pssimos homens foram
muito bbados. Acreditamos. A Inquisio ouviu-os, e mandou-os em paz, depois de.20
lhes vestir e despir o hbito penitencial. Um dos padres, Baltasar de Pina, querendo
entrar no convento da sua ordem franciscana, foi expulso pelos frades com pragas e
paus e assobios.
O ltimo varo representante dos Pinas de Montemor-o-Velho era o poeta
Francisco Caetano de Pina e Meio, que estas memrias tristes ia cogitando, ao lado da
melanclica prima. Se ele antevira ento o quinho de desventuras que guardava o
destino! Todos os seus bigrafos, Barbosa, Costa e Silva e o sr. Inocncio
desconheceram os transes esquisitos desta existncia to luxuriante de versalhada e
prosa importuna. Casara ele com uma D. Maria Teresa Coelho de Faria, de Coimbra,
contra vontade do pai, que vendeu e destruiu quantos bens possua para empobrecer o
filho. O poeta, privado de meios, deixou a mulher, e passou para Castela. A, com
reverendas falsas, fez-se clrigo. Voltando a Portugal, foi preso em Coimbra. Sua
mulher, que ainda vivia, meteu-se freira em Santa Iria de Tomar. Restitudo ao uso das
musas, recolheu-se a Montemor, onde escreveu muito como penitncia, sem edificao
nem proveito da posteridade. E, morrendo em 1767, extinguiu-se esta raa de Pinas que
em letras e armas lustraram grandemente desde Ferno de Pina, cavaleiro de Afonso IV.
Com toda a certeza, a freira cisterciense no pensava nos seus preclaros avoengos,
nem sabia que um desses estroncara mouros, e outro escrevera crnicas de ris. Se
contemplava o Sol, que se atofava em froixis de arminho e prpura, no era isso a
poesia do crepsculo, como seu primo cuidava, recitando-lhe sonetos ao rubente Febo e
 casta Latona que surgia no horizonte fronteiro com o seu toucado de ingentes rubis. O
que ela queria era a noite, a noite alta, e muito escura, o cantar do galo s horas mortas;
porque se sentia desfalecer de saudade, de tristeza, de mrbidos pressentimentos, e
queria chorar nos braos de Francisco Xavier. So assim quase todos os introitos da
falsa felicidade. Ao longe a miragem. Quando nos separam dois passos do ansiado
gozo, cava-se um abismo. A fatalidade abre-nos os braos, e transporta-nos. Depois, a
voragem alarga-se, cinge-nos, corta-nos as avenidas. No h fugir-lhe.
No era ainda isto o que ela cismava, quando Francisco Xavier, passando ao
longo das paredes negras da casa solarenga dos Pinas, se cingiu com uma porta baixa de
arco, na base de uma torre ameiada, e esperou.
A porta abriu-se com tanta subtileza que mais se ouvia a respirao arquejante da
freira que o ringir dos gonzos..21
III
Francisco Xavier residia em Coimbra. Ao descair do Sol, cavalgava o seu ginete;
e, galopando as quatro lguas que o separavam de Montemor, pela calada da noite, dava
o cavalo ao lacaio, e sumia-se na porta arqueada da casa manuelina. Ao repontar da
aurora, voltava a Coimbra e emboscava-se em uns arvoredos da Arregaa a cismar na
sua ventura, ou talvez a dormir, - o que  mais natural: sejamos um pouquinho
realistas.
Quer poetasse, quer dormisse, a poesia ou sonho, volvidos cinco meses,
inquietavam-no, confrangiam-lhe o nimo com mordentes desgostos. No era o fastio.
A felicidade serena, quieta e sem reveses  que descamba no tdio. Se ensanguentamos
os dedos nos espinhos das rosas, ento nos  mais cara, mais preciosa a flor colhida.
A sua inquietao davam-lha as incessantes lstimas de Catarina, logo que no seio
lhe avultara o querido e implacvel testemunho do seu delito. Ele queria agora com
mais forte causa, mas menos entusiasta, realizar o plano da fuga; mas a monja de Cister,
desde os primeiros sinais da maternidade, alquebrada por estranhos terrores, caiu na
cama, sem energia, sem arbtrio, desafogando as enchentes de amargura no corao de
sua me, louca de dor e vergonha. Depois, quando readquiriu vigor morai, era tarde para
fugir. Sua me perdoara-lhe com a condio de que ela no faria pblica a desonra de
ambas, fugindo com o amante. E o amante condescendeu prudentemente. Acautelou-se
Catarina de vistas suspeitosas; a me encerrou-se com ela na sua quinta de Verride, e
permitiu que Francisco Xavier deliberasse o destino da criana.
O juiz de fora de Cho de Couce, consultado no grande aperto do irmo,
combateu o intento da fugida para a Holanda, alegando que uma parvoce no
remediava a outra. Encarregou-se de receber a criana, e mand-la criar. Acrescentou
que, se a criana, no futuro, no devesse conhecer seu pai, ficaria sendo filha de seu tio;
e concluiu, sorrindo:
* No te d cuidado o filho. Cede-mo a mim, visto que tens a dita de ser fecundo,
e  de esperar que continues a dar-me provas de que possua o dom e a graa dos
patriarcas abenoados. Os filhos que sobrevierem i-los-emos repartindo entre ns. Peo-te,
porm, que mudes de rumo quanto s mes da tua futura prole. As freiras acirram
bastantemente o pecado, tm amavios e feitiarias de arte diablica; mas no servem
para mes. Persuadem-se que a esterilidade  uma prerrogativa dos seus amores
platnicos; mas, se se esquecem de Plato, por se lembrarem de mais de Epicuro,
apavoram-se, como Catarina, quando se acham o mais corporalmente que  possvel
mulheres. etc.
E ficaram pactuados. Assim que a criana nascesse, perto de Verride estaria
pessoa confidente de Paulo Xavier para receb-la. Seria criada em casa de seu tio, o
qual deixar-se-ia pacientemente caluniar de pai, visto que, depois de reiterados esforos,
no lograra a invejada felicidade de ter um filho.
Catarina de Castro aceitou resignadamente a conveno; mas repeliu o alvitre de
sua me, que lhe instava pela entrada em Odivelas. Matar-se-ia, se a violncia da me e
o desamor do amante a quisessem repor entre mulheres odiosas, agora que j no tinha
corao que desse a Deus, ou que desbaratasse em novos afectos. Francisco Xavier
mitigava estes acessos de rebelde desesperao, prometendo-lhe resgat-la para todo
sempre da clausura; mas nestas promessas no havia a intimativa da verdade nem a
veemncia do amor.
Nasceu uma menina em uma noite de Outubro de 1714.  volta do ermo e
desconversvel casal de Verride rangiam as rvores, varejadas por peges de vento. Se.22
houve gritos, abafou-os o retroar da trovoada. Francisco Xavier viu o rosto de sua filha
 luz sulfrea de um relmpago, quando a passava s mos de uma mulher enviada por
Paulo. Fitou-a na escurido alguns segundos, esperando o fosforear doutro relmpago.
Sentiu-a fria, e assustou-se com os vagidos. Bafejou-lhe calor s faces, e dep-la no seio
da mulher, que se agasalhou em unia casa da quinta, onde Francisco Xavier passara os
ltimos dias escondido.
A criana, no dia seguinte, foi para Cho de Couce, e o pai voltou para Coimbra,
carecido de repouso, de solido e silncio; porque se sentia cansado, aborrecido de
lances tristes, e saudoso dos desprendimentos da sua vida doutro tempo.
Catarina, entretanto, dizia-lhe que o ltimo prazo de licena estava a terminar; que
a me no cessava de lhe pedir que voltasse para o convento; enfim, que uma sua amiga
leal de Odivelas lhe escrevera assustada por saber que Francisca Melo, e outras, alguma
maldade teciam contra ela, fosse o que fosse, porque, l no convento, andavam uns
zuns-zuns a dizerem que ela era de raa judia.
Nem Catarina nem Francisco Xavier deram valor ao dito de crist-nova; mas a
me alvoroou-se e, plida de susto, referiu  filha a histria dos seus ascendentes.
Traspassada de medo, a freira acelerou os preparativos da fuga, dispondo-se a procurar,
sem antecipado aviso, o amante em Coimbra. J a me propriamente a induzia a sair do
reino e censurava a frouxa diligncia do perdidor de sua filha. Por sua parte, Francisco
Xavier, colhendo em Coimbra com autorizados informadores, nos arquivos do Santo
Ofcio, notcias da famlia Pinas de Montemor, soube os nomes de vinte e tantos rus
daquela famlia, uns queimados, outros nas gals, e muitos penitenciados com hbito
perptuo. Atemorizou-se como quem era filho de Jorge Mendes e sobrinho do bacharel
Afonso Nobre, queimado em 1664. Foi ter com o irmo. Referiu-lhe aflitivamente os
seus receios. Paulo no sorriu dos sustos do irmo nem dissimulou os prprios; antes
pelo contrrio o incitou a partirem sem demora.
Voltou Francisco Xavier a Coimbra. Partiu na mesma noite para Verride, com o
propsito de se abalarem dali ao Porto, e negociarem a passagem por mar. A meio
caminho encontrou um campons que o chamou pelo seu nome. Era o quinteiro do casal
de Verride que ia a Coimbra avisar Francisco Xavier de que suas amas tinham sido
naquele (lia presas por dois familiares do Santo Ofcio, e conduzidas a Montemor.
A estupefaco nublou-lhe o juzo e a inteligncia clara da sua situao.
Seguiram-se quinze minutos de agonia que nenhum homem os trocara pelo amor e pelas
virginais carcias da formosa freira.
* Eu fui infame em no ter fugido com a desgraada! - dizia ele de si para
consigo, exacerbando a dor da saudade com o oprbrio de haver mentido  vtima que
pusera nas mos dos inquisidores..23
IV
O doutor Xavier lanou-se nos braos do irmo. Lastimava-se perdido. A cada
rumor nas escadas do juiz espavoriam-se-lhe os olhos contra a porta. Todo o homem
inocente e inofensivo se lhe afigurava esbirro do Santo Ofcio.
Aconselhado prudentemente, partiu aforrado para Lisboa, onde tinha um sincero
amigo, o conde de Rio Grande. O conde escondeu-o em sua casa, e indagou os intuitos
da Inquisio de Coimbra no Conselho Geral. Soube que a freira e sua me respondiam
por culpas de f e impureza de sangue; que a denncia partira de uma casa religiosa; que
Francisco Xavier no fora implicado na denncia. S um fidalgo to poderoso, e
aparentado com o inquisidor-geral, poderia arrancar tal segredo da secretaria do
tribunal.
Qual houvesse de ser a sentena das encarceradas, isso no estava na astcia
humana calcul-lo. Favorec-las, empenhar na absolvio os validos potentados da
corte,  o mais que o conde do Rio podia vencer.
Mas as semanas e os meses arrastavam-se lentos sem que Francisco Xavier tivesse
novas de Catarina. O protector podia apenas asseverar-lhe que elas viviam aferrolhadas
no seu ergstulo de quinze palmos de comprimento e doze de largura, com a escassa luz
de uma fresta do tamanho da mo travessa e trs palmos de altura, mas to elevada que
as presas s de p recebiam no rosto claridade.  noite, davam-lhes uma candeia. A
moblia era um estrado que apodrecia logo na humidade do cho, e umas vasilhas de
barro 11 .
Amolgou-lhe o dbil nimo uma tristeza sem intercadncias de esperana. Tudo
negro, e o passado irreparvel! Convenceu-se de que a pobre menina e a santa me
pereceriam antes do julgamento. Acusava-se de matador da formosa criatura, cujo amor
ele no soubera avaliar. Amaldioava-se por haver vilmente faltado  palavra que dera
de fugir para Holanda. Era desgraadssimo - e devia s-lo.
Quando a razo ia apagar-se-lhe, alumiou-o o claro da f, com todas as suas
fulguraes sinistras, reverberadas das penas do fogo eterno. No viu ponto intermdio
entre a vida asctica e o suicdio. Pensava nas duas sadas da sua angstia, ao mesmo
tempo. Matar-se de um golpe e cair no inferno, ou dilacerar-se devagar, fibra a fibra, e
ganhar a graa de Deus deleitando a divina justia com o espectculo da carnificina
prpria.
Acudiram-lhe  demncia o conde e o irmo, pedindo-lhe coragem viril em nome
da filha. Ele respondia que a criancinha era a expresso providencial das cleras
divinas.
Naquele ano, falava-se muito da converso de Baltasar Casqueiro, um homem de
humilde sorte, valente facinoroso, espancador professo, que pouco antes pertencera ao
bando do arruador nocturno Sebastio de Carvalho, que entrou na imortalidade com o
ttulo de marqus de Pombal 12 . Casqueiro, que ento contava trinta anos, embrenhara-se
em fraguedos asprrimos nas vizinhanas de vora, chamados Monte furado ou
Covas infernais. Havia ali um ncleo de conversos, atrados pelas rudes penitncias de
um caldeireiro de Lisboa. Daquele alfobre de ermites saiu, volvidos anos, Baltasar
Casqueiro, o fundador do convento do Senhor Jesus da Boa-Morte, de monges
descalos de S. Paulo, primeiro eremita. Lisboa ajoelhava-lhe  sada dos templos. Fr.
Baltasar da Encarnao se chamava ele, e no cessava de dizer quando escrevia
untuosos sermes que em sua mo assentava melhor a sovela que a pena. Havia sido
11 Veja Sumrio de Vria Histria, por Ribeiro Guimares, T. IV, pg. 94 e seg.
12 Veja Histria do reinado de el-rei D. Jos I, pelo sr. Simo Jos da Luz Soriano, T. I, pgs. 175 e 176..24
sapateiro, ou artista confeccionador de calado, como diz na tabuleta um seu actual
colega do Porto, menos santo, e infinitamente mais tolo. J no h sapateiros... nem
santos daquela massa 13 .
O doutor Francisco Xavier queria ir para as Covas infernais. No havia razes e
rogos que o demovessem quando o seu condiscpulo e amigo, o irmo do marqus de
Gouveia, D. Gaspar de Moscoso e Silva, reitor da Universidade de Coimbra, vestiu o
hbito humilde da ordem dos menores observantes de S. Francisco de Assis, ou
missionrios apostlicos do Varatojo. Assim que lhe chegou a estrondosa nova do
sucesso, Francisco Xavier foi lanar-se aos ps do frade varatojano, rogando-lhe que o
levasse consigo. Fr. Gaspar da Encarnao, reconhecendo o condiscpulo, cujos
devaneios por Odivelas deplorara no mago do seu peito, levantou-o nos braos; e
orvalhado de serficas lgrimas, entoou vrios versculos da Bblia muito apropositados.
Choravam ambos copiosamente.
O doutor Xavier, passados dois meses, era frei Francisco da Luz, macerado,
envelhecido, estpido, fantico, bestial  fora de se degenerar, de se amputar, de se
infamar de assassino das duas encarceradas. O nico acto louvvel da sua mortificao
claustral era celebrar missa quotidiana por alma de Catarina, com licena do seu director
espiritual, posto que ningum lhe dissesse que Catarina era morta. Na filha no falava,
quando respondia s cartas do irmo. Verdade  que Paulo, falando da menina, escrevia
sempre: "A minha Antoninha, a minha querida criana, a minha doce filha, o meu
pequenino anjo, etc.".
Por onde se depreende que a filha de Catarina fora baptizada com o nome de
Antnia, e vivia na companhia de... seu pai. Pai  que diziam todos, e a ama que a
criava, ao fim de dezoito meses, conseguiu que a menina articulasse a palavra pap.
Deixemos o frade, e vamos  Inquisio de Coimbra.
As duas presas, passados os primeiros meses, sentiram a influncia das valiosas
proteces. O conde do Rio Grande movera  comiserao da religiosa o real corao
que pulsara por ela uns dias. D. Joo V foi, tambm, rogado por D. Paula a favor de
Catarina. Esta generosidade da amante do rei denotava a compaixo pela mulher que D.
Joo lhe sacrificara. Duas tinham sido as vtimas imoladas a Paula. Catarina resignara-se
e continuara boas aparncias de amizade com a ditosa; porm, Francisca Melo no s
cortara relaes, mas at a tratava de mulatinha por ser morena (como era justo que o
Salomo portugus tivesse uma - Nigra sum, etc.). Bastava isso para que Paula
protegesse a inimiga de Francisca.
Como quer que fosse, as duas senhoras, acusadas de crists-novas, depois de
removidas para uma sala do edifcio, com liberdade de mudarem as suas roupas e
escolherem seus alimentos, foram confiadas  doutrinao de um dominicano, ancio
bondoso que lhes explicava as estampas de uma bblia francesa, e lhes traduzia e
comentava La Histria de Santo Domingo pelo mestre Hernando de Castillo. Contava-lhes
os casos mirficos de converses que estrondeavam no mundo, e particularmente
em Portugal: por exemplo, a converso do faanhoso Baltasar Casqueiro, a entrada de
D. Gaspar Moscoso no Varatojo, e tambm a converso que levara ao mesmo convento
o rico e mundanal doutor Francisco Xavier.
Catarina com febril transporte perguntou-lhe se esse doutor era um que...
Atalhou-a o padre, dizendo:
* Era um que vs, soror Catarina, haveis de conhecer h dois anos entre os
regales que o inimigo do gnero humano deputava ao vosso convento de Odivelas.
Esse , irm, que no outro.
13 Veja "Vida e ltimas aces e morte do m. r. p. Baltasar da Encarnao, missionrio apostlico e
fundador dos monges do Senhor Jesus da Boa-morte". Lisboa, 1760..25
- E est frade?! - exclamou Catarina, sem atentar na me que lhe fazia trejeitos
aflitos.
* E frade varatojano - respondeu o padre atribuindo a veemncia da freira ao assombro de tamanha maravilha.
Desataram-se as lgrimas dos olhos de Catarina e nem assim respirou da sua
grande opresso. Soluava sufocando os gritos; contorcia os braos, e enclavinhava as
mos, erguendo-as para a cruz. E o dominicano estava espantado ou desconfiado de tais
demasias, at que a me dissimulou aquelas posturas trgicas, explicando que sua filha,
quando ouvia passagens que a comovessem, tinha semelhantes ataques...
* Ento  nervos... - assentiu o padre de boa-f.  molstia a que as freiras so
muito atreitas. Mas algumas conheo eu em Celas, que sofrem disso, e j lhes receitei
uma boa disciplina ao deitar, outra ao erguer, e muitos jejuns; porque tenho observado,
senhoras minhas, que as mulheres do campo, que trabalham e suam, no tm desses
ataques... Eu acho bom e saudvel para a alma que uma pessoa se edifique ao ouvir
contar casos maravilhosos de converses. Bom sinal  esse de predestinao... Mas cada
coisa tem seu lugar; e a sua aflio, sr D. Catarina,  extraordinria... Sempre me quer
parecer que a irm Catarina, ouvindo falar dos pecadores e pecadoras de Odivelas, teve
um ruim demnio, que lhe trouxe uma saudade e lha ps sobre o corao como brasa
viva... E mister apag-la...
* Est enganado, senhor... - atalhou Catarina estancando as lgrimas.
* Debaixo destas abbadas mentir  mentir a Deus, que no pode ser enganado -
admoestou o qualificador do Santo Ofcio. - A profana Odivelas explica a Santa
Inquisio... Creio que me percebe; e, se no percebe, no posso esclarec-la. A sua
priso, senhora,  uma vingana, e ainda bem que a culpa  de fragilidade e no de f.
Quando voltar ao seu convento, confunda as suas inimigas com exemplos de virtude... E
se esse desvairado doutor Xavier, que Deus chamou ao seu aprisco, foi Parte nos
desvarios de soror Catarina, pea ao Senhor que lhe alumie o corao com as luzes da
mesma graa.
E, pondo-lhe brandamente a mo no ombro, concluiu:
* Os maus exemplos... os maus exemplos!... Madre Paula dar no inferno os
formidveis gritos da alma que arrastou outras, e o ceptro que tudo pode ser vara de
eterno fogo e eterna justia nas mos do mau prncipe....26
V
Catarina e sua me saram absoltas em auto particular. Nem levemente lhes
infligiram penitncias; que as testemunhas inquiridas em Odivelas e Montemor
aliviavam da menor suspeita de judasmo a viva e a filha.
Assim que ao mosteiro chegou a nova de que a Muleirinha ia ser reintegrada na
sua cela, soror Paula deu a perceber que pisara o orgulho das inimigas de Catarina. A
maioria da comunidade odiava a amante do rei - umas freiras por virtude, outras por
inveja do vcio, e algumas, o restante delas, porque a concubina de D. Joo V se
afrontava petulante com as mais fidalgas. Logo, pois, que Paula se manifestou arrogante
protectora da Muleirinha, at as indiferentes  rival de Francisca Melo se confederaram
contra a protegida. As pouqussimas amigas da caluniada crist-nova alhearam-se do
bando hostil; mas no se encostaram a Paula, que as repelia todas, como quem desejava
lutar sozinha, e estender uma bofetada de mo real a todas as caras de suas irms em S.
Bernardo e co-esposas de Jesus.
Imagine-se os conluios, o rebolio, o redemoinho de duzentas e setenta e oito
freiras,  mistura com mais duzentas e tantas fmeas entre seculares e criadas! Havia
conventculos particulares sujeitos s deliberaes do centro, presidido pela Pimentinha.
Discutiam o mais peremptrio expediente a seguir logo que Catarina de Castro
reentrasse no mosteiro. A prelada, por conselho e indstria dos frades cistercienses,
procuradores e directores do rebanho, fez uma alocuo s mais mexedias,
admoestando-as a submeterem-se s ordens de el-rei e do dom abade de Alcobaa, de
quem eram subordinadas. Patearam-na com gritos e com os saltos dos sapatos em
desaforada rebelio. A abadessa no ousou impor penas, porque no tinha fora, nem
queria pedi-la ao rei para no assoprar a soberbia de soror Paula Perestrelo.
Os zngos daquele colmeal de abelhas celestiais, os fidalgos e cnegos atiavam
a revolta a fim de prolongarem a farsa e conduzi-la  catstrofe das gargalhadas. O voto
comum dos desfrutadores conveio em que as freiras sassem todas encorporadas, logo
que a crist-nova regressasse. Parece que a trama era hav-las c fora muito  mo, e
dispersas, como fato de cabrinhas novas por giestais em flor, quando lhes abrem os
cancelos do curral. E, como se no bastasse a zombaria com Deus e com as suas doidas
esposas, zombavam tambm do rei, induzindo-as a que se encaminhassem
processionalmente em assuada ao pao da Ribeira a pedir providncias contra o prprio
soberano e contra a omnipotncia de soror Paula. O entrincheirarem-se no convento,
trancarem as portas e resistirem ao ingresso da freira no era caso original nem
esperanoso de bom sucesso; alm de que, os mal-intencionados alvitristas perdiam o
lano de pescar nas guas turvas aquela pesca decerto menos estranha que a estranha
caa de Cames.
No entanto, Paula e sua irm, com as suas poucas faccionrias, riam, mofavam e
esperavam em jovial sobressalto a reconduo da Muleirinha.
Um dia, pouco depois de nascido o Sol, quando se no esperava, chegou  portaria
de Odivelas D. Catarina de Castro em sege com sua me, e dois monges de S. Bernardo
em outra sege. A prelada recebeu a nova que lhe levou a porteira juntamente com a
ordem do dom abade-geral, em a qual se inclua a sentena absolutria da freira,
acusada falsa e protervamente por denunciantes contra quem as leis civis iam proceder,
se o Santo Ofcio fosse, contra os usos e direitos, menos executivo.
A fim de no amotinar a comunidade, que ainda ressonava ensopada nas molezas
da manh, a prelada foi silenciosamente  portaria, recebeu com boa sombra a freira, e
ordenou que se recolhesse a me  hospedaria do mosteiro..27
Catarina entrou na cela, e fechou-se para chorar e gemer, abafando os gritos com
o leno premido na boca. Mas, s vezes, a pontada no corao era to lancinante,
agonizavam-na to insofridas aflies, que os soluos estalavam-lhe agudssimos da
violenta represa.
Escutaram-na as religiosas mais convizinhas. Saram assustadas ao dormitrio.
Disseram, com supersticioso assombro, que se ouviam gritos na cela de Catarina de
Castro. A abadessa deu as indispensveis explicaes, pedindo prudncia e juzo.
Mostrou a ordem do prelado de Alcobaa, e, lendo as frases respectivas  falsa
denncia, acrescentou:
* Deus queira que as inimigas de Catarina de Castro no tenham maiores trabalhos...
Serpenteou o boato por aquele interior labirinto do mosteiro. Batia-se s portas,
resmoneava-se, saiam grupos de umas celas, dispersavam-se entrando em outras, O
rudo, ao principio receoso, era j tumulto, uma gralheada de vozes argentinas, em que
realavam as incitaes de Francisca Melo, aplaudidas por palmas e um bater de taco
fremente de clera. Aquelas senhoras, assanhadas como colarejas, eram a nata da
nobreza lusitana.
Paula sabia pontualmente a hora da entrada da freira. Enviou-lhe os seus
cumprimentos e as suas melhores criadas. Este passo encruou a fria das outras.
Vociferaram-se palavras obscenas, aprendidas na vida prtica e nas poesias fesceninas
de Toms Pinto Brando, poeta muito de casa. Aplicavam a soror Paula uns eptetos que
vexariam a combora de um lacaio. Catarina ouvia o tropel nos dormitrios, a vozearia
que toava pelas abbadas, e tinha medo. Paula e Maria da Luz desceram dos seus
aposentos, entraram  cela da religiosa e levaram-na consigo aterrada em turvaes de
louca.
Exacerbaes novas nas insurgentes, e a deliberao definitiva de sarem de cruz
alada. A abadessa mandou entrar os frades, que arengaram debalde. Ningum os
atendeu, posto que trovejassem; mas no abriram o saco das excomunhes, porque, at
certo ponto, os filhos de S. Bernardo gostavam de ver o rei e a sua freira enredados no
escndalo.
As freiras tumulturias eram cento e noventa. Ficaram as provectas, as entrevadas,
as neutrais, que eram poucas, e as parciais de Paula, que eram menos.
Quando a torrente golfou da portaria e espadanou no amplo trio para se formar
em fileira, e marchar no couce da cruz, saiu para o pao um cavaleiro  espora fita com
carta de Paula para o rei.
Momentos depois, abalava de Lisboa um troo de cavalaria com o juiz do crime
do bairro da Mouraria, Caetano Jos da Silva Sotomaior.
As revoltosas, quando chegaram a pelo Lumiar, avistaram umas nuvens de poeira
e ouviram tropear de cavalos.
A condessa do Rio Grande, prevenida pelo marido a quem - posto que j passasse
dos cinquenta anos, doa o desastre de uma das mais galantes rebeldes - no lano em
que a tropa se avistou, convidou-as a entrar no seu palcio. Aceitaram, espavoridas do
esquadro e da carranca do corregedor, que as intimou a retrocederem. Responderam
tumultuosamente que no voltariam a sua casa enquanto l estivesse uma judia sada da
Inquisio. O Cames do Rossio, que tinha graas e farolices em primeira mo,
chasqueou bastante com as bernardas e, despedindo-se, disse que a sua vontade era
agarrar uma de cada vez, e lev-la ao santo redil, pelo caminho mais torto; porm, que o
no fazia sem ordem de sua majestade, que estava em primeiro lugar, e no gostava de
fazenda em segunda mo.
A condessa empregou todos os recursos da persuaso para as regressar ao.28
convento. Era enfurec-las mais, depois que viram a tropa, e os aspectos marotamente
petulantes dos soldados, e os sorrisos amoriscados dos sargentos que lhes piscavam os
olhos como o fariam a mulatas de regatia. Confiavam no patrocnio dos parentes; mas
nenhum fidalgo se aventurou a ferir o rei na pessoa de soror Paula, desde que a
individualidade da Muleirinha se confundiu no capricho ostentivo da amante de D. Joo
V. Concorreu ao Lumiar, durante dois dias, a parentela daquelas senhoras com o
frustrado propsito de as repor no mosteiro. Por fim, o rei, conformando-se ao parecer
do secretrio de estado, mandou ao magistrado Cunha Sotomaior que,  frente de uma
boa esquadra de polcia e alguma tropa, compelisse, por jeito ou fora, as freiras
desgarradas a entrarem em numerosos coches da casa real, e depois as levasse ao
convento.
O Cames do Rossio j no logrou ser admitido a parlamentar com as bravas
monjas. Assim que as atalaias lhes deram sinal de se avistar o exrcito, acastelaram-se
na parte mais defensvel do palcio. Algumas subiram ao terrao da casa, cujo parapeito
era formado de adobes desconjuntados pelo tempo, e circuitado de ameias, com suas
torrinhas ou miradouros angulares. As que galgaram quela espcie de adarves eram as
mais mal condicionadas, e mais virilmente apostadas a triunfar ou morrer.
Assim, pois, que o ministro, frustrados os expedientes corteses, deu voz de escala
e arrombamento aos quadrilheiros e soldados, do alto do terrao granizou sobre os
assaltantes uma chuva de tijolos  mistura com pedaos de ameias aludas. Ao mesmo
tempo, do segundo andar do palcio irrompiam sobre os beleguins, fulos de marciais
raivas, no s as alfaias de madeira, mas at as vasilhas de barro, mais secretas e menos
olorosas, das alcovas. A gritaria das assaltadas seria a imagem do inferno, se elas, to
lindas, no figurassem os anjos bons nos luciferinos prlios cantados por Milton.
Os sitiadores, favorecidos talvez por traio da prpria dona de casa - vtima
principal do conflito - como o boticrio de Nicolau Tolentino, entraram no palcio,
acorooados pelo juiz. As freiras ainda quiseram lutar peito a peito; mas vedava-lho o
pudor e o hbito. No foram agarradas como dizem alguns historiadores: renderam-se
inclumes, intactas e puras como eram. Seria inverosmil agarrao essa; a menos que
os aguazis no tivessem os braos de Briareu. Eles eram menos de quarenta, e elas
pouco menos de duzentas.
Quando os coches pararam no terreiro do convento, ouviu-se uma gargalhada
estrdula no segundo andar do palacete contguo ao mosteiro.
Era soror Paula Perestrelo. Estava vingada. Ento soube quanto era bom ser
amante de um monarca poderoso, devasso e parvoeiro 14 .
14 Nota 6..29
VI
A notcia destes acontecimentos, relatados pelo conde do Rio Grande, chegou ao
cubculo do missionrio apostlico Fr. Francisco Xavier, ou da Luz, como ele se
assinava.
Os tresvarios ultra-piedosos da sua razo propendiam a crise salutar, desde que o
conde lhe asseverou que D. Catarina e sua me eram mais hspedas que presas na
Inquisio, e que o patrocnio real, solicitado por soror Paula, era segura cauo da
absolvio das senhoras comparativamente felizes. A pouco e pouco se adelgaou a
treva daquela alma enferma. O homem revoltou-se no frade. O galhardo corteso sentiu-se,
no hbito de estamenha, confrangido e esgarado na epiderme como na tnica de
Nessus. Bateu-lhe na alma a dava do arrependimento. Desculpou-se diante de Deus,
confessando-se que ensandecera no dia em que se amortalhara, porque 'desejava
morrer, despedaando-se.
Pensava em sua filha; mas no ousava perguntar por ela ao irmo,
expansivamente. Envergonhava-se: tinha o pudor da dignidade; temia que seu irmo o
culpasse agora de leviano como o arguira de covarde, quando ele se evadiu do mundo
pela porta vulgar de Baltasar Casqueiro, e do caldeireiro das Covas-infernais, e do
prprio instituidor do Varatojo, Fr. Antnio das Chagas: trs beatos que se furtaram
assim s gals, embaindo a justia humana. Alm disso, as cartas sadas do asprrimo
convento, eram inspeccionadas pelo guardio. Fr. Francisco seria o oprbrio da ordem,
se a profanasse em suas missivas com uma palavra ressabiada de mundo, diabo e carne.
Encheram-se de amargura as suas noites veladas sobre a esteira do catre.
Humilhava-se diante da cruz tosca, feria a arca do peito; mas as pancadas doam-lhe
como se l dentro chorasse um corao que pedia vida, e as delicias do amor de pai, e as
serenas tristezas de uma saudade respirando em Deus. Mais desgraado do que nunca!
O conde do Rio inferira de uma carta do frade o segredo da transformao mal
dissimulada. Foi ao Varatojo, a pretexto de visitar o seu parente frei Gaspar da
Encarnao. Afastou-se com Fr. Francisco da Luz; e, a propsito desta luz, perguntou-lhe
porque no se cognominava antes de Fr. Francisco das Trevas.
O frade debulhou-se em torrentes de lgrimas, olhou em derredor que o no
vissem no mais espesso da mata, estreitou-se ao seio do amigo, e rompeu o dique de
suas angstias com precipitada eloquncia. Falou de Catarina, arrebatado e opresso; da
filha, com expresses de pueril ternura; do seu passado, com excruciante saudade; e do
seu presente e futuro, como dum inferno irremedivel.
Pela sorte de Catarina lhe acudiu o conde com um grande alvio. No mosteiro e na
sociedade era insuspeita a honra da religiosa. As suas prprias inimigas, vingando-se na
calnia, bem sabiam que o desaire, ainda que fosse verdadeiro, no seria grande. Ilibada
da ndoa de crist-nova, outra qualquer afronta  sua castidade, na casa de Odivelas, era
vcio e direito comum, podendo cada freira perguntar  sua detractora como via argueiro
em olho alheio com tamanha trave no seu. Afianou-lhe que soror Paula e sua irm se
afeioaram extremosamente a Catarina', e a fizeram sua comensal, divertindo-a das
tristezas com engenhosa dedicao. Esperava, portanto, o esperto conde que a
Muleirinha viesse a gozar-se de remanosa tranquilidade, conformando-se a um viver
sem grandes mgoas nem grandes contentamentos.
* E eu! - exclamou Fr. Francisco - e eu!... viverei neste longo paroxismo... Para
mim nunca h-de chegar a resignao, a graa divina que transforma o homem apagan-do-
lhe as memrias do passado. Este hbito  uma injria que fao a Deus. As minhas
oraes em comunidade so pecaminosas porque so fraudulentas. Sacrifico-me.30
violentado. Nem sequer posso sentir a consolao dos que se mutilam confiados em
indemnizaes doutro mundo. Nada espero, senhor conde. Se h alguma coisa alm da
morte, a desgraa entenebreceu as vises da minha f. Perdido! e perdido tudo quanto
amava!...
A dor exuberou em queixumes que apiedaram o conde. Pungia a comparao do
faustuoso Xavier de Odivelas com o descarnado varatojano. Lopo de Mendona via
ainda nele o reflexo de um filho dos mesmos anos, seu amigo de infncia, filho nico,
falecido em 1707, por amor de quem o conde se lhe afeioara entranhavelmente.
Sem consultar o frade, pediu a frei Gaspar Moscoso que obtivesse licena do
guardio para que o amigo de seu defunto filho passasse uma temporada na quinta do
Lumiar. O varatojano, irmo do marqus de Gouveia, impetrou a licena. No estranhou
os tdios do seu condiscpulo no mosteiro da penitncia. Ele mesmo os sentia a roer-lhe
nos liames da austeridade cenobtica. J ento pensava em despir o hbito, transferir-se
para a corte, apossar-se do nimo do rei, ser, como foi, seu omnipotente ministro, torcer
as leis em pr de seu sobrinho D. Jos de Mascarenhas, cingir-lhe a coroa ducal. e opil-lo
do orgulho que em 1758 o esquartejou no patbulo de Belm.
Melhorou de sorte o trnsfuga da vida expiatria, mudou de hbito por concesso
do nncio, e entrou no convento de S. Francisco da Cidade, com a importncia que a
borla doutoral lhe acrescia  fama do talento e piedade. Nomeado visitador dos
conventos da ordem, rodeado de consideraes, dependncias e profanidades bem
rebuadas, dava-se menos mal com o oficio, e, por vezes, tomando o peso da cruz, no
lhe pareceu incomportvel.
Paulo Xavier j era ento ouvidor em Serpa. Fr. Francisco foi visit-lo. Festejou a
menina, que tinha quatro anos, e lhe chamava tio. Teve-a no colo assustando-a com o
hbito e com a sofreguido dos beijos. Sorria-se de ouvir chamar pap ao irmo, e
observou-lhe que Antnia lhe ficaria chamando sempre pai.
* E no  ela minha filha? - disse o ouvidor - Desde que vestiste o hbito, fiz de
conta que seu pai era morto. Perfilhei-a, renovei o assento baptismal, legalizei-a minha
filha para me suceder nos bens e nos apelidos. Estou que nunca me desmentirs por
amor de ti e dela. Tenho administrado o teu patrimnio como tutor desta criana, visto
que a tua mudana de vida algum benefcio influiu nos teus cabedais. Se no houver
reveses, se o Santo Ofcio nos no maquiar o prprio e os juros, poderemos legar a
Antnia a herana de cento e tantos mil cruzados que houvemos de nossos pais. Se nos
sobreviver, ser rica. Poderemos cas-la em famlia puritana das altas, onde no chega o
gldio de S. Domingos, nem se medem as gotas de sangue hebreu; verdade  que o Jos
Freire Montarroio me disse a mim que no h famlia portuguesa estreme do judasmo
de Rui Capo, de Lafeta, e do Barbado de Veiros. No entanto, procuraremos arranj-la
em uma das sete famlias hipoteticamente puritanas - concluiu o ouvidor, sorrindo. 15
Amiudaram-se as visitas de fr Francisco Xavier a seu irmo. A filha evitava-lhe as
carcias ou agradecia-lhas glacialmente. No gostava do tio frade. Fugia-lhe dos braos
para os do pap; e numa exploso de ingenuidade, chegou a dizer-lhe que a deixasse,
porque aborrecia tanto beijo. O frade chorou, e, em segredo, perguntou a Paulo se estava
bem convencido de que a criana no fosse trocada pela ama.
15 No seguinte remado, eram ainda sete as famlias imaculadas, posto que fossem cinquenta e trs as de
alta prospia. Aquelas sete famlias no se aliavam com as outras; mas o marqus de Pombal insinuou ao
rei a boa providncia de obrigar os puros a mesclarem-se com os impuros. E assim se fez, O Pombal no
acreditava no sangue puro de D. Jos nem no seu; no de D. Jos por causa do Barbado, e no seu por
causa do cirurgio de Cernache. Disse-lhe uma vez o rei que era preciso obrigar os cristos-novos a
usarem um chapu branco de certo feitio, O marqus levou dois chapus brancos, e disse: "Um  para
vossa majestade fidelssima, o outro  para mim". D. Jos mandou rasgar o decreto. Como anedota faz rir;
mas  parvoce descabida da histria e das Memrias do Marqus de Pombal, por John Smith, pg. 275..31
* S se foi trocada nas tuas mos quando lha entregaste em Verride - respondeu o
irmo. - Que queres tu?! a menina adivinha que tu, h. quatro anos, quando te pedi que
por amor dela no fizesses votos, me respondeste: Que esta criancinha era a expresso
providencial das cleras divinas. As cleras divinas  isto que te mortifica,  este
natural desafogo da criana. Os filhos no  o sangue que os faz,  o amor. Pega de
Antnia, vai sent-la no regao da me a Odivelas, e pergunta  criana se no tem
saudades da ama que a criou, e se no troca pelos macios afagos da freira as rsticas
advertncias dessa mulher com quem dorme. Vocs nem entendem as coisas da terra
nem as do cu. Fazem de tudo metafsica, e andam sempre bigodeados pela realidade
das eternas formas. Quando envergaste o burel de varatojano, vias a Providncia a
disciplinar-te com a filha; agora, no percebes a Providncia, porque a filha te
desconhece.
O frade ouvia-o silencioso, e embebia as lgrimas no leno.
* Sozinho! - cogitava ele no secreto da sua alma - Sou desprezado da filha, e
talvez odiado da me!... E no fui eu ingrato com Catarina, e miseravelmente covarde
com minha filha? A minha penitncia que era seno um egosmo que se mascarava com
a religio? No as abandonei a ambas para me salvar? Que foi seno covardia vil
esconder-me no Varatojo s calamidades que eu desafiara? Se Catarina devia morrer na
Inquisio, a minha honra era dar-lhe coragem com o exemplo da morte. Abjecto! que
excruciadora vergonha eu tenho de mim prprio!.32
VII
Fr. Francisco Xavier dissera ao conde do Rio Grande que andava negociando uma
longa viagem ao oriente, no por instigaes de devoto peregrino, mas para se
espertinar da letargia moral que lhe desbotava o crebro. De feito, o engenho do frade
brilhara em tempo nas concluses da ordem, e esmorecera na apatia estril das
inteligncias que uma secreta dor enoitece.
* No ir aos lugares santos, doutor; mas ir comigo aos Dardanelos pelejar com a
armada do turco - disse o conde.
E referiu os pormenores da intentada guerra ao turco.
Era o ano de 1717. Deter-nos-emos algumas pginas para rectificar erros de
histria.  singular que um romance invista as alheias searas, campando de elucidrio
em pontos competentes a livros graves.  coisa nova; mas no  m.
Ameaou o turco a repblica de Veneza em 1716; e, no ano seguinte, fez-se ao
mar com uma grossa armada sob o comando do general francs d'Anglerie. Clemente
XI, tambm ameaado, pediu socorro  Frana, Espanha e Portugal. A Frana
desculpou-se com o inimigo ingls. A Espanha mandou sete naus, quatro fragatas, com
trs galeras de Npoles; mas o general, como ouvisse dizer em Gnova que os turcos
meteram a pique a armada veneziana, lanou ferro, e, transido de medo, ali ficou. D.
Joo V queria servir o papa, mas com o dinheiro do estado; no havia, porm, no errio
dinheiro nem vasos de guerra no Tejo. No se deteve a ponderar conselhos nem
oportunidades. O expediente do absolutismo. Chamou o seu valido e guarda-roupa
Pedro Antnio Virgolino, e mandou-o  Junta da Companhia do Comrcio que lhe
aprontasse uma armada. O presidente da Junta, D. Francisco de Sousa (Calhariz) foi
dizer ao rei que a Junta prometia desempenh-lo. Oito dias depois tornou o marqus de
Abrantes com recado novo apressurando a armada. Dizia el-rei que depois pagaria tudo.
No pagou nada; e a histria gaba-o da galhardia da faanha em pr da cristandade.
A Junta armou duas grandes naus que tinha no Tejo, uma de 120, outra de 184
peas; comprou duas aos holandeses, outra aos ingleses, e aparelhou duas fragatas.
Fardou o seu regimento, e proveu-o de segundo fardamento. Municiou as naus, e deu
seiscentos mil cruzados em dinheiro, trezentos mil para mesa, e os outros para
eventualidades em que Portugal se devesse estadear com brilho em terras estranhas.
D. Joo V prometera-lhe, como remunerao, embols-la de seiscentos mil
cruzados, que os castelhanos tomaram em Cacheu, visto que Filipe IV, no tratado de
1713, se obrigara a pagar. E pagou; mas o rei ficou com o dinheiro. E, quando fazia
Mafra, tirou-lhe um milho e duzentos mil cruzados; e, em 1720, quando a Companhia
apenas tinha em caixa duzentos e setenta e quatro mil cruzados, o rei, respondendo a
uma representao da Companhia, que deplorava sua decadncia, mandou buscar os
duzentos e setenta e quatro mil cruzados. Ladroeira real!
Extinguiu-se a Companhia. Caram na indigncia muitas famlias. As pragas no
empeciam ao rei. L estavam os papas entre a justia divina e a humana. O po de
milhares de famlias tinha ido para Roma involto nos cento e oitenta milhes de
cruzados que custou a Portugal a certeza de termos aquele Bragana no cu.
Mas o que ns tentamos rectificar  que a armada que venceu o turco em
Matapo, no  obra do rei, nem zelo cristo da ptria: foi um roubo violento, e a
aniquilao de um grupo de comerciantes que desde 1649 at 1651 dera 36 embarcaes
de guerra a D. Joo IV; que em 1658 deu a D. Afonso VI as duas maiores naus da
Europa; e em 1717, j nas vascas da morte, resgatava a palavra do rei fantico
renovando na enseada de Passavia as proezas do velho Portugal..33
Mas j naquele tempo estas roncarias extemporneas davam que rir  crtica. O
poeta portuense, Toms. Pinto Brando, assistiu em S. Jos de Ribamar  sada da
armada, e improvisou esta oitava:
Saiu em fim a armada pelos ares
com seus cabos vestidos pelos "eres" 16
das estocadas que h-de haver nos mares
se ho-de borrar as naus e os escaleres;
Esta se 'aparelhou sem os vagares
que costumam haver noutros misteres;
e seguindo o roteiro por que eu surco,
"papa" leva, acha "papa" e "papa" o turco.
O primeiro general da armada era o conde do Rio Grande, e o segundo Manuel
Carlos de Tvora, conde de S. Vicente. O doutor Fr. Francisco Xavier embarcou em a
nau Nossa Senhora da Conceio, e ocupou a cmara contgua  do conde-almirante.
Os historiadores coevos, inditos e impressos, por louvvel esprito de patriotismo,
expungiram das suas "relaes" um desar que denegriu bastantemente a ufania da
empresa. Um homem, porm, coevo dos sucessos, o comerciante e literato Manuel
Pereira de Faria, em uma Memria, que escreveu e entregou ao marqus de Pombal, que
o estimava encarecidamente, refere o seguinte: "Partiu (a armada) do Tejo em uma
segunda-feira do ano de 1717, navegando at Gnova; e, encontrando a a de Castela,
fez o general castelhano tal pintura da armada dos turcos e da desfeita dos venezianos, e
de que no tinham partido algum ainda ambas juntas, que a nossa voltou para Lisboa,
sem tentar nem obrar cousa alguma. Logo que eZ-re4 soube da sua chegada  barra, e
como vinha aconselhado pelo general de Castela, mandou que tornasse a sair
imediatamente, e fosse sem demora acometer e bater-se com a do turco, procurando-a
at os Dardanelos, onde queria que se ouvissem os tiros da sua artilharia, sem mais lhe
importar a armada castelhana. Sua majestade assim o mandou absolutamente, e por
saber que era esta tambm a opinio e vontade dos nossos generais". 17
Esta proeminncia na espalmada fisionomia de D. Joo V era digna de
caracterizar algum dos reis da dinastia de Aviz. Estranha-se o arrojo em prncipe de
Bragana; e no  menos de estranhar que o visconde de Santarm, tecendo a apologia
daquele rei com bagatelas anedticas, pospusesse, talvez por ignorncia, o seu facto
nico de audcia e de bravura, embora os imolados fossem os vassalos, e os impulsos da
empresa ineptos.
Abalou pois de novo a esquadra em um domingo, 25 de Abril, e fundeou na
enseada de S. Jos de Riba-mar. No dia 28 largou velas e cortou no horizonte uma
floresta branca ondulada de flmulas e paveses, simulacro dos anos juvenis do Portugal
navegador.
No podemos de espao seguir a rota da armada. Seria curiosa em outra laia de
livro. Se o leitor  carovel destas velhas coisas, veja A batalha naval de Matapo
16 Falta nos Vocabulrios a palavra; mas chamavam-se "eres" os adornos de tartaruga e plumagens no
toucado das damas. Em uma faccia indita de Fr. Pedro de S, intitulada "Serolico Bololico quem te deu
tamanho bico", vem este perodo: "Serolicas de propsito (fala de certas variedades de senhoras) so as
que sem guarda, sem resguardo e compromisso, saram de fresco com um pente empinado na ilharga da
cabea, com um penacho da tal tartaruga: a isto chamam "eres" do cabelo e "eres" do casco. So estas
serolicas, de alto bordo, que fazem festa ao toucado e sobre o pente de arre-burrinho lhe levantam outro
de mastro. A estas, como apstatas do uso, no lhes  cabido o formulrio do adgio: quem vos deu
tamanho bico? mas sim: que faz esse bico a?
17 Nota 7..34
particularizada no Sumrio de vria histria de um coleccionador inteligentssimo. 18
O doutor Fr. Francisco Xavier, quando o conde lhe perguntava se ia melhor de
esprito, respondia com o verso de Horcio:
Coelum non animam mutant qui trans mare currunt. 19
O almirante, embevecido na eterna majestade do oceano, chamava o frade ao
contemplar alto dos msticos e dos poetas. E o frade, com os olhos marejados, fitava o
horizonte roxo do poente, onde se lhe figuravam miragens, grupos, e os vagos contornos
de Catarina e da filha.
* Em que pensa, Xavier? - intervinha o conde.
* Na felicidade da morte...
* Pois ento, amigo, olhe que est, onde essas felicidades se arranjam do p para a
mo.
* Oxal...
* As balas, s vezes, chegam aos beliches...
* No  l que me ho-de matar, sr. conde.
* Ento, c no tombadilho?
* Ao lado de V. Ex, sr. almirante.
* Aqui a bordo h disciplina severa. Quando eu mandar descer os que no professam armas, Fr. Francisco...
* Ir rezar litanias na cmara? Meu general, eu sou como os frades batalhadores
dos tempos hericos de D. Joo I e D. Afonso V. Se o hbito me tolher os movimentos,
despi-lo-ei. Como mortalha, dispenso-o. Antes quero que me vistam das espumas das
ondas.
O dilogo foi cortado por um rebolio. Um capito do regimento da Junta corria
sobre o cirurgio da nau com uma faca. O general mandou passar o capito para outra
nau.
* Se nos matam os poucos cirurgies que levamos - disse o conde - no teremos
quem nos ampute os braos e as pernas em ocasio oportuna.
* Levamos um famoso mdico, o doutor Pelico - observou Fr. Francisco.
*  verdade; mas foi necessrio mand-lo buscar preso a Cascais. Assim mesmo
evadiu-se, e apresentou-se-me com receio das severas penas de guerra. Bem v com que
bom rosto o afago para que no fuja, nem nos mate com alguma tisana,
No dia 10 de Junho deu fundo a galera em frente da praa de Corfu. Era o porto
confluente das gals de Veneza, de Florena, do papa e de Malta com o generalssimo
Bel-Fontaine, balio, nomeado pelo pontfice.
Neste porto ancoravam navios de franceses.
Fr. Francisco Xavier, que lhes sabia a lngua primorosamente, entrelinha-se
palestrando com franceses. Entre estes preferia a noticiosa eloquncia de um mdico,
que lhe contava minudncias de Constantinopla, onde nascera, posto que seu pai fosse
francs, da Picardia. Chamava-se o mdico Isaac Eliot. Devia ter vinte e dois anos. No
conceito dos patrcios, era portentosamente hbil na sua profisso.
O capito do navio mercante segredou ao frade que Isaac Eliot era filho de um
calvinista francs, que, fugindo  perseguio, passara ao imprio otomano, onde
exercitara as armas e atingira a patente de Spahilar Agassi 20 e morrera em batalha,
deixando aquele menino, filho de uma turca, sem patrimnio; que o hyaia (lugar-tenente
18 O sr. Ribeiro Guimares, redactor do Jornal do Comrcio de Lisboa.
19 Mudam de cu, mas no de esprito, os que se vo mares alm.
20 Comandante de Spahis, que formavam o 2 regimento chamado da cometa escarlate..35
do Gro-Vizir) o doutorara em medicina  sua custa, e lhe permitira visitar a Europa a
fim de estudar o adiantamento das cincias mdicas nas principais escolas, encargo que
recomendava o superior talento do jovem mdico.
Relatou estas coisas Fr. Francisco Xavier ao conde do Rio Grande.
* Quem nos dera assim um mdico nesta conjuntura! - disse o general. - E quanto
estimaria el-rei se consegussemos apresentar-lhe no pao um mdico de tanta
considerao!
* Sobretudo - conveio o frade - ser-nos-ia muito til para as amputaes das nossas pernas, se os turcos no preferirem amputar-nos pelos pescoos...
* Folgo de o ver assim faceto, Xavier! - volveu o Rio-Grande - mas, chegada a
hora, recomendo-lhe que no se imole  percia dos cirurgies. Ora diga-me a respeito
do tal filho do huguenote, no poderamos seduzi-lo com bom estipndio e melhores
promessas a aceitar partido na armada portuguesa? Se ele viaja, decerto lhe no
desconvm ir a Portugal...
* Estudar o adiantamento da medicina lusitana? - atalhou ironicamente o frade.
* No direi tanto; mas poder ir ensin-la e enriquecer-se em curto espao, como
aconteceu ao seu logreiro patrcio que vende a gua do francs.
* Ento, o sr. conde quer que o pobre rapaz, filho de huguenote e turca, v purgar
na fogueira os delitos do pai e da me? No serei eu que o induza.
* Valha-o Deus, doutor! - replicou o almirante sorrindo. - A maioria dos mdicos
portugueses  da raa proscrita: so mais ou menos seus primos. Quem os persegue?
Todos os charlates e curandeiros, que vo de Frana, so huguenotes. Quem os
incomoda? Apenas eles tm o incmodo de se fazerem catlicos, se querem ofcio ou
mulher; mas, feito o seu negcio em Portugal, vo-se nas boas horas, e tomam a
incomodar-se ligeiramente descatolizando-se. Por esse lado, pode convidar o mdico
francs a servir nesta armada, que eu lhe dou cauo de no correr perigo em Lisboa.
Como a est o coronel fiscal da esquadra, Pedro de Sousa Castelo Branco, que tambm
fala francs, avenham-se entre si, e conquistem o rapaz, que el-rei lho agradecer.
No foi fcil a conquista; mas lograram os dois comissrios do almirante ajustar
com Isaac Eliot o partido do mdico da nau-almiranta por avultado estipndio, e
promessa de ser recomendado  magnanimidade do sr. D. Joo V, logo que a armada
recolhesse a Lisboa.
Comeou desde logo Eliot a estudar a Lngua portuguesa com Fr. Francisco, e a
pole-la em conversao com todos como um tradutor de novelas. Contava aos generais,
ao frade e a Pedro de Sousa Castelo Branco picarescos pormenores das odaliscas, dos
eunucos ou ytzoglans, descrevia-lhes os tesouros do serralho, os aposentos privativos do
gro-senhor, a cmara das sultanas, as lubricidades requintadas e outras miudezas que
espantariam os ouvintes, se eles no fossem vassalos de
D. Joo V e no conhecessem mais ou menos de outiva o harm bastantemente
turco de Odivelas..36
VIII
Aos 25 de Junho fundeou a armada no cabo dos Dardanelos; no dia 29 levou
ncora e velejou para o cabo Matapo em demanda das naus venezianas. Estalou a nova
no dia 2 de Julho que mareavam trinta e cinco navios turcos na enseada de Matapo.
Tudo a postos. O conde do Rio viu entre os granadeiros do regimento de Peniche, que
guarneciam a popa, uma estranha figura de gabinardo, cintado de talabarte de couro
com pistolas de aro, espada francesa curta e clavina. Perguntou quem se vestira assim
um tanto  mourisca. Responderam-lhe que era Fr. Francisco Xavier.
O almirante duvidou do bom senso do frade.
Mandou-o chamar, e disse-lhe:
* Com que ento...
* C estamos, general.
* O hbito l vai s ortigas, hein?
* No, meu general; despi o hbito para o no profanar nem poluir com o sangue
de Ismael.
* Bem. O seu lugar, dom paladim,   beira do seu general.
* Enfileirei-me  popa, esperando l o senhor conde, por saber que o maior perigo
 ali.
Foi falso o rebate. As naus eram da repblica, que vinham fugindo destroadas,
com o seu general Flangini morto. Foi  fala um prtico. O mdico Eliot ofereceu-se
como entendido no italiano. Volveu e contou que os venezianos em trs combates
haviam perdido seiscentos soldados. Viu o cadver do general, e descobriu-lhe entre a
clavcula e o queixo um punhado de pregos cravados como  marreta pelas carnes
dentro. Disse Isaac Eliot que os turcos sevavam as suas peas com aqueles ferros
velhos.
* Tudo  bom guardar - observou o almirante.
* No corpo da gente  mau - emendou o frade.
Chegou a hora da batalha. Eram corridos dezanove dias de Julho, um dia formoso,
mar e cu anilados, a enseada de Passavia espelhando os galhardetes, quase calmaria,
uma brisa que mal serpeava as flmulas. As naus do imprio eram 54, e as condies
propcias. Bafejou-as a virao, avizinharam-se de ns, e fecharam-nos na angra,
encostando-nos a terra. Rompeu de l a atroada da artilharia. Em frente da armada turca,
e assoberbada pelas alterosas sultanas de Constantinopla, quedara-se impertrrita a
esquadra portuguesa. A de Veneza e as outras voltaram sobre terra, excepto a nau
Fortuna Guerreira, da repblica, inseparvel das nossas sete naus at ao remate da
batalha. Ao fim do dia, a luta era desesperada. Cinco das nossas naus varejaram catorze
sultanas, que vomitavam jorros de fogo. A mortandade era grande. A nau Pilar, com
sessenta mortos, ia arribar a pedido do piloto ao conde de S. Vicente: "Se algum me
fala em arribar - bradou o general - varo-o com esta espada!" No era menos seva a
carnagem da nau-almiranta; mas a a defesa era de homens aporfiados em morrer
segundo a arte. A placidez do conde predominava assombrosa. No deu um tiro
enquanto lhe pareceram mal empregados os pelouros. Francisco Xavier esperava a
abordagem com a serenidade de quem sada a morte. As balas rasas fasquiavam os
mastros, e as dos arcabuzes zuniam nas enxrcias. O conde, a espaos, dizia ao frade:
* V-se embora.
* Creio que irei - respondia Francisco Xavier, atento, fito e fascinado nos
relmpagos da artilharia, e atordoado com o estrugir da celeuma. Neste conflito, o frade
caiu; e o conde correu para ele, exclamando.37
* Xavier! que  isso?
* Que h-de ser, conde?  a redeno...
Tomaram-no em braos; desceram-no  cmara de proa; Isaac Eliot despiu-o;
tinha a perna direita separada por uma bala de artilharia, e a vida perdia-se nos golfos de
sangue.
* Morre? perguntou o conde ao mdico.
* No, senhor; morre-lhe s uma perna, se eu lha amputar 21 .
O frade contemplou a operao com indiferena, e disse, feitas as anatomias:
"Corpo e alma! mutilados..." Os ajudantes do operador pasmavam dos instrumentos e
da percia na laqueao dos vasos sanguneos. Ali se criaram e robusteceram os crditos
do francs. Os feridos na nau-almirante bem-diziam a Providncia que lho deparara. O
conde do Rio abraava-o com a veemncia de um pai, por que dizia ele:
* Se me no salvasse este homem, doutor, eu choraria a morte do meu segundo
filho...
A batalha prosseguiu, e acabou pelo modo como a refere o mencionado Manuel
Pereira de Faria na sua Memria dirigida ao ministro da marinha: "...O conde do Rio
Grande no deu um tiro, sem embargo de os ir recebendo enquanto se no prolongou
com a capitania, aonde tremulava a bandeira real das luas otomanas; a deu uma banda
inteira  real sultana, com tanta fortuna que a meteu no fundo, e logo a duas sultanas
mais; e, depois de seis horas de combate, tanto que a nossa pde manobrar toda, a do
turco levantou ncora, e se retirou ou fugiu para o Arquiplago. Desassombrado o mar
Adritico, da armada inimiga, foram os nossos generais para Veneza, onde os
respeitveis senadores da repblica os vieram receber debaixo do plio, deram-lhes
banquetes e festejos, quiseram-lhes consertar a armada - o que os generais no
consentiram. O papa mandou bater moeda, ou medalhas de dez moedas com a efgie
del-rei, e, no verso, narrado o sucesso. Deu breves aos nossos em que os mandou para o
cu, e aos turcos com o seu general francs, para o inferno. Recolheu-se a nossa armada
ao Tejo com os portugueses cheios de honra e glria. Foram testemunhas desta aco
dos portugueses duas embarcaes maltesas e unia veneziana que imediatas seguiram a
nossa armada".
Fr. Francisco Xavier e Isaac Eliot receberam hospedagem no palcio do conde do
Rio. O mutilado movia-se com uma perna de pau aperfeioada pelo engenhoso mdico.
No voltou ao convento. O papa concedeu-lhe a secularizao com grandes elogios 
sua religiosidade e ao j raro denodo com que se houve na herica batalha, e tambm
aos seus dotes literrios por ter sido ele o tradutor da carta pontifcia, com que Clemente
XI felicitou o conde do Rio, triunfador de Passavia 22 .
El-rei quis ver o frade e o mdico. Do amante de Catarina sabia ele os segredos
que D. Paula lhe revelara, colhidos nas magoadas expanses da sua amiga. Conhecera-o
seis anos antes galhardeando mocidade, gentileza e pompas indicativas de mais fidalga
origem. Condoeu-se da desfigurao. Alvejavam-lhe os cabelos antes dos trinta anos;
tinha lgrimas na voz, abstraimentos ntimos de mui triste expresso no rosto. Disse-lhe
21 Na "Carta que o capitam Loureno Justiniano Ribeiro Soares escreveu da armada", etc., publicada no
referido Sumrio de Vria Histria, T. I, pgs. 136-183, no se omite o incidente brevemente narrado
nestes termos: "Um frade franciscano, chamado Fr. Francisco Xavier que por seu gosto foi na armada s
por acompanhar o conde do Rio, que era seu amigo perdeu uma perna que lha levou uma bala de
artilharia. Porm, no morreu porque foi curado com grandssimo cuidado, com empenho do conde do
Rio". (Pg. 167).
22 "Chegou de Roma D. Afonso de Noronha e trouxe carta do S. Pontfice para o conde do Rio, e os
termos da carta foram traduzidos Pelo padre Fr. Francisco Xavier, franciscano, que, como se disse j,
perdeu uma perna, a bordo da nau do conde do Rio, no dia do combate". Sumrio de Vria Histria, T. I,
pg. 177..38
que requeresse um canonicato, ou um lugar de desembargador nas relaes eclesisticas
do reino. O bisneto de Domingos Leite Pereira pediu ao rei que lhe amerceasse o seu
mdico Isaac Eliot, no porque lhe dera a vida, mas pelo carinho filial com que o velara
na sua cura.
Deteve-se o monarca ouvindo a narrativa graciosa de coisas ignoradas de
Constantinopla, e mormente dos harns. Perguntava-lhe sua majestade com certo calor e
vivacidade de pupila, se as georginas eram muito boas mulheres; que tais eram as da
Circssia; quantas sultanas conversava o imperador, e quantas odaliscas; quais
alimentos usava ele quotidianamente; se os climas influam nos temperamentos; se a
essncia do mbar tinha realmente as virtudes que lhe atribuam os mdicos antigos, etc.
23 O francs esmiudava as respostas a sabor de sua majestade, condimentando-as de
especiaria dos climas clidos. Descrevia a mulher da Gergia, do Cucaso, as
variedades todas do harm com imaginao sensual. Quanto ao mbar, que devia ser
cinzento, no duvidava das suas virtudes; mas tinha ele inventado umas superiores
pastilhas de almscar para uso de trs pachs de duas caudas, seus amigos muito
particulares. Recomendava humildemente a sua majestade a inconvenincia dos
chamados filtros amorosos, lembrando a morte do poeta Lucrcio, devida a uma dessas
beberagens subministrada pela sua amada Luclia, etc., etc.
El-rei gostou infinitamente de Isaac Eliot, e pediu-lhe as tais pastilhas de almscar,
com as quais se deu bem.
23 Nota 8..39
IX
Direi muito de passagem o que era a profisso da medicina em Lisboa quando
Isaac Eliot ali chegou apregoado pelo conde do Rio Grande, e o que ela continuara a ser
no lapso de meio sculo. Os monumentos escritos que uma v curiosidade conserva nas
estantes empoadas, representam os mdicos mais famigerados daquele tempo.
Simo Flix da Cunha, Manuel da Silva Leito, Jos Rodrigues de Abreu,
Francisco da Fonseca Henriques, Morato Romba, o hebreu Antnio Nunes Ribeiro
Sanches - que valia mais que todos - denotam, segundo o voto dos historigrafos
mdicos,  mistura com muitas crendices j refugadas ento das Universidades
europeias, uma parte do adiantamento da cincia, principalmente da higiene, no ltimo
escritor referido. Se, todavia, dermos f s virtudes apregoadas pelos forasteiros que
assentavam em Portugal e anunciavam na Gazeta as suas boticas,  razo acreditar que
os mdicos dados  escrita e s teorias haviam resvalado a grande descrdito. E at certo
ponto, D. Joo V participava da descrena pblica nos doutores conimbricenses e nos
que j tinha de fora quando em 1723 mandou consultar os mdicos de Marselha acerca
da peste que ento ardia em Lisboa.
Desde muito, a concorrncia de curandeiros a Portugal disputava-se a posse da
ignorncia do povo, e melhor direi, de todas as classes, porque a rudeza era quase geral,
e ainda os poucos inteligentes no saberiam estremar o empirismo, quando a
enfermidade lhes cegava o entendimento.
Um dos forasteiros que mais de assalto conquistaram a confiana de Lisboa, e
aniquilaram a cincia nacional, foi o boticrio Alberto Leonardo Konig, que, na Gazeta
de 20 de Abril de 1724, se anunciava oficial maior da botica imperial de Viena de
ustria e viera a Lisboa para assistir como Provisor  botica da rainha nossa senhora; e
acrescentava que trazia consiga muitos, segredos medicinais da augustssima casa de
ustria para a rainha e sua famlia, e muitos smplices e medicinas teis e frescas. E
frescas!
Este boticrio desbancara o mdico de Sousel, o doutor Jernimo Moreira de
Carvalho, que, em Fevereiro do mesmo ano, anunciava, na mesma Gazeta, que morava
em Sete Cotovelos, junto ao beco sem sada, e oferecia os seus remdios de
carnosidade e mais achaques de rins, bexiga... 24 achaques de pescoo e alporcas,
febres e nvoas de olhos, e outros mais remdios eficazes.
No conseguiu, porm, o boticrio austraco descer inteiramente da sua reputao
na especialidade "hemorridas", o acreditado ferrador que se anunciava deste feitio, na
Gazeta de Maio: Quem quiser um remdio eficaz parra almorreimas, cursos de sangue
e dor de cadeiras sem prejuzo da sua sade v falar com Manuel Correia, ferrador s
Portas de Santo Anto, que dir onde se vende. Era ele o inventor do remdio; e to
limpo de burla que restitua o preo da droga (4$800 ris) se o enfermo, passado um
mas, no funcionasse com a mxima sanidade fisiolgica.
O ferrador j em 1717 havia lutado cientificamente com o qumico valenciano D.
Baltasar Gisbert. Este sujeito, que tambm morou no Arco dos Sete Cotovelos, curava,
no espao de 18 dias, as doenas torpes e inveteradas, desde a 1 at  4 espcie
inclusive. Afora isto, curava trs castas de hidropisia, e todos os mais afectos uterinos.
Que afectos! No levava dinheiro sem curar: se matava, era gratuitamente.
Quem desluziu algum tanto a estrela do boticrio de D. Mariana de ustria, foi
um pseudo Fr. Antnio de Castro, que em uma Gazeta de Junho de 1724 se anunciou
24 Os anunciantes no se esquivavam a empregar a terminologia das enfermidades mais hediondas: tal era
a inocncia das leitoras..40
espanhol e religioso da ordem de S. Joo de Deus. Vendia:
gua para tinidos e zunimentos dos ouvidos, etc.
Blsamos parra preservar de aborto, para confortar a memria e os nervos, etc.
Tinha outrossim ungento para almorreimas de exmia virtude, Naquele tempo
ainda as almorreimas podiam ser exmias. Depois tirou-se o adjectivo s mesmas, e
grudaram-no aos patriotas - patriotas exmios - verdadeiras e importunas hemorridas
dos intestinos do Estado.
Os remdios do frade estavam no galarim, quando o encoberto autor, vaidoso do
xito, saiu com este desmentido na Gazeta de 28 de Junho de 1725: Os remdios
publicados na Gazeta de 15 de Junho de 1724 em nome de Fr. Antnio de Castro,
foram inventados por Lus de Maia Pinto, boticrio do duque de Lafes, e morador s
Portas de Santa Catarina, e por modstia se publicaram com o tal nome, etc. Parece
que, desde que o frade deixou de colaborar no gral do boticrio, a freguesia voltou-se
para o ferrador ou para o ex-oficial maior da botica da imperatriz da ustria; pois foi
ingratido tanto maior quanto o modesto Maia, neste funesto contra-anncio, declarava
ter inventado tambm um agradvel e eficaz remdio, entre todos os maiores, para
defender o corao de todos os vapores, melancolias, e toda outra malignidade de que
for acometido.
E prometia mais invenes em outra Gazeta.
Poucos facultativos podiam ganhar a sua vida decentemente em concorrncia com
os curandeiros de casa e de fora. Em 1731 um notvel cirurgio de Lisboa era obrigado
a curar as almas,  mngua de corpos doentes, como se depreende do seguinte anncio
da Gazeta de 13 de Dezembro:
Saiu  luz uma novena para se festejar o trnsito do gloriosssimo patriarca S.
Jos; autor Jos da Silva Fernandes, cirurgio aprovado e morador  Horta Seca, em
cuja casa, ou na sacristia da paroquial igreja de Nossa Senhora da Encarnao a pode
procurar quem quiser.
O mdico Brs Lus de Abreu escrevia, no mesmo tempo, a Vida de Santo
Antnio, e Manuel da Silva Leito oferecia o seu Regimento de Paridas  imaculada e
sempre Virgem Me de Deus.
Quem manteve sempre inabalvel fama foi um mdico lisboeta, de alcunha o
Machuca. Este doutor,  imitao do mdico rabe Thabet, estudava as doenas nas
fisionomias. O Cavalheiro de Oliveira tratou-o pessoalmente, e refere a seu respeito o
seguinte caso: "Fingia conhecer no pulso as desordens cometidas pelos seus doentes;
umas vezes, adivinhava que um bebera o vinho proibido, e outro no observara o
silncio prescrito. Tomava o pulso da donzela, da casada, do mancebo.  primeira dizia,
por exemplo: "a menina comeu uma azeitona, sugou uma laranja".  segunda: "a
senhora tem cimes; e desconfio que alguma razo tem... seu marido, posto que a ame,
ama algum mais". Ao rapaz, finalmente, dizia: "o senhor teve certa visita, ou recebeu
carta do namoro... No negue, que o pulso denuncia-o". E falava quase sempre to ao
certo que passava por adivinho. E da o conceito pblico, mui grande clnica, e dinheiro
a rodo. Um seu colega, mdico de nome e charlato professo, vizinho e amigo dele,
disse-lhe um dia "O senhor, que  ilustrado e digno, deve saber que eu sou uma das
duas coisas, ou muito bruto ou muito infeliz. Temos ambos o mesmo ofcio e
comeamos a praticar ao mesmo tempo. O senhor ganhou celebridade e riqueza; e eu...
ningum sabe o meu nome, e tenho apenas o triste rendimento quotidiano da minha
pobre famlia. Em nome de Deus lhe rogo que me ensine uma diminuta parte do
processo que o faz adivinhar; que com isso me far feliz".
* Vizinho - respondeu o Machuca - eu no adivinho. - Mas, condodo das
lstimas do outro, lealmente lhe declarou que todo o seu saber consistia em certa.41
perspiccia, tino e habilidade no descobrimento de certas coisas que somente os
ignorantes podiam imaginar extraordinrias. E acrescentou:
"Entro no quarto de um doente; suponha que  uma rapariga incapaz de observar a
severa abstinncia que lhe prescrevi; por acaso descubro ao p de seu leito um caroo de
azeitona ou a tona de uma laranja: tomo-lhe o pulso, e digo-lhe que ela comeu isto ou
aquilo: adivinho; ela nega; mas no seu ar perturbado est a confirmao; insto, ela
sucumbe, confessa o facto, cuida que adivinhei, e divulga o caso. Os outros sucessos de
que o colega me fala so to simples e naturais como este".
O charlato replicou: Agora percebi o seu segredo; espero sair-me bem.
Muitssimo obrigado. Eu lhe darei notcia dos meus progressos.
"Sai o homem de casa do conselheiro, e topa uma consternada mulher que o
chama para lhe ir ver o marido que tem febre. Segue-a, e encontra um homenzarro,
prostrado na cama, a queixar-se de violentas dores de cabea. Senta-se o mdico, toma-lhe
o pulso; e observando que debaixo da cama est uma pouca de erva, diz ao doente
que ele comeu muita erva, e por isso est mal.
* O sr.  um bbado! - exclamou o doente. - E voc  uma besta que come erva!
* retruca-lhe o doutor. - O enfermo irrita-se, esquenta-se, e diz-lhe que a mulher no
topou mau burro na rua. Sustenta o doutor que burros so os que comem erva. O doente
enraiva-se, salta da cama j curado pela ira, a mulher faz coro com ele, saltam em cima
do mdico, e pregam-no de trambolho no fundo da escada. Com a espdua contusa, o
adivinho infausto foi contar o xito ao colega. Divulgou-se a desgraada aventura, e
todos zombavam do charlato."25
Conhecedor dos mdicos e do pas, Isaac Eliot, aconselhando  toa o leite de
jumenta no maior nmero das enfermidades, dizia com protervo sarcasmo que os
portugueses deviam ser curados com remdios extrados dos seres da sua mesma
espcie.
Isto dizia ele ao seu patrcio Estienne que ento fabricava em Lisboa uma
beberagem de virtudes medicatrizes universais: chamava-se a panaceia - gua do
francs, e o francs provavelmente chamava-lhe gua do chafariz. No quero dizer que
esta medicina fosse a preexistncia da homeopatia; porm, menciono o caso em
confirmao dos elogios que respeitveis autores fizeram aos predicados medicinais da
gua do poo do Borratm, do chafariz d'el-rei, e vrias outras bicas. 26
25 Oeuvres Mles, ou Discours Historiques, etc. Londres, 1751, T. I, pg. 66 e seg.
26 Nota 9..42
X
No est bem lquido, se por gratido s pastilhas, se a rogos do conde do Rio e
do doutor Xavier, o mdico Eliot foi nomeado cirurgio-mor do exrcito, com patente
de coronel de cavalaria. Os mdicos mais distintos de Lisboa, no podendo desabafar
nos prelos, sarjavam a reputao do forasteiro, alcunhando-o de huguenote.
Avantajavam-se na maledicncia e nos crditos Simo Filipe, Manuel da Silva Leito, o
autor do citado Regimento de Paridas, oferecido  sempre Virgem Me de Deus, e Jos
Rodrigues de Abreu, mdico da cmara del-rei, e bom cultor das cincias naturais. Na
retaguarda destes, latia e uivava a cainada mida da matilha dos sangradores. Eram
razoveis as queixas. Homens encanecidos nos hospitais, bons cristos, autores de livros
in-flio e at inventores de remdios para flatos e hemorridas, moirejavam a vida com
uns safados cobres, ao passo que o calvinista, estrangeiro, quase imberbe, era
despachado cirurgio-mor do exrcito, chamado s casas mais distintas, relacionado
com os mais luzidos fidalgos, e at - suprema prova da real confiana - chamado a
Odivelas para medicar soror Paula Perestrelo.
Na volta do convento, perguntou-lhe o doutor Xavier:
* Que tem soror Paula?
* Cimes - disse Eliot.
* Que lhe receitou, doutor?
* A outra receitaria eu amores novos.
* E a ela?
* Pacincia.
* Como lhe atinou com a molstia?
* Porque no tinha outra. Languidez, fastio, quebreira, olheiras, suspiros, pulso pirtico, espreguiamentos histricos - no h que ver: cimes.
* E disse-lhe ento o doutor: tenha pacincia, madre?
* No, senhor, receitei-lhe gua de flor de laranja, que  o mesmo que dizer-lhe:
madre, tenha pacincia. Estava com ela outra freira, que me pareceu realmente enferma.
Perguntei-lhe que sofria. Nada - respondeu ela. "Esta menina -disse D. Paula -  um
anjo de bondade que nunca se queixa. H-de morrer sem incomodar os mdicos". A
freira sorriu-se com a amargura santa das formosas infelizes, e murmurou "No quero
que se enganem, nem que me mortifiquem com os seus xaropes". E eu...
* Sabe como se chama essa religiosa? - interrompeu o doutor Xavier com refreado alvoroo.
*  Catarina, porque ouvi dizer a D. Paula: " Catarina, este mdico foi o que amputou a perna do Xavier?
* E ela?
* Ela... qu?
* Que disse?
* Nada..
* Absolutamente nada?! - repisou o padre Francisco, passando a mo convulsa
pela fronte avincada.
* Essa sua insistncia... esse gesto, doutor, tem mistrio!...
* Uma simples recordao penosssima... - dissimulou o mutilado. - Eu conheci
essas senhoras, quando era moo e feliz. Elas conheceram-me nesses dias em que o cu
e a terra pareciam desentranhar-se em delcias para mim. Quisera e esperava eu que
nesta desgraa a que vim, me lastimassem ao menos, e lhe perguntassem se o meu rosto
alguma vez estava enxuto de lgrimas. Aqui tem o mistrio, sr. Isaac Eliot..43
- O mundo  assim... - decidiu o francs.
* Ainda  bonita? - volveu o padre, passados alguns segundos, com sossegado
semblante.
* E h-de morrer formosa. Nos olhos tem as cintilaes da febre. A epiderme 
transparente, com uns laivos de prpura, em que eu vi o crepsculo do sol que se
esconde. Por baixo e  volta do rubor febril est o emaciado, a morbideza de lrios
murchos, a transio para o palor da noite eterna. Mas que maviosidade, que langor, que
descair de plpebras! Eu nunca vi mulher enferma que tanto desejasse salvar!... Est
chorando, doutor!? que  isso?
* Conheci-a to bela, to cheia de vida!... V? eu no queria que ela assim chorasse por mim, no: mas que, ao menos, se compadecesse...
* Aquelas doenas obliteram a memria, gelam o sentimento, e prostram os
doentes numa indiferena quase idiota... Hei-de falar-lhe do sr. dr. Francisco Xavier...
O padre ergueu-se de golpe, e exclamou:
D-me a sua palavra de honra que no lhe falar de mim! - E, retraindo-se, como
corrido do transporte, cobriu o rosto com as mos e murmurou: - Eu bem queria
morrer... Tinha calculado tudo isto... - Composto o aspecto, prosseguiu com solene
serenidade: - Torno a obrig-lo pela sua palavra de honra que no dir  sr D. Catarina
alguma das palavras que me ouviu.
* Basta que mo ordene;  desnecessrio o penhor da honra no cumprimento de um
dever.
Da a dias, a enferma de cimes mandou chamar o doutor Eliot. Estava Catarina
na antecmara da freira, onde os mdicos eram recebidos. Soror Paula Perestrelo, bem
que abeberada em essncias de flores de laranjeira, piorava. Queixava-se de frenesis.
Mirava-se nos espelhos que forravam as paredes, e dizia que estava tica. Punha as
pontas afiladas dos dedos sobre o corao, e murmurava: "est aqui a morte". Puxava
umas aspiraes convulsas, e levantava-se a sorver haustos de sr. Eliot, com o fim de
lhe distrair o nimo, contou novidades. Referiu o caso do infante D. Francisco e dos
ciganos. O infante andava caando no Alentejo, e afastou-se da comitiva.
Embrenhando-se em um matagal deu de rosto com uma jolda de ciganos, que o
cercaram, pedindo-lhe alguns cruzados. D. Francisco respondeu-lhe que coisa de valor
no tinha ali seno um assobio de prata. Gabaram-lho, e puseram-se a assobiar to alto
que a comitiva do infante correu para o ponto  desfilada. Os ciganos queriam fugir;
mas o infante matou trs  espada, fez amarrar os outros, e mandou-os enforcar...
* Jesus! que crueldade! - exclamou Catarina. - Que mal lhe fizeram ao sr. infante
para assim os matar?
* Menor mal lhe fez o marujo que marinhou pelo mastro para lhe dar vivas, e o sr.
D. Francisco lanou-o abaixo morto com um tiro - acrescentou D. Paula que participava
do dio de D. Joo V ao celerado duque de Beja.
* No contem essas coisas que me afligem! - pediu a Muleirinha, contraindo as
faces.
Divertiu o mdico a ateno para novidades da corte, ressabiadas de galanteria.
Tinha estado no sarau do conde de Tarouca, apresentado pelo seu amigo conde do Rio
Grande. Viu danar minuetes a vrias damas, e nomeou como superior a todas D. Lusa
Clara de Portugal, sobrinha do conde de Castelo Melhor.
Soror Paula carregou o sobrolho, e perguntou:
* Dana bem?
* Perfeitamente.  muito linda senhora...
* E promete lindas coisas essa danarina... - ajuntou a freira.
* Pois cuidei que... - volveu Eliot..44
* Que cuidou, doutor?
* Que era o anjo da candura... Tem quinze anos... uma fisionomia infantil...
* El-rei falou-lhe nela?
* A mim?! sua majestade no me honra tanto que me faa confidente dos seus juzos a respeito das fidalgas da sua corte...
* Pois... - replicou a filha de S. Bernardo - cuidei que a paixo faria el-rei indiscreto...
Corao proftico de mulher que ama! Aquela D. Lusa Clara de Portugal era
grande parte nas congestes, por cime, de soror Paula. O rei gabara-lha como jia
incomparvel, e mais nada. Era ento solteira. Casou cinco anos depois com D. Jorge de
Meneses; e, do mesmo passo que dava filhos ao esposo, tambm, por liberalidade
fecunda, os dava ao rei. Chamou-se a Flor da Murta. E, se o esposo acabou da paixo
do seu oprbrio, em 1735, na quinta de Ferrugem, a sua viva teve a dita de ver dois dos
seus reais pimpolhos muito bem arranjados: um, que era D. Gaspar, foi arcebispo de
Braga; outro, D. Jos de Bragana, foi inquisidor geral.
A freira de Odivelas tinha alma intuitiva como os nervos que pressentem a
trovoada, quando no aponta ainda uma nvoa no espinhao das serras. Quem lhe disse
que a jia incomparvel viria a engastar-se no seu diadema de sultana aposentada?
Saiu a Perestrelo precipitadamente da antecmara com um dos tais frenesis,
dizendo que tinha preciso de correr, correr muito. O doutor achou-a linda naquela
doena em que o menear-se mui sacudida e nervosa lhe ia muito bem. Verdade  que o
francs achava todas as mulheres lindas, as ss e as doentes, as alquebradas e as
danarinas.
D. Catarina ficou fazendo sala a Eliot; e com inquieto receio, lhe perguntou se a
sua amiga poderia enlouquecer. E contava que ela tinha uns ataques em que chorava e
ria, debatia-se, revirava os olhos, ringia os dentes, agadanhava o espaldar do leito, e
ficava por morta...
* No se assuste, minha senhora - esclareceu o mdico.
* Esses insultos nervosos h-de cur-los a munificncia del-rei com medicamentos que ns, os mdicos, no podemos receitar.  Catarina abaixou os olhos, e sorriu.
* E como tem passado V. S, desde que eu c estive? - perguntou o doutor.
* Bem.
* Permite-me que lhe tome o pulso?
* O pulso!... - disse ela, estendendo-lhe o brao. - Que faz o pulso?
* No pulso contam-se as pulsaes do corao, minha senhora.  aqui onde a morte diz ao mdico a distncia a que est da sua vtima.
* Est perto de mim?
* No, minha senhora... Est longe; mas eu receio que seja V. S que se avizinhe
dela.
* Receia?... Pensa bem... No lhe fujo, no...
* Deve ter famlia, minha senhora...
* Tinha me, que morreu h dois anos. Porque mo pergunta? - disse ela com a
angustiosa suspeita de que o doutor lhe soubesse a vida, confidenciada por Francisco
Xavier.
* Parecia-me que a sada do convento, outros ares, famlia, liberdade, campo, uma
natureza menos artificial, relva em lugar de tapetes, rvores em lugar de espelhos e
arrases, cu em lugar de tectos artezoados, aromas de flores em lugar dos pivetes e
caoulas que rescendem nesta casa... enfim, uma completa mudana de viver...
* No tenho ningum l fora que me ame nem que eu ame. A minha amiga nica.45
 Paula. Se ela morrer, estou de todo sozinha. Deus me leve adiante.
Ficou silenciosa. Isaac Eliot contemplava-a com unia compaixo mais atenta que
o amor.
* No disse Paula que o sr. doutor... - Catarina, que principiara a pergunta com
veemncia, reteve-se.
* Que eu... - instou o francs.
* No sei que lhe queria perguntar - tergiversou ela; mas, obedecendo ao
reimpulso, completou a ideia. - Ah! sim... Disse Paula que o sr. doutor salvara da morte
um homem ferido na batalha naval...
* O doutor Xavier? Sim, minha senhora. Salvei-o, perdida uma perna.
* E ele... vive muito triste, nesse estado?
* Magnanimamente infeliz.  a desgraa que chega a parecer bela na serenidade,
na pacincia, na mudez eloquente do exemplo aos que se revoltam.
Catarina escutava-o absorta, quando soror Paula entrou.
Isaac Eliot ergueu-se  chegada da freira, tomou-lhe o pulso, e disse:
* Est melhor, minha senhora, Retiro a gua da flor da laranja.
* E que hei-de tomar, doutor?
* Ar; mas depressa, a correr. Faa de conta, minha senhora, que o ar  o amor para
o qual vamos aceleradamente...
* O ar  o amor? e o amor  ar, penso eu... Quer ento que eu corra?
* Como quem foge de um fantasma; porque a molstia de V. S  um fantasma,
uma falsa viso como a dos cimes...
* Dos cimes?
* Injustos, infundados, caprichosos, miragens funestas que se figuram aos coraes muito contemplativos e abstrados das coisas reais.
* Ento... persuade-se...
* Que V. S  ingrata quando sofre, porque faz sofrer quem lho no merece.
...........................................................................................................................
...........................................................................................................................
Referindo soror Paula estes dizeres ao rei amado e amantssimo, D. Joo V gostou
tanto do francs que resolveu agraci-lo com hbito e tena de cavaleiro professo na
ordem de Cristo..46
XI
Por este tempo foi despachado desembargador para a ndia Paulo Xavier. Quis
recusar por amor de Antnia; mas o padre despersuadiu-o, raciocinando que a menina
carecia de alguma educao em companhia de famlia hbil; que, no fim do seu trinio,
Paulo voltaria desembargador para o reino, e ento encontraria a menina com dez anos
de idade e j bem encaminhada a uma perfeita educao que lhe fosse realce ao grande
patrimnio. Lanou o desembargador inculcas, e descobriu famlia virtuosa, em que
havia uma senhora muito prendada de quem algumas meninas da primeira nobreza
recebiam lies de francs. O chefe da famlia chamava-se Heliodoro Pedegache, era
empregado na ndia e Mina, e casado com a tal dama de cujas prendas e virtudes
soavam, grandes louvores.
Foi Paulo Xavier com recomendaes valiosas procurar o Pedegache. Disse-lhe
que, tendo de servir trs anos em Goa, no queria expor a sua filha nica aos
padecimentos e incertezas de to demorada viagem para um clima doentio. Pedia-lhe
instantemente que lha recebessem como aluna, porque ela no tinha seno remotos
parentes,  excepo de seu tio, o padre doutor Francisco Xavier, que vivia aleijado e
hspede do conde do Rio Grande. Que o tio de Antnia iria v-la algumas vezes, e
gratificar o impagvel servio que faziam a um pai extremoso e a uma filha orfanada de
me.
O separarem-se foi lance doloroso. Antoninha abraava-se no tio, desfeita em
lgrimas, bradando que nunca mais veria seu pai. O padre Francisco Xavier, que assistiu
 despedida, e se esforava por consolar a menina, foi recebido e quase repelido
desabridamente. E quando a senhora Pedegache, na ausncia do consternado padre, lhe
insinuava que repartisse com o tio o amor que tinha ao pai, Antnia respondia que
nunca pudera afazer-se ao tio Perna-de-pau.
 sangue, como tu gritas!  homem, que impostor e inquo s tu, negando-te de
primo-co-irmo do macaco! No vs que te avantaja em dom de palavra o que te
escasseia em instinto filial? Se te no mostrarem teu pai, passars por ele, como ele por
ti, se a roda lho cuspiu  lama que pisa. Desce do vrtice da pirmide em que te
aclamaste rei da criao, e olha-me por essa espiral abaixo as simpatias instintivas que
entreligam filhos e pais!
Assim declamaria o doutor Xavier quando a filha, dando as costas com
arremessos aos seus carinhos, segredava ao tio:
* Meu pai, no me deixe, leve-me consigo que eu morro de saudade!
* C te fica o tio padre que te quer muito...
* Que me importa a mim o tio padre... - soluava a filha de Catarina de Castro.
Francisco Xavier passou este dia muito atribulado. Saudades do irmo e o
desamor da filha, com o acrscimo das novas tristes que o mdico lhe trouxera de
Odivelas.
Ao outro dia contava Eliot a Paula e a Catarina que o doutor Xavier passara a
noite ansiadssimo, e o no dispensara de lhe fazer companhia at de manh.
Historiando o motivo desta mgoa sobrevinda a tantas e tamanhas, disse que um irmo
do doutor embarcara para a Relao da ndia, e deixara entregue  vigilncia do padre
uma sua filhinha.
* Era casado o irmo? - perguntou Catarina.
* Eu no sei, minha senhora, se foi casado. Sei que a menina j no tinha me.
* Que idade tem? - tornou a religiosa.
* Sete anos ouvi dizer, e  muito bonita..47
* Viu-a?
* Sim, minha senhora.
* Onde?
* Em casa do conde do Rio, onde ela vinha todas as semanas com o pai visitar o
tio, que parecia adorar a criana. A primeira vez que a pequena viu o tio com a perna de
pau, recuou espantada, fugiu para o pai, e rompeu em alto choro, que eu cuidei ser de
compaixo; mas parece que era de medo. O padre perguntava-lhe cariciosamente se
gostava dele, e a Antoninha respondia que s gostava do pai. Isto desconsolava-o a
termos de lhe saltarem as lgrimas. E quer-me parecer que as agonias desta noite
prendiam com o desafecto da menina, porque ele, contando-me as particularidades da
despedida, a falta que lhe faz o irmo, e o pressgio de mais o no ver, ajuntou que nem
ao menos lhe restava o doce esteio do corao da sobrinha.
Catarina recolhera-se em taciturnas cogitaes. Soror Paula, ferida das mesmas
suspeitas da sua amiga, desejava esclarecer alguma vereda que a conduzisse ao mistrio,
mas via raio de luz. Isaac Eliot no sabia mais nada nem no rastreava o interesse
reservado da amante del-rei. O mais que adiantou foi que a menina entrara como
educanda em casa de um tal Heliodoro Pedegache, casado com uma matrona muito
prendada que falava francs e que havia sido, em menina, aia de Mademoiselle Ana
Armanda Duverger, amante do sr. D. Pedro II. 27
Logo que ficaram sozinhas, Paula, olhando muito a fito a amiga, murmurou como
se receasse que a ouvissem:
* Eu estava no teu corao, Catarina... Tive a mesma suspeita... Ser tua filha?
* Ah! tu, Paula!... tambm desconfiaste?!
* Logo; e no te sei dizer por que... Assim que o doutor te disse que a menina
tinha sete anos... E depois as angstias de Francisco Xavier, imprprias e desnaturais
em um tio que viveu sempre apartado da sobrinha... No achas?
* Mas... no posso acreditar... - acudiu a religiosa - Se fosse minha filha, ele
tinha-mo feito saber... havia de querer que eu o no considerasse to vil, to sem
entranhas que enjeitasse a minha filha...
* Isso no me despersuade... O que me aflige  ver tudo cerrado... no sei por
onde hei-de chegar ao desengano... E, se no nos enganarmos, filha... se for ela? que
fazes?
* Se a poder ver, se a poder beijar no morro... Vers...
* E, se ela te repelir como repele o... pai?
*  impossvel!... uma filha repelir sua me!...
* Jesus! h tantos exemplos!... No h a uma fidalga que seja amada dos filhos.
Entregam-nos s amas, e afastam-nos das salas para no incomodarem as visitas nem
mancharem os tapetes. As crianas, aos seis anos, s conhecem e verdadeiramente
amam as amas e as aias que lhes acalentaram o choro com brinquedos, e lhes
encobriram as travessuras para que as mes as no castigassem mais por aborrecimento
que por educao.. Depois, as crianas fazem-se mulheres, e escondem-se das mes para
verem e conversarem os futuros maridos. Se so homens, preferem o engodo da mais
baixa libertinagem  glacial serenidade da vida domstica. No te espantes, pois, se tua
filha, que nunca te viu, te repelir. E de mais, tu decerto lhe no dirs que s sua me...
* No decerto...
* Portanto, se ela existe, e chega a ver-te, faz de conta que viu uma senhora muito
carinhosa, que nunca tinha visto...
* E, se o corao lhe disser...
* Valha-te a Virgem dos Impossveis! o corao no diz nada; o mais que faz 
27 Nota 10..48
repetir o que lhe dizem. Deixa-me cismar... D-me tempo. Isto no h-de ficar assim...
Mas tem muito melindre o negcio, no tem, filha? Primeiro que tudo,  preciso salvar a
tua honra; porque ningum te perdoa, sendo o teu amante, hoje em dia, um sacerdote
apartado do mundo, sem nome, nem glria de ter perdido uma perna. Deus nos livre que
estas serpentes de Odivelas pudessem enroscar-se-te ao pescoo! Afogavam-te com a
espuma das goelas peonhentas! Olha a Pimentona, (soror Paula variava entre
Pimentona e Pimentorra, quando falava de Pimentinha) amarrava-te ao pelourinho do
escrnio pblico, visto que no pde fazer-te deslocar os ossos no cavalete da
Inquisio. Estas santas empurravam-te para a rua, e atiravam com o teu desdouro  cara
do rei, que as obrigou a voltar para aqui a pontaps dos quadrilheiros do corregedor. 
precisa muitssima astcia nas tentativas que se fizerem. Deixemo-nos de modstia: eu
sei que tenho gnio para gizar os mais complicados tramas; confesso, porm, que desta
vez me sinto estpida como a nossa madre abadessa.
Soror Paula meditou o que quer que fosse, atingindo duas empresas. Primeira,
indagar nas terras onde Paulo Xavier serviu lugares da magistratura, e particularmente
em Cho do Couce, se ele tinha uma filha legtima ou ilegtima de me mais ou menos
conhecida.
Quanto  legitimidade, asseverava Catarina que Paulo era solteiro, quando
Francisco Xavier, em Verride, recebeu a filha; e, se casou depois - concluiu a freira -
esta menina no pode ser filha dele.
A segunda empresa, dado que a primeira sortisse a certeza de que a menina era
filha de Francisco Xavier, seria trocada depois, quanto  maneira de aproximar Antnia
de Catarina.
No plano da ladina religiosa, Isaac Eliot havia de prestar inconscientemente
servios preciosos, respondendo a certas curiosidades muito de indstria pensadas com
ressalva da menor presuno do intento.
Este elemento do seu desenho falhou.
Falecendo o pontfice Clemente XI, naquele ano de 1721, D. Joo V ordenou que
se aparelhasse uma nau para levar a Roma, a votarem no conclave, os cardeais Nuno da
Cunha e Pereira de Lacerda. A ostentao desta mensagem custou a Portugal dois
milhes de cruzados, diz o visconde de Santarm, elogiando a liberalidade rgia 28 ,
Como os seus enviados levavam misso de aliciar cardeais no sufrgio de um
determinado papa, deu-lhes o rei dois caixotes de barras de ouro para a veniaga. A
baixela que foi para bordo era de prata e oiro. S de pratos cinquenta dzias. Na
companhia dos cardeais, que receberam cinquenta mil cruzados cada um para ajuda de
custo, iam outros funcionrios, e entre estes, como fsico-mor, Isaac Eliot, escolhido
pelos cardeais. O que recebeu menor esprtula  sada foi um ajudante de cozinha a
quem couberam vinte moedas, isto num tempo em que se decretava para um lente de
medicina no hospital real um tosto por dia.
Francisco Xavier, afeito  convivncia do seu mdico, e to amigo dele quanto
cabe ser a homem sequestrado do mundo, magoou-se do apartamento, e delicadamente
motivou a sua dor com a soledade, desamparo, e misantropia em que o deixava. No
pde, todavia, o cirurgio-mor do exrcito esquivar-se  soberana vontade. Queria o rei
que o mdico dos seus cardeais se empavonasse em Roma por dotes de galharda
presena, e pelos crditos da profisso. Alm disso, o cardeal Cunha julgava-se escape
da morte pela virtude de uma burra que o aleitara, receitada por Eliot; e pelo tanto no
prescindia de levar o medico.
Na tristeza do padre era grande parte no ter novas de Odivelas. O conde do Rio
envelhecera mordido de contrio das suas culpas. Era o costume. Lograr Satans no
28 Visconde de Santarm. Quadro Elementar das Relaes Polticas, etc. T. V "Introd." pg. CCLVII..49
fim. Fazer-lhe como o sujeito do Garrett. Meter a parte exposta na benta gua, e dizer:
Agora, seu diabo,
Venha para c, se  cavar!
No queria ouvir falar de freiras, e louvava o silncio penitente do seu hspede a
respeito de Catarina que, ao parecer do reformado libertino, devia andar de amores com
algum dos perdidos que l se infernavam naquele viveiro de tentaes. O doutor
escutava-o constrangido, e dizia-lhe:
* Se ela  pecadora, perdoemos-lhe, sr. conde, para que Deus nos perdoe.
* Amen - obtemperava o outro bastantemente ungido de caridade..50
XII
Os recursos inventivos de soror Paula, desta vez, surtiram planos to triviais na
indagao da filha de Catarina que, s primeiras tentativas, se malograram.
Uma criada, dentre as seis brancas e cinco negras do servio da moreninha
Perestrelo, era da vila, onde, ao tempo que Catarina foi me, estava o juiz de fora Paulo
Xavier.
Partiu a criada para Cho do Couce a cumprir unia misso cujo alcance no
entendia.
Facilmente descobriu que o juiz de fora tivera consigo unia filha, e a ama que a
criava; mas, como a ama era desconhecida na terra e muito bem encarada, supunha-se
ser a me da criana. Outros diziam que uma fidalga da casa da Melroeira namoriscara o
doutor, e... etc. Prosseguindo nas averiguaes, o agente da criada descobriu dois
assentos de baptismo, com intermisso de trs anos. No primeiro, Antnia Joaquina era
filha de pais incgnitos, e afilhada de Paulo Xavier. No segundo, Paulo Xavier era o pai.
Alm disso, na nota de um tabelio existia lavrada a cpia de um alvar de perfilhao,
com outras declaraes do juiz de fora nomeando a sucesso dos seus bens havidos e
por haver em sua filha Antnia Joaquina Xavier.
Volveu a criada com semelhantes informaes ao convento. Soror Paula aceitou-as
como decisivas; mas Catarina instava em dizer que a menina era sua filha.
Cogitavam ambas em renovar as pesquisas  custa da reputao da fidalga da
Melroeira, quando D. Paula Perestrelo recebeu uma carta, de letra contrafeita no
sobrescrito, incluindo outra para soror Catarina Lusa de Miranda e Castro..
* Uma carta para ti, minha filha! - exclamou Paula.
* De quem!?
E, reparando nos caracteres, fez-se escarlate, alvoroou-se como quando recebera
a primeira carta com aquela letra, e murmurou com susto:
*  dele...
* Do Xavier?!
* Sim... Abro, Paula?
* Seno, abro eu. - acudiu a outra.
Catarina deslacrou-a a tremer, e leu:
"Ouvi dizer que desejas morrer, e que a mo abenoada da morte j pousou no teu
seio. Sei que ainda choras. Saudades, oh Catarina! saudades daquela alma alegre,
daquela tua mocidade que eu abati comigo a este abismo? Desce a este inferno. Vem ver
o que eu fiz de mim em expiao do mal que te fiz. Vem ver os trinta anos de Francisco
Xavier. Para que no morras sem f na Providncia, vem at aqui com o teu esprito.
Vers como Deus castiga. Se me odeias, irs vingada, irs compadecida! irs desta vida
com a esperana de que Deus permite o algoz porque tem recompensas que dar  vtima.
"Ouviste o meu nome e as minhas desgraas sem comoo. Era justo. Reconheci
a justia desse desprezo, no mando afrontar o teu martrio com o meu nome. Eu me
confesso infame diante de Deus e de ti, desde aquela hora em que pus de permeio 
minha desgraa e  tua o meu hbito de monge, e fiz da cruz de Cristo a ncora da
minha egosta salvao, quando tu soobravas na tormenta. Como no havia Deus
repelir-me da casa dos fortes que deixaram o mundo quando nenhuma desgraa os
afugentara? Fui repulso pela conscincia de minha enorme vilania. Ca de vergonha
quando me vi hipcrita para dissimular a honra do hbito, que era para mim a tnica do
condenado. A minha f apagou-se, quando no pude orar por ti. Enquanto julguei que
eras morta, as lgrimas ungiam-me a santidade da orao. Desde que me deram a nova.51
de tua vida, medi a profundeza de teu dio; e, como j no te via no cu para me
perdoares, e no sabia mentir desculpas  tua misericrdia, apertei a mordaa da minha
ignomnia. Aqui tens o meu silncio, Catarina. Eu no podia dar-te outra prova de
respeito, no me restava outra dignidade nesta irremedivel misria.
"Porque te escrevo hoje? se eu fosse, aos trinta anos, um homem com o vigor de
corpo e alma, com a vida retemperada pelo remorso reparador, no te escreveria. Sou
um velho encanecido, aleijado, repelente, inspirando a quem me v a compaixo que
pedem,  beira dos caminhos, os mendigos mutilados. Escrevo-te, porque nunca
recears que um homem, que a si se v esqulido, use a desvergonha de implorar outro
afecto que no seja o da caridade,  o que te pede o homem no de todo degradado
enquanto conservar na alma a lembrana de que foi honrado pelo teu amor. Se tens de
morrer antes de mim, quero que me absolvas do nico delito que no tenho, Catarina,
embora leves desta vida a dolorosa certeza de que deixas aqui uma filha..."
A religiosa expediu um ai, retraiu para o peito a mo em que tinha a carta, e com a
outra apertava convulsa o brao de Paula. O gesto  indescritvel, porque mal pde
bosquejar-se a expresso pvida dos olhos, o tremor dos lbios entre-abertos, os revezes
de rubor e palidez que de instante a instante lhe demudavam o semblante.
A Perestrelo tomou-lhe a carta da mo e, atentando no perodo que ouvira ler,
disse:
* No h dvida...  tua filha...
* O qu? - perguntou Catarina.
* Deixa-me ler o resto, que eu estou a recear que no percebssemos bem.
E leu:
"No a deixes nos meus braos de pai, porque ela me no d este nome, no me
conhece, repele-me como eu a repeli. Quando me viu, pela primeira vez, estava eu
amortalhado no meu hbito. Teve pavor do meu aspecto. Se lhe dissessem que eu era
seu pai, esta palavra seria v e ininteligvel em sua alma.. Pais so os que bebem as
lgrimas das criancinhas desde os primeiros vagidos. O homem que ela estremecia com
invejadas carcias, chamando-lhe pai, era meu irmo Paulo. E, no futuro, se algum
insinuasse, como ultraje, a esta criana que  minha filha, a igreja desmentiria a injria,
mostrando que Antnia foi baptizada como filha de Paulo Xavier, e legitimada para lhe
suceder nos avultados bens.
"A tua filha nunca te ser labu nem embarao, Catarina. Nem ela nem o mundo
saber quem  sua me.. Se pudesses viver engolfada nos deleites, nunca deveras temer
que o remorso te aparecesse vingativo com tua filha, pela mo. No a vers. Eu nunca
lhe vedaria que te visse; e, se ela pudesse amar-te quanto me aborrece a mim, cuidaria
eu que Antnia, chorando no teu seio, te pedia o perdo de um qualquer desgraado sem
nome, que devia ser eu.
"Digo-te que a no vers, porque te aconselho que a no vejas. No exponhas o
peito ao penetrante espinho da indiferena com que ela contemplar as tuas feies
estranhas. Se lhe pudesses chamar "filha", talvez ferisses a corda intacta do corao
onde nunca tal palavra soou; mas esse nome no lho dars, por amor  tua honra, e por
amor da mesma criana. Se a reconhecssemos, seria para lhe deixar legado de
oprbrio. Que ela nunca saiba que sua me era freira, e que seu pai, degenerando em
asctico fanatismo os generosos sentimentos de homem, chorava no estril cho do
Varatojo as lgrimas que eram de sua filha, e tuas, minha vingada vitima!
"No tem resposta esta carta, Catarina. Queima-a. Responde-me no silncio da tua
cela, com estas palavras: "Faltou aos teus crimes o de atirares tua filha  roda. Puderas
estrangul-la, submergi-la, e no o fizeste. Ainda bem que nos suplcios da tua agonia.52
derradeira no entrar esse remorso". Adeus! Perdoa-me, se esta carta  mais um trago
de fel que eu verto no teu clix. Ajoelha, minha adorada e santa sombra do passado,
ajoelha, e oferece a Deus esse clix em redeno do teu verdugo"..53
XIII
Catarina, ponderando as razes que Xavier, mais ou menos sinceramente, lhe
prescrevia para no responder  carta, achou-as judiciosas. No respondeu. Em parte
sacrificou a piedade ao dever; mas a explicao complexa do seu silncio  outra. No o
amava. Lastimar e amar, no corao da mulher, implicam.
Isaac Eliot, falando do seu amigo, deplorava-o, porque era pena ver assim tolhido
um homem to no vigor da idade, porque no tinha uma perna, porque parecia ter
cinquenta anos, e at pela prodigiosa arte com que simulava resignao. Isto comovia;
mas estremava dois homens: o elegante e juvenil Francisco Xavier do amor, e o
amputado e envelhecido Francisco Xavier do arrependimento. Ora, a freira no podia
consubstanci-los no mesmo homem - confundir compaixo com amor.
Apesar da enorme culpa de a levar do convento com promessas de no a expor 
vingana dos inimigos - apesar das angstias do crcere e das afrontas que a receberam
no mosteiro, se Eliot, em vez de comiser-la, a enfurecesse contra o doutor Xavier
gentilssimo, dissoluto, amado das mulheres conhecidas, hoje apaixonado, amanh
saciado, sempre no abismo do mal, mas com muitas vtimas voluntrias  competncia
de o distrarem na sua caverna e de carem com ele pelo mesmo alapo do inferno - se
o mdico lhe pintasse desta arte o pai de sua filha, no se me dava de apostar que a
Muleirinha perdoava ao ingrato celerado, e amava o amante arrependido. Aleijes do
pecado original.
A filha, sim. Desse amor ideal sentia a freira as nsias, a vaga ternura, o instintivo
arfar da maternidade.
E soror Paula prometera-lhe que veria a filha naquela sala, e sentada na cadeira
em que ela estava.
No dia seguinte  primeira noite que D. Joo V visitou o palacete de Odivelas, um
fidalgo do pao procurou D. Feliciana Pedegache, a hospedeira e mestra de Antoninha;
e, reservando o nome de seu augusto amo, disse que uma pessoa da mais alta jerarquia
desejava que uma senhora religiosa em Odivelas aprendesse a lngua francesa, O
mensageiro reconhecia o incmodo que da provinha a D. Feliciana; mas contentava-se
com duas visitas semanais  leccionada, para o que, nos dias e horas designados, estaria
uma sege do pao s ordens de sua merc. D. Feliciana percebeu logo quem era a aluna.
Deu-se os parabns do convite, agradeceu com transporte a honra da escolha; e, apenas
o camarista saiu, agourou ao marido que lhe havia de pender do colo a fita do hbito de
Cristo. Foi dia de jbilo na casa de Heliodoro Pedegache. Mandou-se recado s rela-es.
Deu-se a nova. Serviram-se bolos, maapes e carcavelos a granel.
* Vais ver soror Paula! - diziam-lhe as irms - Temos-te inveja! A casa dizem que  um paraso celestial.
* Com uma grande serpente - acrescentou um rapaz de dezoito anos, sobrinho de
D. Feliciana.
* Que  isso, Andr? - acudiu a tia.
* Disseram que vossa merc - respondeu o moo - vai ao paraso celestial; e eu
acrescentei que h nesse paraso uma grande serpente, como j houve outra no paraso
terreal.
* Modera a lngua, rapaz - interveio a me.
* Estes estudantinhos de hoje em dia so atrevidos e repblicos - observou Heliodoro Pedegache, o esperanado cavaleiro de Cristo.
O estudante sorriu-se e continuou a regrar o papel que Antoninha lhe pedira para
escrever o seu traslado. Era Andr Guilherme, trs vezes por semana, o encarregado de.54
dirigir OS trabalhos caligrficos de Antoninha, a pedido de sua tia.
A me, as tias e as irms, respeitavam no rapaz a austeridade precoce, a sisudeza
desnatural na idade, as falas raras e sentenciosas. Saa da aula de filosofia para a de
grego, e da para o seu quarto a conversar os livros. A sua nica e aprazvel diverso era
dialogar infantilmente com Antoninha, e v-la adiantar-se maravilhosamente na escrita
e leitura. Andr esperava os vinte anos para professar na ordem da Santssima Trindade
e redeno dos cativos, O seu propsito era sair do reino, depois, e exercitar o instituto
da sua humanssima ordem na moirama.
Antoninha chamava-lhe o seu mestre, era-lhe muito afeioada, e esperava-o
infantilmente alvoroada, nos dias da lio.
* Estou a ver - dizia D. Feliciana ao esposo - que, se a pequena se faz mulher enquanto ele se no faz frade... onde iro dar estas ternuras...
* Quando Andr Guilherme entrar no convento, ainda ela  criana - observava o
sisudo marido.
Mas no descambemos da linha recta que nos leva a Odivelas no encalo da sege.
Feliciana tem desmaios de assombro quando atravessa as salas da fada; quer
ajoelhar e beijar a mo de soror Paula, que a recebe de roupo de seda verde alamarado
com presilhas de ouro e pedras. Maria da Luz e Catarina, trajando rigoroso hbito,
ladeiam a sultana. Conversa-se, e toma-se ch prola por taas da ndia com as armas do
reino. Feliciana conta que foi em menina uma espcie de aiazinha da me dos senhores
D. Miguel e D. Jos, filhos do sr. D. Pedro II. Responde a todas as curiosidades da
freira, que reclinada molemente na espdua de Catarina, quer saber as coisas secretas da
Duverger. Nomeia depois a professora as fidalgas a quem ensinou a lngua francesa,
puro parisiense, como a falava mademoiselle Ana Armanda.
* E actualmente no tem discpula? - perguntou a Perestrelo.
* No, minha senhora, porque me tenho esquivado. No me chega o tempo.
Apenas tenho uma aluna que  minha hspeda.
* Fidalga?
* Filha de um desembargador que foi para a ndia, o
doutor Paulo Xavier, irmo daquele frade que perdeu uma perna na guerra com os
turcos. V. Ex havia de ouvir contar...
* Ouvi, sim.
* Que pena me faz ver um rapaz to novo assim aleijado! Ele vai todas as
semanas de carruagem ver a sobrinha, ou vai a sobrinha v-lo ao palcio do sr. conde do
Rio Grande, onde est de hspede. Acho que  muito rico, porque rara semana deixa de
levar  sobrinha alguma prenda rica, mesmo muito rica: gargantilhas, braceletes,
afogadores, fraldelins de Granada, volantes, luvas e leques de Frana, enfim, coisas que
de nada servem a uma menina que vai nos oito anos! E ela - ora vejam, minhas
senhoras! - no gosta do tio tanto como isto! Chama-lhe o perna de pau; e, se pode
desculpar-se com as lies, foge da sala.
*  esquisita a menina! - disse Paula.
Quanto a Catarina, essa, sem se estrear com um monosslabo, no despregava os
olhos da loquacssima professora.
* E  bonita? - perguntou Maria da Luz.
* Muitssimo galante: parece-se mais com o tio que com o pai; porque o tal padre
manco tem uma cara muito fina; e meu marido, que o conheceu aqui h oito anos, diz
que em Lisboa poucos homens passeavam to airosos como ele. Pois a menina d
avultaes do tio; que ela no quer que se lhe diga isso.
* Quem  a me dessa menina, sabe? - perguntou Paula.
* Isso agora, minha senhora,  segredo que eu no pude at hoje descobrir, nem, a.55
falar verdade, me tem importado muito. Antoninha diz que sua me morrera quando ela
era pequenina; mas o que eu sei de fundamento  que o sr. desembargador nunca foi
casado, por me dizer uma criatura l das bandas de Coimbra que foi ama de leite da
menina, e que todos os meses a vem ver a Lisboa. At j me lembrou se ela seria
propriamente a me; mas pelo trajar e pelos modos saloios no tem jeito disso. Se ela
fosse a me de uma menina to querida do pai,  natural que vivesse com outra
estimao...
Soror Paula declinou o palavriado noutro rumo. Pintou-se-lhe to fcil o xito
premeditado que deferiu para outro dia mostrar desejo de ver a educanda. Ao mesmo
tempo, lembrava-lhe se Francisco Xavier, sabendo que a mestra de Antnia era sua
preceptora de lngua francesa, entraria em indagaes de Catarina que beliscassem a
curiosidade da Feliciana, sugerindo-lhe desconfianas. Por outro lado, ocorria-lhe que o
padre no estorvaria que Antnia entrasse em Odivelas e fosse vista de sua me. Nisto
cismava Paula em quanto a mestra lhe ensinava a pronunciar o abecedrio francs e os
ditongos, objecto da primeira lio.
Assim que a mestra saiu, Catarina lanou-se nos braos de Paula, e por entre
beijos e lgrimas soluava:
* J sei que hei-de ver minha filha! Tu s um anjo, minha querida amiga! Queres
por fora que eu viva, e no h desejo que me no satisfaas!... Que farei eu quando a
vir,  Paula! Como hei-de eu conter-me que me no abrace nela?...
* Olha se tens juzo, doudinha! - admoestou a Perestrelo - Isto no 
brincadeira... Lembra-te das inimigas que temos... Eu receio tanto que o segredo se
descubra que nem ao rei disse ainda uma s palavra a tal respeito. Ele sabe os teus
amores com Xavier - sabe tudo; menos o que  foroso que ningum desconfie. V l
como te portas, j que me obrigas a estudar francs, e a fazer-me por isso alvo da
chacota. destas estpidas do convento, que ho-de ser toda a vida bernardas...
* Se vires que eu me excedo, filha - disse Catarina acariciando-a - faze-me um
sinal, sim?
* Que sinal, menina! De que servem sinais!... Tu  que deves fazer um estudo
para no te excederes. Podes afag-la e beij-la, que tudo  natural entre uma religiosa e
uma criana; podes at chamar-lhe "filha" que no ser isso reparado; mas no de
transportes e arrebatamentos, percebes?
A trigueirinha estudou a sua lio, e o rei ajudou-lhe a pronunciar os ditongos.
Sua majestade sabia regularmente a lngua francesa e espanhola. A italiana ensinou-lha,
vinte anos depois, a actriz Petronilla, a quem deu presentes que carregaram trinta
cavalgaduras quando a cantora se fez na volta de Espanha, diz o Cavalheiro de Oliveira.
D. Antnio Caetano de Sousa, na Histria Genealgica da casa real, tom. VIII, pg. 4,
diz que o rei sabia tambm latim com perfeita inteligncia. De um sujeito que lia
Horcio e Ccero, dizia Bocage: "Pena  que saiba latim, pois perdeu-se um parvo
grande!" D. Joo V, ainda com o latim, no era parvo pequeno nem perdido.
Disse Paula a primeira lio com bastante cincia dos ditongos e tritongos,
mormente os nasais, que sua majestade lhe ensinou com a mais fanhosa graa. D.
Feliciana benzia-se da esperteza lingustica da sua discpula, e fingia no acreditar que
ela desconhecesse inteiramente os ditongos e os tritongos, os nasais particularmente.
* A outra sua discpula j deve estar muito adiantada... - disse Paula.
* A Antoninha?
* Sim.
* J principia a conversar em francs comigo.
* J?! que linda coisa! falar francs aos oito anos!
* As crianas aprendem mais de ouvido que pelas regras - explicou a conspcua.56
Feliciana - Eu segui sempre o mtodo por onde aprendi. Quando abri uma arte de falar
francs, j sabia conversar com mademoiselle Duverger. Ora, a minha hspeda tem tal
memria que no lhe esquece palavra que eu lhe diga. Daqui a um ano h-de poder-se
ouvir falar francs.
* Daqui a um ano? E eu, daqui a um ano, poderei conversar em francs?
* Pois no, minha senhora! V. senhoria, com mais duas ou trs lies, comea a
conjugar o verbo aimer. J'aime, eu amo, tu aimes, tu amas, il aime, ele ama.
* Isso  bonito! - atalhou a ridente moreninha, fazendo rir Catarina - Graas a
Deus que riste, minha casmurra! -disse ela, tocando-lhe no rosto com as pontas dos
dedos.
* Tenho notado - observou a mestra - que esta senhora  muito melanclica, e parece no ter a melhor sade...
* Sou doente - respondeu Catarina.
* Ah! sim? pois pena  que to novinha comece a padecer! Isto de viver na
clausura no  para todas as compleies. Umas senhoras engordam e outras definham-se.
Se fosse aos ares, minha senhora...
* Aos ares vou eu, se ma tiram do convento - calemburgou Paula.
* Bem se v que so amiguinhas inseparveis... - tornou a mestra - mas, se Deus
quiser, como est uma criana, ainda pode ter muita sade, minha senhora. s vezes
fazem-se na gente umas revolues interiores, e vo-se os achaques. Porque no
consulta o mdico francs que tem feito milagres, monsieur Eliot? A mim me curou ele
de uma obstruo, ou o que quer que fosse, nos rins; andei por todos os doutores
famosos, encharquei-me em tisanas e sempre a pior. Fui-me ter com o francs, por sinal
que ele ficou espantado quando viu uma portuguesa a falar a sua lngua; e sabem com
que ele me curou, minhas senhoras? Vejam l se podem adivinhar...
* Foi com leite de burra - disse Paula.
* Ora esta! quem o disse a V. senhoria? - acudiu espantada D. Feliciana, enquanto
a Muleirinha ria pela segunda vez.
* No se admire, D. Feliciana - explicou Paula - eu conheo esse mdico, e sei
que ele cura todas as doenas com leite de burra. Aqui a minha amiga tambm anda no
uso dele.
* Faz muito bem, minha senhora. Ainda ontem eu pedi ao sr. padre Xavier,
porque o vi muito amarelo, que tomasse os leites; e assim que entrar o vero vou d-los
 Antoninha...
* Ela  doente? - perguntou Catarina.
*  magrinha, tem poucas carnes, e come como um passarinho. Depois, estuda
bastante; meu sobrinho Andr, que lhe ensina a escrita e a ortografia, puxa bastante por
ela. Eu ralho; mas a menina zanga-se, se a tiram dos livros.
* Porque no d uns passeios com ela? - perguntou D. Paula.
* Falta-me tempo, minha senhora. Sou eu s a governar a casa, e no tenho em
quem descanse.
* Porque a no traz consigo quando aqui vem? - tornou a freira - um bonito
passeio de sege. A Antoninha assiste s minhas lies,  minha condiscpula, e talvez
que eu, ouvindo-a conversar em francs, me v desembaraando. Faa isto, D.
Feliciana, d  criana o prazer destes ares do campo, e ver como ela aqui chega com
apetite.
* Diz V. Senhoria muito bem - assentiu a mestra - mas  necessrio uma licena
para ela poder entrar.
* No lhe d isso cuidado. A licena l a recebe em sua casa amanh ou depois.
* Como ela vai ficar alegre!... Quando eu daqui fui, a menina quis saber como isto.57
era, como as senhoras andavam vestidas, como eram as celas, enfim moeu-me a
pacincia com perguntas. E quantas vezes ela me tem dito que o seu maior prazer era
voar da trapeira a umas rvores que se avistam l para as bandas de S. Sebastio da
Pedreira! Eu j pedi ao tio da menina que fosse dar uns passeios at Chelas com a
sobrinha; mas ela, assim que eu falo nisto, perde logo a vontade de sair. Enfim, acho
que nem para o cu queria ir com o tio perna de pau. Embirrao assim no se acredita,
minhas senhoras! Eu j perguntei a meu sobrinho Andr Guilherme, que  muito sbio e
estuda para frade Trino, como explicava ele esta antipatia da pequena. Meu sobrinho
respondeu-me que nem o amor nem a averso se explicavam; mas que lhe bacorejava
que o tio havia de ter influncia funesta na sobrinha. Enfim, minha senhora, Deus  que
sabe... So horas e mais que horas de me retirar. Tenho abusado da bondade com que V.
Senhoria me trata.
* Pelo contrrio, eu  que sou a reconhecida. L lhe mando a licena - repetiu
soror Paula - D o alegro  minha condiscpula. Estou persuadida que o tio no a
impedir.
* Com toda a certeza. Ele j me disse que estimaria muito que as minhas
ocupaes me deixassem passear com a sobrinha. Ela c vem, visto que V. Senhoria lhe
faz a honra de a receber.
Renovaram-se os beijos e lgrimas jubilosas de Catarina..58
XIV
Chegou D. Feliciana alvoroada a casa com a notcia.. Estava o sobrinho
corrigindo os desacertos ortogrficos da escrita que ditara  pequena.
* Antoninha - vozeava a mestra ofegando escada acima.
* Antoninha! trago-lhe uma nova muito alegre, a mais alegre que lhe posso trazer...
* Chegou o pap?! - exclamou a menina erguendo-se de salto, e correndo para a
mestra.
* No  isso, meu amor;  outra coisa...
* No? - disse esmorecida a criana - Ento no sei que seja...
* Eu lhe vou dizer... Chegue-se e d-me dois beijos... Sabe o que ? as senhoras
de Odivelas querem que a menina l v.
* Ora! - disse Antnia com desdm - A mim que me importa as senhoras de Odivelas?... Cuidei que era outra coisa...  E foi sentar-se amuada  mesa de escrever.
* Venha c, sua aborrecida! - volveu D. Feliciana refreando mal o despeito -
ento a menina no quer ir ver a casa mais rica do mundo, onde moram umas senhoras
que parecem uns serafins?
* Eu no, senhora.
* No? pois h-de ir.
* Se seu tio lhe der licena - interveio Andr Guilherme.
* A vens tu com as tuas retricas!... - saltou a tia azedada.
* Isto no so retricas,  moral, minha tia.
* Qual moral nem qual carapua! Ento que  moral?
* Moral  a cincia dos bons costumes, e  bom costume que as meninas de oito
anos vo to somente onde seus pais, ou tios, ou tutores consintam que elas vo.
* Mas o padre j me disse que fosse passear com a sobrinha... No  verdade, menina?
* Mas no lhe disse que a levasse a casa da madre Paula de Odivelas para a qual
casa se entra por uma porta que no  a conventual.
* Sabes tu que mais? ests cada vez mais tolo! Acho que metes livros na cabea;
mas tiras de l os miolos para te caberem os livros. Que te importa a ti por onde se entra
para a casa da religiosa?
* Da religiosa, nego, e distingo - replicou o moo abordoando-se s frmulas
aristotlicas. - No  religiosa, porque a religio impe votos de pobreza e castidade, e
soror Paula Perestrelo no  pobre nem... conversaremos particularmente, minha tia. Eu
costumo explicar a esta menina as palavras que desconhece,. Suprimo as que ela deve
ignorar; pelo menos, no serei eu quem lhas ensine.
* E acabou-se! quem governa nesta casa e nas minhas aces s tu!... - raivou a
tia.
* No governo, minha senhora, deixo-me governar pela conscincia do bem, e
digo alto o que sinto. Se, todavia, lhe so penosas as minhas reflexes, no voltarei a
sua casa.
* Veremos... - resmuneou a tia, retirando-se.
Antnia acercou-se do mestre, e disse-lhe em tom implorativo:
* No volta a esta casa, sr. Andr?
* Veremos, disse minha tia.
* Olhe que eu no vou a Odivelas....59
* E porque no vai? Se seu tio consentir...
* Tambm no vou... Eu s fao o que meu pap mandar... Importa-me c as freiras!
Neste comenos ouviu-se rodar e parar uma sege.
* A vem o sr. padre Xavier - disse Andr Guilherme.
* Provavelmente minha tia pede-lhe licena para levar a menina a Odivelas; se ele
consentir, Antoninha, no se recuse. Obedea e v: peo-lhe isto. A menina  ingrata a
seu tio, que lhe quer muito.
* Pois no vou... - redarguiu a menina com dengosa obstinao.
Andr olhou-a com triste silncio.
Entrou Feliciana na sala para receber no alto da escada o padre, que subia muito
fatigado, batendo rijo em cada degrau com a inflexa perna de pau.
Andr desceu ao primeiro mamei para lhe dar o brao e ampar-lo. Antoninha
esperava-o para lhe beijar a mo. O padre, desde que a viu, ganhou foras, apressou-se,
e sorria-lhe nos lbios e nos olhos.
No topo da escada, parou amparando-se nos ombros da menina; depois, arqueou-se
com dificuldade, beijou-a em ambas as faces, cumprimentou a mestra, e entrou na
sala onde Andr lhe abeirara da cadeira o tamborete em que ele estendia
horizontalmente a perna artificial, sendo dolorosa a curvatura.
* Cheguei, h minutos, de Odivelas - disse D. Feliciana.
* Sim? est contente com a sua discpula?
* Contentssima! a primeira lio no podia ser melhor. Aquela senhora tem
muito engenho! E ento graa! faz rir as pedras! Hoje at fez rir a outra senhora triste,
em que falei a V. Senhoria, e ainda no sei como se chama...
* Rir  uma felicidade, e fazer rir  um dom impagvel, senhora D. Feliciana.
* E no sabe? A sr D. Paula quer que eu leve l sua sobrinha.
* Quer?! Pede ou quer?
* Isto  um modo de falar... Como eu lhe disse que a menina era magrinha e
comia pouqussimo, lembrou-se a senhora freira de que uns passeios de sege fora da
terra lhe abririam o apetite, e ento me fez a honra de convidar a Antoninha. Resta saber
se V. Senhoria d licena...
* Eu no quero ir... - interrompeu a pequena trejeitando gestos sacudidos, como
usam as crianas voluntariosas e amimadas.
* Ora diga-me - perguntou o padre, depois de morosa e agitada reflexo - a sr D.
Paula sabe a que famlia pertence esta menina.... No v ela cuidar que  das fidalgas
que a sr D. Feliciana tem educado...
* Pois no sabe?! Eu j lhe disse que o pai da minha educanda  o senhor
desembargador Paulo Xavier, e que V. Senhoria  o tio da menina. J da outra vez me
fizeram perguntas a respeito... sim... eu lhe direi... com licena...
E, abeirando-se-lhe do ouvido, continuou:
* Perguntaram-me se eu sabia quem era a me de Antoninha...
* Perguntaram-lhe ou perguntou-lhe? - disse o padre Xavier - A senhora tem-me
falado em uma s religiosa; esse perguntaram-me deixa entender que as senhoras eram
duas ou mais.
* Eram mais duas; uma  a sr D. Maria da Luz, irm da sr D. Paula; da outra j
lhe disse que no sei o nome. Ora agora, esta que no sei como se chama, alguma coisa
me disse a tal respeito, mas... lembrar-me o que foi... no  possvel. Por isso  que eu
disse: perguntaram-me. Quem convidou a menina foi a sr D. Paula.
* Eu responderei quanto  licena que me pede -concluiu Xavier.
* Mas a senhora disse que amanh me mandava a licena..60
* Licena para qu?
* Para entrar no convento.
* A sr D. Feliciana, quando l vai, entra pela porta do convento?
* No, senhor.
* Ento para que  a licena?
*  que a outra porta  tambm defesa  inocncia -disse Andr Guilherme aparando os bicos de uma pena, sem erguer a cabea.  O padre ps um profundo olhar no perfil descado do estudante, e disse entre si:
* Ele entenderia bem o que disse?!
A tia olhou tambm de esguelha contra o estudante, e murmurou:
* Ningum te percebe!
* Eu percebi - objectou o padre - Repito: responderei. Se tem de ir a Odivelas antes da minha resposta, no altere a verdade, conte o que se passou.
E, beijando Antnia, e apertando a mo ao futuro frade trino, saiu mais opresso de
esprito.
Convm saber que o silncio de Catarina alanceou o corao de Francisco Xavier.
Aquela carta era sincera, quanto aos confessados remorsos; mas fraudulenta, quanto 
imposio do silncio. E, porque os remorsos eram verdadeiros, o delinquente queria ser
perdoado; e, se no perdoado, arguido; desprezado,  que ele no queria ser. A sua
expiao retraa-se a to acerba prova. No peito daquele homem escabujava. ainda o
corao com a vitalidade dolorosa das fibras corrodas por um cirro. Tinha trinta anos:
amara uma s vez; aniquilara-se para no amar segunda mulher, vestindo o hbito; e o
desastre da guerra, a mutilao e o alquebramento fsico fechavam-lhe os ditos da
sociedade onde a sua alma, posta ao fogo de outras paixes, podia retemperar-se. Se ele
tivesse a velhice que se conta por dezenas de anos, o silncio de Catarina de Castro no
lhe mordera no orgulho ao travs do corao; porm como o seu desprendimento era
fictcio, e a soledade lhe aguasse as puas do desprezo, e sua alma trasbordasse do
amarssimo desamor da filha, a imagem de Catarina j lhe no aparecia lastimvel e
plangente.
At o cime, a fantasia que d a preexistncia do ideal do inferno, at o cime lhe
cravou a garra. Amaria ela outro homem? Hspeda de Paula, poderia ser honesta? Os
camaristas do rei ser-lhe-iam indiferentes? A doena e a tristeza seriam enfeites de
namorada para dar graas mrbidas  poesia da paixo?
Se assim era - depreendia o injustssimo caluniador da pobre senhora - que queria
Catarina de sua filha? Cativ-la? fascin-la com carcias? segredar-lhe que era sua me?
usurp-la ao amor dos outros? desgra-la talvez?
* No! - pensou ele - tu no me roubars a minha filha! Se ela me no ama, h-de
amar-me quando bem compreender que eu a adoro! Quererias, porventura, ensin-la a
desprezar-me pela mesma razo que tu me desprezas? querias dizer-lhe que houve um
homem que lhe chamou filha, porque eu lhe no quis dar esse ttulo? que eu, ao vestir o
hbito de monge, foi como se vestisse a mortalha de pai? No lho dirs, no! Se te era
desonroso responder aos gritos da minha alma, no queiras diante de ti a filha do teu
crime. S coerente se no podes ser boa nem compassiva. No ar dos pestilenciais
aromas do palcio de Paula, no quero que a minha inocente filha respire. As
impresses que se insculpem em uma alma nova so boas ou ms no futuro. Eu no
quero que minha filha se recorde da alcova de uma freira amsia de um rei. Pode ser que
a me se embriague nessa atmosfera; mas a embriaguez que delicia uma alma gasta
pode matar as flores ainda abotoadas no corao de minha filha. No a vers, Catarina.
........................................................................................................................
O padre Xavier seria pssimo carcter, se no fosse um grande desgraado..61.62
XV
 hora do costume, as senhoras Perestrelos e Catarina, por entre as cortinas das
janelas, esperavam D. Feliciana. Quando conheceram a sege das cavalarias reais,
disseram as trs a um tempo:
* Elas a vm!
* Olhem o meu corao como pula!-murmurou Catarina pondo sobre o peito as
mos das suas amigas.
* At eu estou alvoroada... que fars tu!... - disse Paula.
* No se divisa quem vem dentro... - notou Maria da Luz agachando-se para espreitar rente com o peitoril.
Catarina ajoelhou tambm, formando com as mos um tubo para convergir os
raios da luz, e disse com desalento:
* Parece-me que vem sozinha a tua mestra...
A este tempo j Paula tinha o culo de longa-mira assestado  sege.
* Tens razo - confirmou a Perestrelo - a menina no vem...
* Talvez no entregassem ontem a licena  Feliciana - lembrou Maria da Luz.
* Bem me dizia o corao! - ajuntou Catarina.
* A ests tu j aflita!... Qualquer insignificante embarao impediria a vinda da
pequena... Olha que  preciso no nos mostrarmos muito contrariadas na falta. Deixa-me
s falar a mim.
Entrou a mestra com desconsolada cara; e feitas as mesuras, disse:
* A menina no veio porque o diabo do tio negou a licena, isto , disse-me que
pensaria e responderia ao meu pedido.
Catarina voltou as costas a Feliciana e chegou-se de uma janela que dava sobre o
pomar, a fim de encobrir as sbitas lgrimas. Quis repres4as; mas no podendo, saiu da
saleta, e recolheu-se ao seu quarto. A mestra no percebeu nada. Paula e Maria da Luz,
com as suas perguntas, distraram-na de atentar nos precipitados movimentos da outra.
No entanto, Paula gesticulou um rpido aceno  irm, que seguia Catarina.
A mestra referiu pontualmente o que passara com Francisco Xavier. No lhe
esqueceu a distino da porta conventual e da porta particular. Omitiu somente por
cortesia o comento do sobrinho quanto  defesa da inocncia por qualquer das portas.
Paula absteve-se discretamente de retribuir ao padre as farpas indirectas. Mostrava-se
sentida do desgosto da mestra, e lastimava a criana, que o tio decerto amaria com
melhor resultado, se, em vez de lhe dar enfeites, lhe desse ar puro.
Quando Feliciana lhe perguntou se queria dizer a lio, a freira respondeu que
uma forte enxaqueca a impedira de estudar. Despediu-se a mestra, e Paula correu 
alcova de Catarina, que estava a chorar ao lado de Maria da Luz. Esta, fitando a irm, e
depois declinando a vista de esconso para uma bacia de lavatrio, dizia-lhe mudamente
que visse o sangue de Catarina. No era a primeira hemoptise; mas Paula assustou-se;
foi para ela impetuosamente e estreitou-a ao corao.
* A tua filha h-de vir, eu to juro, Catarina.
* Que vil homem aquele! - soluava a me de Antnia - Acho-o mais infame
neste proceder, comparando isto com a carta que me escreveu. Aqui tens o penitente, o
contrito! Participou-me que existia minha filha, como quem inventa um flagelo novo
para mim. Pensou que eu vivia resignada. Afligiu-o a ideia. Engenhou uma tortura,
prevendo que eu cairia outra vez na cilada. Disse-me que eu tinha uma filha com o
plano de me aviltar no consentindo que eu a veja. Aqui tens a perfeio da maldade
humana, Paula!... Deixa-me chorar e morrer, que eu tenho mais vergonha que dor de o.63
ter amado! No faas diligncia alguma... Que vem ela c fazer? Eu... estou morta...
* E eu no quero que morras, minha querida filha! Deixa todo o mundo, e vive
para mim! - exclamou Paula desfeita em prantos - Olha que eu s deixo de ver escura a
minha vida quando encontro a luz dos teus olhos. Se nunca te disse isto,  porque s
agora pude recalcar no peito a vaidade de parecer feliz aos olhos de toda a gente, de
amigas e inimigas!
Catarina abraou-a, beijou-a muitas vezes, ganhou alento na convico de ser
precisa  felicidade daquela mulher to odiada e invejada.
Paula levou-a consigo, segredou-lhe muitas dores ignoradas, muitos ultrajes
recebidos do capricho de D. Joo V. Entreteve-a com as suas angstias - o melhor
andino para mitigar as alheias.
Depois, enquanto Catarina meditava uma carta fulminante para o pai de Antnia,
Paula entrou no seu gabinete. escreveu algumas linhas, lacrou o sobrescrito, e escreveu:
Ao reverendo sr. Padre Francisco Xavier. Em casa do Ex.mo conde do Rio
Grande, no Lumiar.
Chamou uma negra, deu-lhe explicaes, e voltou, dizendo coisas diversas e
alegres  sua amiga.
* Vou escrever-lhe...-disse Catarina com desabrimento.
* Raios e coriscos? No escrevas, filha. O que tu pensas deve ser o pior despacho.
Ns estamos ainda no comeo. H muito que fazer antes que lhe ds o prazer de o
castigar com a tua carta. Se lhe tivesses respondido afrontas, j c tinhas a filha, O teu
silncio foi como se em cima da sua memria lhe voltasses a esmagadora pedra do
sepulcro. Quando eu desconfiar dos meios brandos, ento lutaremos como desesperadas.
Francisco Xavier recebeu a carta confiada ao ajudante do sacristo-mor das
freiras. Estes funcionrios em Odivelas acumulavam todos os ofcios compatveis.
Curavam das aras do templo, e velavam o fogo no sagrado das sacerdotisas para que
no se apagasse.
Este subalterno conhecera Francisco Xavier no galarim do luxo e do amor. Pegou
de lagrimar quando o viu sem perna, sem cores, arrugado, desfeito.
* Quem o viu, meu senhor! - dizia, e benzia-se.
Depois entregou a carta.
* De quem vem? - perguntou o padre, reparando na letra desconhecida do sobrescrito.
* Deu-ma uma das negras da senhora freira... del-rei - E circunvagou uns olhares
cautos. Xavier abriu e leu:
Paula Perestrelo cumprimenta o sr. Francisco Xavier, e pede-lhe a fineza de
consentir que venha a Odivelas sua sobrinha Antnia.
Deteve-se largo espao a estudar silabicamente as duas linhas. Meditou, enquanto
o sacristo comparava o brilhante moo de oito anos antes, com aquele homem
encolhido e descadeirado entre as almofadas de uma preguiceira.
O padre, ainda escandecido do acesso de fria do dia anterior, no bilhete de Paula
no viu frase que o aplacasse. Nem uma letra, uma inicial com referncia a Catarina!
Ela, orgulhosa, aviltadora, esquivara-se a ser parte na petio- pensava ele. Delegava
glacialmente na amiga o satisfazer-lhe um capricho, sem risco da sua dignidade, sem
sacrifcio da sua soberba. Se fosse servida, nada tinha que agradecer ao homem
desprezado.. Se o no fosse, a descortesia feita  amante de el-rei no ficaria impune..64
* Quer expor-me ao dio del-rei - dizia ele.
E, derivando a sua cogitao ao nfimo grau onde a podia abaixar, pensou nos
perigos da repulsa, graduando-os, pela omnipotncia real. E, remontando-os aos
antepassados, pensou em Domingos Leite Pereira, seu bisav, enforcado como regicida;
em Francisco Mendes Nobre, seu av, falecido de angstias quando lhe aferrolharam o
filho; em seu tio de Vila Viosa, queimado; em seu pai, trs anos preso e desterrado.
E, depois, ele era rico; os seus haveres, transferidos de Holanda, eram conhecidos;
e seu irmo era desembargador em anos florentes; e sua filha era a herdeira de mais de
cem mil cruzados. E estes cem mil cruzados, com ele, com o irmo, com a filha, tudo
poderia sorv-lo a voragem do Santo Ofcio, ao mais leve aceno del-rei. E, demais: ele
conhecia o flego vingativo de Paula Perestrelo. Sabia que, mediante ela, Catarina e sua
me, na Inquisio de Coimbra, amolgaram a ferocidade dos frades, e saram ilesas.
Sabia que uni. bilhete dela enviado ao pao da Ribeira, ps na rua os quadrilheiros e a
tropa que rebateram a comunidade de Odivelas para dentro do mosteiro. Sabia, enfim,
que Paula se prestava a executar as vinganas de Catarina.
Ilaqueado por estes medos sinistros, em que nenhum pensamento nobre
sobressaa, o ex-frade varatojano mandou ao sacristo que lhe chegasse uma papeleira
porttil, e escreveu:
Francisco Xavier tem o prazer de cumprimentar a muito reverenda soror Paula
do Santssimo Sacramento, e, agradecendo em nome de seu irmo Paulo Xavier a
distino que s. senhoria liberaliza a sua filha, vai ordenar sem detena que a menino
se apresse a conhecer a dignssima senhora que tanto nos honra.
E, ao mesmo tempo, enviava o seu consentimento a D. Feliciana com expressa
recomendao de forar sua sobrinha, dado caso que ela tentasse desobedecer-lhe.
Abriu Paula a carta. Estava presente Catarina. Tremiam ambas. Leu-a
mentalmente perfilando-se de modo que a sua amiga a no lesse ao mesmo tempo. E,
lido o bilhete, exclamou:
*  um cavalheiro o Xavier! Olha... a tens!... Vs como se vence tudo?  assim.
As armas da mulher so as meiguices, quando os inimigos so homens; ora, se os
inimigos so mulheres, ento a arma eficaz  o tagante. Alegra-te, que amanh tens aqui
tua filha.
Catarina tambm parecia deletrear as palavras do escrito, afectadas e ironicamente
cortess. No obstante cerrou-se-lhe a alma de escurssimas saudades, quando Paula a
incitava a exultaes. Luzia-lhe uma das auroras do passado - a primeira alvorada na
casa de Montemor, quando ela da janela ogival viu dobrar a colina fronteira o gentil
moo, e se quedou vendo repontar o sol, alegre como as aves. Era feliz, to feliz como
se esposo, e no amante, lhe houvesse naquela noite nectarizado os lbios com os
primeiros beijos. Ela amou... o amor, naquele retrocesso; mas, desde a primeira alvorada
de Montemor, no se recordava de outra manh sem as nortadas glaciais da alma.
Depois, era o recordar-se das angstias e terrores da gravidez; do resfriamento do
homem a quem pedia a fuga para salvar a honra e vida de sua me da Inquisio; da
herana afrontosa de tantos antepassados seus ali queimados; de sua me ali, louca de
pavor... e enfim do seu covarde amante, alm, a cantar litanias, a contundir o peito, a
missionar nas aldeias, a pedir a Deus que o salvasse, visto que ele, por sua parte,
deixava a justia humana desassombrada no castigo da sua vtima.
Ah! ela tambm era injusta!
Devia descontar nas graves culpas do amante a uno com que o frade lhe dissera
centenas de missas por sua alma..65.66
XVI
Naquele mesmo dia, a jubilosa Feliciana enviou a Odivelas portador com a feliz
nova.
A menina leu o consentimento do tio, na presena de Andr Guilherme. Ainda
balbuciou: "no quero ir"; mas o moo, severizando o semblante, repreendeu-a entre
amoroso e grave.
* Assim  que tu mostras que tens sabedoria e moral - aplaudiu a antiga aia da
Duverger.
O estudante  que no formava o mais exaltado conceito da sabedoria e moral de
sua tia. As fontes em que ela bebera os rudimentos da virtude no lhe pareciam mais
lmpidas que o palacete de madre Paula. O grmio das fidalgas onde ela se insinuara
com a sua cincia da lngua francesa, conjecturava o estico moo que eram meandros
sujos a derivarem das ftidas alagoas de Afonso VI e Pedro II. E, dado que Heliodoro
Pedegache, por mo da esposa, arpoasse grossa pescaria nessas torrentes lodosas, o
rapaz olhava com secreto pejo para a prosperidade daquela famlia. E, quando lhe disse
a tia que o marido talvez apanhasse o hbito de Cristo, o aprendiz de frade murmurava:
* Em que andanas envolvem Cristo! Porque no h-de criar-se a cavalaria da ordem de Mafoma...
* Para quem?... - atalhou a tia abespinhada.
* Para os cristos sinceros.
* Que frade!... - retrucou ela sarcstica.
Entrajaram a menina ricamente. Aderearam-na com todas as louanias; levaram-na
a toucar-se no Auroy, cabeleireiro francs mais na voga; almiscararam-na,
pintalgaram-lhe o rosto com pedacinhos de tafet preto aos quais D. Feliciana chamava
mouches.
* Olha como est linda,  Andr! - disse a tia trazendo-lha pela mo.
* Vai bonita e coruscante! - afirmou o estudante com irnico sorriso - Parece a
ninfa da comdia El encanto es la hermosura. Acautele-se, minha tia, que lha no
pilhem por moura de auto, ou anjo da Procisso do triunfo!
* Forte azemel! Vamos, minha menina... - regougou a mestra.
E desceu a escada praguejando o rapaz por entre os dentes, e protestando
desfazer-se daquele trambolho.
* Vou to aborrecida! - disse Antoninha, quando o lacaio da tbua abria a portinhola.
* Logo se alegra assim que vir as senhoras freiras. Olhe l se as cumprimenta com
desembarao, e se responde com graa e juzo s perguntas que lhe fizerem...
* Se eu souber...
* Pois no sabe? a menina, quando quer,  viva como azougue; mas se lhe d para
amuar,  mesmo uma aborrecida!...
* Ento para que me leva a senhora? Deixasse-me estar com o sr. Andr Guilherme, que eu estava bem.
*  o que eu digo... - pensou entre si a mestra - Se ela tivesse mais seis anos, no
seria ele frade.
Quase sempre silenciosas, chegaram ao trio do mosteiro. As trs senhoras
estavam por dentro das vidraas. Catarina, levada de impensado impulso, assim que
entreviu a filha, saiu da janela rapidamente com destino a ir esper-las  primeira sala.
* Psio! - sibilou Paula, retendo-a - Ento que  isso? temos tolice?! Prometeste-me
ser prudente. Estou a ver que te abraas  pequena, exclamando "minha filha!".67
Espera que vamos todas; mas tu no representas, ouviste?
Saram as trs religiosas  sala de visitas, e por entre os resqucios do refegado
reposteiro que abria para a sala de espera, viram entrar Antnia com timidez de
acanhada, primeiro que a mestra.
*  a tua cara! - ciciou Maria da Luz, cedendo o lugar a Catarina para que a visse
* Olha!...
* Que linda! - murmurou Paula.
* Como vem estrelada de pedraria! - observou a Perestrelo mais nova - No a sabem vestir...
No entanto Catarina, amparada no umbral da porta, e ansiada, com os lbios
entreabertos num riso imvel de idiota, pasmava na filha, e enclavinhava as mos
trementes sobre o seio.
* Vai para a minha saleta com Maria da Luz, compe esse rosto que se est desfigurando, e espera por mim, que l vamos ter - disso soror Paula.
E entrando na sala, cumprimentou a mestra, beijou a menina, perguntou-lhe as
puerilidades do costume, e conduziu-as de vagar pelos vrios repartimentos do palcio,
detendo-se nas casas em que Antnia, com infantil curiosidade, se demorava reparando
na ornamentao magnfica. Perguntou-lhe Antnia:
* As senhoras freiras daqui no andam de hbito?
Paula sorriu-se e respondeu que sim; mas que ela s vestia hbito quando ia ao
coro.
Ao entrar na antecmara, onde estava Catarina meio esvada e reclinada no ombro
de Maria, Paula conduziu a menina pela mo ao p das duas, e disse:
* Aqui tem, Antoninha, duas freiras com hbito.
A menina cumprimentou-as com vivacidade, aproximou-lhes o rosto, beijou-a
primeiro Maria da Luz na face, e depois Catarina nos lbios. Antnia olhou fixamente a
freira, movendo os beios, onde sentia a impresso ardente dos beijos que recebera. No
havia naquele olhar o mistrio que as outras mentalmente aventaram. A pequena
estranhara a compresso convulsa e a quentura hmida daqueles beios.
Sentou-se a menina em um div entre a me e Maria da Luz. Abanava-se
senhorialmente donairosa com o leque estrelante de lantejoulas de prata e ouro.
Perguntou-lhe Paula se gostava do hbito das freiras. Reparou em soror Catarina, e
respondeu lentamente:
* Esta senhora est muito bonita assim. Tenho no meu livro de missa um registro
de uma santa que se parece com a senhora.
* Sim? - balbuciou Catarina tirando-a para si com irreprimvel transporte, e
beijando-a em ambas as faces.
Paula olhou para a irm com um gesto significativo de receio, enquanto a menina
parecia querer retrair-se  veemncia das carcias.
Para distrair Antnia, perguntou-lhe Paula se tinha noticias do pap.
* Ainda no, minha senhora. Estamos  espera das naus da ndia. Cada dia parece-me
um ano.
* Felizmente a menina tem seu tio, que  muito seu amigo...
Antnia no respondeu.
*  o que eu lhe disse, minha senhora... - interveio D. Feliciana, aludindo ao desafecto da educanda pelo tio.
* Que ? - perguntou Antnia.
* Digo eu que a minha menina deve ser grata ao extremoso amor que lhe tem o sr.
padre Xavier.
A pequena avincou a testa, como se quisesse repreender a mestra de sair-se com.68
aquela impertinncia em tal ocasio.
D. Feliciana murmurou, formando com os beios um trejeito de zanga:
* Que gnio!
Catarina encarou a mestra com ressentimento. Julgava-se j bastante me para
defender a filha da rude censura da mestra. Paula sorriu-se, e Maria da Luz passou o
leno pelos lbios.
* Hoje, sr D. Feliciana - disse a Perestrelo - peo-lhe sueto para mim, visto que a
minha condiscpula tambm tem sueto. Sou pssima educanda, no acha?
* V. senhoria aproveita em vinte lies o que outras no conseguiriam em
quarenta; e a sua condiscpula est no mesmo caso.. Tem muita habilidade... Quer falar
francs comigo para estas senhoras ouvirem, Antoninha?
* E estas senhoras sabem francs? - perguntou a menina, olhando para a me.
* Eu no sei, meu anjo... - respondeu Catarina.
* Nenhuma de ns sabe.
* Ento no  bonito que falemos francs diante de quem no sabe; - tornou
Antnia - disse-mo o sr. Andr Guilherme; e meu tio padre, ainda h dias falando-lhe
eu em francs diante do sr. Heliodoro Pedegache, que no sabe, repreendeu-me... A sr
D. Feliciana bem ouviu, pois no ouviu?
*  verdade; mas estas senhoras - replicou a mestra um tanto corrida da correco
* bem sabem que ns no falamos mal delas.
Neste momento, na casa prxima, anunciou uma criada que estava o almoo na
mesa.
* Ainda agora?! - disse Feliciana.
* A Catarina e Maria da Luz j almoaram: eu tenho o mau costume de comer quando tenho vontade.
* Ainda agora sei que aquela senhora religiosa se chama a sr D. Catarina... -notou a mestra - Aposto que  a sr D. Catarina de Castro?
* Sou.
* Bem me diziam a mim, aqui h oito anos, que uma das mais lindas religiosas
desta casa era V. Senhoria. Ouvi-o s senhoras Vasconcelos, da casa de Castelo Melhor,
que foram minhas discpulas, e vinham aqui muitas vezes visitar suas tias, e gostavam
muito de V. Senhoria. No me enganaram.
Antoninha olhava para a senhora elogiada pela beleza.
* Que lhe parece, menina? - disse Catarina com um sorriso que parecia chorar -
tambm me acha bonita?
* Muito, mas a senhora tem febre - respondeu Antnia sentindo no rosto o queimar da mo de Catarina, - e parece que tem os olhos cheios de lgrimas.  Estas palavras, pronunciadas com timbre de d, abriram os diques ao pranto.
Rolaram-lhe as lgrimas a quatro, com grande arfar de peito e suspiros.
Ela cobria o rosto com as mos, inclinando-se para a filha.
A criana contemplava-a com espanto. Maria da Luz passou para o lado dela, e
pediu-lhe que sasse.
Ela obedeceu, erguendo-se de golpe, e deixando-se levar cingida pela cintura.
E Paula, para explicar verosimilmente o lance a D. Feliciana, disse que D.
Catarina padecia insultos nervosos, quando lhe traziam  memria uma poca da sua
vida...
* Pois eu no sei, minha senhora! - interrompeu a mestra.
* Pois que sabe?
* Aquele triste caso do Santo Ofcio... Logo que V. Senhoria proferiu o nome
desta senhora, me ocorreram as ideias. Lembrei-me da priso, que toda a gente disse.69
que era uma intriga de infames inimigas, e tambm aquele outro caso das senhoras
freiras sarem por a fora, quando ela voltou absolvida como inocente... Pois to pouco
falada foi a tal passagem!
* Que foi? - perguntou Antnia.
* Coisas, coisas que a menina no percebe - respondeu a mestra.
* Vamos almoar, sim, minha querida menina? - atalhou soror Paula erguendo-se.
* Venha, sr D. Feliciana, tomar unia xcara de ch.
* Eu queria ver se a senhora D. Catarina est melhor disse a menina.
* Tem d dela, meu amor?
* Ia a chorar tanto!... porque era?
*  doena, menina - respondeu D. Feliciana, e acrescentou de bom rosto: - Quer
saber tudo. Eu vejo-me s vezes em apertos para lhe satisfazer as curiosidades prprias
de uma senhora muito curiosa.
Passaram  casa de almoo. Antoninha sentou-se; mas disse que no podia comer
nada. D. Feliciana, porm, comeou por tbaras de carneiro com o propsito de passar
aos miolos albardados, iguaria muito de sua feio, e terminar pela Olha francesa, prato
tambm muito de sua feio, como quase todos os pratos bons.
* A sr D. Catarina no vem? - perguntou Antnia.
Paula disse a uma das trs escravas que a serviam  mesa:
* Acompanha esta menina, visto que no quer nada, ao quarto da sr D. Catarina.
Quer ir, filha?
* Sim, minha senhora.
A freira no receava as expanses de Catarina, logo que D. Feliciana as no
presenciasse. No previra to oportuno ensejo aos transportes da amiga.
A escrava subiu com a menina ao segundo andar, e disse fora do reposteiro de
uma antecmara:
* Est aqui a menina que quer saber se est melhor V. Senhoria.
Arremessou-se Catarina ao reposteiro, afastou-o de repelo para encurtar demoras,
tomou a menina nos braos, como quem levanta um arminho, e disse  escrava:
* Vai-te embora.
Sentou-se, e pousou nos joelhos a pequena, que dava ares de receosa daquele
inslito arrebatamento.
* Teve pena de mim? quis ver-me? ento  muito minha amiga? ?...
* Sim, minha senhora...
* Qual queria, minha filha? estar comigo ou com a sua mestra?
* Eu?... estar aqui... Se o tio me deixasse... O meu pap, s vezes, levava-me a
uma grade das freiras em Beja, e elas meteram-me l dentro unia vez, e eu pus-me a
chorar - dizia ela, rindo - porque era muito escuro, muito feio, e as freiras metiam
medo. Aqui  muito bonito.
* Seu pai era muito seu amigo? - perguntou Catarina.
* Tomara eu que ele viesse da ndia. Hei-de pedir-lhe que me deixe vir para este
convento.
* Ento quer ser freira, Antoninha? - disse Maria da Luz.
A menina fez um gesto de indeciso, e acrescentou: - O sr. Andr Guilherme
tambm vai ser frade da Santssima Trindade.
* Quem  esse senhor Andr Guilherme?! - perguntou a me.
*  o sobrinho da mestra, ensina-me a escrever, conversa comigo, e eu sou muito
sua amiga. Quando meu pai partiu para a ndia, se no fosse ele, eu morria de saudade.
Assim que me via a chorar, levava-me consigo a passeio, contava-me histrias, e no
queria que a sr D. Feliciana me mortificasse com os estudos....70
- Mas no  mais amiga de... seu tio?! - volveu D. Catarina.
* No, minha senhora... No fui criada com ele... no sei porque ... Tenho-lhe
medo... s vezes, tem-me no colo, e est a fazer-me festas, e de repente fica to
carrancudo que parece outro... Ai! quem me dera c o meu pap!... Parece-me que o no
torno a ver...
Encheram-se-lhe os olhos de lgrimas.
* No chore, minha filha... - acudiu Catarina, apertando-a ao corao - O seu pap h-de vir, se Deus quiser... A Antoninha queria ter me, no queria?...
* Se eu tivesse me, era feliz como as outras meninas que eu encontro aos
domingos de tarde a brincar na praa do Terreiro do Pao ou no jardim do sr. D. Dinis
Almeida, onde a mestra tem licena de ir, porque foi mestra das fidalgas. 29
- Morreu a sua mam? - perguntou Maria da Luz.
* Morreu... - disse a menina com a voz e o semblante muito triste.
* O seu pap nunca lhe disse nada de sua mam, nem seu tio? - volveu a Perestrelo.
* No, minha senhora. A minha ama  que me dizia, quando  noite estvamos a
olhar para o cu: "a sua mam est a olhar para a menina daquela estrela". E eu agora j
sou grande e ainda cuido que minha mam est numa estrela maior que as outras; e
pedia-lhe que me levasse para si, quando o meu pap me deixou em casa de D.
Feliciana.
* Coitadinha! - soluou Catarina, acariciando-a com arrebatada ternura.
* No chore... - disse-lhe a criana - Est outra vez doente... Porque chora!...
..............................................................................................................................
* Podemos entrar? - disse Paula a uma distncia bem calculada.
Maria da Luz fez um gesto a Catarina, que sentou a menina na preguiceira a seu
lado, e limpou as lgrimas.
29 At depois de 1755 no houve em Lisboa jardim pblico..71
XVII
Era de esperar que D. Catarina, depois que Antnia lhe levou alegrias inesperadas,
repartisse alguma parte da sua felicidade com Francisco Xavier, em frases de perdo, de
estima, ou sequer de mulher que se carpia por no poder dizer quela amada criana:
"sou tua me!"
Ele esperava ao menos que D. Paula, agradecendo-lhe a cedncia ao seu pedido,
inclusse uma palavra da piedade ou do amor de Catarina.
Do amor! Se no amor se pudessem assinalar distncias, o corao da freira
desviava-se do pai de Antnia  medida que a paixo da filha recrudescia a dor de no
poder revelar-se-lhe me.
* Porque - dizia ela a D. Paula - se este homem cumprisse a promessa de me
levar de Portugal, eu, a esta hora, seria muito feliz com a minha filha. Foi ele que se
enfastiou de mim, que fechou o corao de amante e recalcou a honra de cavalheiro
quando eu lhe implorei que me salvasse, que fugssemos, porque j no era eu s que
fugia, mas tambm um filho que l fora seria o meu maior prazer, e na ptria me seria o
oprbrio. Ele era rico: porque o no fez? Achava-me j indigna da troca pelo irmo e
pela ptria. Estava aborrecido. Pensava em enjeitar o filho, talvez, ou dar-lhe um pai
suposto; e depois meter-me outra vez na clausura, e abafar o grito da conscincia com
os renovos doutras paixes. Cada dia, cada hora o detesto mais.  execrvel este homem
que no soube ou no quis ser pai, e me no deixou ser me! Deixasse-me, que eu sairia
sozinha de Portugal, e iria viver com minha filha no fim do mundo. Eu tinha uma to
santa me que me chegou a dizer: "venda-se tudo que temos, e vamos para qualquer
pas, onde ningum nos conhea"; mas ele, o fementido, prometeu-me at ao momento
em que a Inquisio me prendeu, salvar-me, por amor de mim e da sua filha! Nem
sequer, aos vagidos da criancinha, soube ser homem e pai! Fez-se frade, como se Deus
devesse aceitar o incenso de mos sacrlegas, de um criminoso que sanava o crime
desprezando uma criana e uma desgraada mulher! No me tornes a dizer que lhe
escreva, Paula! Eu prefiro no ver mais Antnia  ignbil violncia de fingir unia
piedade vergonhosa!
E o padre esperava ainda piedade ou amor!
E conversando com Antnia, perguntara ele:
* Ficaste gostando muito das freiras?
* Muito, meu tio.
* Igualmente de todas?
* Igualmente no; de quem eu gosto mais  da sr D. Catarina.
* Porqu? por ser a mais bonita? era a que te fazia mais mimos?
* No  pelos mimos...
* Ento?
* Fazia-me pena quando se abraava em mim a chorar.
* E que te dizia?
* Nada... olhava muito para mim... e queimava com as mos to quentes que pareciam lume...
* Gostas ento muito dela?... querias l estar?
* No convento?
* Sim.
* Quem me dera! Se o tio quisesse...
* E elas querem-te l?
* A sr D. Paula at me disse que havia de pedir ao tio que me deixasse ir l passar.72
a festa... no sei de qu... ah!... do abadessado...  muito bonito... Vo os fidalgos e os
poetas fazer versos...
O padre cerrou-se no tal carrancudo silncio de que a menina se queixou s
freiras. Saiu a digerir um novo trago de fel que bebera nas palavras da filha, e dessa
elaborao amargosa se lhe incrustou na alma, outra camada de ruins pensamentos.
Dizia ele de si consigo: "Bem sei o plano. Quer-me roubar de todo o afecto da,
criana.  a extrema demarcao do dio... Mas como  isto? Eu estremeo minha filha,
dou-lhe tudo que pode agradar-lhe, h um ano que fao todas as diligncias para lhe
ganhar o corao; e ela parece que recebe com repugnncia as ddivas e as carcias. Vai
a Odivelas, v pela primeira vez. uma mulher desconhecida, e afeioa-se-lhe a ponto de
querer ir para sua companhia, sem mostrar o menor desgosto em me deixar. O que pode
haver providencial nisto? Nada.  o acaso, uma simpatia to estranha  natureza como
ao raciocnio. O que h  a seduo, a trama planejada de longe, a vingana com
requintado egosmo. Est enganada a scia da madre Paula.. Quem despreza o pai
despreza a filha. Nem que ma pedisse com lgrimas eu lha daria.. No tenho mais nada
neste mundo.  a minha tbua nesta grande tormenta. Tudo mais  a treva que se
continua na perptua escurido do sepulcro. Sou rico e quero ser mais rico para minha
filha. Vingo-me da desgraa deixando-a feliz com unia grande barra de oiro debaixo da
qual se esmagam os infortnios e os inimigos. Que querem  minha filha? faz-la freira?
na escola de madre Paula? Nunca! Ento que querem? roubar-ma para que eu, sem o
amparo dela, acabe de morrer? Enganaram-se. Que me importa a amante do rei? Se eu
desconfiar que se urde alguma intriga, fujo com minha filha para Holanda. Eu
comprarei bons espies no pao, no Santo Ofcio, e no inferno".
O padre expiou estas iniquidades na noite de tormentosa viglia que se seguiu
quele dia. Queria desafogar; e no podia desatar a mordaa. Faltava-lhe um homem a
quem talvez contasse o mistrio daquela menina.. Era o mdico Eliot. O conde do Rio,
cada vez mais acrisolado em contries, se lhe aparecia era para o consultar sobre
melindres da teologia moral, subtilezas de escrpulos, hipteses de pecados que o velho
queria levar bem ordenados e classificados ao tribunal da penitncia. E, no tocante a
freiras, isso ento, se o padre balbuciava expresso apontada a profanidades monsticas,
o general espalmava as mos, entreabria os dedos, e com as palmas voltadas para o
padre, pegava de as sacudir como se receasse ar empestado pelo bafejo do hspede.
* No me fale nisso, Xavier, a menos que no seja para me execrar as minhas
enormes iniquidades! Conte-me casos de grandes pecadores convertidos. Repita-me a
exemplarssima penitncia de Fr. Antnio das Chagas, fundador do Varatojo...
* Que, primeiramente - interrompeu o padre - foi capito de cavalos, chamou-se
Antnio da Fonseca Soares, matou um homem...
* E, arrependido...
* Suicidou-se no frade, e fez asprrima penitncia... escreveu livros msticos, etc.
* Veja que fim de vida.! - exclamou seraficamente o conde.
* Mas melhor seria t-la comeado melhor... O gnero humano e a moral
lucrariam mais com a vida do homem que ele matou do que lucramos ns com os actos
de contrio que a andam estampados.
* No o percebo bem!... Isso que v. merc disse cheirou-me a heresia, padre Francisco.
* Ento expliquei-me mal, sr. conde. Eu queria dizer que Fr. Antnio das Chagas
no restituiu a vida ao homem que matou.
* Isso  verdade...
* E, se a alma do morto,  mngua de sacramentos, casse no inferno?
* Deus  pai de misericrdia. As oraes do homicida penitente salv-lo-iam..73
* No inferno no h salvao... Ubi nulla redemptio: est escrito.
O conde ps-se a cismar com um feitio de cara bastante compungido, e com
vontade de argumentar; mas andava nos rudimentos da teologia; receava dizer heresias,
e calou-se.
Quase quotidianamente havia destes conflitos no quarto do padre Francisco
Xavier.
Ningum o procurava, porque os seus amigos doutro tempo eram todos rapazes
ainda, logradores da vida, que achavam curta para os deleites, e no queriam desbarat-la
com o ex-varatojano, torvo, taciturno e lastimvel na sua misria de aleijado e a modo
de embrutecido. Uns alcunhavam-no de parvo, outros de hipcrita, como se lhe no
bastasse ser desgraado para o abandonarem.
Por isso,  mngua de f esclarecida e pacincia de santo ou de filsofo, no seio
daquele homem fermentava um como dio ao mundo e a si prprio. A filha poderia
salv-lo, ser-lhe esteio; mas quando lhe disse ele: "entra nas trevas do corao de teu
pai, anjo!" dulcifica-me as lgrimas?
Por cmulo de infortnio, a piedade esterilizara-se-lhe na alma. As prticas
frequentes com Isaac Eliot sobre assuntos da Reforma calcinaram-lhe as razes da f que
tantos rebentos bracejara nas penhas de Varatojo. Lera Calvino na verso espanhola de
Cypriano de Valera. Lera a Confisso de Augsbourg de Melanchton na traduo
francesa. Tinha os livros condenados do mdico huguenote no fundo de uma arca, e
exumava-os de noite, quando no receava ser colhido de improviso pelo conde. E, a
respeito da educao religiosa de Antnia, quando Andr Guilherme lhe perguntava que
livros piedosos devia ler sua sobrinha, o padre respondia:
* Explique-lhe bem o preceito: amar a Deus e ao prximo. Toda a religio crist,
e todas as religies verdadeiras se cifram nestas palavras.
Mas ele, o padre, no amava Deus nem o prximo..74
XVIII
As cleras surdas de Francisco Xavier no desfecharam exploso imediata.
Conteve-o o temor de irritar Paula e enredar a filha na teia de vinganas que lhe urdisse
o despique de duas mulheres assanhadas. No obstante, recomendou particularmente a
D. Feliciana que espacejasse de ms a ms as idas da sobrinha a Odivelas para evitar
distraces nocivas ao estudo.
* Pelo contrrio - obviou a mestra - enquanto a sr D. Paula estuda, tambm a
menina recorda os verbos; e, depois, quando a freira comear a traduzir e a falar, a
Antoninha lucra muito, conversando com uma fidalga to esperta.
* J disse, minha senhora; cumpra as minhas ordens, que eu represento o pai da
sua educanda.
* Bem sei; mas o pai da minha educanda, quando se despediu de mim, disse-me a
chorar: "no a constranja; d-lhe todos os prazeres que no lhe causem dano  sade".
Ora, os passeios a Odivelas so do inocente agrado da menina, e at necessrios  sua
sade. Portanto...
* Portanto cumpra as minhas ordens - repetiu o padre severamente.
* Ao menos, consinta V. Senhoria que ela v unia vez por semana.
Neste comenos entrou Antnia, e Feliciana prosseguiu
*  menina, pea ao tio que a deixe ir, ao menos, uma vez por semana a Odivelas.
* Ento o tio no me quer deixar ir?! - perguntou Antnia com uma admirao prenncia de revolta.
* Quer que v uma vez somente cada ms - agravou a mestra.
Antnia, sem responder, foi sentar-se  mesa da escrita com as costas voltadas
para os dois. O padre viu aquele movimento, abaixou os olhos, e apoiou a testa sobre as
mos.
* Ento no pede, Antoninha? - instou D. Feliciana.
* Tanto se me d de ir como de ficar... No peo nada.
* Vem c, menina - chamou amoravelmente o padre.
Ela ergueu-se ligeiramente e foi sem o encarar.
* Desejas ir muitas vezes a Odivelas?
* Sim, meu tio.
* Queres ir de quinze em quinze dias?
* Como vossa merc quiser.
* Pois vai, vai, filha; mas no troques teu tio pela amizade de ningum. Olha que
neste mundo ningum te quer mais que eu.
Antnia suspirou do ntimo do peito.
* Porque suspiras?
* Lembrou-me meu pap.
* Aqui tens uma carta dele.
Cintilaram scuas de jbilo os olhos da menina. Leu duas dzias de linhas de um
flego; mas, no fim, rebentaram-lhe as lgrimas. O ltimo perodo dizia: A minha
sade, aqui,  pssima. O tio te dir que mando pedir licena para me retirar antes dos
trs anos. Sei que no te fao falta, minha filha, mas no quisera morrer sem te dar o
meu ltimo suspiro num beijo.
* No chores, filha; que na primeira nau que sair vai a licena que teu... pai requer
* disse o padre, abraando-lhe a cabea e beijando-lhe os cabelos louros. - Olhe, sr D.
Feliciana, no lhe tome hoje lio. Eu vou mandar-lhe a minha sege, logo que chegar a
casa. Vo dar um passeio at Xabregas..75
* Eu no queria sair... - atalhou Antnia.
* Vai, filha...
* Antes quero ir rezar uma coroa  Virgem Nossa Senhora para que d sade a
meu pai.
* E que lindo rosrio a menina tem! Apetece rezar por ele! J o mostrou a seu tio?
* Ainda no.
* V busc-lo... Deu-lho a sr D. Catarina de Castro.  o objecto mais lindo!
Voltou Antnia com um rosrio de contas de variadas cores; umas pedras eram
azuis, safiras orientais radiadas de filamentos lcteos; outras escarlates, rubis do Brasil e
granadas da Sria; sobressaam pedras verdes, esmeraldas do Peru, e crisprasos, de um
verde claro; amarelejavam os topzios, as guas marinhas junquilhas. Os padres nossos
eram pequenos diamantes cravejados em lhama de prata que envolvia uns esferides de
nix de Islndia. O crufixo era de ouro, uma miniatura primorosa, com a Senhora das
Dores, sentada na peanha da Cruz.
O padre conhecia o rosrio: era o nico enfeite que a religiosa pendia do colo nos
dias festivos do convento. Sabia que, desde o reinado de D. Manuel, aquela
preciosidade existia na famlia dos Pinas, e andava estimada em grande valor nos
sucessivos inventrios da casa.
* No  uma rica prenda? - perguntou D. Feliciana ao padre, que se demorava absorvido nas recordaes com o rosrio entre as duas mos.
* ... - respondeu; e no silncio da alma retransida de dor, pensou: "Mal diria
eu... que nove anos depois veria estas contas na mo de minha filha, e me veria a mim
nesta desesperada situao!...
E, dando o rosrio  menina, continuou:
* Vai rezar, filha, vai; pede ao senhor por teu... pai!
* E pela alma de sua mam - acrescentou a mestra. - Eu tenho-a ensinado a rezar
por alma da me: que a menina, quando veio para minha casa, nunca rezava por to
sagrado motivo, e disse-me que ningum lhe ensinara a rezar por ela. Eu fiquei sem a
minha h vinte e dois anos, e nunca passou um dia que eu no encomendasse a Deus a
alminha de minha me e de meu pai.
*  meu tio - perguntou Antnia, entre risonha e triste - a minha me era bonita?... Vossa merc viu-a, no viu?
* Era... sim... - respondeu o padre fitando-a com grandes olhos, imveis como os
de um cego de amaurose.
* Devia ser muito linda - conjecturou a mestra - quem deu ao mundo uma beleza
como Antoninha!... Que esta menina tambm tem muitas avultaes da famlia
paterna... O feitio do rosto, a testa e a covinha na barba tem alguma coisa de V.
Senhoria e do pai... Coitadinha! bem cedo ficou sem me!
Francisco Xavier, levantando-se com mpeto, porque as lgrimas lhe
envidraavam os olhos, deu um ai agudo, ao roar violentamente no rebordo do
aparelho, onde engastava a coxa mutilada, a tuberosidade citica. Esta dor fsica
espertou-lhe muitas angstias morais. Recaiu outra vez na cadeira e chorou largo tempo,
com o rosto amparado nas mos.
Antnia aproximou-se do padre, e lanou-lhe os braos ao pescoo com
extraordinria ternura, murmurando:
* No chore, assim, meu tio...
Ele ento, sentindo-se acariciado pela criana, puxou-a para o peito, tomou-lhe
entre as mos trementes o rosto, e ungindo-lho das lgrimas que o estrangulavam em
soluos, balbuciava:
* Tens compaixo de mim, tens, Antnia?.76
* Molestou a perna? - perguntou D. Feliciana. Quer V. Senhoria que eu mande chamar o cirurgio?
* Muito obrigado, minha senhora... Felizmente chega o sr. Andr para me ajudar a
descer at  sege.
Andr Guilherme amparou-o ao Levantar-se. A menina acompanhou-o at  rua;
foi dentro da carruagem dar-lhe um beijo; e, voltando melanclica, disse a D. Feliciana
que tinha muita pena do seu pobre tio.
O chorar, no mal-compleicionado bisneto de Maria Isabel Traga-malhas, no
deixava a alma defecada dos sedimentos que as lgrimas diluem. Parece que o pejo de
chorar lhe azedava a hipocondria e pesava sobre o esprito um maior gravame de tristeza
que disparava em frenesis e frias manifestadas no sacudir vertiginoso dos braos.
Queimavam-no as ardncias dos trinta e um anos. Raivava contra a providncia que
iniquamente o abatera quela desgraa estpida, inerte, indigna sequer da compaixo
pblica em que muitas infelicidades se estejam e resignam.
Na solido dos seus aposentos, o padre, soberbo das maviosas carcias da filha,
voltou a cismar no plano de lha roubarem. Pois que a viu compadecida, com maior amor
e avareza a queria fechar no seu corao. As perguntas de Antnia a respeito da sua
falecida me - perguntas nunca feitas - quem lhas sugerira? - cogitava Xavier. - Dir-lhe-
ia Catarina algumas coisas com o propsito de ir encaminhando a declarar-lhe que
era sua me? E, se viesse a declarar-se - inferia o padre - o corao de filha, que j se
mostrava to inclinado quela senhora, seria todo da me. E que faria ele ento?
queixar-se! a quem? Proibi-la de ir ao mosteiro? obrigar pelo terror a menina a calar o
segredo? Mas quantas desventuras envolvidas nessas hipteses! Afinal, Catarina sairia
infamada da luta, e ele execrado pelos virtuosos, escarnecido pelos libertinos, e,
sobretudo, odiado da filha.
Nesta relutncia de encontrados sentimentos, decorreram algumas semanas,
durante as quais, a menina, abusando da licena, foi ao convento todas as quintas-feiras.
Francisco Xavier adoecera. Antnia visitava-o com Andr Guilherme; queria falar da
freira; porm o cauteloso padre, na presena do estudante, desviava noutro rumo a
conversao, receando exaltar-se ou interessar-se estranhamente.
Entretanto, a solido e a ociosidade iam lavrando o rastilho da cratera. O homem
no se descia da hiptese pior: - que as duas freiras conjuravam em lhe roubar a filha.
Pedira-lhe Antnia licena para assistir s festas do abadessado.
* V - disse Francisco Xavier, acrimoniando o monosslabo com um tratamento
em terceira pessoa, que nunca lhe dera.
A menina foi, e ficou trs dias e trs noites no convento, se devemos considerar
domnio claustral das bernardas o palacete da madre Paula. Pernoitava no leito de
Catarina, e adormecia-lhe reclinada no brao direito. Espertava sob a presso dos beijos,
e s vezes sentia no rosto a humidade das lgrimas. Na terceira manh, ao descerrar as
plpebras, viu a sua querida freira em joelhos, sobre os degraus da escadinha do leito,
curvada para ela: sentia nas faces o hlito quente. Sentou-se, estrouvinhada e assustada,
na cama. A me cingiu-a a si impetuosamente, dizendo-lhe em segredo:
* No queiras ir hoje, no? olha, Antoninha, dize a D. Feliciana que queres estar
at amanh, sim?
* Mas o tio... se ralha  mestra... e no me deixa c voltar... - reflexionou a criana magoada.
* Tens razo... - anuiu D. Catarina - Vai, filhinha... para voltares na festa do oitavrio.
quela hora, Francisco Xavier esbravejava contra a mestra, porque deixara sua
sobrinha no convento. Defendia-se Feliciana com a licena impetrada pela menina; e ele.77
replicava que no se lhe tinha pedido consentimento para pernoitar no harm del-rei.
Feliciana abriu a sua boca escandalizada, e regougou:
* No harm! credo!... Bendito seja Deus, nem estamos na Turquia, nem o sr. D.
Joo V  imperador de Marrocos! Vossa senhoria desatrema, sr. padre Francisco!...
Deus me livre que o ouvissem!...
Estas palavras vibraram-lhe as cordas do medo. No lhe sobrava dignidade, nem
caridade, nem coragem. Vociferava insolncias, e absorvia logo a blis com medo ao rei,
aos frades domnicos, ao sequestro, ao cavalete, e principalmente  perda da filha.
Martirizava-o aquela criana, balanando-o da petulncia  covardia.
* Peo-lhe que no faa caso destas expresses rudes -dizia ele  mestra - As
minhas doenas exasperam-me...
* Pois, sim, sim, coitado! Eu bem vejo que o sr. padre Francisco Xavier tem o
corao de um anjo; mas as dores do corpo bolem muito com o gnio das pessoas...
Diante de mim pode desabafar como quiser. Quanto  menina, vou logo busc-la, apesar
de ontem me pedir a sr.R D. Paula que a deixasse ficar at amanh.
* No pode ser! - acudiu o padre - no pode ser!...
* Pois bem, bem... quem governa  vossa senhoria.
* E no ma leve l estes quinze dias...
* Nem na festa do oitavrio?  muito bonito ento, porque voltam l os poetas, e
h motes.
* Que lhe importa  minha sobrinha poetas e motes, no me dir?
* Pois olhe, quer creia quer no: a menina me disse ontem que gostava muito de
ouvir as dcimas do Toms Pinto Brando, que faziam escangalhar tudo com riso!
* Como l se divertem! - murmurou o padre, em ar de o dizer a si mesmo - Como
14 se divertem!...
* Ora, se divertem! - confirmou a mestra - H l gente mais regalada que as
freiras de Odivelas! Que lhes falta! s se for sarna para se coarem. Ali vai tudo quanto
h bom em Lisboa. Ontem estava o terreiro a trasbordar de fidalgos, e as janelas cheias
de senhoras. A menina, de janela em janela parecia doida de alegria; e a sr D. Catarina
Castro parecia uma criana a brincar com ela.
* Alegre? - disse o padre.
* Quem?
* Essa senhora...
* D. Catarina?
* Sim.
* Pois ento! J no  a mesma. Era da cor desta parede, e parece uma rosa.
Estava para ali sempre amoixada nas almofadas, e agora salta que nem um passarinho.
Diz a sr D. Paula que a menina a tirou do seu srio fazendo-a brincar e correr. Muito
amigas so! Esto sempre abraadas uma na outra... Coisa assim!... Eu acho que  ela
que prende a menina. Como nunca sentiu os carinhos de me, penso eu, a criana
regala-se de ser ameigada por aquela linda senhora, no lhe parece, sr. padre Francisco?
Esta  a opinio de meu sobrinho Andr; e ontem disse ele umas palavras muito
acertadas... Deixe ver se me lembro... ah! disse ele que Antoninha era spera e um tanto
dura de gnio, e que as carcias delicadas de uma senhora haviam de amaciar-lhe o
temperamento muitssimo, acha ele.
Francisco Xavier escutava reconcentrado, e sentia espessar-se a escurido l no
ntimo.
* E que acha o senhor? - prosseguiu a palreira senhora.
* O qu? - disse o padre, acordando.
* Dizia eu... - propunha-se repetir a opinio de Andr aumentada..78
* Ah!... sim... dizia a senhora que no convento vai grande alegria...
* L me pareceu que vossa senhoria no estava aqui... - disse sorrindo D.
Feliciana - Eu estava contando o que disse meu sobrinho...
* Ouvi - atalhou o padre carranqueando-lhe um daqueles gestos capazes de estagnarem a torrente palavrosa de Feliciana.
Depois, para no expelir mais longe o jacto da atrablis, o padre ergueu-se,
cortejou a mestra, e saiu apoiado ao corrimo da escada, raspando rijamente nos degraus
com a ponta ferrada da perna artificial.
* Valha-te o diabo, manco! - responsava-o a velha, quando ele, em boa correspondncia mental, ia dizendo consigo:
* Eu me livrarei de ti, quanto antes, canalha!.79
XIX
Desde este dia, comeou o padre a destemer parte dos receios que o constrangiam
a consentir nas visitas de Antnia ao mosteiro. Pensou em estabelecer-se e levar para
sua companhia a filha. Era, a seu ver, um corte radical. O conde do Rio, em nome da
sua amizade, ainda conseguiu det-lo irresoluto alguns dias; mas, na correnteza dos
ltimos sucessos, chegou de Roma o doutor Isaac Eliot, a quem o padre comunicou o
plano de residir em algum dos seus prdios de Lisboa, a fim de ir criando  volta de si
uma famlia que lhe florejasse os speros matagais da velhice.
* Quem fala em velhice aos trinta e uni anos? - disse o mdico - A sua velhice,
meu amigo, parece-me fantasia como a de um padre arranjar famlia.
* Pois no tenho uma sobrinha?
* Ah! no me lembrava a criana!... ento  ela a presuntiva colonizadora dos seus
futuros matagais? Quando verei eu a colnia!... Faz muito bem, doutor. Quando mais
no seja, sua sobrinha h-de alegrar-lhe a vida domstica e destecer-lhe o vu negro que
lhe esconde as coisas belas desta vida, que no  de todo feia...
Deter-nos-emos algum espao a desenhar a vida como ela se coloria e variegava
no prisma daquele meio-francs e meio-muulmano.
Alguns meses depois que se estabeleceu em Lisboa, Eliot foi a Frana, e voltou
depressa com uma dama daquele pas. Saiu com ela a pblico em sege prpria, parou 
tarde no Rossio onde confluam os faceiras 30 e ainda os homens de maior porte. Os seus
amigos, todos das raas finas, cumprimentaram a francesa, que se fazia valer pela cara e
estranho garbo. Eliot era o intrprete dos curtos dilogos das apresentaes.
Naquele tempo a cincia da lngua francesa andava to descultivada, que mais de
trs anos um professor de lnguas, chamado Villeneuve, anunciou na Gazeta, que se iria
embora de Lisboa, se dentro de um ms no arranjasse seis discpulos. E nunca os
arrolou; mas tambm deixou-se estar para fazer pirraa aos portugueses com o repetido
anncio que a ficou estampado para imorredouro oprbrio da nossa ignorncia
lingustica no sculo XVIII. Creio, porm, que Villeneuve arredondou os seis alunos
depois que madame Eliot, no avara na exibio das Ligas, pulava da caleche no terreiro
do Rossio, e dava seus giros, boleando-se de quadris, e picando o passo com certa
desenvoltura que as senhoras srias, untuosas e esparramadas de Lisboa viam de
esguelha, acotovelando os maridos menos escarlates do pudor.
Diziam uns que a forasteira era legtima consorte do mdico, outros negavam;
todos, porm, procediam com igual cortesia no trato de to donosa criatura. Eliot,
quando apresentava a francesa, escusava-se de dar explicaes que ningum lhe pedia;
ela, por sua parte, mostrava-se desempeada do acanhamento das situaes equvocas;
parecia uma esposa com todos os cnones da legalidade social e sacramental.
Todavia a um homem, nico em Lisboa, confidenciara o herege e concubinrio,
que no era casado com a francesa. O padre Xavier sabia o pecado; mas indultou-o visto
que o escndalo dependia da cincia do delito; e a confidncia, fora do confessionrio,
que ele no exercitava, obrigava-o a tolerar e calar.
Historiando os seus amores, dizia Isaac Eliot que, indo a Frana vrias vezes, se
deixara escravizar daquela mulher, que era manceba de um duque, e de famlia muito
ilustre na Picardia. A francesa, com o seu savoir-vivre, e o savovir un peu son monde,
no o desmentia; e o tom familiar com que ela, relatando casos de altos personagens de
Paris, denotava sociedade selecta, foi muito na graciosa aceitao que algumas casas
30 Eram assim denominados os pisa-verdes, os casquilhos, peraltas, petimetres, etc., que em nossos dias
andam crismados em janotas..80
titulares lhe deram, talvez de plano para obrigarem o mdico.
Sem dvida, madame Eliot conhecia a vida anedtica do reinado de Lus XIV e
noviciara o seu tirocnio nos primeiros anos da Regncia. O apaixonar-se pelo filho da
moura e desligar-se do duque tem uma explicao que a nobilita. Queria regenerar-se
pelo amor, e amou o galante rapaz. Quis honestar a sua virginal paixo, e rendeu-se-lhe
sob promessa de casamento. No propsito de casar-se, ia Isaac a Paris quando em Corfu
os portugueses o negociaram. E, como a fortuna lhe bafejasse em Lisboa, onde com
estrangeiros a brisa era sempre de servir, mormente se vinham de Frana e estanciavam
c onde reinava o macaco de Lus XIV, Eliot mais ufano se foi a conquistar o velo que
nem era de ouro nem de Gedeo pela pureza. Quanto a casamento, porm, os
indissolveis laos diferiu-os ele para Lisboa, onde lhe convinha, a um tempo, apostatar
de heresias calvinistas, e dar pblico testemunho da sua religiosidade sem ervilhaca,
matrimoniando-se catolicamente.
Se o francs perjurou a palavra dada, os crditos de madame Eliot conservaram-se
abonados pela descuriosidade da opinio pblica. A sociedade transige, enquanto pode
alegar ignorncia e observar o pacto da honra convencional. Guardem-se as aparncias
do decoro; que o mais cada qual sabe de si e Deus de todos:  a mxima eterna da eterna
corrupo.
O padre Francisco Xavier cogitava no caso, espantava-se da facilidade e
familiaridade com que algumas damas da flor da nobreza tratavam a forasteira sem lhe
indagarem da procedncia, e conclua que a mulher infame no s  a que  infame, mas
a que d ares de o ser. s vezes, por muito afeioado ao mdico, observava-lhe que teria
sido melhor abster-se de sair  praa com uma companheira equvoca e dar azo a que
lha considerassem como esposa; porque, se um dia, ele por convenincia de mais
legtimo consrcio ou por enfado, e ainda por motivos de perfdia se desligasse da
francesa, as famlias, que a receberam, haviam de levar-lhe a mal o ardil do silncio.
A isto replicava o herege com o cinismo de mui acreditados catlicos daquele
tempo:
* Eu reservo as explicaes para quando o duque de Cadaval ou o marqus de Gouveia ou o conde de Tarouca me soprarem a dama.  Estes trs fidalgos, useiros e vezeiros na caa de aves arribadas, eram os mais devassos da corte de D. Joo V, cunhado do primeiro.
Nada obstante, a pedido do cardeal Nuno da Cunha obteve Isaac Eliot o hbito de
cavaleiro professo na ordem de Cristo, No se persuadam que seria fcil e insignificante
a merc. O Cavalheiro de Oliveira encarece esta coisa que hoje em dia apenas engoda as
aspiraes cavaleirosas do regedor de parquia rural. "Os reis de Portugal, diz o
celebrado escritor, fundaram, desde certo tempo, uma espcie de veniaga com os que
no podem ser cavaleiros, conforme o direito: inventaram uma dispensa. E o certo  que
tem havido rcovas de sandeus que, esporeados pela vaidade de exibir uma fita escarlate
ao pescoo, a compram carssima, obrigando-se a descontar em dinheiro de contado os
graus de fidalguia que lhes faltam. H dispensas de dois, quatro, seis, dez mil cruzados;
e j vi subir tais dispensas at vinte mil cruzados.  to desptico o poder do rei de
Portugal, que, sem prvio informe do tribunal das Ordens, e at sem dispensa, d ele o
hbito de extraordinrio modo, pondo-o com suas prprias mos no pescoo das pessoas
que quer nobilitar.  todavia to raro isto que, se me pedissem exemplos, eu apenas
poderia citar dois ou trs". 31
Um dos dois ou trs exemplos era o cirurgio-mor do exrcito, Isaac Eliot,
armado cavaleiro sem dispensa, pela prpria mo do monarca.
Decorridos alguns anos, quando os achaques apodrentavam as carnes estafadas do
31 Oeuvres Mles, T. II, pgs. 218 e 219..81
rei, e a cincia disputava primazias ao milagre  cabeceira do monarca enfermio, os
cirurgies mais conhecidos lograram entrar na Ordem de Cristo. Um viajante que nos
visitou em 1723, escrevia: Le roi et la plupart des grande seigneurs et des fidalgos,
portent l'ordre de Christ, qui est nanmoins tellement avili que l'on voit plusieurs
officiers subalternes, mme des marchands, des commis, des chirurgiens, etc.". 32
Este viajante, se viesse a Portugal vinte anos depois, que diria vendo D. Joo V a
armar cavaleiros de Cristo os banheiros que o baldeavam  tina nas Caldas da Rainha?
Encadeavam-se os lances da fortuna cega na prosperidade de Eliot.
No ano de 1723 lavrou em Lisboa uma formidvel peste que, em poucos dias,
matou seis mil pessoas. Era a febre amarela. 33 Votaram uns mdicos pelos derivativos,
outros pela sangria; mas tanto os purgados como os sangrados todos pereciam.
Salvaram-se, porm, os empestados a quem Eliot medicava. Voga a notcia. Alvoroa-se
a capital. Tumultuam  porta do francs e  volta de sua sege as multides cons-ternadas.
No pode o salvador acudir a todos os enfermos; mas magnanimamente avia
uma receita universal: leite de burra. E com leite de burra se apaga o incndio da febre2
os atacados convalescem, preservam-se os ilesos, e  volta de poucos dias, a peste j
nem sequer fasca na capital ressurgida do seu letargo.
D. Joo V remunera ento o cavaleiro da Ordem de Cristo com uma tena de
duzentos mil ris. Esta verba ainda assim montava pouco na ganncia do famoso
mdico. Enriquecia-se e simultaneamente desbaratava-se em pompas. Assoldadou
pajens, e comprou escravos. Os seus lacaios eram negros, e vestiam fardas de fantasia.
O seu pajem particular, tambm francs, distinguia-se pela bizarria dos trajes
estrangeiros. Acompanhava-o  estribeira raspando com a anca dos soberbos cavalos os
transeuntes nas ruas estreitas. A caleche de Isaac Eliot estremava-se por unia Vnus
calipgia pintada na popa, obra de execuo acabada em primores de artista lbrico. E
no era das mais indecentes que se alardeavam nos passeios do Rossio e do Pao. Ao
propsito desta e doutras, invectivava o contemporneo padre Manuel Bernardes... "H-de
ir um fidalgo na sua calego passeando, e desde a popa dela, como se fora de uma nau
de guerra, h-de ir disparando tiros de escndalo a quantos empregarem ali os olhos?..."
34
32 Description de la Ville de Lisbonne, pg. 180. Paris, 1730.
33 Assim classificada por Antnio da Costa Vieira de Meireles, lente da Universidade de Coimbra,
falecido em 1872 na flor da idade. Veja Memrias de Epidemologia Portuguesa. Coimbra, 1866.
34 Armas da Castidade. Lisboa, 1758, pg. 302..82
XX
Francisco Xavier, aplaudido por Eliot no desgnio de assentar a sua residncia em
casa prpria e continuar a a educao da sobrinha, foi ocupar uni dos seus prdios na
rua do Outeiro, freguesia dos Mrtires. De antemo, se proveu de mestre idneo para
Antnia, convidando com elevado estipndio1 e por interveno do mdico, um clrigo
francs, chamado De Preville, que se anunciara professor de lnguas e filosofia.
Estas miudezas prendem com a veracidade de um processo que ao diante enlutar
as pginas desta narrativa..
Agravavam-se de dia para dia os cimes e medo do padre. Catarina cativava-lhe a
filha no mosteiro com pretextos de festas e com o engodo das carcias. Antnia ia to
agitada e alegre para o asitico palacete de madre Paula, que j se enfadava se a mestra
lhe antepunha a vontade repugnante do tio.
No mosteiro, como era de esperar, lavrava a intriga por amor da menina; e, ao
divulgar-se que ela era filha de Paulo Xavier, irmo do gal de Catarina, a maledicncia
gozou o triunfo raro de ser verdica, computando os tempos, calculando a idade da
pequena pela sada da Muleirinha, destrinando feies, e tirando a limpo, enfim, que
Antnia devia ser filha de Catarina. No era caso para grandes assombros, nem a
fecundidade de mim monja cisterciense era fenmeno. Muitas freiras andavam
apontadas como filhas de outras; e l estava a organista D. Teresa de Milo que passava
por ser produto uterino da celebrada soror Feliciana de Milo e de Afonso VI: aleivosia
desmentida pelo testemunho da prpria rainha, e doutras senhoras ilesas, no processo
que julgou Maria Francisca d'Aumale, digna doutra casta de marido. 35 No foi isso,
porm, impedimento s intriguistas energmenas do dio velho, acaudilhadas pela
Pimentinha.
Mas a honra do convento abafava os rumores adentro da clausura, e tambm o
medo a Paula Perestrelo despontava os farpes da lngua mordaz de D. Francisca Melo.
A amante del-rei ungiu os pulsos para o pugilato, logo que as impacincias maternais de
Catarina abriram brecha s suspeitas. Baldada a prudncia, recorria s retaliaes.
Segundo se desprendia da sua Lista do auto-de-f para 1724 -  feio da amostra
que o leitor viu - no havia em Odivelas freira honrada menor dos cinquenta e cinco
anos. Injustia e exagerao, talvez.
Entretanto, Antnia e a sua mestra continuavam semanalmente duas vezes a sua
visita ao paozinho monstico. Em uma dessas visitas concorreu o mdico Eliot,
especialista em histerismos e muito feliz nos de D. Paula. Como visse Antnia com
soror Catarina na cmara da histrica, maravilhou-se das purpurinas cores da menina e
da vivacidade sadia da freira. Conversou em francs com Antnia, fez-se entender de
Paula, felicitando-a pela sua rara compreenso, e contou que o tio da menina andava
alfaiando ricamente a sua casa da rua do Outeiro, para onde tencionava ir morar com a
sobrinha.
Esfriou e alvejou como mrmore o semblante de Catarina. Paula, inquieta, e
receosa, forcejava por desviar da sua amiga a ateno do mdico.
* Quer ir ao jardim, Antoninha? - disse a Perestrelo - Vai tu com ela, Catarina,
que eu vou expender os meus flatos ao doutor.
Saram. Poucos passos andados, Catarina abraou-se na filha, dizendo-lhe que
talvez fosse aquele o ltimo dia em que se viam.
* Porque me diz isso, minha senhora? - perguntava Antnia.
* Porque teu tio no te deixa c vir mais... Tu vais viver com ele; e depois... quem
35 Nota 11..83
te h-de c trazer, minha filha?
A menina respondeu com lgrimas, aconchegando-se ao seio da religiosa; porque
naquele momento compreendera que a renitente m vontade do padre contra as suas
visitas ao convento explicava a inesperada sada para a companhia dele. Alm disso, era
a primeira vez que ouvia o mavioso tu, expansivo e impensado, dos lbios de D.
Catarina.
* No te vejo mais, no te vejo mais! - exclamava a religiosa, afogada por
soluos, ajoelhada ao p da filha, reclinando-a nos braos, beijando-a, embalando-a
como as mes doidas de amor fazem s filhinhas feridas de doena incurvel.
* Ento eu no volto aqui?! - perguntava Antnia acariciando entre as mos o rosto de Catarina.
* No voltas, no, Antoninha, meu querido amor do corao! No me tomas a ver,
porque ele... teu tio, para que no voltes c, vai tirar-te de casa da mestra, e leva-te para
si...
* No que eu no vou!... - acudiu energicamente a menina.
* No vais? no vais, minha filha? Ento que fazes tu?
* Digo que no tomo a sair de c, se as senhoras me deixarem ficar. A sr D.
Catarina quer que eu fique?
* Quero, filha, quero! - exclamou a me, rindo e chorando - E tu deveras queres
ficar comigo, Antoninha?
* Tomara eu... O pap, quando vier da ndia, no me ralha.
* Mas se ele...
* O tio?
* Sim... se ele te obrigar...
* Ele no me bate... - replicou a menina, definindo pelo lado mais pueril e tangvel a hesitao da religiosa.
Neste momento chegou D. Feliciana com Maria da Luz, trazendo cada uma seu
ramilhete dos canteiros do terrao. O mdico sara ao mesmo tempo, e D. Paula
mandara procurar Catarina para, sozinhas, se combinarem no modo de cativarem
Francisco Xavier.
* Para qu? - perguntou Catarina.
* Que pergunta! Pois no percebes que o Xavier pe casa para subtrair a pequena
da companhia da mestra e da tua?
* Percebi, e ento?
* Ento  preciso que o Xavier no proba a filha de c vir.
* E se Antnia no quiser sair da minha companhia? - perguntou ufanamente D.
Catarina - Que h-de fazer ele?
* Eu sei l o que ele far, minha pobre Catarina! Escndalo te assevero eu que temos.
* Deix-lo... Aceito tudo, menos o teu desafecto, minha querida Paula, e a perda
da minha filha. Achei-a... Tenho-a... Amo muito menos que a ela os meus crditos e a
minha vida. Que me importa o escndalo e a desonra? Protege-nos tu, e no me lastimes
se ouvires que me insultam aqui e l fora. No consintas que me roubem a minha
filhinha, no, Paula?
E, pondo as mos, quase dobrava os joelhos diante da poderosa amante de D. Joo
V.
*  doida! - dizia com extremado carinho soror Paula, apertando-a nos braos, e
levantando-a da postura suplicante - pois ser preciso que me peas proteco? Que
fao eu seno amar-te desde que sou metade da tua alma, e sinto, como se fossem
minhas, as tuas alegrias?... Queres tu que a tua filha fique connosco? Pois que fique..84
Fechemos os olhos. Se ho-de vir desgostos, deix-los vir. Eu c estou ao lado do teu
corao. Que pode acontecer? Pensemos...
D. Feliciana, neste comenos, mandava perguntar a D. Paula se sua senhoria estava
disposta a dar a sua lio, porque era hora de sair.
* Que entre - ordenou a freira.
Catarina receava pedir  sua amiga que Antnia ficasse no convento desde logo.
* J sabe - perguntou D. Paula  mestra - que o sr. padre Xavier est mobilando
casa onde vai morar com a sobrinha?
* No, minha senhora... - respondeu D. Feliciana espantada. - Eu no sei nada!
* Saiba pois - prosseguiu a freira - que tanto a senhora como ns vamos ficar sem
a nossa Antoninha!... Tem pena de nos deixar, anjinho? Leva saudades das suas trs
amiguinhas. do convento?
* Eu j disse  sr. D. Catarina - respondeu Antnia a ponto de chorar - que se as
senhoras me deixassem c ficar... eu no ia...
* E era muito bem feito castigar assim o tal manco! -obtemperou a retrincada
preceptora. -  espera disto j eu estava... Ele, a ltima vez que l foi a minha casa,
esteve a conversar com meu sobrinho Andr, e a perguntar-lhe coisas a respeito da
educao da menina, pelo sistema de um certo padre francs que por a anda a ensinar
umas pantominices pelas casas. Por sinal que o meu Andr me disse depois que o padre
queria dar  sobrinha sabedoria demais. Mas o que isto  sei eu... Quer-me tirar a
menina porque eu fui a causa de ela vir ao convento, e tenho continuado a traz-la todas
as semanas contra vontade dele. O padre, seja l pelo que for, no gosta de vossas
senhorias. Encasquetou-se-lhe na coroa que esta menina...
* Diga... - incitou soror Paula, curiosa de decifrar as reticncias - que esta menina...
* Afagada por vossas senhorias, se afeioaria a alguma, como acontece s
crianas que no conheceram as carcias maternais;1 e lhe perderia a ele, de todo em
todo, o afecto.
* Disse-o ele? - instou D. Paula..
* No, minha senhora... Meu sobrinho  que tem l estas ideias, e explica deste
modo o amor da menina  sr D. Catarina, quando ela, em vez de escrever o traslado, lhe
est contando ao meu Andr Guilherme as palavras amorosas que as senhoras lhe
dizem...
D. Catarina chamou com um gesto a filha, sentou-a no regao, e segredou-lhe por
entre beijos sfregos:
* No queres ir?
* No, minha senhora.
* Ouve? - indicou Paula  mestra - Diz que no vai.
* E eu estimo isso muito - condescendeu D. Feliciana - Ensine-me agora V. S o
que hei-de eu dizer ao tio... Sim, no caso que ele esbraveje, que hei-de eu dizer-lhe?
* A verdade: que a menina ficou em companhia de D. Paula Perestrelo, por
vontade de ambas; e acrescente que eu particularmente lhe escreverei, solicitando a
licena que a sua delicadeza no h-de recusar-me.
A mestra, chegado o momento de sair sem a educanda, ponderou a gravidade do
caso, e temeu as iras de Francisco Xavier. A razo reprovava-lhe a condescendncia ao
capricho das freiras e  criancice de Antnia. Visivelmente hesitante, quando a menina
lhe pedia que mandasse v-la ao convento o sr. Andr Guilherme - nica saudade que
lhe aguava as alegrias - D. Feliciana pediu  freira del-rei que escrevesse duas linhas ao
padre, duas palavras que a desculpassem.
* E quer esperar? - disse Paula. - Pois, espere, que eu vou escrever ao sr. padre.85
Xavier..86
XXI
A precatada mestra, para esquivar-se ao conflito, incumbiu o sobrinho de procurar
Francisco Xavier em casa do conde do Rio, e entregar-lhe a carta da freira.
Andr Guilherme deteve-se a examinar o sinete da carta, gravado fundamente em
grossa camada de lacre. Eram as armas dos Perestrelos: escudo partido em pala; na
primeira, o leo rompente; na segunda, a banda azul com estrelas, e  volta seis rosas.
No timbre  que estava a novidade que fazia sorrir o estudante versado em herldica.
Em lugar do leo com uma estrela na espdua, consoante reza a carta de braso passada
a Filipe Perestrelo em 1437, o escudo compunha-se de dois coraes debaixo de unia
espcie de dossel formado pelas asas de um querubim. Esta graciosa alegoria deve de
ter sido inventada por D. Joo V em um rapto de amor capaz de inventar a plvora.
A carta ia relacrada no centro e nas extremidades de um grande almao. Estes
resguardos arguiam mistrio. Andr. o mensageiro da ignorada misso, farejava o
segredo com a subtileza de alma que se apurara na cogitao das estranhas ocorrncias.
Entregou carta ao padre ao mesmo tempo que ele lhe perguntava:
* J disse a sua tia que eu amanh vou buscar minha sobrinha para a nossa nova
residncia?
* Ainda h pouco tive ocasio de lhe dar as ordens de vossa merc.
* E que disse?
* Nada. Entregou-me esta carta.
* De quem?
* De soror Paula de Odivelas.
* E minha sobrinha ouviu o aviso dado a sua tia?
* No estava presente.
* Mas estava em casa...?
* No, senhor. Estava em Odivelas.
Xavier carregou a sobrancelha, sacudiu automaticamente a perna artificial,
deslacrou a carta, e, vendo-a de relance muito extensa, disse ao portador:
* V, que eu responderei.
Os primeiros e os ltimos perodos continham o seguinte:
"Se  foroso que a verdade brote de coraes despedaados, no se respeite
alguma dor, no se afogue algum gemido, ainda que o mundo o oua e insulte.
"Quem disse a Catarina Castro que ela tinha uma filha foi o sr. Francisco Xavier;
quem lha trouxe pela mo foi a divina Providncia, quando o pai lha escondia debaixo
da espedaada tnica do mau frade que no podia refazer o mau homem.
"Selvagem at  ferocidade seria o pai que arrancasse dos braos de uma
desgraada me a criana que lhe custou a honra, o crdito, as lgrimas choradas em uni
antro da Inquisio.
"Se h nesta terra tamanho brbaro, no permita Deus que ele se chame Francisco
Xavier, um principalmente que h nove anos levou desta casa uma virgem, que se
chamava Catarina de Castro, uma doce e formosa menina que, volvidos dois anos, aqui
entrou com o estigma de crist-nova cuspido na fronte, e o da desonra gravado na intima
conscincia, - na vergonha abafada que s lhe permite erguer o rosto diante de Deus,
que  misericordioso, e diante de mim, que sou pecadora.
"Ela ia pendendo  sepultura, com os olhos postos na esperana do eterno
descanso. Para que lhe escreveu, sr. Xavier? Deixasse-a acabar na ignorncia de que
tinha uma filha; no lhe viesse apertar o corao com as garras da saudade; dissesse-lhe
que morresse anelando encontrar a sua filhinha entre os anjos do Senhor..87
"E, se  sua alma traspassada de saudades e remorsos, sr. Xavier, foi desafogo
chorar diante desta pobre criatura, que rija tmpera  essa de sua m ndole que se
compraz no feroz deleite de matar na paixo de me aquela que j havia assassinado na
paixo de amante? Se a fez me pela desonra, doa-se, envergonhe-se de querer que a
prpria filha seja o involuntrio instrumento do segundo e mais acerbo suplicio.
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"Se  vingana priv-la de ver sua filha, de que ofensa quer vingar-se o senhor?
Que mal lhe fez Catarina? Acredit-lo? Sair daqui cega pela paixo, e voltar para aqui
alumiada pelas chamas infernais da experincia provada nas dores todas que podem
caber em corao de mulher?... Eu no sei o que o sr. Xavier deseja que ela faa para
lhe merecer a esmola de ver sua filha!
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"Quer que a religiosa dispa o hbito, e se confesse publicamente desonrada? Ela o
far com a condio de ser me. Eu lhe abriria as portas do convento, quando algum
lhe estorvasse a sada, e lhe daria trs partes do que tenho para que a necessidade a no
obrigasse a pedir ao abastado pai de Antnia os recursos de um viver descansado.
"E assim acontecer, se o combate for preciso, sr. Xavier. Quem luta sou eu, no 
ela. Eu venci a morte que ma disputou; no hei-de agora desampar-la, quando tenho do
meu lado, contra menor inimigo, o poderoso auxlio da criana. Lutaremos. Se houver
escndalo estrondoso, Deus perdoe a quem o provocar...
"Antnia quer ficar com a me, que ainda no conhece; mas, no momento em que
uma ordem da corte ou de Alcobaa lhes decretar a separao, Catarina dir a Antnia
que  sua me, e depois ambas o diro a todo o mundo; e o mesmo ser apregoar bem
alto o nome de seu pai. Medite, senhor. Logo adiante deste passo, veja quantas
desgraas se encadeiam. No se faz precisa dupla vista. A desonra est de l e de c.
Ambos os contendores ho-de cair sob o peso do oprbrio e do escrnio; mas
verdadeiramente infame h-de cair um s. Catarina ter por si a compaixo das que se
perderam por amor e das que temem perder-se. O sr. Xavier ter de vestir de novo o
hbito do Varatojo para se reconciliar com Deus, e para se esconder ao riso afrontoso
dos libertinos e s cleras mais ou menos contrafeitas dos beatos.
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"Nenhuma destas funestas previses me assusta. No. Antnia, com o
consentimento de seu tio, fica em Odivelas na companhia da sua amiga e condiscpula
Paula Perestrelo. Ir ver seu tio, quando ele assim o ordenar. Continuar aqui sua educa-o.
O santo amor de me lhe ir formando a alma. As lies teis  vida, mais teis que
a cincia da lngua francesa, lhas dar a desgraa de sua me. Os olhos, que muito
choraram, so os mais penetrantes: no se lhes esconde nada. Catarina ver
desabrocharem no esprito de sua filha as flores que recendem, os aromas que
aviventam, e os que matam. Creia que, se Catarina nascesse nas condies de Antnia, o
sr. Xavier no acharia aqui uma cega vtima."
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Quebrantou-o a justia das acusaes e o pungir das ironias. Apesar da forma acre
dos queixumes e da arrogncia com que a amante del-rei traava o destino de Antnia, o
padre Francisco Xavier denotava nas lgrimas o sentimento de no poder defender-se, e
talvez o apertar das algemas que lhe frustravam a luta. De relance viu que o
antagonismo com a poderosa Paula lhe sortiria a derrota com muitas vergonhas, e talvez.88
com a perda da filha. Calculou que a freira, se pedisse a D. Joo V que lhe mandasse
transferir para fora do reino Catarina e Antnia, o desejo seria logo executado, e a
criana para todo o sempre alheada do seu amor.
Sucumbiu. Respondendo  carta de Paula, com discreta reserva, assentia ao desejo
de sua senhoria, sem ressalva; suplicava, porm, que a condio de ele ver "sua
sobrinha" lhe no fosse quebrantada.
A concesso foi recebida em Odivelas com as imaginveis exultaes. No corao
de Catarina renasceram sentimentos de d e gratido. J lhe perpassava sem rancor pelo
esprito alegre a imagem daquele homem que tanto amara. Via-o na florente mocidade
dos vinte e dois anos com a gentileza distinta realada pelos dons da inteligncia, raros
nos cortesos de Odivelas. Pediu  filha que pensasse em seu tio com amizade, e se
afizesse  ideia de que ele a adorava, porque assim, com o decurso dos anos, o que no
fizera o amor espontneo o faria a gratido reflectida. Antnia teimava em s querer
amar seu pai, e a me contristava-se quando a menina, desatenta de delicadezas e
afectos, prometia voltar para a companhia do pai quando ele recolhesse da ndia.
* E deixas-me ento, Antoninha? - perguntava Catarina doloridamente.
* Se meu pap me mandar sair, que remdio h? Sou to amiga dele, que no h
um dia s que o no veja a chorar quando me deixou.
A me olhava tristemente para Paula, que lhe observava:
* No to disse eu? A natureza entre pas e filhos  a coisa mais artificial deste mundo... - e voltando-se  menina:
* Lembra-se da sua ama, Antoninha?
* Se lembro! quem me dera v-la... H seis meses que no tornou c... Talvez morresse...
E agitaram-se-lhe os grandes olhos imveis e pensativos.
* Est a chorar, coitadinha... - acudiu Catarina -Falemos noutra coisa...
* Quando ela assim chora pela ama, que faria se fosse pela me... - insistiu D.
Paula - Que lhe dizia a ama a respeito de sua me? falava-lhe dela?
* Disse-me uma vez que estava no cu; e o meu papa tambm mo dizia.
* E seu tio?
* O tio no me disse nada... s uma vez que a mestra lhe perguntou no sei qu de
minha me, reparei que ele estava a querer chorar, e a beijar-me muito, muito...
* Queria ter me, Antoninha? - perguntou Catarina.
Antnia fez com os ombros um gesto pueril de indiferena. Era a verdade seca e
natural. S os filhos que viram a agonia de seus pais e apalparam o vazio horrendo da
orfandade, invejam a felicidade das crianas que tm me.
* E, se tivesse me carinhosa como esta senhora, no era to feliz, menina? -
replicou a Perestrelo, apontando Catarina.
Antoninha fez um sinal afirmativo, mas moderadamente entusiasta na hiptese de
ser filha da freira, que parecia esperar a resposta como a revelao de um orculo.
Entretanto, D. Catarina, embevecida nas suas alegrias, apenas ouvia os rumorejos
da maledicncia, que lhe soavam desde o interior do mosteiro. L, ningum j duvidava
que a Muleirinha era me da pequena. De Paula Perestrelo rosnava-se a medo; mas
intrigava-se com o dom abade de Alcobaa, aquele tanto ou quanto filsofo, varo de
bom aviso que se desviava, dizia ele, da torrente das viciosidades por medo de
escorregar e ser levado no enxurro. Quando lhe deram a denncia de que a freira
Catarina de Castro chamara para si, com o patrocnio de soror Paula, uma filha, o
prelado respondeu:
* Se est dado o exemplo, as outras freiras que chamem tambm as suas filhas.
Replicaram-lhe que o pai da recolhida era o ex-frade varatojano Francisco Xavier..89
* Aconteceu essa desgraa a grandes santos - observou edificantemente D.
Bernardo de Castelo Branco. - O grande bispo Santo Agostinho tambm teve uma filha;
e na ordem dos seus crzios so tantos os exemplos de fecundidade que o cu viria
abaixo com o peso dos bem-aventurados, se os santos fossem tantos como os pais..90
XXII
Andr Guilherme acompanhava Antnia a visitar o tio, todos os domingos. Era
defeso  menina sair com a mestra. Odiava-a secretamente o padre quanto lhe estimava
o sobrinho. Na juventude mais florente, Andr tinha a gravidade e compostura de um
velho. Insinuava-se pela sisudeza e pela modesta autoridade da precoce cincia.
Ganhara fama de prodgio nas lidas escolares, e vrias ordens monsticas aporfiavam
em atra-lo. Mas a sua vocao inflexvel era a ordem da Santssima Trindade, no
propsito de se passar  moirisma a resgatar cativos. Entranhara-lhe razes na alma esta
aspirao desde que soube que seu quarto av e trs irmos,  mngua de resgate,
pereceram cruelmente trateados nas sejanas de Marrocos, para onde foram cativos
depois da derrota de Alccer-Quibir.
Antnia ouvia-lhe os conselhos com docilidade e uma espcie de amor mais
submisso que o filial. Desde que o estudante, compadecido da misantropia do padre,
comeou de arguir  discpula a ingratido de se ficar no mosteiro, quando o tio
alegremente preparava casa para vivenda de ambos, a menina escutava-o com alguma
compaixo do tio.
Ao mesmo tempo, Francisco Xavier esfriara nas carcias, bem que a recebesse
com alegre rosto. Escutava o que lhe referia do mosteiro; mas com aparente
desinteresse. Havia naquele descaimento de esprito e ar taciturno a melancolia
precursora de doena mortal.
Antnia levava impresses dolentes do tio para o mosteiro, e muito mais vivas na
alma as brandas, mas penetrantes advertncias de Andr Guilherme.
* Se seu pai morrer na ndia, e seu tio lhe faltar com a vida, Antoninha, ver que
fez mal em trocar a companhia dos seus pelos ligeiros afectos de umas senhoras ociosas
que muito mal procederam em lhe ensinarem ou permitirem a desobedincia a seu tio.
Este era o tema das censuras de Andr Guilherme, desenvolvido em frases
acomodadas ao esprito de Antnia, j aos onze anos muito esclarecido pelo trato da
conversao e da leitura.
Dois anos e meio decorreram, conservando-se a menina em Odivelas, apesar das
representaes da prelada e doutras influncias exteriores que actuavam directamente
sobre o rei.
E, quer o amor de D. Joo V  freira arrefecesse, quer a inconstncia do seu
natural, atreito a intermitncias de religiosidade, O emancipassem,  certo que ele
pendeu a escutar como justos os queixumes da comunidade cisterciense contra a
escandalosa convivncia da freira com uma recolhida em que assentavam fundadas
suspeitas de filiao sacrlega. Soror Paula destramente conheceu que a sua vaticinada
mula D. Lusa Clara de Portugal, ou quaisquer outras, lhe haviam contra-minado o
rastilho inflamvel por onde ela acendia o corao do rei, solapando-lhe a hombridade e
o decoro.
Deu D. Joo a perceber  sua freira que convinha satisfazer s reclamaes da
prelada e doutras fidalgas protegidas na corte pelos primeiros dela; que Antnia poderia,
a mido, visitar a me, sem todavia passar das grades adentro; e que D. Catarina, sob
qualquer pretexto sasse s temporadas, do mosteiro, e gozasse plenamente a companhia
da filha. Se madre Paula retorquiu, a palavra do rei no tornou atrs: - provrbio que
anda em vnculo na monarquia portuguesa, e a histria confirmar rebuscando nas
novelas algum lance herico da importncia deste que levamos relatado.
Houve muitas lgrimas quando soror Paula Perestrelo aconselhou a sada
espontnea de Antnia, antes que a intimao assinalasse a vitria da Pimentinha..91
Apesar da concesso das visitas ao locutrio e do alvitre da sada, Catarina, colhida
fulminantemente em plena felicidade, aturdiu-se, perdeu o alento, e em poucas horas
desmereceu de cores e vida como se recasse no torpor de dilatada doena. Menos
sensvel incomparavelmente foi Antnia. Chorava, consoante choram meninas de doze
anos, quando o sangue do corao no  parte nas lgrimas.
Mais amargas as chorou ela, quando, por esses dias, Andr Guilherme a procurou
em Odivelas para lhe dizer que o sr. desembargador Paulo Xavier morrera em
naufrgio, quando recolhia da ndia, e j avistava Lisboa. A menina correu. espavorida e
em gritos a dizer que o seu pap era morto. Velou-lhe a passageira angstia D. Catarina.
Ao fim de trs dias, Antnia, divertida da sua saudade, diligenciava reviv-la
recordando-se das feies incertas de Paulo Xavier. Ora, havia dois anos e meio que o
desembargador embarcara; e a menina poucas feies lhe retivera na infantil memria.
Fora dos romances e dos poemas imaginosos, estes esquecimentos so naturais e
providenciais no dizer dos providencialistas. Eu, por mim, deploro entranhavelmente
este pssimo feitio da sensibilidade humana.
Voltou Andr Guilherme pedindo a soror Paula, em nome do doutor Francisco
Xavier, que lhe permitisse a companhia de sua sobrinha por algum tempo, j porque a
sua paixo, na falta do seu nico amigo, merecia do dever ou da comiserao algum
lenitivo, j porque sua sobrinha, nica herdeira de seu pai, ia ser tutelada, e no podia de
hora em diante dispor de si sem o consentimento do tutor.
Condescendeu D. Catarina; mas j estava no leito quando a filha, na despedida, a
foi abraar. A devotada amiga da me infeliz, na ausncia de Antnia, desentranhou-se
em consoladoras promessas, fantasiando porvindouras felicidades. Paula vaticinava que
a velhice de Catarina seria ditosa em companhia da filha; que a menina viria frequentes
vezes v-la; que Francisco Xavier seria o primeiro a pedir-lhe a sada perptua do
convento; "e talvez - ajuntava Paula - ainda te esperem dias de inefvel gozo ao lado
do amante e da filha, muito longe de Portugal".
O sorriso de Catarina iludira a sua amiga. A esperana da morte iluminara-lhe
aquela expresso dos que tem a mxima evidncia de que no esperam em vo; porm,
Paula Perestrelo atribuiu o gesto risonho s cores maviosas e ridentes do seu quadro de
famlia.
Andr Guilherme entregou a menina ao padre Xavier, abraou-a ofegante de
soluos e lgrimas, como se se despedisse da sua irm mais querida, e balbuciou:
* Adeus, Antoninha! se seu tio morrer primeiro que eu, lembre-se que estou no mundo...
* Pois deixa-nos, sr. Andr!? - interrompeu o padre.
* Amanh comea o meu noviciado no convento da Santssima Trindade. Volvido
o ano da prova, se Deus o permitir, virei saber da minha discpula, e do meu bom
amigo, que me ensinou, sem querer, a coragem nas grandes mortificaes. Eu, sr. padre
Xavier, sei os segredos da sua vida...
* Os segredos... - acudiu o padre com assombro.
* Os segredos revelados pelas torturas mudas, que so gritos formidveis aos que
tm a intuio de grandes dores alheias e o vaticnio das prprias. Veja, meu amigo-
prosseguiu Andr Guilherme fervorosamente - veja se defende esta menina da
influncia de duas estrelas sinistras... Eu sei a travao de desgraas que derivam desde
Domingos Leite Pereira - o regicida - at ao nascimento da sua ltima representante...
* ltima... - repetiu o filho de Jorge Mendes Nobre - porque h-de ser ltima?...
* No o disse como profeta; empreguei o termo em relao ao tempo actual.
E, como Antnia estivesse absorta nos dois sem os perceber, Andr Guilherme
tomou suavemente entre as mos o rosto da menina, beijou-a na fronte, e murmurou:.92
* Adeus, minha querida irmzinha... Quando me tornar a ver com a minha tnica
branca e a cruz escarlate de frade trino, j a minha amiga me no conhecer... e quem
sabe se eu a conhecerei? Daqui a dois anos  senhora... e eu sou um quase velho frade...
E, alegrando o semblante, Andr Guilherme devorava as lgrimas, em que havia o
travor complexo de muitas dores. Ele amara como pai a criana, e adorava agora como
idlatra aquela peregrina formosura dos doze anos com feies acentuadas de prematura
juventude.
E Antnia, cingindo-se-lhe ao pescoo, chorava convulsiva como quando se
despedira do homem a quem chamava pai.
* No v para o convento... - balbuciava ela.
* Vou pedir a Deus que d uma boa sorte  minha amada discpula....93
XXIII
A residncia do padre Francisco Xavier na rua do Outeiro era celebrada entre as
mais faustuosas casas de Lisboa, no primor dos embutidos em contadores, nos guarda-roupas
das recmaras, no torneio e dourado de cadeiras, banquetas, bufetes, escritrios e
espelhos, na baixela de prata lavrada, nas alfaias de tartaruga atauxiadas de metais
preciosos, nas estatuetas de jaspe e alabastro, nos relgios ingleses, na profuso das
louas indianas. Elogiava-se o apurado gosto do mdico Eliot na escolha de to
opulenta ornamentao.
Dizia-se que a menina, j herdeira habilitada dos grandes haveres do
desembargador, e presuntiva do patrimnio do tio, valia passante de cento e cinquenta
mil cruzados: era um clculo razovel que os homens velhos e negociantes inferiam do
cabedal de Francisco Mendes Nobre, acrescido de prsperas granjearias nos portos
holandeses e nas colnias brasileiras.
Com a mudana de residncia, operou-se estranhvel reviramento no viver do
abastado, se no opulento, doutor Xavier. A sua casa era principalmente frequentada por
sbios estrangeiros, apresentados por Isaac Eliot. Afora o abade de Preville, indigitado
preceptor de Antnia na lngua francesa e nas cincias que preleccionava, concorriam o
filsofo holands Obed Stefano Monden e o ingls Lus Baden, os quais nas Gazetas do
tempo ofereciam aos indolentes lisboetas a profuso da sua sabedoria enciclopdica. 36
Sobreexcedia a todos os concorrentes o prussiano Joo Frisch, padre da Reforma,
viajante, naturalista, escritor em variadas provncias das artes e das cincias. Alguns
doutos portugueses, do clero e da nobreza, honravam-se em to selecta companhia,
constituindo as salas do ex-varatojano em ginsio, onde em lnguas diversas se
discursavam novidades cientficas.
O padre remoava naquela actividade intelectual. Reflorindo os seus antigos
estudos, e especialmente a latinidade, conversava na lngua de Ccero com sincera
admirao do sbio de Berlim, que a exercitava a primor.
Neste congresso de sbios havia duas formosas e juvenis criaturas a quebrarem a
severa monotonia do grupo. Eram Antoninha e Josse Frisch, filho do sacerdote
protestante. Ela contava treze anos e ele orava pelos dezassete. Josse, filho nico e
rfo de me, acompanhava seu pai desde a infncia, era seu discpulo, conhecia os
idiomas dos pases que perlustrara, e decidia com a autoridade da memria assombrosa
as dvidas lingusticas entre os sbios de pases diversos quando se desavinham na
acepo das palavras. Era ele quem continuava a instruo de Antnia na prtica da
lngua francesa, expurgando-a dos vcios adquiridos com a aia de Ana Armanda
Duverger, e a encaminhava a esvoaar s colmeias de Petrarca, dando-lhe a prelibar o
mel dos sonetos em que a menina ia aprendendo a enjoar-se das sonolentas coisas de
Cames e S de Miranda.
Nestes colquios particulares, a um canto da sala, enquanto os doutos latinizavam,
no admira que de parceria com Petrarca entrasse o amor com a sua grinalda de rosas
em boto, faces purpurejadas, pudor sem ainda se dar f de ser pudor, inocncia sem uns
longes de haver coisa no mundo que seja viciosa. Aos treze anos, menina que passara
dezoito meses em Odivelas, devia ter j madrugado para as ternuras vagas, balbuciantes,
enlevos, imagens sem desenho, indelineveis como as da transio do sonho  realidade.
Mais acentuadas eram as formas do ideal do alemo: vasava, nelas o belssimo
perfil de Antnia, curvado sobre o livro. De sobre as pginas, s vezes, lhe desviava ele
brandamente as espiras dos cabelos de oiro para ver as palavras. Ela sorria-se corando e
36 Veja as Gazetas de 1725 a pg. 336, de 1727 a pg. 232..94
sacudindo a cabea que recendia o frescor e perfume de um ramilhete colhido nas
madrugadas de Agosto.
O amor acrescentara dois anos aos treze de Antnia para que ela adivinhasse a
paixo de Josse Frisch. Demudou-se-lhe ento o semblante infantilmente aberto e a
linguagem agraciada de meninices. J o recebia com a gravidade de senhora.
Respondia-lhe com assustadas reticncias. A espaos, escutava-o abstrada, ou parecia
atemorizar-se de ouvi-lo. As revelaes do prussiano eram interpretadas pelo poeta de
Laura. Ele insistia na anlise de alguns versos das Canzoni, onde o lirismo vaporou
mais subtis essncias das Lgrimas.
Tambm a voz de Josse as tinha, quando a tremer se receava de haver magoado a
iseno da rica herdeira.
Antnia falava-lhe muito de Andr Guilherme, e, por vezes, encostando a face 
palma da mo, deixava rolar duas lgrimas, que pesavam no corao de Josse como
gotas ardentes. Abrasavam-no cimes, quando ela dizia:
* O meu pobre Andr Guilherme!... quando eu o vir... j. ele  frade trino...
E quedava-se a filha de Catarina a olhar no vago, e a recompor as feies da
imagem que a tnica monstica e o claustro lhe restituiriam desfigurada.
Mas a imagem identificada  sua alma era a do esbelto moo estrangeiro, para
quem o padre Francisco Xavier olhava de travs e suspeitoso. Este homem, na rigidez
da vida, com as faculdades da alma viciadas, mordido de cimes da filha to disputada,
envaidecido de a ter assim formosa e afamada de rica, e de mais terrivelmente provado
na paixo, que precedera o inferno de treze anos, via j na filha a mulher, e no prussiano
um homem dotado de sedues.
E comeou de se criar um novo suplcio com a triplicada tortura do cime de mais
fatais resultados. Conversando cavilosamente com Antnia a respeito de Josse Frisch, a
filha ouvia-o atenciosa, interessada, jovial. Aplaudia-o com expansivos sorrisos, se ele
elogiava a galhardia do mancebo ou os portentosos predicados de seu ilustradssimo
esprito. E ento o padre cravava os olhos nos da filha, e varava-lhos com um raio de luz
escrutadora at ao corao. Ela encarava-o assustada, e estremecia retraindo-se.
Que tinha lucrado o pai nestas insidiosas experincias? Explicava-lhe o que ela a
si apenas confusamente poderia exprimir. Encomiava a forma e a alma do moo,
ajudando-a a conciliar as duas belezas, fsica e moral. Bosquejava um homem distinto,
raro, estimvel. Antnia no acrescentaria amvel, no seu ntimo foro; porm, quando o
padre, por fim, avincava a testa e a friccionava freneticamente, Antnia traava na sua
alma uma grande interrogao,  qual respondia a primeira poesia que recebera de Josse
Frisch, com to cristalinas lgrimas que a menina facilmente se via espelhada nelas.
Aos treze anos no h mulher amada que se receie iludida; e, se por vcio de
educao houve alguma to pessimista que duvidasse da lealdade do seu primeiro
amado, com certeza tal fenmeno ainda est por acontecer  inocncia aliada 
formosura e riqueza. Diziam-lho unanimemente os sbios da assembleia de seu pai com
as prosas usurpadas aos madrigais do tempo. O filsofo Baden comparava-a s mais
extremadas perfeies de Londres.
O pai de Josse pedia ao padre que lhe cedesse a posse de uma miniatura em
marfim para levar para o norte o modelo da beleza peninsular em todo o seu esplendor.
Abeberado do italianismo amoroso, o filho de Joo Frisch achara as formas da
mais apurada arte em que moldurava imagens e sentimentos de profundssima verdade.
Aquela peregrina criana, feita mulher pelo improviso do amor, no podia ser amada
seno assim.
No entanto, embasteceu-se novamente a escuridade de Francisco Xavier.
Amavam-lhe a filha - disputavam-lha! Queria confidenciar os seus sustos de tio a Isaac.95
Eliot; mas retinha-se, receoso de ser irrisrio diante do francs que metia a riso as
cautelas, os pavores das famlias portuguesas, e o ostracismo sandeu e gtico em que
vegetavam as desgraadas mulheres de Portugal, desde a nbil at  casada. 37
Corando a falta com os seus achaques, espacejou as reunies, dissaboreando
Antnia que, em vez de velar as fingidas molstias do tio, fechava-se no seu quarto a
reler o poema... os poemas e as prosas de Josse Frisch.
A diminuio das visitas motivou a necessidade de se comunicarem pela escrita os
namorados. At ao dia em que o padre providenciou para no se verem a mido,
Antnia esquivou-se a responder; mas, depois da preveno, o pejo cedeu ao poderoso
impulso da saudade. Seria melhor que se vissem; mas no aconselho nem argumento
com a prtica. A teoria do padre ainda hoje voga com as resultas de ento.
De maneira que eles, quando se entreviam, na sala, em os raros saraus literrios da
rua do Outeiro, haviam j expendido caligraficamente as essncias das suas almas, e
talhado, por todos os horizontes da imaginao alm, as suas esperanas at se
encontrarem com a profundidade do cu. E o que no tinham escrito completavam-no
com os olhos.
Eliot havia percebido que se amavam, e segredou ao padre:
* Cuidado! sua sobrinha trouxe de Odivelas fermento de amor. O prussiano 
poeta, e h-de fascin-la porque no mente. Nada h que recear quanto  soluo deste
meio-amor, meio-brinquedo, porque o pai vai-se embora e o filho tambm; no
obstante, se a menina ficar ferida, estes ferimentos do que fazer, quando as mulheres
doentes de fantasia vivem na perigosa recluso das senhoras de Lisboa.
* Que hei-de eu fazer? diga-me o doutor se no seria melhor t-la sempre reclusa!
As cautelas que me aconselha, sr. Eliot, justificam os costumes de Portugal.
* Que h-de fazer? - volveu o francs. - Aumentar o nmero das suas visitas
quando Josse Frisch se ausentar. Reunir em sua casa tantos homens idneos para
amarem sua sobrinha, que ela no escute exclusivamente uni, nem conserve na memria
o nome daquele que mais requintadas finezas lhe incensou. Em Frana vive-se assim.
Quatro homens  volta de uma mulher so quatro sentinelas que se espiam uns aos
outros; de modo que ela, por fim, aborrece-os todos.
Eliot dirigiu-se de moto prprio ao sbio alemo, segredando-lhe os dissabores
secretos do padre Xavier, causados por umas inteligncias amoriscadas de sua sobrinha
com Josse Frisch.
* No h dvida que eles se amam - conveio o honrado prussiano. - Eu sou o
confidente de meu filho. Ele confessa-se a mim em todos os seus grandes e pequenos
actos de corao e esprito. Ainda me no foi preciso penitenci-lo. Pelo que respeita ao
seu afecto nobilssimo  sobrinha do mui estimvel sr. padre Francisco Xavier, no
tenho de que o arguir. Pelo enquanto, este recproco amor  uma iniciao de duas
almas cndidas, que em breve se apartam; quando, porm, mais srios vnculos os
prendessem, creio que nunca os desatariam desonrosamente.
* De acordo - obtemperou o cavaleiro professo da ordem de Cristo. - Mas o meu
bom amigo Xavier no teme desonras, receia sofrimentos - o que j  bastante em tio
sobremodo extremoso. Porm, dizendo-me o sr. Joo Frisch que a sua partida de
Portugal no se dilatar, so pouco de temer os resultados desta paixo nascente; mas a
meu ver, potica e por demais entusistica.
* Nem potica nem entusistica; diga "verdadeira" que  bastante. Ns, os
alemes, consumimos poucos adjectivos, ao inverso dos senhores enfronhados no luxo
latino. Meu filho ama e  amado verdadeiramente. Assevere isto ao nosso respeitvel dr.
Francisco Xavier; acrescente, porm, sr. Eliot, que meu filho no se exime de ser
37 Nota 12..96
honesto desculpando-se com o seu amor. Poderia talvez desonrar-se, quando amasse
menos. Em suma, passados quatro dias, iremos agradecer a hospitalidade do generoso
portugus, e abalaremos caminho da nossa terra. Josse Frisch bem  de ver que leva
saudades penosas da galante menina que lhe fez a primeira luz no corao; mas, como e
valoroso e tem hombridade viril, cavar no prprio seio at arrancar de l a imagem
que, ainda mal, lhe perturbou os dias felizes. O esquecimento resultante do tempo e da
dignidade em meu filho ser correspondido pela menina Antnia, com a diferena de ser
nele esforo o que na mulher  costume. Afinal, se a saudade  cautrio, a ausncia 
blsamo. V, pois, o sr. Eliot sossegar o seu amigo; que eu, como padre cristo, peo a
Deus que a estimvel sobrinha do sr. Xavier, quando houver de dar a sua alma
legitimamente a um esposo, a boa sorte lho depare virtuoso como Josse Frisch.
Comunicou Isaac Eliot estas decorosas falas ao padre, glossando-as com faccias
 francesa. Ria-se o mdico do aprumo dogmtico do alemo, preconizando a
honestidade do filho como se ali se estivesse nutrindo Cato 2 para assombro do orbe
depravado, O neto de ngela achou graa ao filho da turca, e entrou com ele a arrolar as
pessoas que deviam frequentar a sua casa, em conformidade com o alvitre do seu amigo.
* Um elemento imprescindvel - observou Eliot - so as mulheres. Necessitamos
algumas senhoras de esmerada educao com as quais D. Antoninha conviva, j para a
precaverem contra as entrepresas do amor, insinuando-lhe as insdias que ele usa, j
para lhe desviarem o esprito da ateno demasiada que as mulheres aplicam aos
homens, se a sua sociedade  toda composta deles.
* Tem razo, doutor - condescendeu o padre. - Essa espcie j me tem
preocupado; mas o senhor conhece as minhas relaes de sociedade. O infortnio fez 
volta de mim um deserto. Desatei os laos de amizade e parentesco h treze anos. Onde
quer o doutor que eu v procurar senhoras que me visitem?
* Eu terei a honra de lhas apresentar, logo que estes sbios nos cedam lugar a uma
ignorncia mais recreativa.
Enquanto o mdico e o padre recenseavam os futuros ornamentos da renovada
sociedade, Antnia lia em poucas linhas o resumo do dilogo do francs com o alemo.
Josse Frisch, informado pelo pai, pediu-lhe licena para se despedir de Antnia. O
velho, que j ento o era muito alm dos sessenta, contemplou comovido as lgrimas do
filho, e disse-lhe amargurado:
* Sejam menos amargas as lgrimas que chorares quando teu pai te faltar, meu
filho. No te vi tantas, quando, h sete anos, assistimos ao enterro de tua me. Chora, s
fraco, s homem; mas, na sequncia da vida, s cauto. Quando vires mulher que te
dispute  cincia, teme que ela tambm te vena na inteireza do dever, e lembra-te
sempre que a primeira que amaste foi mais chorada que tua santa me.
O francs, se o ouvisse, motej-lo-ia.
O velho afastou-se para acondicionar os seus livros e papis. Josse escreveu, e foi
esperar na botica do seu patrcio Jcome Valebelt, morador no Canto da Cordoaria
Velha, que seu escravo medianeiro recebesse a carta. 38
Na carta do consternado moo havia uma clusula que estancou as lgrimas de
Antnia. As frases eram estas
Pela alma de nossas mes te juro que voltarei a Lisboa sozinho, e bem livre para
ser escravo teu; e, depois, ou sairs daqui minha esposa, ou eu acabarei os meus dias
desgraados onde tu possas ir chorar sobre as minhas cinzas.
38 Estas particularidades, se fossem imaginadas, seriam pouco menos de irrisrias. O romance  urdido
com os elementos de um processo, cujas peas de mxima importncia ho-de ser trasladadas na seco
de Notas..97
Passados os quatro dias aprazados pelo ilustre viajante, os Frisch despediram-se
do padre Xavier. O pai perguntou por D. Antnia, que no viera  sala. Xavier,
carregado no semblante, respondeu que sua sobrinha estava febril, e ficara de cama, por
ordem do dr. Eliot.
Josse abaixara os olhos sob um lance de vista asprrimo do padre, cujas palavras
secas, breves e sacudidas, acusavam a ira do seu carcter desabrido.
O sacerdote luterano, atentando no abatimento do filho, fitou-o com severidade, e
disse, voltado para o padre:
* O abatimento de meu filho no confessa alguma aco baixa. Todos os homens
de bem comeam as suas lides com o mundo, abaixando a cabea  tirania da injustia.
Xavier no replicou; fez a sua ltima cortesia, e mandou o seu escudeiro
acompanhar os dois senhores.
Mas o escudeiro e Joo Frisch quedaram-se enfiados quando viram Antnia sair
de improviso ao patamal da escada, e lanar-se arquejante de soluos nos braos de
Josse. O velho pegou mansamente das mos de Antnia, descingiu-lhe os braos do
pescoo do filho, e murmurou:
* Antoninha, espere que a vontade de Deus se manifeste pelo andar do tempo..98
XXIV
Quando Antnia voltou desfeita em pranto  sua alcova, encontrou o tio na
antecmara. O tapete abafara o estrupido da ponta metlica da perna artificial, ou ele
acintemente palmilhara com o p nico as casas intermdias.
* Cuidei que estavas na cama! - disse ele dissimulado.
* Donde vens?
* Venho... de... fui  sala... - gaguejou Antoninha.
* Da sala venho eu, menina. Ou eu estou invisvel ou tu.
E, chamando o escudeiro ao corredor, perguntou-lhe:
* Acompanhaste os estrangeiros?
* Sim, senhor.
* Quem viste na escada?
O criado inclinou a cabea para uma banda e coou-a por ambos os lados.
* Entendi. Vai-te.
E retirou-se para o seu quarto resfolegando bafejos tropicais, e batendo com a
perna de pau rijamente o compasso da respirao sacada por arrancos.
Trs lancinantes saudades mortificavam Antnia naquela hora - Josse Frisch, o
mosteiro de Odivelas, e o seu querido amigo Andr Guilherme. As trs dores, porm,
convergiram em uma s, expressada em poucas palavras: "Sou rf; no tenho pai nem
me!" Esta dor reviveu-lhe a saudade de Paulo Xavier, cujo retrato ela tinha pendente
do seio. Chorou muito, e pediu  alma de seu pai que a socorresse. Era uma aflio
pueril, mas to entranhada que a morte lhe parecia benefcio do cu.
Entrou o mdico, sondou-lhe o pulso, receitou-lhe um calmante, e dilatou-se a
dizer-lhe frivolidades em francs. Antnia ouvia-o com aborrecimento.
Contou-lhe Eliot que passara a noite em uma festa de noivado, em casa das sr.as
Caldeironas, meninas de fidalgo nascimento, uma das quais casara com o seu amigo e
patrcio Toms d'Arta, gentil-homem da Picardia, que fugira de Frana por motivos
religiosos e abraara o catolicismo para casar com
D. Maria Teresa Caldeiro. Acrescentou que j obtivera do padre licena para lhe
apresentar estas nobres senhoras, uma das quais, D. Leonor, anjo de catorze anos, era
uma das mais prendadas e encantadoras meninas da capital; e ele esperava que
Antoninha simpatizasse com Leonor, tanto pela consonncia dos espritos ilustrados,
como pelas analogias da formosura.
Perguntou-lhe Antnia se ele tinha ido a Odivelas na semana passada, e se D.
Catarina e D. Paula se queixaram da sua falta naquele ms.
Eliot, sorrindo, respondeu que ele a desculpara com
D. Catarina de Castro, contando-lhe a historiazinha de uns amores de primeira
primavera, e que a freira, com os olhos cheios de lgrimas, exclamara: "Ah! pobre
criana!"
Antnia trejeitou a menos equvoca exploso de zanga, quando o francs
acompanhou de uma gargalhada seca a dolorosa reflexo de D. Catarina.
E retirando-se de mpeto, disse que ia dormir, porque tinha sono.
Isaac Eliot retirou-se vexado da descortesia, e foi queixar-se ao padre,
desculpando-a, ainda assim, e aconselhando novamente a sociedade de senhoras para
que a menina aprendesse na prtica a civilidade que no se estuda nos livros, e se
polisse, desbastando-se das indelicadezas resultantes do muito mimo e de escassa
familiaridade com damas.
* J me lembrei - alvitrou o padre - dar-lhe como companheiras mais assduas as.99
irms de Andr Guilherme, que so meninas dignas de tal irmo.
* Gente de baixa laia?
* No so fidalgas; mas tambm no tm os vcios dessa classe. So excelentes
raparigas que receberam do irmo lies de virtude.
* Isso no obstante - volveu Eliot - a famlia Caldeiro, alm do bero ilustre, vale muito pelas graas de sua selecta sociedade...
* Ora diga-me, doutor; essas sr.as Caldeironas, ou Caldeiroas, no so filhas de
Francisco Caldeiro da Veiga Cabral, uni fidalgo que solapou o seu imenso patrimnio
e casou com...
Deix-los esmiuar na vida das Caldeironas, enquanto ns, em resumo,
relataremos o que  do interesse desta histria.
Coisa digna de reparo  a interveno repetida da famlia Veiga Cabral no destino
de Maria Isabel Traga-malhas, e de sua trineta D. Antnia Joaquina Xavier, como ao
diante veremos. Na Filha do Regicida, Joo da Veiga Cabral, fugindo com a viva de
Domingos Leite Pereira, mudou o cenrio da tragdia, restaurando pelo milagre do amor
a dignidade da esposa. Oitenta anos depois, veremos a funesta influncia que uma Veiga
Cabral actuou no destino da bisneta de ngela.
O seguimento deste captulo ameaa enfados e razoveis espreguiamentos.
Livre-se dele o leitor, se quiser. Eu  que no posso, obtemperando s perversas
corrupes de Ponson, esquecer-me de que sou, neste caso, historiador, e exorcizo e
abomino as execrveis tentaes de romancista.
Vamos ao gnesis dos Caldeires.
Em 1585, Filipe II aforou de fidalgo um Manuel Caldeiro, de Lisboa, mercador
opulentssimo, oriundo das Astrias. Por 1583, se obrigara o argentrio a enviar
anualmente cinco naus  ndia, dando-lhe el-rei oitenta mil cruzados mortos, e dezasseis
mil cruzados cada ano por cada nau. Instituiu Manuel Caldeiro trs morgados, e casou
com Guiomar Caldeira. Nunca se casaram apelidos to conformes! Havia, nesta
caldeirada, predestinao.
Andr, filho destes, enxertou-se no tronco ilustre de Furtados de Mendona;
Rodrigo casou em um dos ramos dos nclitos Noronhas; Brites, em Elvas, no morgadio
do Esporo, com Lus Mendes de Vasconcelos; Leonor, com o desembargador Jernimo
da Veiga Cabral, filho do tristemente famoso Tristo Vaz da Veiga, que entregou a
Torre de Belm, por cinco mil cruzados, ao duque de Alba.
A est como Veigas Cabrais se incorporaram em Caldeires, e o sangue destes se
injectou nas artrias de levantadas prospias. Ento, como hoje. Dinheiro, o invicto!
No primeiro quartel do sculo XVIII, a varonia das duas famlias identificadas
estava em Francisco Caldeiro da Veiga Cabral, residente em Lisboa. Este fidalgo,
administrador de trs poderosos morgadios, foi muito rico, libertino, perdulrio, viveu
femealmente como pach, e  hora da morte casou com uma das suas ilustres vtimas,
D. Mariana Bembo de Sousa, filha de Fabrcio Bembo, da qual tinha trs filhas.
As famlias ostrogodas da corte reprovaram o casamento do morgado dos
Caldeires com a filha do Bembo, oriundo da Itlia; todavia, sculo e meio antes,
casava, em Vila Real de Trs-os-Montes, outro Fabrcio Bembo com a irm de um certo
Joo Lopes, a cujo filho Afonso deu foro de cavaleiro e armas D. Filipe I, em 1853 39 .
Pelo que, os Bembos cronologicamente eram coevos no braso em Portugal com os
Caldeires; afora isso, os primeiros ufanavam-se do seu ascendente o cardeal Bembo,
39 Veja Arquivo Herldico-Genealgico, pelo sr. visconde de Sanches de Baena, pg. 629, e ndice
Herldico, pg. 26. O casamento de Fabrcio Bembo, em Vila Real, consta do Tesouro da nobreza de
Portugal, por frei Manuel de Santo Antnio, reformador do cartrio da nobreza, na segunda metade do
sculo XVIII. Manuscrito meu, autgrafo..100
conforme em bom latim lho outorgavam as cartas passadas pelos senadores de Cremona
em 24 de Novembro de 1545:
...Bemborum familia, quae non solum apud nos nobilitate prestat, sed etiam
Venetiis cui aetate nostra maximum addidit ornamentum Petrus Bembus... cardinalatus
dignitate a Paulo III, etc.
Este latim e outros perderam-se no pleito instaurado contra suas primas pelo
mestre de campo Joo da Veiga Cabral, linha segunda que vivia ricamente em Vila
Real. Fundamentando a demanda no casamento desigual de seu tio e nas condies dos
vnculos, esbulhou-as de trs morgadios. As trs meninas aguardavam o patrocnio de
seus numerosos primos. s suas salas, as mais faustosas e alegres no reinado de D.
Pedro II, apenas entraram os oficiais de justia com ordem de despejo. Primo, ou amigo,
nenhum.
Eram trs meninas to distintas pelo acaso da origem como pelos predicados da
beleza fsica. As feies morais agouravam mal. Tinham brilhado na desordem e no
desperdcio. Ostentaram-se como formosas, sem resguardo nem astcia,  espera de
maridos quando viram vazios os contadores de seu pai. O desbarate entrou pela fazenda
e pelas almas.
D. Joana, a mais velha e malograda morgada dos Caldeires, salvara um vnculo
insignificante alheio s clusulas dos outros. Esta amparava mesquinhamente as irms.
D. Maria Teresa, que era bela e doida, casou com o aventureiro francs Toms Darcet
(ou de Arcet, como ele se dizia) pavoneando-se de fidalgo picardo com razes nas
cruzadas, e vivia em Lisboa da esgrima, equitao e outras prendas. A terceira e mais
nova, D. Leonor, era prodigiosamente linda, tinha catorze anos quando casou sua irm,
e estremava-se das outras pela inocncia. Inspirava piedade aos mesmos que se
afastavam daquela famlia decada. Deploravam-na no guine do perigo; mas ningum
lhe ministrava o po tutelar da honra. Os que se avizinhavam dela, carpindo-a, iam
intencionados a perd-la.
Isaac Eliot, amigo de Toms Darcet e sua visita, amava Leonor. A paixo
aconselhava-o a um enlace honroso. Desde que se declarou ao marido de Maria,
desmentiu a presuno geral de ser casado com a francesa. Esperava-se que Leonor
perfizesse quinze anos para esposar-se com Isaac Eliot, que orava pelos trinta e dois.
Eis aqui, pelo enquanto, o que importa saber-se das sr.as Caldeironas,
aconselhadas ao padre Francisco Xavier para lhe polirem a sobrinha, quando nenhuma
famlia de bom nome as admitia s suas salas, por isso que elas j no tinham salas - e
bastava esta desgraa para que os amigos e parentes de seu pai no discutissem se elas
conservavam a dignidade.
Leonor sabia que seu cunhado e irms lhe haviam j deliberado o destino.
Conformara-se, porque os seus vestidos estavam podos, as suas mantilhas no fio, e o
seu pescoo e pulsos eram nus de gargantilhas e braceletes. Mas, no recndito da sua
alma, aborrecia Isaac Eliot..101
XXV
As senhoras Caldeironas, as duas irms do novio Andr Guilherme-meninas
devotas-e a viva e filhas do historiador francs Jacques Quem de la Neufville, falecido
em Lisboa em 1727, criaturas desempoadas e logreiras: tais eram as relaes que
substituram os filsofos na sala do doutor Xavier.
Estas senhoras cortejavam Antoninha com admirao da sua beleza e do seu
soberbo patrimnio; todavia, as irms do novio, estranhas e escrupulosas em meio das
grrulas francesas e das duas Caldeironas, consultaram o mano frade se lhes iria bem tal
sociedade.
Andr Guilherme respondeu a suas manas que se desviassem de tais donas;
escreveu a Antoninha. perguntando-lhe se o tio endoidecera; e escreveu ao padre,
rogando-lhe que no empestasse o ar em que sua inocente sobrinha estava alimentando
o esprito.
As irms no voltaram  rua do Outeiro, e confessaram-se ao seu director
espiritual de comunicarem por meio de gestos e palavras com as Caldeironas.
Antoninha retraiu-se aos ares familiares das importunas visitantes, no pagando as
visitas. E o padre Francisco Xavier mostrou a carta do novio a Isaac Eliot.
O mdico leu e disse:
* Este homem  um asno acabado. Se em vez de injuriar Pessoas ilustres l do
valhacouto do convento, estivesse c fora o birbante, eu lhe verberara a face com um
chicote, ou o mandaria esbofetear pelo meu pajem Henrique Rutier, que tem queda
especial para esbofetear portugueses petulantes. Veja o doutor que bonito frade se est
formando neste biltre de lngua viperina!
* No exagere, sr. Eliot! - acudiu o padre - Andr Guilherme no insulta ningum
nesta carta. Zela a virtude da minha sobrinha, e presume que as Caldeironas e as
Neufvilles no respiram ares muito puros.
* A  que est a calnia! - replicou o medico - Sua sobrinha no  mais ingnua
que Leonor Caldeiro; e as irms, posto que no aspirem a engrossar o nmero fabuloso
das onze mil virgens, portam-se como fidalgas.
* Mas olhe que as fidalgas, por via de regra, doutor, no se portam bem. O senhor
j sabe que eu fui dos saraus destas senhoras, quando elas eram meninas e j prometiam
pagar muita tolice ao dzimo.
* Mas Leonor  uni anjo! - retorquiu o francs com a veemncia de leal paladino.
* Leonor nasceu depois que eu frequentei a casa de seu desbaratado pai; e note
que a considerao de eu ter sido dos obsequiados por esta famlia nos dias prsperos 
grande parte na condescendncia de a receber em minha casa. Peo-lhe, porm, que seja
equitativo com o pobre Andr, verdadeiro amigo de minha sobrinha, e incapaz de
caluniar. Ele conhece, sem o praticar, este mundo de Lisboa, e faz das Caldeironas o
conceito ruim que elas, por sua m sorte, granjearam. De Leonor tenho grande d. E, se
me consente intrometer-me nas intenes reservadas do seu corao, peo-lhe que
apresse o desfecho ou o fecho destes seus amores; e, depois, aceite para si tambm o
conselho do meu frei Andr.
* No me guio por frades, doutor! - retrucou Eliot, sorrindo - Frades  que eu no
consentirei de portas adentro, quer eu case com Leonor, quer com outra. Frade em
Portugal conheci um s digno de respeito; e a esse tive eu o desgosto de cortar uma
perna.
O padre apertou-lhe a mo reconhecido, e replicou:
* Ora vamos, ora vamos, no  tanto assim. H muito frade bom, e Andr.102 Guilherme h-de s-lo ptimo. Ver, doutor.
* Em minha casa, no.
* Mas v-lo-, se quiser, por essa moirama a resgatar cativos.
* E cativas... - acrescentou o sarcstico semi-turco.
Continuaram regularmente as senhoras Caldeires e Neufvilles a alegrar o salo
do padre com as suas palrices e prendas. D. Joana, a quem chamavam ainda a morgada,
cantava, tangia o violino e danava minuetes e sarabandas picadas com o lascivo
desnalgar-se de uma andaluza. Os seus cantares eram motetes, tarambotes e xcaras de
que vamos dar exemplo com a Modinha da Scia, em que D. Joana era consumada
artista. Eliot rebentava de gudio quando lha ouvia cantar. Foi ele quem pediu a
Modinha da Scia, para alegrar as duas meninas, Leonor e Antnia, retiradas a um canto
da sala.
A morgada pegou da violinha e garganteou mui afectada e trejeitosa as seguintes
coplas que a msica, porventura, fazia menos detestveis:
Eu canto a Scia
Do rico, que  faccia
Quando fala de estalo
Na quinta e no cavalo,
Na pera e no jogo,
E, vomitando fogo,
Engole a quantos v.
Porm, sabem porqu?
Por parecer que  muito,
Mas ele nada .
O padre, que conhecia as trovas de as ter ouvido quinze anos antes em
assembleias de loureiras, com que o famoso Campolide enviscava a roda dos rapazes
dinheirosos, arrugou a testa, e volveu os olhos a Antnia.
A Caldeirona continuou, depois de preludiar no instrumento uns langorosos
sustenidos que deviam de ser os requebros da guitarra fadista que as senhoras de hoje
em dia fazem gemer:
Do peralvilho
 a scia, e do casquilho
Vestido de mil cores.
Na vstia fitas, flores,
Peitos  francesa,
Gravata  inglesa.
Quase descalo o p.
Porm, sabem porqu?
Por parecer que  grave
Quem sabe que o no .
Bravos do mdico, risadas das francesas, novo preldio com os ademanes do ptio
das comdias, e a continuao:
Quem a Scia canta
Tem dor de garganta;
E geme em falsete.103
E afaga o topete
E d gargarejos
Que envolve em solfejos
Do seu sol, f, mi, r;
Porm, sabem porqu?
Por parecer de Itlia
Mas ai que no .
Ai! a scia do nobre
Desdenha do pobre
E diz: "fado meu!
Quem te conheceu
Como eu conheci
Mas porque ento me vi
Hoje ningum me v!"
Mas sabem porqu?...
Por ter corao,
Percebe voc?
Eis aqui, como amostra de prendas, a mo de verniz que devia polir a educao
social da filha de D. Catarina de Castro.
Antnia Joaquina ouvira sem entreabrir um sorriso complacente a insulsa cano,
e pela primeira vez observava os meneios lbricos de cabea, braos e cintura que a
desenvolta, neta de Caldeiras e Caldeires exibia.
Desfeita a assembleia, disse o padre ao mdico:
* Eu j ouvi aquilo cantado pela clebre Paulina da Madragoa, nas bacanais da rua
de S. Joo, em casa do Terra. Que mgoa me faz ver assim abatida a filha de Francisco
da Veiga Cabral! 40
* Ah! portugueses, portugueses! - exclamou Eliot - quem vos espanejara a poeira
dos olhos! V a Paria, doutor, v a Paris, e ouvir as grandes damas da corte de Lus XV
cantar tonilhos, seguidilhas de Espanha, e danar as mais libidinosas sarabandas!
* No irei a Paris ver isso - volveu o padre -nem tampouco outra vez consentirei
que minha sobrinha assista s tramias teatrais de D. Joana. No reparou que a menina
parecia vexada?
* Se  to inocente, quanto me persuado que , no estava vexada. O vcio
aborrece to somente aos que o conhecem. Inocentssima  D. Leonor, e no se
escandaliza de ouvir a irm; pelo contrrio, diante de pessoas ntimas, dana um
sarambeque to boleado que  um encanto de olhos.
* Feia, feia coisa, doutor! - recalcitrou o padre - Se a quer para esposa, v-lhe jarretando essas tendncias para sarambeques.
* No que eu quero esposa que me agrade e alegre - replicou o francs - Pssimo
sistema este dos maridos portugueses! Tornam as esposas chumbadas, tristonhas e
sonolentas como umas lerdas despenseiras, por amor da moralidade; e vo-se gozar a
vida com as amsias lestas, joviais e espertinadas para toda a casta de brincadeira! Ora
eu prefiro estar divertido com minha mulher a ir comprar os risos e as folias a casa das
meretrizes. Antes quererei que ela me salte o sarambeque e me caia nos braos
suavemente cansada, do que me resmungue impertinentes queixumes quando eu me
recolher alta noite com saudades de uma concubina fresca e alegre.
*  francesa... - retorquiu Xavier.
40 Nota 13..104
* Vocs, os portugueses, se faro franceses afinal como o seu rei, que se veste, e
come, e pensa, e ama  francesa.
* Assim ser; mas eu quero que minha sobrinha se eduque para marido portugus.
Hei-de procurar-lho em famlia ainda ilesa do contgio que por aqui nos deixou a de
Sabia, a esposa dos dois irmos. H a muito fidalgo que representa o velho Portugal, e
vive sequestrado dos mananciais da corrupo de Lisboa. O dote de minha sobrinha,
cento e cinquenta mil cruzados, quando for conhecido, h-de ter muitos competidores, e
eu darei a preferncia aos titulares que vivem em os seus solares provincianos.
* A preferncia, meu amigo, ser bom que a d sua sobrinha. No v sacrific-la a
algum rabicho do tempo dos Afonsos que vive no seu pao solarengo da montanha com
o capelo que lhe explica os animais antidiluvianos da sua pedra de armas, e apenas se
deixa ver do sol e dos feudatrios quando se embrenha pelos matagais a matar porcos
bravos. Cautela com esses casamentos calculados sobre ridicularias das geraes que
pertencem  mitologia.
* L em Frana so as filhas que escolhem os maridos? - interrompeu o padre.
* Em Frana escolhe o corao das filhas, e a razo dos pais. Mal por mal, se a
escolha do corao  errada, antes isso que a violncia imposta  filha na aceitao de
um marido odiado. O que l no h  a crueldade de sepultar as filhas no claustro, onde
elas, muitas vezes, ressurgem para a devassido, e vingam-se dos pais e das leis, em
nome da natureza ultrajada. O doutor Xavier deve saber muitas histrias desta ruim
espcie...
* Porque mo pergunta?! - acudiu o amante de Catarina.
* Porque sou o seu maior amigo, porque devia ser o seu mais ntimo confidente.
Seria possvel ignorar eu, o mdico das mais gradas famlias da corte, o que  notrio na
roda ilustre em que floresceu o gentil Francisco Xavier? O que tenho feito, como
discreto respeitador de todas as dores recalcadas no seio,  nem sequer dar vislumbres
de querer violar o seu segredo. Qualquer homem vulgar me teria dado o prazer de
consolar as lgrimas ocultas da sua saudade; mas o sr. Xavier  to extraordinariamente
honrado e infeliz que nunca balbuciou o nome de Catarina de Castro, na efuso da sua
dor, com receio de que eu lha adivinhasse. Mas, pois que chegamos a este lance
supremo de franqueza - prosseguiu Eliot, abraando-o, quando falarmos de Antoninha,
sem testemunhas, diga expansivamente: "minha filha".
O padre colheu-o calorosamente nos braos, e murmurou por entre soluos:
* Eu nunca poderia ser mais seu amigo do que sou neste momento... Sinto-me
menos s neste mundo, desde que tenho um irmo a quem possa falar em minha filha...
O lance de se reabraarem seria virtualmente sublime da majestade dramtica, se
no peito do francs no levedasse, naquele instante, uma volumosa massa de infmia,
cifrada nestes algarismos: 150 000 CRUZADOS..105
XXVI
Cresceu a preponderncia de Isaac Eliot no afecto e nas intimidades do padre.
Conversavam at altas horas da noite. Xavier contou-lhe a histria dos seus
antepassados desde Domingos Leite. Deliciava-se repetindo-lhe as midas par-ticularidades
do seu amor a Catarina. Era eloquente e interessante, porque represara a
exuberncia da sua mgoa, desde que o irmo se fora  ndia, e o conde do Rio se
refusava a escutar-lhe recordos pecaminosos.
Das confidncias do ex-varatojano passou Eliot facilmente s da freira bernarda.
O padre autorizou-o a declarar-se nico fiel do segredo, porque lhe era consolativo
ouvir as frases repassadas de saudade que D. Catarina dizia ao mdico em resposta de
outras que o mdico inventava ou refazia. Mediante a intercesso do velhaco, obtivera a
freira que a filha a visitasse semanalmente, acompanhada da sua aia, e algumas vezes
tambm do mdico.
A menina, sempre ignorante do segredo do seu nascimento, contava ingenuamente
 freira o seu amor a Josse Frisch, mostrava-lhe os versos e as cartas, chorava de
saudades, e jurava professar naquele ou em outro convento se Frisch no voltasse.
Mas bem sabia ela que o seu amado pensava em voltar. O boticrio alemo do
canto da Cordoaria todos os meses lhe remetia cartas de Berlim, e recebia as respostas.
D. Catarina admoestava-a a distrair-se de cuidados ainda imprprios dos seus poucos
anos, e a precatar-se contra grandes penas, se ao tio repugnasse tal casamento; no
entanto, a comiserada religiosa prometia-lhe empenhar o valimento do mdico em
abrandar o tio, quando fosse tempo.
Antnia dissuadia o intento da freira, desde que Eliot, aludindo aos seus amores
infantis, apodara com remoques o poetastro alemo. E, afora isto, nas idas a Odivelas,
Antnia ouvira do mdico expresses parecidas com as de Josse Frisch, quando ele, a
medo, aventurava as primeiras balbuciaes do galanteio. Esta segunda revelao afligia
Catarina, prefigurando-lhe a desgraa da filha, se o mdico a disputasse ao outro. Bem
ou mal avisada, aconselhou  menina dissimulao, e artes de enganar, fingindo-se
indiferente para o alemo, e desentendida para o francs.
Neste em meio, o cunhado de Leonor Caldeiro apertava o patrcio a satisfazer os
votos da noiva e de suas ilustres manas; a menina, porm, ainda espicaada pelos
estmulos da necessidade, retraa-se s amabilidades do mdico, vencida por instintiva
implicncia. Ele, a seu pesar, adorava-lhe o desdm, e a fidalga iseno na pobreza.
Antnia, comparada a Leonor, no tocante a beleza, desmerecia muito; e, ainda nas finas
graas da corte, a palaciana Leonor avantajava-se muito. Se o confronto lhe fosse
penoso, a filha de Catarina consolar-se-ia ouvindo dizer que a mais nova das
Caldeironas era a mais formosa menina de Lisboa, e que uma irm de D. Joo V,
indigitada a princesa mais linda da Europa, vendo Leonor, dissera que nunca vira viva
nem pintada criatura to perfeita. Mercadores opulentos e fidalgos alcanados pensaram
na felicidade legal de se apossarem daquela jia; mas desviava-os a nomeada das irms,
a entrada de forasteiros franceses e italianos na casa, e o viver um tanto airado e patusco
daquelas abastardadas senhoras. Em compensao, o mdico de mais voga, cavaleiro
professo com tena, aparentemente rico pelo luxo da sege, da libr, dos pajens e das
relaes com a principal nobreza, era bom partido, e forte esteio  runa suprema das
trs senhoras desvalidas e do professor de equitao e esgrima sem discpulos nem
poldros.
Todavia, o mdico, pesando o encargo de uma famlia afeita s pompas e ao
desconcerto, vergou um pouco; e, neste dobrar-se, O corao premido deu de si o.106
aleijo de comparar Antnia a Leonor, pondo no regao da primeira, entre flores, cento
e cinquenta mil cruzados, e no regao da segunda, tambm entre flores, as spides das
irms. Ns gracejamos com o confronto; mas ele, quando se decidia por Antnia,
ajoelhava mentalmente, pedindo perdo a Leonor. No amava, sequer por amor ao dote,
a filha do padre; mas cento e cinquenta mil cruzados, naquele tempo, dotariam a esposa
de um marqus; a assimilao daquele tesouro infernou-lhe as viglias; contava moeda a
moeda de ouro at treze mil; emborcava a cornucpia fantstica, e via saltarem dentre o
monte do metal carruagens, palcios, deleites em refestelada ociosidade, viagens,
ostentaes no seu pas, bailes, mulheres, os seus sales a desbordar de nobres, e ele
mesmo, entre eles, nobilitado, e salvo dos enfados da clnica, e do magistrio da cincia
no hospital real 41 . Eis aqui o que foi.
Mas o cunhado de Leonor importunava-o, j receoso que Antnia galvanizada a
ouro deslumbrasse a peregrina noiva, e ao mesmo tempo esporeava a cunhada
incutindo-lhe os seus temores. A menina, bem que beliscada no seu orgulho, ria-se, e
votava aos deuses infernais que lhe pusessem o noivo nos braos de outra. Isaac Eliot
foi informado deste voto pago. Quis dar explicaes mentirosas das delongas no
casamento. Leonor, amestrada pela mana que cantava a Scia, aceitou-as, aprovou-as
todas, dispensou-o de lhas dar novas qualquer que fosse o seu proceder; e, para lhe
mostrar que estava tranquila, ofereceu-lhe o pulso, e uma franca risada, redopiando um
dos passos mais tocantes do sarambeque. Estas evolues trituravam os ossos do
mdico at s medulas.
Por outro lado, Toms Darcet vingava-se do hipottico cunhado sangrando - lhe
as algibeiras com uns chamados emprstimos, e a mana Joana e a mana Maria, sob
pretexto de prosseguirem na apelao dos pleitos perdidos, pediam com confiana,
porque os interesses eram comuns, sendo ele j contado como da famlia e co-herdeiro
nos bens litigados. Pois todos estes emolientes, capazes de deslaarem as fveras mais
tensas do corao, eram improfcuos na tenacidade do mdico. Leonor desprezava-o, e
no fingia o desprezo; e ele, duas vezes vilo, nem se descravizava de uma, nem se
afazia  ideia de prescindir dos cento e cinquenta mil cruzados da outra.
E nunca nos seus balanos de fortuna interveio a, conjectura de que o padre
prescindiria do seu enlevo de casar a filha com um conde provinciano para lha dar a ele.
No sabemos quantos planos infames o dispensavam daquele dado essencial. O seu
nico impedimento era a paixo por Leonor, excruciante como a expiao, pesando-lhe
sobre a alma como a forte mo de Deus que sustenta os incalculveis mundos.
41 Isaaac Eliot, com outros cirurgies, foram nomeados lentes para o curso de cirurgia, decretado por D.
Joo V. Veja Histria dos Estabelecimentos Cientficos, Literrios e Artsticos de Portugal, pelo sr. Jos
Silvestre Ribeiro, T. I, pg. 173..107
XXVII
Divulgou-se, ao mesmo tempo, que o mdico francs no era casado com a
mulher inculcada e aceite em Lisboa como sua esposa; tanto assim que ia esposar-se
com a opulenta herdeira do desembargador Paulo Xavier, e j havia posto a francesa em
casa apartada.
As duas novidades alvorotaram algumas famlias afreguesadas com o mdico, e
irritaram os peraltas ricos e ainda mais os pobres, espantados de que uma menina dotada
de beleza, educao rara, e cento e cinquenta mil cruzados rarssimos, se enamorasse de
uni estrangeiro libertino e, de mais a mais, herege!
As portas das casas honestas fecharam-se ao concubinrio que ousara mentir 
sociedade, abeirando das senhoras honradas a barreg. Fecharam-se poucas: tantas
como hoje se fechariam. Ao mesmo tempo, os mdicos e cirurgies mulos do francs
forjaram aleivosias e baleias que o leitor ver formuladas em poemas nas Notas, quando
vierem de molde.
Eliot queixava-se do seu pajem valido Henrique Rutier, atribuindo-lhe a
vulgarizao intempestiva do projectado casamento.
Era Henrique Rutier aquele sujeito cuja destreza em esbofetear portugueses o
patro gabava, quando ameaou com um tagante o trino Fr. Andr Guilherme.
Trouxera-o assalariado de Frana, quando l foi conquistar a fabulosa amante de Um
qualquer duque. Figurava trinta anos, era bem apessoado, e basofiava conhecimentos
imprprios da sua posio, O trato mtuo de senhor e pajem mais parecia convivncia
de amigos. O mdico dava-se com ele mo por mo, segredava-lhe os seus projectos,
emparceirava-o nas barganterias arriscadas, gratificava-o liberalmente, e atendia-o como
a pessoa mais prtica na pilotagem de mares aparcelados para quem navega com todos
os ventos.
Rutier, com efeito, era um homem de procedncia limpa, que mudara de nome e
terra para fugir com o pescoo ao carrasco. Em Perpignan o filho de um magistrado
fora condenado  perptua grilheta como falsificador de firmas. Depois, na evaso da
gal, matara um guarda, e vingara escapar s perseguies. Em Perpignan chamava-se
Alexis Fabre, e em Lisboa Henrique Rutier.
O mdico encontrara-o homiziado na Picardia, desprezado da famlia, s sopas de
uns seus parentes, que o eram tambm remotamente do forado. Ofereceu-lhe passar a
Lisboa; e, sob o ttulo de pajem, mantinha-o no nvel de amigo e confidente.
Confessou Rutier que muito de indstria espalhara a nova do intentado casamento
por dois motivos graves: primeiro, afastar as pretenses e esperanas das Caldeironas;
segundo, publicar hoje o que seria necessrio dizer amanh.
Isaac Eliot achou-lhe razo quanto ao fim; mas da sua paixo por Leonor gemeu
umas lstimas tamanhas que o criado, num mpeto de zelo, disse ao amo, sem prvia
licena e muito familiarmente, que era tolo, provando-lho com este argumento:
* Case com a rica, e depois merque a pobre, percebe? Merque todas as Caldeironas, que ainda lhe h-de sobrar dinheiro.
Esta ideia no era original. O amo j a tinha concebido; mas sonegou-a com tal
qual vergonha do confidente.
A notcia do casamento esvoaou como se a fama enviasse uma circular a cada
famlia; e ento, nas boticas, imagine-se que falario, sendo naquele tempo os boticrios
a gazeta viva com tantos colaboradores quantas lnguas refinadamente mordazes
bandarreavam pelas esquinas das duas Lisboas, oriental e ocidental..108
O boticrio, porm, que mais se impressionou com o boato foi o alemo Jcome
Valebelt, medianeiro entre os amores de D. Antnia Xavier e Josse Frisch.
Ainda nessa mesma semana tinha ele remetido  menina uma volumosa carta
chegada de Berlim, e transmitido outra no menos compacta ao seu patrcio. Raciocinou
sobre o caso, e conjecturou que a troca das ltimas cartas seria o rompimento dos
amores, at mesmo pelo volume. Talvez - inferiu ele - se dessem compridas
explicaes ou trocassem a mtua papelada. Enfim, o boticrio, Ouvindo os
frequentadores e calando prudentemente o que podia depor na matria, aguardou o dia
do prximo paquete.
Convm saber que o boticrio da Cordoaria Velha odiava Isaac Eliot. Fora o caso
que o mdico receitara uni vomitrio manipulado por Jcome. Ora o doente esteve a
pique de vomitar a vida. Chamado a toda a pressa, Eliot examinou a poo, e perguntou
quem aviara a receita. Foi  botica e injuriou o alemo, chamando-lhe gr besta, e
ameaando-o de o acusar ao fsico-mor do reino, porque ele na interpretao dos sinais
indicativos das doses confundira ona com oitava.
O doente melhorou com a descarga abundante, graas ao equvoco; mas o mdico
da por diante, sempre que formulava para novo doente, recomendava que no se
aviasse a receita na botica de Jcome Valebelt, que era um burro assassino. Vulgarizou-se
o descrdito do alemo, propalado pelo autorizado mdico, e por tal maneira que o
pobre homem no vendia nada, e conservava apenas a freguesia do gamo e da
maledicncia.
Cogitava ele um mudar de terra com as suas drogas revelhas e avariadas, quando
o acaso lhe abriu ensejo de fazer-se necessrio ao mdico inimigo, e refazer a sua
fortunazinha esbanjada.
Em tempo competente chegou carta de Berlim para D. Antnia Joaquina Xavier.
O boticrio relutou com a misria que o espicaava, antes de se render  ignomnia; mas
os credores afogavam-lhe os respirculos da conscincia, o senhorio intimara-lhe a
deslocao dos garrafes, do ervaal seco que se Pulverizava nas gavetas, e do S.
Miguel do balco que, j carcomido, com a balana na mo e um p sobre o corngero
Lcifer, parecia dizer ao dono que as balanas eram as dos seus pecados, e que o diabo,
apesar de esmagado no seu peito de pau de nogueira, o levaria mais dia menos dia.
Passava, uma tarde, o doutor Eliot na sua sege. Jcome saiu  rua, fez sinal de
parar ao boleeiro; e, acercando-se da portinhola, segredou-lhe que tinha coisa que lhe
dizer muito interessante  sua honra.
*  minha honra?! ento que temos? - respondeu com sobranceria Eliot.
* Di-la-ei quando vossa merc se dignar vir a minha casa, ou consentir que eu v
 sua.
* No duvido ouvi-lo em sua casa. Vou ali ver o marqus de Tvora, e ao anoitecer aqui estou.
Neste momento, um negrinho da casa do doutor Xavier parava na testada da
botica, esperando que o boticrio entrasse. Eliot, reparando no escravo, perguntou:
* Aquele moleque no  aqui da rua do Outeiro?!
* Sim, senhor.
* Que vem aqui fazer  botica?!
* Vossa merc o saber logo.
J os acicates da curiosidade espicaavam a inquieta curiosidade do mdico.
Deu pressa ao lacaio, e despediu-se.
O negro ia procurar a carta de Berlim e entregar outra de sua ama. Jcome
respondeu-lhe secamente:
* No h carta..109
O escravo, percebendo a dor que levava  sua senhora, encarou com amargurado
espanto o boticrio e murmurou:
* No h!?
* No h, j to disse.
Passados minutos, Isaac Eliot, que no ptio do marqus de Tvora recebera a paga
das visitas feitas, e ordem de no voltar, saltava da sege, mandava o boleeiro esper-lo
s Portas de Santa Catarina, entrava na botica e subia ao primeiro sobrado da casa,
seguido do boticrio reverentemente mesureiro.
Sentou-se em um velho tamborete, e o boticrio em p, diante dele, tirou estas
vozes do ntimo peito:
* Quisera eu, sr. doutor, oferecer-lhe uma cadeira digna; mas no a possuo.
Algumas alfaias preciosas tive; porm, obrigado pela crueldade com que vossa merc
me desacreditou, vendi-as. Estou muito pobre, e os meus colegas, cuja ignorncia vossa
merc protegeu, esto ricos.
Eliot, com a boca escancarada de assombro e clera, interrompeu, erguendo-se:
* Ento foi para isto?!
* No, senhor, no foi para isto; queira sentar-se e ouvir um homem que paga o
mal com o bem, e que, em troca do descrdito que lhe deve, quer salvar a sua honra, ou
proteger os seus interesses arriscados. Ouvi dizer que o sr. doutor casa ou pretende casar
com a sobrinha do padre Francisco Xavier, a qual herdou de seu pai...
* Sim... - atalhou Eliot, impaciente e aguilhoado pela desfeita que acabava de sofrer no ptio dos Tvoras - ento que tem a dizer-me a tal respeito?...
* Que essa rica herdeira ama outro homem e  dele amada com o maior ardor e
com a firme esperana de que h-de ser seu esposo...
* Quem ?... o frade trino? - acudiu o outro turvadssimo.
Sorriu-se o boticrio e respondeu:
* No sei de que frade trino me fala vossa merc! Se eu lhe digo que a pessoa
espera ser esposo de Antoninha Xavier, j v que no se trata de frades, salvo seja!
O namorado, e invencvel rival do sr. doutor Eliot,  um jovem prussiano...
* Frisch?
* Esse mesmo, Josse Frisch, filho do sapientssimo Joo Frisei, e ele mesmo
poeta, gramtico, filsofo, etc. J vejo que o conhece, e no lhe deve ser de todo
estranho que a menina, h dois anos, se a deixassem ou se ele tivesse o desembarao de
muitos e ela o de muitas, a esta hora estariam ambos em Berlim muito descansados, no
gozo dos cento e tantos mil cruzados do desembargador Paulo Xavier...
* Mas essas relaes continuaram?!-replicou o mdico, esbugalhando os olhos
cintilantes de lumes felinos.
* Continuaram, continuam e continuaro, se...
* Como  que se correspondem? - atalhou Eliot.
* Carteando-se; pois como h-de ser?
* Quem recebe as cartas?  o que eu pergunto.
* Eu. Recebo as dele e remeto-as a ela; recebo as dela e remeto-as a ele. Dito isto,
 escusado ajuntar que depende de mim continuar ou interromper o comrcio epistolar
destas duas avezinhas, que esto ganhando pena para voarem. Contaram-me que o sr.
doutor ia casar com a herdeira. De mim para mim pensei eu logo: se o casamento
depender da vontade dela, este boato  uma histria; e se o doutor Eliot, (disse eu na
ausncia) est fiado em alguma promessa da menina, ela engana-o; e eu ento, em paga
do mal que me faz o doutor, vou desengan-lo para que se precate e combine as coisas
de modo que a ave no bata as asas.
Demorou-se Eliot a mordiscar as unhas e a roer-lhes o sabugo, guinando.110
feiamente os olhos de lado a lado.
Tinha meditado o que quer que fosse.
Depois, erguendo-se, apertou a mo de Jcome, e disse, sacudindo-lha:
* Obrigado. Serei grato ao seu aviso, remediando o mal que fiz.
* Saibamos ento: - volveu o boticrio - a ltima carta que recebi de Berlim posso dar-lhe o destino das outras, ou ret-la?
* Ah! o sr. Jcome tem em seu poder uma carta de Frisch? - exclamou Eliot agitado por novo plano.
* Que chegou ontem; e tenho outra de Antnia que chegou hoje.
* D-mas?
* No, senhor: mostro-lhas.
E, sacando-as da algibeira interior da vstia, acrescentou:
* Ei-las aqui.
Eliot conheceu no sobrescrito a letra de Antnia.
* Franqueza! - volveu o mdico - Isto  um obsquio ou um negcio?
* Como?
* D-me essas cartas ou vende-mas?
* Franqueza! Vendo-lhas, sr. doutor, para me indemnizar das drogas que no
vendo h cinco anos, por causa da difamao com que vossa merc me afugentou a
freguesia. Quando um homem mente  confiana de outro, e faz isto que eu fao,  que
a desgraa O aperta. Preciso dinheiro, mas pouqussmo em proporo do servio que lhe
fao. Quero um por cento.
* No o entendo... Um por cento?! de qu?
* Se a namorada de Josse Frisch tem cem mil cruzados, eu receberei como
gratificao de a desencaminhar de Frisei para vossa merc, a centsima parte, mil
cruzados, quantia inferior s minhas perdas de cinco anos; mas bastante para mudar de
terra e pagar dividas; porm devo estipular uma condio bvia: a minha percentagem
entra em caixa quando as cartas sarem da minha algibeira para a do sr. doutor.
* Amanh respondo - concluiu Eliot - mas considere o negcio tratado..111
XXVIII
* As cartas por mil cruzados so baratssimas -encareceu Henrique Rutier batendo as palmas.
* Contando com a tua habilidade, que eu gratificarei com outros mil cruzados -acrescentou Isaac Eliot.
* Diga l o seu plano a ver se concordamos.
* Concordamos sim, meu Henrique. Plano aqui h s um: imitando a letra de Frisch, dirs a Antnia o bastante para ela se julgar esquecida ou desprezada.
* Isso! - afirmou Rutier.
* E imitando a letra de Antnia, dirs a Frisch que obstculos insuperveis a obrigam a casar  vontade de seu tio, etc.
* Tal qual. Cogitamos os dois pela mesma alma. Esse et coetera  exclusivo do
meu engenho. Se as letras se fingirem facilmente, discursarei a propsito dos deveres
dos filhos e das sobrinhas. Ele dir coisas sublimadas s inferiores s coisas superfinas
que ela h-de expender.
* s o rei dos velhacos! - aplaudiu o filho da sarracena batendo-lhe no ombro
duas cariciosas palmadas.
O boticrio, concluda a veniaga, renovou as drogas e os crditos, obrigando com
splicas o mdico a restabelecer-lhos. Eliot acedera aos rogos que eram equivocas
ameaas de desfazer a perfdia, avisando secretamente D. Antnia Rutier aconselhava
todas as concesses ao traidor enquanto o casamento se no fizesse e encarregava-se na
extrema apertura de arpoar O segredo no bucho do boticrio com duas estocadas. O
certo, porm, foi que Jcome inventou por esse tempo um "unguento para impigens de
humor frio" e uns "rebuados para obstrues do bofe" com aprovao do cirurgio-mor
do exrcito portugus e cavaleiro professo na ordem de Cristo, o doutor Isaac Eliot,
bem. conhecido da nobreza lusitana, dizia o anncio da Gazeta.
Ensaiando a mo primorosa na imitao das letras, Henrique mostrou ao amo a
primeira prova. O mdico hesitou em distinguir as cartas verdadeiras das imitadas. A
destridade do falsificador justificava a sentena que o condenara a perptua grilheta nas
gals de Touion. "Mas - dizia ele com tal qual filosofia bebida nos frenologistas - que
culpa tenho eu, se a natureza me aperfeioou tanto a bossa?"
Resumidamente, das duas cartas, que serviram aos ensaios de Rutier e nortearam
o plano de Eliot, constava que Josse Frisch obtivera licena de seu pai e comisso da
academia de Berlim para continuar em Portugal as suas investigaes cientficas nas
cincias naturais; no vinha, porm, a Portugal antes do ano seguinte, 1730, porque s
ento seu pai recolhia de suas renovadas excurses a Inglaterra e Irlanda. Esta carta
denunciava propsitos algum tanto arrojados e menos conformes ao conceito de
perfeio que o douto progenitor formava da candura do rapaz. O intento de se casarem
parecia matria deliberada. Depreendia-se do fraseado das duas cartas que a vontade do
padre e do tutor seriam fraco impedimento ao santo enlace dos amores contrariados.
Entre outras expresses usuais da paixo vulgar, Josse escrevera as palavras rapto e
fuga com a desassombrada franqueza de quem cuida segred-las  mulher amada e
amante. Por sua parte, a menina, com raro resguardo em anos inocentes, omitia na sua
carta o consenso em fugir; mas entregava-se ao destino, e fundava a sua confiana na
cega fatalidade, acrescentando estas linhas:
...Tenho tido aflies, que me cortam o corao, desde que o mdico me diz
palavras semelhantes s tuas, e se fica a olhar para mim. muito firme  espera que eu.112
lhe responda, ou a ver se me l no rosto o amor que te tenho e a raiva que ele me faz.
Tenho muito medo  amizade que o meu tio ganhou a este francs... E o seu nico
amigo. No est contente seno com ele. Em dia que o no veja ningum o atura. At
hoje nada te disse a respeito do mdico para evitar que te inquietes; nem te deves
inquietar, meu amado Josse; mas quero que l saibas que eu vivo cada vez mais
mortificada. O que me vale  o extremo carinho da freira que me d esperanas e
alento, prometendo-me a proteco que me daria a mais estremecida me. Contemos
com ela; tambm te quer muito, por ver quanto eu. te amo; e no devemos contar
menos com o valimento da D. Paula, que faz o que quer com meu tio, no sei porqu.
Oxal que a tua primeira carta me diga que arranjaste modo de vir para Lisboa, com
licena de teu pai. Se torno a ver-te, meu Josse, morrerei contente, se no puder viver
feliz. Esta poesia que me mandaste mostrei-a  minha freira. Ela chorou, e disse-me
que a faziam chorar os versos em que tu me figuras morta e vens chamar-me 
sepultura. Que triste pensamento! No penses desgraas tamanhas, meu amado Josse!
Deus h-de permitir que me leves para o teu pas cheia de vida e contentamento. Cedo
ou tarde assim h-de acontecer...
Este fragmento, encerrando o passado e o esperanoso futuro de Antnia, no
podia ser mais explcito. Eliot colheu a bastantssimos elementos com que gizar o seu
plano. Ele nos dir oportunamente o itinerrio que traou em consulta com Henrique
Rutier.
Entretanto, Antnia, assustada com a falta da carta, escrevia outra, e desoprimia-se
a chorar na grade de Odivelas.
D. Catarina fantasiava as consolaes triviais do costume; extravio no correio, ou
retardamento na remessa; mas pressagiava desastre. As pessoas que padeceram muito
avultam agoureiramente as desgraas alheias. Que diremos das mes na condio de
Catarina?
O padre, apesar de perspiccia de pai avaro de sua filha, nem de leve suspeitava os
desgnios do mdico. A compostura respeitosa do francs na presena de Antnia era
tanta, que Francisco Xavier, por vezes, reparando nos modos glidos do seu mdico e na
gravidade da filha, dizia de si consigo: "Parece que se detestam!"
Uma vez disse ele a Eliot:
* O doutor trata esta menina com umas cerimnias que j raramente se usam com
as damas de idade madura. Olhe que ela fez h poucos meses catorze anos...
* Mas como aos treze j amava, afiz-me desde ento a consider-la senhora -respondeu Eliot.
* J amava! - replicou o padre em tom jovial - No amava, brincava. O primeiro
amor duma menina  a vingana de uns arrufos com a boneca;  uma diverso pueril. Os
arrufos passam, e a menina volta s suas bonecas.
*  coisa que sua... filha - perdo! - bonecas  coisa que sua sobrinha nunca teve,
desde que eu a conheo.
* Tem-nas no esprito: brinca e folga com as suas fantasiazitas como ns os do
sexo duro com os fantsticos espectculos das nossas ambies de cincia, riqueza,
glria. Creia que minha sobrinha est to afastada da criancice do tal amor como eu
estou corrido do cabedal que fiz dessa rapaziada.
*  cedo para se arrepender, meu caro amigo do corao... - objectou o francs.
* No gosto do ar com que me faz a advertncia, doutor! - acudiu o padre desassossegado - Sabe alguma coisa?
* Do corao humano... bastante.
* E do corao de minha sobrinha?.113
* Quem conhece um conhece-os todos. As variedades so acidentes casuais das
circunstncias.  o barro com diversas cores; mas tudo barro.
* Nada de figuras, sr. Eliot. Linguagem de amigo. Sabe se minha sobrinha se carteia com o alemo?
* No sei.
* Qual  ento a base das suas desconfianas?
* O corao humano - insistiu Isaac.
* O sr.  especulativo da pior filosofia! Defendo minha sobrinha dessa suspeita
extravagante. Ainda que ela quisesse escrever ao prussiano ou aceitar-lhe as cartas,
quem podia ser o medianeiro na correspondncia? As visitas de Antnia so as poucas
que o doutor sabe; e no visita ningum, salvo as religiosas de Odivelas. Quem lhe
parece capaz de ser terceiro ou terceira na correspondncia? As irms de Fr. Andr
Guilherme? as Caldeironas? ou as freiras?
* No acuso ningum, sr. Xavier-retorquiu retraindo-se Eliot - nem afirmo que a
sr D. Antnia se carteie com o poeta Frisch. Porm, se um dia o acaso nos desenganar,
recorde-se ento de que eu, sem poder apresentar as provas, desconfiei que esta menina
no brincava com o amor to candidamente como com as bonecas...
* Pois bem... - concluiu o padre - antes que o desengano venha com providncias
tardias, pensarei em casar Antnia. Ver quantos maridos da melhor nobreza se
rivalizam... Corte-se radicalmente o mal, no  assim?
* O casamento forado... - gaguejou o francs - corta, mas radicalmente no. A
mulher que ama outro... no leva em si, nem d ao marido imposto, a felicidade.
Francisco Xavier ponderou as palavras de Eliot, e balanou a cabea repetidas
vezes, sorrindo.
* H no corao humano abismos que o doutor ainda no sondou. Est muito
novo, e viveu muito na Turquia onde os pssimos costumes, pelos modos, esto
armazenados nos harns; ao passo que em Lisboa andam por a s soltas e a retalhos...
As mulheres so varias...
* Disse l o meu Francisco 1, e acrescentou: muito tolo  quem se fia nelas.
* A inconstncia da mulher  uma das perfeies deste planeta.
* Filosofia nova!
* Velhssima, doutor. A constncia degenera em tdio, e o tdio  o cancro que ri
as frgeis ligaes do corao com a felicidade. A variedade remoa a alma,
repovoando-a de imagens novas. Isto  to antigo, que nem eu sei onde Ovdio e
Horcio o acharam. Mas a minha questo, vista por outro lado,  menos antiga e mais
moralizadora. Se no fosse a volubilidade das mulheres, quantos enlaces desgraados
produziria um imprevisto choque de olhos e coraes? Quantos casos sabemos ns de
donzelas que aceitaram o convento como holocausto do seu amor contrariado pelos
pais; e,  volta de poucos dias, aceitaram os maridos que os pais lhes escolheram? Que
valera a razo dos pais, se a paixo das filhas fosse rebelde e duradoura?
* Mas - atalhou o francs - se a inconstncia da donzela se continua nos hbitos
da esposa?...
* Excepes no so argumentos - replicou o padre - A depravao do adultrio 
peste que lavra pouco em Lisboa. Os maridos portugueses castigam briosamente.
* E so degolados ou enforcados, quando se vingam.
* Se matam mulheres inocentes...
* Seria inocente uma D. rsula de Odivelas que foi encontrada com um frade trino?! - perguntou Eliot.
* Era; e, porque era inocente, o comendador Brs da Costa seu marido foi degolado..114
* Ouvi dizer o contrrio, quanto  candura da dama.
* No lho digo eu, que mais ou menos conheci todos os figurantes dessa tragdia,
passada em 1710. J l vo vinte anos! parece que se passou ontem!... Eu lhe conto: Foi
meu contemporneo, no colgio das artes em Coimbra, Antnio Coutinho de Lacerda, o
mais belo rapaz daquele tempo, e um dos mais antigos fidalgos deste reino 42 .
Este moo amava D. rsula Csar, da arrogante prospia dos Mascarenhas. Era
filho segundo; mas esperava herdar os grandes haveres de seu tio D. Jos Pereira de
Lacerda 43 . Entre as duas famlias estava pactuado o casamento, quando rsula, vendo
acaso, em Lisboa, Brs da Costa, capito de cavalos, e gal de famosas aventuras,
encovou a dignidade senhoril e a honra do juramento em uns abismos do corao que o
doutor Eliot parece desconhecer. Aps a notcia da perfdia, o meu pobre amigo
Antnio de Lacerda recebeu a segunda e mortal punhalada. rsula casou, e Antnio de
Lacerda morreu ao mundo vestindo o hbito de frade trino. Depois embarcou-se para
Argel a resgatar cativos, e por l se ficou trs anos a servir os miserveis no hospcio
portugus. No discurso dos trs anos, a prfida expiava duramente o seu desprimor de
fidalga e de mulher transgressora de sagrados juramentos. O marido enfastiara-se dela
at ao dio, e volvera-se s suas afeies antigas que o repuseram na velha libertinagem.
rsula compreendeu que a sua desgraa era um castigo; queria morrer; mas pedia a
Deus e s pessoas compadecidas que lhe dessem modo de pedir perdo a Fr. Antnio de
Lacerda. Os seus prprios parentes, logo que os frades da Redeno recolheram,
pediram instantemente a Fr. Antnio que perdoasse a rsula. Ele jurou pela cruz do seu
hbito que lhe perdoara no dia em que fez profisso. A enferma instou pela sua
presena. Queria que ele visse aquelas descarnadas faces, aqueles olhos apagados,
aquela transfigurada imagem do crime e da ingratido. Esquivara-se ainda o frade,
enviando-lhe por outrem palavras de muita caridade e esperana de ainda se recobrarem
das penas da vida na glria prometida aos que muito choraram. Instou de novo a
inconsolvel e exasperada senhora. Moveu-o a autoridade do provincial Fr. Antnio da
Fonseca. Foi finalmente  quinta de Odivelas, onde D. rsula de Mascarenhas residia.
Alvoroada com a nova, a mulher de Brs da Costa, fiada na cavilosa ausncia do
marido em Lisboa, saiu a receb-lo na primeira sala. No sei o que passou naquele
conflito. O que todos souberam foi que Brs da Costa assomou inopinado  porta da
sala, quando a esposa estava de joelhos aos ps do frade; e, arrancando da espada,
traspassou o corao de Fr. Antnio de Lacerda. rsula perdeu o alento. O marido ia
mat-la, quando alguns parentes dela o investiram e desarmaram. Gritava o homicida
que colhera de sobressalto os criminosos em adultrio; mas, D. Francisco de
Mascarenhas, da casa de bidos, que solicitara a vinda de Fr. Antnio de Lacerda, e o
acompanhara, amordaou o aleivoso como se amordaa um molosso e levou-o de rojo
at o entregar aos esbirros. A infeliz dama, recuperando os sentidos, e sabendo que o
seu desgraado amigo era morto, chamou os fidalgos e o clero da terra para que lhe
ouvissem a sua derradeira confisso. E, com as avanadas da morte j a regelarem-lhe o
peito, referiu tudo que provava a santa inocncia do mrtir. Ela rendeu o esprito a Deus
no dia seguinte, e Brs da Costa sobps a cabea ao cutelo do carrasco quarenta dias
depois: to rpida correu a justia de mos dadas com a vingana pblica. Aqui tem a
histria do frade trino:  assim que o doutor a sabia?
* Pouco mais ou menos - respondeu desdenhosamente Eliot.
* J v que em Portugal...
42 Era de Beja, filho de Romo Pereira de Lacerda e de D. Maria Antnia de Castro Coutinho, ambos de
gerao nobilssima. Veja Fr. Jernimo de S. Jos, Histria Cronolgica da Esclarecida Ordem da San-tssima
Trindade e Redeno de Cativos, etc. T. II, pg. 427.
43 Que morreu cardeal em 1751..115
*  preciso cuidado com o carrasco... e com os frades... - acrescentou o francs
sardonicamente.
* Diz bem, doutor. Acautele-se dele e deles.
* No terei contendas com tal gente por tais motivos. A mulher, que houver de ser
minha esposa, h-de ser honesta.
* Mas no precisa casar e matar os amantes de sua mulher. Basta-lhe publicar
suas ideias a respeito dos frades... que dois carrascos lhe prometo eu a mngua de um.
* A propsito de frades - volveu Eliot - que  feito daquele Fr. Andr Guilherme
que abocanhava as Caldeironas?
* Est na provncia de Entre Douro e Minho pedindo esmola para a redeno dos
portugueses cativos em Marrocos.
* Admiro que no viesse despedir-se do doutor e de sua sobrinha!
* No pde. Recebeu  noite ordem de partir na madrugada do dia seguinte para a
sua misso. Aqui tem a carta de despedida.
Eliot leu mentalmente: Desculpe vossa merc ao frade obediente a falta do amigo
fiel.  minha querida discpula uma saudade muito cordial. - Fr. Andr.
Fechou o francs a carta pelas dobras muito devagar e murmurou:
* Estes frades...
* Que tm estes frades?
* O imprio da melhor parte do mundo...
* Da parte mais alumiada do mundo, quer dizer o sr. Eliot.
* No, senhor: da mais corrompida.
* Como assim? o que no diro hereges!
* O poder do clero agiganta-se ao mesmo passo que a depravao dos costumes
professa ainda o terror do inferno - replicou enfaticamente o luterano - Quando se
apagar o inferno, extinguem-se os frades.
* Cuidado, doutor! - acudiu mais faceto que escandalizado Francisco Xavier -
No repita isso em presena do meu escudeiro, se me no quer dar o dissabor de o ver
assar..116
XXIX
Em Berlim e em Lisboa, simultaneamente, receberam Antnia Xavier e Josse
Frisch cada um sua carta.
A do prussiano era lacnica. Principiava desculpando-se de no haver escrito no
correio anterior; a sua dor fulminara-o. Explicando esta dor, compendiava em frases
curtas e recheadas de interjeies, a violncia irresistvel que o pai lhe fazia, casando-o
com uma parenta rica de quem era tutor. Vaticinando o porvir que o esperava, sorria 
Parca e a chamava como redentora. Henrique Rutier, sabendo que Frisch era poeta,
assentou que o termo genuno do caso e da pessoa era Parca em vez de morte. Isaac
aprovara o alvitre do pajem, laureando-o com uma gargalhada. Conclua, depois de
algumas frioleiras usuais colaboradas pelo mdico, advertindo Antnia que no lhe
escrevesse, porque j no teria tempo de receber em solteiro a sua resposta, e to
depressa casasse iria em comisso da academia  Esccia.
A carta ida de Portugal para Josse Frisch era mais extensa, porque Antnia
escrevia os caracteres garrafais da poca, faclimos de imitar. Rutier, vaidoso do seu
engenho, gozava em dobro o prazer de compor quatro pginas de m novela por
avultada gratificao.
Falsificando, porm, o dizer singelssimo de Antnia, teceu um enredo com suas
peripcias desgrenhadas de exclamaes, de apstrofes, de raptos e at de monlogos
delirantes; mas a urdidura do entrecho no honrava a fantasia de Rutier, bisav de
alguns modernos romancistas do seu pas. Seu tio (contava a menina em linguagem j
plangente, j ramalhuda) desconfiado da continuao do seu amor, cuidara em lhe
arranjar marido to cautelosamente que ela - a infeliz! - vira pela primeira vez um
fidalgo de Braga que ao mesmo tempo lhe era apresentado como noivo. Desmaiara,
dizia ela, e, tornando a si, exclamara as lamentaes que reproduzia na carta com
prodigiosa memria. Eliot achara desnatural a reminiscncia dos clamores fraseados em
conceitos e trocadilhos; mas Rutier, o autor rebelde  razo e  natureza, defendia a sua
obra, desfazendo no gosto um tanto moirisco do patro. E riam ambos, nestas contendas
do realismo contra a retrica, at lhes doerem as ilhargas.
Consumara-se a infmia.
Do efeito destas duas cartas diremos j a poro de angstia que coube  filha de
D. Catarina de Castro.
Leu e no duvidou. Aquela era a letra de Josse. O papel era diverso das cartas
dele: mas semelhante diferena despercebeu-a a alma atribulada na transformao da
sua vida, no instantneo anoitecer do seu dia apenas alvorecido. Foi ao mosteiro de
Odivelas, mostrou a carta s trs religiosas, que a confortaram: mas havia uma s que
chorava com ela.
D. Paula Perestrelo e a irm valiam mais como consoladoras. Ungiam-lhe a ferida
do corao com os blsamos triviais, incitando-a a escolher novos afectos, picando-lhe o
amor prprio, insinuando-lhe o desforo do orgulho, encarecendo-lhe enfim a formosura
e o dote.
* Se no tens um marido poeta - dizia soror Paula - ters uma coroa de condessa,
minha filha!
* Quem diria que o tal fazedor de versinhos de p quebrado havia de sair-se assim
como qualquer tendeiro bestial que casa com uma parenta endinheirada! - observava D.
Maria da Luz, tentando a cura pelo mtodo, ainda hoje vigente, de afidalgar as
aspiraes de Antnia.
Nada obstante, a bisneta de ngela, voltando para Lisboa, adoeceu, deitou-se,.117
teve febre, e assustou o pai.
s carinhosas interrogaes do padre nada respondeu que revelasse a causa da
doena. Eliot assistia-lhe to assduo que Xavier, abraando - o com o estremecimento
paternal, exclamava:
* Salve-ma, doutor, salve-ma j que teve a crueldade de me no deixar morrer, antes que eu conhecesse... minha filha!
Era a primeira vez que o padre vencia, na presena do mdico, o seu pejo de
sacerdote e pai. Pediam perdo por ele as lgrimas que lhe derivavam nas faces.
Eliot receou pela vida de Antnia; mas, figurando-se a hiptese da morte, cogitou
logo nova traa a respeito da herana do padre Xavier. A riqueza de Antnia podia e
devia dar a felicidade a algum, sem necessidade absoluta da vida de sua dona. Duas
frases de Henrique Rutier esclarecem as hipteses de Eliot.
* D-me algum papel escrito pelo homem. Quero ensaiar-me a tempo.
Pensavam em forjar o testamento do padre, se ele sobrevivesse  filha.
No entanto, Antnia Joaquina cobrou melhoras quando leu uma carta de soror
Paula, avisando-a de que a sua amiga
D. Catarina de Castro sofria por amor dela, tanto que se receava por sua vida.
Galvanizou-a aquele santo amor. No conhecera outro, desde que Paulo Xavier a
deixara menina. O amor de Josse Frisch era-lhe uma recordao infernal, um complexo
de sentimentos em que sobressaa o dio.
O padre, quando a viu fora do leito, beijou as faces de Eliot, cingiu-o ao peito
freneticamente e exclamou:
* Devo-lhe a minha filha!...
* E eu devo-lhe um conceito que no mereo - disse cavilosamente modesto o
doutor - Deus, sendo bom como , no roubava a um pai to extremoso uma filha to
amvel. Eu por mim no fiz mais que incutir-lhe no esprito a vontade de viver para
amparo de seu tio.
*  um anjo! o doutor  um anjo!... - balbuciava o padre enxugando as lgrimas.
A importuna frequncia do mdico irritava os nervos da convalescente. Por sua
parte nada tinha que agradecer  medicina. Os remdios receitados por Eliot mandava-os
ela emborcar na pia dos esgotos. Era-lhe odioso aquele homem que, na ausncia do
padre, e com a liberdade de mdico, devassando-a nos segredos do corao, deixava a
seu pesar perceber que os adivinhava; e ao espanto de Antnia respondia com algum
galanteio desta espcie boal:
* O amor  feiticeiro.
A infmia bestificava-o, rosto a rosto da vtima.
Cuidou Antnia que, refugiando-se na quinta de Camarate, descansaria da surda
luta da raiva em que a punha o mdico. Pensava que ele raras vezes iria ao campo.
Pediu ao tio que a deixasse ir para a quinta passar o vero. O padre condescendeu
alegremente, inferindo da petio que as conjecturas de Eliot, quanto  correspondncia
amorosa, desvaneciam-se de todo, pedindo-lhe a filha um viver ainda mais solitrio e
desatado de relaes.
Em Camarate, agravou-se a sombria tristeza de Antnia. s pessoas aflitas o
silncio dos montes e dos arvoredos parece que lhes apura a sensibilidade ntima
quando a alma chora. A soturna mudez do cu e terra como que reveste de formas
sepulcrais as saudades e esperanas. O decantado murmrio dos arroios e a toada
murmurosa das selvas so frases gastas e desbotadas que j tiveram certa valia
prosdica e buclica nas pastorais de Rodrigues Lobo e lvares de Oriente. Os
desgraados que se embrenham nas aldeias s l encontram o refrigrio do
aniquilamento, quando o enojo os dissolve..118
Ainda assim, Antnia queria morrer naquele ermo, e repousar no jazigo de ngela
e de Francisco Mendes Nobre, seus bisavs, que apenas conhecia tradicionalmente de
lhes ver os nomes no epitfio. O padre, afligido, chamava Eliot todos os dias, embora
conhecesse a repugnncia de Antnia. Vingava-se ela fugindo para Odivelas; porm
Eliot, em nome da cincia, induziu o padre a desconsentir nesses longos passeios a
cavalo que extenuavam a enfraquecida compleio da filha.
A proibio autorizada pelo mdico sobreexcitou Antnia. Subjugados os mpetos
da clera, tornou a febre, a palidez, o quebrantamento. Amiudaram-se por isso as visitas
do doutor, e renovaram-se nele os receios de que a enferma se consumisse na febre
tica. Ao mesmo tempo, Francisco Xavier queixava-se de angstias no corao,
turvaes, nsias que o espertavam de noite sufocado pela tosse. Originava estes
padecimentos em remotas dores morais; porm, asseverava que uma noite, assistindo 
filha, que dormia ofegante, cuidou que ela estava na agonia da morte, e ento sentira e
ouvira estalar-lhe o que quer que fosse no corao. E desde aquela hora nunca mais
descansara sobre algum dos lados.
Eliot depreendeu que o padre tinha leso grave, denunciada no pulso.
Por esse tempo, perguntou o mdico a Henrique Rutier:
* Como vo os ensaios?
* Bem: e como est a moa?
* Mal, e o pai pior.
* Pois, a respeito da letra - tornou o pajem - no lhe d cuidado. Trate o doutor de
arranjar o rascunho de testamento, e veja l como faz isso, percebe? Olhe que a minha
perdio devo-a  bestialidade de um herdeiro; mas o parvo foi tambm condecorado
com a grilheta. Veja l, isso de testemunhas e de tabelio como se faz. Ser bom que o
padre faa um testamento, e que o doutor seja o encarregado de o apresentar. Depois,
passe-mo legal, que eu o tornarei legalssimo. Cautela! Olhe que na Ribeira das Naus
tambm h grilheta....119
XXX
Por este tempo recolhia ao seu convento o sobrinho de D. Feliciana com as
esmolas colhidas Entre Douro e Minho para resgate de cativos. O padre redentor Fr.
Jos de Paiva, mui afeioado ao virtuoso Andr Guilherme, pedira ao provincial que lhe
cedesse como companheiro  moirisma aquele operrio de vontade fervorosa e foras
juvenis que o adjuvassem na sua cansada velhice.
Deferido o requerimento, o mestre de Antnia apenas poderia deter-se oito dias na
capital, enquanto se aprestava para a viagem a nau de guerra Nossa Senhora da
Lampadosa.
Visitando a me e as irms, soube que o padre Francisco Xavier e a sobrinha
passavam o estio em Camarate, por causa da enfermidade de Antnia, que no prometia
longa vida. Uma irm de Andr, casada com um abastado mercador chamado Alberto
Borges - e a mais ntima de Antnia - segredou ao irmo uma histria de amores, como
origem da doena.
* Deve ser perigosa doena quando se tem o corao bem formado - observou o
jovem trino profundamente recolhido. - Irei v-la amanh. Tens l ido com tuas irms?
* Algumas vezes, desde que as Caldeironas deixaram de ir; mas o mdico francs,
que l est sempre, mostra-nos to m cara que meu marido a muito custo me deixa ir, e
nossa me desgosta que as filhas solteiras l vo. O tal Eliot dizem-se por a dele
horrveis coisas...
* Deus sabe o que  verdade - atalhou Fr. Andr.
* E no corre por a que ele casa com Antnia?! Ser possvel?
* Nem sequer  extraordinrio.
* Um homem que andava a a passear na corte com uma concubina...
* Assim dizem; mas no repitas os boatos que correm  conta do francs.  caridade ouvir em silncio, e pedir a Deus que encaminhe os transviados...
* Ento j sabias que aquela francesa no era mulher dele?
* No sei nada certo, minha irm. O que me dizes da doena de Antoninha pesa-me
muito; mas se to cedo os desgostos a mortificam, bom ser que o Senhor a chame
na idade dos anjos.
Quando Fr. Andr transps o porto da quinta chamada "dos Nobres" estavam o
padre, Antnia e o mdico no patamal da escadaria  hora de sesta.
Eliot viu-o primeiramente, e disse:
* Ol! temos frade!...
Antnia, como nunca vira Andr Guilherme com hbito, e a distncia era grande,
no o reconheceu logo; porm, tanto que Francisco Xavier conjecturou quem fosse o
frade, a doente ergueu-se de golpe, galgou os degraus, e correu ao encontro de Fr.
Andr com as faces rutilantes de jbilo febril. Ia abra-lo, quando ele a susteve
tomando-lhe as duas mos; e, abaixando-as com branda violncia, disse com a voz
trmula de comoo:
* Como est senhora perfeita a minha discpula!... Cuidei que vinha encontr-la
enferma!... Louvado seja Deus, as cores so excelentes; e quem assim corre decerto
pode fugir  doena!
* Venha de l, esse abrao, sr. Frei Andr! - exclamou o doutor Xavier descendo
a coxear alguns degraus para receb-lo nos braos.
O trinitrio abaixou a cabea a Eliot, que lhe correspondia com certo jeito de
gravidade mais ofensiva que o menospreo. E a fim de lhe patentear sem demora a sua
desconsiderao, Eliot, estomagado ainda por amor das Caldeironas, despediu-se logo,.120
relanando-lhe um olhar de travs.
O frade no pde reter uru gesto de espanto quando viu de perto o aspeito doente
e lvido do padre.
* Tem padecido, sr. doutor?! - perguntou ele.
* Bastante desde que a nossa Antoninha sofre; mas o doutor Eliot no faz grande
caso disto. O que , est aqui; e, a falar verdade, no est em bom stio... - e, dizendo,
apontava o corao, e tirava a custo respiraes fundas. -Ponto  que a pequena se
restabelea, que eu,  proporo que ela for ganhando a antiga sade, irei tambm
arrijando.
* E a menina que sofre? - voltou o frade - As cores so to boas!... Que lhe di,
sr D. Antnia?
* Nada... - respondeu ela, sorrindo daquele triste modo que tm os risos, se as lgrimas ao mesmo tempo ressumam nas plpebras.
E ficaram largo espao silenciosos. Antnia voltara o rosto para esconder as
lgrimas. O padre lia no semblante compassivo de Fr. Andr o mesmo receio que o
excruciava, quanto  doena fatal da filha.
* Vamos para dentro que o calor aperta - disse Francisco Xavier movido por
sbita ideia.
Antnia seguiu-os; e, quando eles comearam a falar da prxima sada dos trinos
 redeno dos cativos em Mequinez, a menina saiu para avisar a despenseira de que
havia um hspede...
* Hspede por trs dias; no sou um simples hspede de um jantar - ajuntou Fr.
Andr Guilherme.
* Sim?! - exclamou Antnia - Graas a Deus que vou ter trs dias alegres no
campo!
Quando voltou, o quarto do padre estava fechado por dentro, e Fr. Andr com ele
em conversao de que apenas se ouvia fora um murmurinho.
Estava Xavier contando a Fr. Andr o caso amoroso de Antnia com o filho do
protestante Joo Frisch. Contava o que sabia, que era to somente o exrdio da histria;
mas Presumia sab-la toda, excepto a impresso que o prussiano deixara na alma da
filha.
* No sei; - ajuntava o padre - mas o doutor Eliot d-me a entender que o amor
da pequena foi mais grave do que eu pensei, e deixa-me suspeitar que h ou houve
correspondncia... Eu no posso acreditar que uma criana tivesse corao capaz dum
amor srio nem fora para se rebelar contra a minha vontade.
* Mas que rebelio houve?
* Que houve? ora imagine uma correspondncia... talvez um plano de se casarem
contra minha vontade, quando ela for maior ou eu descer  sepultura...
* Isso no  rebelio! - contrariou o frade.
* No ?!
*  submisso.
* Fr. Andr continua a exercitar o seu engenho no sofisma da aula de filosofia? -
perguntou Francisco Xavier entre risonho e agastado.
* No, senhor; eu professo a verdade do sentimento e a da expresso. Se a sr D.
Antnia se rebelasse contra seu tio, no esperaria pela maioridade, nem pela morte dele.
Tem quinze anos, tem um patrimnio indisputvel, e tem a lei que em Portugal
franqueia facilmente a evaso das mulheres que escolhem maridos repugnantes aos pais
ou tutores 44 . E, pois que a sr D. Antnia continua submissa a seu tio, no se rebelou -
44 "A lei em Portugal permite s donzelas casarem-se a bel prazer; de modo que um plebeu, se uma
senhora da primeira plana lhe promete casamento, pode espos-la apesar dos pais; ponto  que a menina.121
submeteu-se. Se vossa merc chama rebeldia  paixo paciente e muda que se entranha
e chora, desacerta a palavra, ou quer ser nos actos morais de sua sobrinha uma segunda
conscincia. A sr D. Antnia, se padece por amor de algum, e em silncio devora a
sua saudade,  um raro exemplo de obedincia nesta cidade onde todos os dias voga a
notcia de um casamento judicirio.
* Mas o receio que me atormenta hoje ... perd-la, Fr. Andr!... perd-la... ou ma
leve um marido, ou a morte!... Faa-me um favor... Arranque o segredo ao corao de
minha... sobrinha... saiba o que  que a mortifica... desengane-me.
* No me pede um servio honesto, sr. doutor Xavier - disse com urbana
austeridade Fr. Andr - Nada perguntarei a sua sobrinha do foro ntimo. Isso pertence
ao seu director espiritual, e ainda assim com reservas que respeitem a inviolabilidade de
terceiros. Se a sr D. Antnia, que eu prezo como a minhas irms, me disser o que vossa
merc ignora, o sr. Xavier continuar, a ignor-lo, salvo se a revelao denunciar um
perigo que eu s por mim no possa remediar.
* Pois bem, sr. Fr. Andr Guilherme. faa de conta que ela  sua irmzinha.
Aconselhe-a, desfaa-lhe as quimeras perigosas. Lembre-lhe que  muito rica...
* E que importa ser muito rica?
* Importa que eu medito dar-lhe marido de famlia ilustre, abrir-lhe as portas de todas as casas onde a vida se passa alegremente.
* A felicidade no  isso - replicou Fr. Andr - Vossa merc por a andou, e saiu
de l desgraado. Eu no direi a sua sobrinha que  rica de dinheiro enquanto ela me
parecer rica dos tesouros da virtude. Perdidos estes, dir-lhe-ei ento que  rica da moeda
com que se podem resgatar culpas convertendo-a em remediar desgraas alheias,
estancar lgrimas, fechar abismos para os quais a desesperao arremessa muitos
criminosos.
*  Fr. Andr - atalhou o padre - conversemos um pouquinho mais
humanamente. No vamos nessa toada dos Exerccios espirituais do padre Afonso
Rodrigues da Companhia. Eu desejo que minha sobrinha seja virtuosa; mas no
pretendo encarreir-la no beatrio. Quero-a boa para o prximo; porm desvi-la-ei de
se imolar ao remdio dos outros, privando-se das regalias do seu patrimnio. Que
pensava o sr. padre Fr. Andr?... que eu folgaria de ver os bens de meus passados a
convertidos por minha sobrinha na fundao de algum convento de freiras? No, senhor.
Protesto contra quem lhe incutir semelhante desperdcio de juzo e de dinheiro...
* Vossa merc  que est desperdiando palavras... - contestou Fr. Andr com o
rosto jovialmente sossegado - Eu no aprovo nem reprovo que a sr D. Antnia funde
mosteiros de religiosas; mas reprovaria (se me dessem ousio para tanto) que ela
fundasse uma famlia irreligiosa e eivada de origem ruim. Como vossa merc me disse
que lhe procura marido ilustre a fim de lhe abrir as portas da alegria, eu hesitei -mas
no o disse - em dar como acertada a escolha de um marido fidalgo, posto o intento
simplesmente na vida alegre que vive a nossa fidalguia no tempo actual. Se vossa merc
me dissesse que procurava para sua sobrinha marido virtuoso a fim de a felicitar com os
contentamentos da virtude, um tal propsito parecer-me-ia melhor escolhido...
* Quer ento que eu v a Lisboa com a lanterna de Digenes?...
* No, senhor. Parece-me, porm, prudente que vossa merc no se apresse a
procurar marido s escuras, abrindo concurso a opositores  posse do patrimnio de sua
sobrinha, Afirmo-lhe que Digenes, se voltasse hoje ao mundo, apagaria a lanterna
como coisa intil. Queira dizer-me, sr. doutor Xavier:
no roa a palavra... O processo  este: o pretendente expe o seu direito ao Vigrio geral; este manda
comparecer a noiva na sua presena; e, se o que ela diz frisa com a exposio do noivo, recebem logo ali
licena de se casarem". Description de la Ville de Lisbonne. A Paris, 1730..122
descobriu ms qualidades nesse estrangeiro que sua sobrinha amou? Seria indigno
dela? Quem sabe se a felicidade, que este mundo pode dar, a daria ele  sr D. Antnia?
* Essas perguntas no me parecem suas! - atalhou o padre - Estou espantado, Fr.
Andr Guilherme! Que quer concluir?
* Concluo, sr. doutor, que seria prudente indagar se o estrangeiro  honrado, se
sua sobrinha o ama, se ele merece tal amor; e depois...
* E depois?!...
* E depois... deix-los casar.
* Est muito verde! - exclamou o doutor disfarando a zanga com uma risada
spera - Afinal, frade! completo frade! Os senhores formam l na sua imaginao uni
mundo para o seu uso particular. J por l andei, j por l andei, padre Andr
Guilherme!... Isto c, fora dos umbrais do mosteiro,  outra vida; as coisas configuram-se
de outro feitio. Ningum d uma menina com cento e cinquenta mil cruzados a um
valdevinos que se viu duas ou trs vezes, e teve artes de cativar uru corao inocente
com versos. A moda dos Macias namorados no pega segunda vez. - E cessando de rir,
prosseguiu: - Mas, fale-me srio, Fr. Andr! Acha que eu devia privar-me de Antnia,
dar-lhe o seu dote, e entreg-la assim ao filho de um sacerdote calvinista, v-la ir para a
Prssia, e... adeus... l vai... acabou-se! Isto depois de tocar as fronteiras da velhice, sem
ter tido mocidade, sem ao menos ter conseguido ser amado desta criatura, que tem sido
o flagelo do meu corao, como o sr. padre Andr Guilherme sabe! Ora, pelo amor de
Deus! No  foroso que os desgraados sejam tambm parvos. Seria estpida e
criminosa tolerncia deixar-me eu ir a sabor da vontade de uma rapariga que se
apaixonou pelos sonetos e pelos cabelos louros de um forasteiro! Cas-la! essa  boa, sr.
Fr. Andr! Dar uma menina formosa e um saco de ouro ao primeiro adventcio!... Ainda
no endoudeci!... Se ela endoudecer, a minha obrigao  medic-la, no  cas-la...
Mas no tenho medo da loucura de Antnia. Est curada... Se sofre, no  disso; 
porque a sua compleio  fraca. No come nada, nem obedece ao mdico... Quer
morrer? morra muito embora, que morto estou eu j, e mais me pesa sobre o peito o
futuro dela do que h-de pesar a pedra da sepultura...
Nesta variao de expresses agora magoadas logo irnicas, umas vezes
envenenando o sorriso, outras embebendo as lgrimas no leno, discursou largo tempo o
doutor Francisco Xavier sem ser interrompido. Fr. Andr escutou-o com os braos
cruzados sobre a cruz escarlate do hbito branco, at que ele concluiu desta forma:
* Enfim, meu amigo, converse com Antnia, aconselhe-a, sonde-lhe o corao,
veja se l descobre o que ela esconde de mim como da mais indiferente pessoa do seu
conhecimento. Se o sr. Fr. Andr Guilherme a encontrar disposta a aceitar esposo, eu
lhe darei azo de o escolher entre os que mais podem lisonje-la
* No  de esperar - disse o trinitrio - que os pretendentes se ofeream  eleio
do sr. doutor Francisco Xavier e da noiva quando  fama que o cirurgio Eliot, que se
supunha casado, ser o esposo da sr D. Antnia...
* Isso no tem fundamento nenhum - contraveio o padre nada irritado e
ligeiramente admirado do boato - O doutor Eliot nunca pensou em tal casamento, nem
eu, nem minha sobrinha. Esses planos no se escondem nem disfaram; nem o meu
prezado Eliot, que  a honra em pessoa, ousaria calcul-los a ocultas de mim. Ele sabe
que eu o prezo tanto que lhe no levaria a mal apaixonar-se pela sobrinha do homem
que lhe deve a existncia. Alm de qu, tenho observado que o doutor com Antnia 
srio corno um severo parente, e ela por sua parte, se o no aborrece, decerto o no ama.
Como estas fbulas se inventam em Lisboa!... Talvez lhe dissessem, Fr. Andr, que o
Isaac Eliot quer casar com a Leonor Caldeiro... Dessa sei eu que est ele cativo e
enfeitiado; e razo tem, se a formosura  bastante razo para que os homens.123
desnorteiem e naufraguem no casamento... Pena  que aquela to linda menina seja irm
das outras... Foi dela provavelmente que Fr. Andr ouviu falar, ou quem lho disse
trocou o nome de minha sobrinha pelo da outra...
*  possvel - condescendeu Fr. Andr Guilherme -todavia, no  natural que
diversas pessoas se enganassem juntamente. Entretanto, sr. doutor, se um dia Isaac Eliot
lhe pedir sua sobrinha, rogo-lhe com as mos erguidas que... no lha d.
* Por que me diz isso com tanta veemncia? - acudiu o padre.
* Se eu no sei dar a razo por que o sinto, mal poderei dizer-lhe a razo por que
lhe peo que no case Antnia com Eliot.
* E deu a entender ainda agora, que a desse ao prussiano!... No percebo!... Fr.
Andr tem ares de vidente; e, se vai nessa esteira, perde-se nas restingas da visionice!...
Meu fradinho, no adelgace tanto o esprito! Lembre-se que a carne  trs partes da
natureza humana...
Andr Guilherme, contemplando serenamente o ex-varatojano, disse entre si:
* Se Deus  misericordioso com as irritaes dos grandes desgraados, com que
direito lhe perguntarei eu se perdeu o juzo?.124
XXXI
Depois de jantar, o filho de S. Joo da Mata, emboscando-se com Antnia na
floresta da quinta, pediu-lhe que contasse como a um irmo extremoso as suas mgoas,
se sentia necessidade de conselho ou de consolao.
A menina principiou com a eloquente e ntima confisso das lgrimas.
* Assim, no quero, Antoninha - disse o padre - Chorar choram as pecadoras; a
inocncia ignora, no peca. Antnia quer dizer-me que ama um mancebo estrangeiro,
contra vontade de seu tio. Deseja esquec-lo, e no pode...
*  verdade... - interrompeu Antnia soluante - no posso esquec-lo, e... tenho-lhe
dio... porque me enganou... vilmente.
Andr Guilherme estremeceu, fez-se lvido, e articulou sufocado:
* Como?... Enganou-a!... que diz, Antnia?!
O frade entendera a palavra com a inteno que usa dar-lhe a mulher do povo -
expresso simples que significa a desonra com que a infmia paga a confiana em uma
promessa. A filha de Catarina ignorava o sentido triste e plebeu do vocbulo, e era justo
portanto o espanto que lhe fizera a desfigurao, o pasmo, o anseio interrogador do seu
querido mestre.
E quando ele, aturdido com o silncio de Antnia, repetiu:
* Enganou-a?... pois a menina...
Ela, sem ainda compreender a agitao do frade, ampliou o queixume:
* Jurou que eu havia de ser sua esposa, jurou-mo pela alma de sua me, e mentiu
cruelmente...
* Mas... - redarguiu o trino ainda incerto e embaraado na delicadeza da
investigao - essa promessa era feita de viva voz ou por cartas?... Conversavam e
carteavam-se?
* Sim...
* Conversavam... onde?
* Na sala das visitas.
* Quando seu tio saa?
* Nunca lhe falei seno na sala em que estava meu tio.
* Ah!... - exclamou Fr. Andr Guilherme, com tal mpeto e desafogo que a exclamao parecia um grito de jbilo.
E, voltando ao seu natural meigo e ao mesmo tempo circunspecto, prosseguiu:
* E razes fortes teria esse rapaz para violar o sagrado juramento por alma de sua
me? Seria obrigado pela autoridade do pai? Que motivo deu ele?
Antnia tirou da algibeira da saia de cetim branco matizado de flores um mao de
cartas e disse lagrimosa:
* Aqui tenho as cartas todas e os versos. A ltima que recebi  esta - e entregou-lha.
Leu o moo a carta falsificada por Henrique Rutier, e disse:
* Este homem am-la-ia, Antoninha? Veja l que no se iludisse, menina...
* Porqu? - interrogou ela com espanto.
* Acho esta carta escrita com extraordinrio juzo. As pessoas que amam raciocinam menos discretamente. Verdade  que ele por aqui fala na Parca; -
prosseguiu o frade, sorrindo, enquanto no esprito atento de Antnia raiava uma luz que
ao mesmo tempo lhe alumiava o entendimento e queimava o corao. - Porm que
medo ou desejo pode ter da morte este prudente moo que no s deixa de casar para
obedecer ao pai, mas tambm no quer que as cartas de Antoninha vo perturbar a sua.125
felicidade, e para isso recomenda que no lhe responda? Menina, este homem no lhe
merece as lgrimas, nem as saudades. As paixes infelizmente podem mais que os
deveres. Se Josse Frisch - continuou o padre Fr. Andr, lendo a assinatura da carta - em
vez de obedecer a seu pai, resistisse rebeldemente, e escrevesse neste papel injrias
contra a tirania paterna e arrebatados protestos de eterna firmeza no seu amor, ento,
Antoninha, dir-lhe-ia eu: "Este rapaz no  bom filho, porque desobedece; mas pode ser
bom esposo, porque ama." Porm,  vista desta carta, no hesito em lhe afirmar que a
pessoa que isto escreve era um impostor quando lhe escreveu outras com fingida
sensibilidade.
Fr. Andr Guilherme, convencido das razes que expunha e da convenincia
delas, demorou-se excogitando todos os argumentos no propsito de principiar assim a
aliviar as mgoas da saudade, chamando a dor ao amor-prprio. Entendia assim o
esperto frade que as doenas da alma ganhavam com o sistema derivativo dos
vesicatrios nas dores do corpo.
A suposio saiu-lhe bem lograda. Antnia replicava-lhe com as poesias e as
cartas anteriores  ltima. Das poesias, posto que bem feitas, ria delicadamente o frade,
como sempre riram, e ho-de rir, enquanto o mundo for mundo, todos os frades e leigos
e at os prprios poetas chamados a julgar pleitos de amor sobre tais documentos.
Quanto s prosas, dizia o mestre de Antnia Xavier que eram escritas com a mesma
pena que rabiscara os poemas, e mereciam igual crdito, desde que o poeta se
desmentira na ltima carta, que era a primeira sinceramente escrita.
Quando Antnia defendeu derradeiramente a sua saudade com o argumento das
lgrimas, Frei Andr recorreu s consolaes religiosas, contando com o triunfo nesse
campo. A menina, percebendo o pensamento do seu mestre imperfeitamente, disse que
de muito boa vontade iria professar em Odivelas.
* No lho aconselho - contestou Fr. Andr. - A menina cuida que eu lhe lembrei
a religio dos mosteiros como remdio  sua dor; no, Antoninha: a religio que lhe
aconselho  a de fosso Senhor Jesus Cristo;  a religio que se exercita no seio da
famlia, na obscuridade do lar domstico, na dedicao s pessoas que nos amam. Se
Antnia tivesse me e pai no praticaria o desamorvel acto de os deixar e fazer-se
freira, vingando-se neles da ingratido desse estrangeiro. No tem pais, mas veja que
est a seu tio, com o corao cheio do amor de pai e de me...
*  verdade... - balbuciou Antnia.
* E que semblante desfeito e doente lhe encontro! Seu tio parece-me muito ameaado do prximo fim!...
* Disse-me o doutor Eliot que meu tio pode morrer de um momento para o outro
por causa de uma leso no corao. Choro com pena dele, porque j me disse que
sentira formar-se a leso, que o h-de matar, uma noite, que passou  cabeceira da
minha cama, e cuidou que eu estava em agonias da morte.
* A tem forte motivo e sagrada obrigao de no afligir seu tio...
* Mas... - contraveio Antnia - o que eu queria era que meu tio me no falasse
em casamento. J trs vezes me disse que era tempo de tomar estado, e que me h-de
arranjar um marido muito fidalgo, e que eu hei-de ir  corte. Quando lhe ouo isto...
* Que lhe responde?...
* Choro; fujo de ao p dele, e perco-lhe a amizade.
* No tem razo - redarguiu o frade com um severo artifcio, porque reprovava o
casamento arranjado com perspectivas de fidalguia e corte, e reprovava tambm que
Antnia por tal motivo desamasse seu tio. - No tem razo para perder a amizade que
deve a um segundo pai, ainda que ele forme da felicidade ideia raras vezes exacta,
cuidando que a fidalguia e a corte do as alegrias honestas e moderadas, nicas ainda.126
compatveis com os costumes. do nosso tempo. Seu tio, quando houver de a casar, no
h-de obrig-la a ver pelos olhos e a sentir pelo corao dele. Arranjar marido,  um
modo de falar. Quer dizer que h-de promover o seu casamento, Antoninha, admitindo a
sua casa pessoas dignas; e eu tambm me inclino a crer que as mais dignas sero as que
por serem de origem nobre houverem recebido melhor educao. A classe mecnica tem
honrada gente; mas Antoninha, na convivncia das senhoras de Odivelas, ganhou uns
costumes e gostos que sem violncia no podem quadrar com o viver da gente mdia.
Alm disso, a sua educao formou-lhe de certo modo o esprito; e o seu grande
patrimnio d-lhe direito a no procurar a felicidade nos bens da fortuna do marido.
* Mas eu no posso ficar solteira? - replicou Antnia com a simplicidade do corao de quinze anos - Diga ao tio que me deixe assim ficar...
* E, se seu tio morrer?... - atalhou com dbil argumento o frade.
* Se meu tio morrer, ficarei solteira na minha casa. Todos me dizem que sou
rica... Ento quem  rica por fora h-de casar-se?! Isso  quererem que eu deseje ser
pobre, para me deixarem em paz... Mas se eu fosse pobre haviam de querer casar-me
ento com algum homem rico... Enfim...
O frade sorriu ao dilema da discpula, e no lho refutou porque respeitava a
lgica, e odiava o sofisma.
E, conversando pouco depois com o doutor Francisco Xavier, repetia-lhe a
argumentao de Antnia, e dizia-lhe:
* Deixe-a estar solteira.
*  espera do prussiano?
* No se fala do prussiano...
E referiu-lhe o contexto da carta, asseverando-lhe que no havia que recear do
estrangeiro.
O padre exultou; mas energicamente impugnou que Antnia professasse, ou
sequer entrasse em mosteiro como secular.
* Os conventos - exclamava ele - so acadmias de corrupo. So prostbulos!
Fr. Andr Guilherme, quando ensinava minha sobrinha, quis obstar que ela fosse a
Odivelas com sua tia; recorde-se...
* Sim, senhor.
* E ento? porque era?
* Porque aos parlatrios dos mosteiros concorrem brilhantes vadios e libertinos
que empestam O ar daquelas casas, Eu no quis insultar as religiosas que ali vestiram
foradas o hbito com a condio de o mancharem e rasgarem quando quisessem, em
despique da violncia que lhes fizeram. Sei que muitas para ali entraram inocentes e
lavadas em lgrimas; porm, como a mortificao no lhes estava no seu natural,
enxugaram as lgrimas, e arrancaram da fronte as duas coroas de virgindade e de
martrio. Elas, qualquer que seja o seu desastre, so sempre desgraadas com direito 
desculpa; mas quem no deve esperar perdo de Deus so os homens que lhes levam os
engodos da perdio... e...
* Cale-se, Frei Andr! - bradou o antigo amante de Catarina estendendo o brao
at lhe tocar os lbios.
Neste lance, o frade trino retraiu a sagrada clera, e compadeceu-se do homem
que vituperara de academia de corrupo e prostbulo o mosteiro que lhe dera uma
mulher imaculada, e lha recebera dilacerada de oprbrios..127
XXXII
Dois dias passados, Fr. Andr recolheu  nau aprestada para a Barberia. Durante a
hospedagem do virtuoso frade, o mdico no foi a Camarate, porque, dizia ele depois ao
seu fascinado amigo Xavier:
* Rompe-se-me o fgado em borbotes de blis quando encaro aquele frade! No
est no poder da minha vontade refrear este dio secreto, dio de instinto, no sei como
lhe chame...
* Pois  injusto... - defendeu o padre - quero dizer... No acrescentou o que
queria dizer. Ocorreu-lhe subitamente que o frade, rogando-lhe que no casasse a
sobrinha com o mdico, pagava com dio igual a Eliot. Esta recproca repugnncia entre
os dois, que apenas se haviam encontrado raras vezes sem se falarem, dava que cismar
ao padre. Sondou 110 nimo do seu mdico a razo natural de tamanha averso, mas o
francs no a podia dar, seno com estas vagas palavras:
*  o dio que a natureza no explica entre certos animais.
Discorrendo por diversos assuntos, vieram s atoardas que corriam em Lisboa, a
respeito dos novos amores de D. Joo V com a rival temida de soror Paula. Dizia-se que
a freira estava completamente acalcanhada e desgraciada. Constava que ela, afrontada
pela ingratido do monarca e pelas risadas insultantes das religiosas suas inimigas, ia
sair do mosteiro, e passar-se  ilha do Faial, onde tinha parentes e grandes haveres
comprados em nome de uma sua aia com os dinheiros do seu liberalssimo amante, etc.
Atalhou o padre o relatrio dos escndalos, dizendo que era prudncia desprezar
os boatos forjados  tarde no Rossio ou nos ptios das comdias pela maledicncia dos
faceiras ociosos; e, ao intento, acrescentou como prova da falsidade das baleias:
* Pois no me disse Fr. Andr Guilherme que em Lisboa toda a gente repete que o
doutor Eliot vai casar com a minha sobrinha?
* Logo vi que essa nova devia trazer-lha o frade... - disse o mdico, mais risonho
que torvado.
* O frade repetiu o que ouviu - replicou Xavier - no creio que ele inventasse a mentira...
* Mas a que propsito se saiu ele com a novidade?
* A que propsito? no me recordo... - respondeu o padre deslizando da verdade
por delicadeza com o seu amigo
O que eu quero fazer notar ao doutor  que em Lisboa se maquina muita calnia.
J aquele famoso sbio D. Francisco Manuel de Melo disse: "Lisboa  muito grande, 
mata espessa, onde se criam monstros de disforme malcia". 45 Porventura, o doutor, ou
eu ou minha sobrinha demos ocasio a que se inventasse tal casamento? E, de mais a
mais, quando  pblico e notrio o seu galanteio  Leonor Caldeiro, por amor da qual o
doutor declarou sua manceba a francesa que por a andou considerada como sua
mulher!... Mau foi, meu amigo, deixar correr essa falsa conjectura... - desculpe-me
arguir-lho. Melhor seria declarar a verdade quando a trouxe de Frana...
* Fui sincero com o meu amigo, e com poucas mais pessoas.
* Pois sim; mas eu e essas poucas mais pessoas no representamos a sociedade.
Que far, agora vossa merc, se casar com a Caldeiro ou com outra? Como h-de
honestamente explicar o engano que fez s famlias que admitiram em sua casa a
francesa? Sou to seu amigo, que at essa estouvanice da sua vida de rapaz me tem
tirado o sono. A mim parecia-me que seria acerto mand-la para Frana, com algumas
dzias de moedas, a fim de evitar conflitos escandalosos quando o doutor Eliot houver
45 Aplogos Dialogais, pg. 237..128
de casar-se.
* No penso em me casar, sr. doutor Xavier; - afirmou o mdico solenemente -
mas penso em remediar o desatino de permitir com o meu silncio que a francesa
passasse por minha esposa. O remdio nico  afast-la de mim, e no mais dar azo a
que a sociedade me acuse por mancebias imprprias da gravidade da minha profisso.
Sacrificarei todos os meus haveres a este acto de reformao de costumes. Dar-lhe-ei
quanto possuo a esta mulher, e ficarei com a honra e com. o esforo no trabalho at me
ressarcir das prodigalidades expiatrias da minha desonestidade.
* Nem tanto ao mar, nem tanto  terra! - modificou o padre - Privar-se de tudo
que adquiriu em doze anos parece-me excesso. Esta espcie de mulheres vendem-se
caras; mas o doutor l conhece o valor dessa que pouco mais ou menos  o das outras da
mesma casta. A Lais vendia-se por cem talentos na Grcia; mas os Alcibades de hoje
em dia tm mais talentos, no amoedados, isso  verdade, mas mais apurados para pesar
na balana o que se deve a tais aventureiras...
O padre parecia envaidecer-se da sua perspicuidade quando aconselhava o
mdico, e dava-se ares jactanciosos de quem apalpara o mago das coisas e das pessoas
desprezveis. O doutor simulava ouvi-lo com a respeitosa anuncia de aluno inocente, e
trejeitava uns jeitos de arrependido, descompondo os cachos da cabeleira com gestos de
aflio e dio de si prprio.
O ex-frade das penhas do Varatojo, condodo daquelas figurarias doloridas,
lembrava-lhe que todo o homem era tributrio da loucura, e raros homens to cedo
revertiam  vereda pedregosa da honra.
* E porque no h-de o doutor casar com a galante Leonor Caldeiro, se a ama
como eu sei que h dois anos se amam? - perguntou o padre.
Isaac Eliot assoprou um suspiro longo, ps as mos na testa descada, levantou-se
de salto, e no respondeu.
* Que tem, doutor?! - tornou Francisco Xavier, inquieto.
* No est bom? Ofenderam-no as minhas palavras a respeito da francesa?
* No, meu caro amigo, no! - respondeu Isaac, sobrepondo no peito as mos em
cruz e inclinando a cabea a um lado com os olhos descados. - Quem primeiro me
condena e acusa sou eu, e quem me quis salvar a tempo deste vilipendioso remorso foi o
sr. doutor Xavier quando h dez anos me admoestou a ser cauto, a desatar-me dos laos
desta mulher que mais tarde seria estorvo  minha felicidade. Cumpriu-se a sua
profecia, sr. Xavier. O meu descrdito faz estrondo em Lisboa, desde que o pajem
Rutier estouvadamente divulgou que eu ia casar e que a francesa no era, portanto,
minha mulher. Hoje, quando eu queria as bnos e os respeitos pblicos, acho-me at
indigno da indulgncia dos meus tolerantes amigos. Agora que eu quisera ter um
corao puro como a conscincia dos santos para poder aspirar  posse de uma menina
sem mcula, vejo-me to manchado, to conspurcado na sordcia dos vcios, que no
ousarei mais levantar olhos para um rosto alumiado dos resplendores da inocncia.
O padre escutava-o maravilhado da ideia, do tom, da postura teatral do homem;
no o interrompia porque o monlogo era estudado, flua torrencialmente, e no dava
ansa a interrupes.
A julgar do intrito,  bem de entender que o francs apontava o discurso ao
intento de se declarar apaixonado por Antnia; mas, se fosse coerente na tramia, como
 de supor, acabaria por se declarar indigno dela.
O discurso, porm, foi cortado pela entrada do escudeiro, que participou estar no
ptio o pajem Henrique Rutier, procurando o amo para negcio urgente.
Eliot desceu ao terreiro, onde o pajem o esperava com o cavalo  rdea e
espumejante de suor. Conversaram em francs por alguns minutos alvoroadamente. O.129
mdico mandou ao seu lacaio negro que embridasse os cavalos, subiu  antecmara do
padre, inventou o estado perigoso de um doente importante, e galopou para Lisboa 
espora fita.
Esperava-o j, no ptio de sua casa o boticrio Jcome Valebelt.
* Suba, sr. Jcome - disse o doutor; e, quando galgavam rapidamente as escadas,
perguntou:
* Est c o homem, eim?
* Em pessoa.
* Deixe-o estar: ns c estamos tambm.
Entraram na sala. Eliot estirou-se sobre uma preguiceira almofadada, arrojou as
esporas, o espadim e o chicote, enxugou as camarinhas do suor, e disse assoprando:
* Diabo!... estou cansado!... Custava-me menos fazer uma anatomia de florete na
arca torcica do seu patrcio que dar esta estafa ao meu corpo e aos meus cavalos. Ento
que diz l o poeta?
* O sr. doutor leva isto de vtor-feio; mas eu agouro desgraas...
* Algum desafio? est bem aviada a Prssia. - E riu-se s gargalhadas, atirando
com a perna para a espalda do canap
* Conte l isso miudamente. Quando chegou ele?
* Esta manh. Eram onze horas no relgio das Chagas, e estava eu ao balco,
quando vejo entrar o Frisei com uma cara de defunto, e a vista derramada como a dos
doidos...
* Feio espectculo!... o sr. Jcome sentiu despegar-se-lhe a espinhela, eim?
* Confesso que os joelhos me jogaram um com o outro. A conscincia...
* Faz jogar os joelhos?
* E a penria faz jogar a honra - acrescentou Jcome. - A cara do infeliz moo era o espelho do meu crime... Fez-me compaixo, palavra!
* Vamos  histria, e no fim cantar os seus salmos penitenciais. Que lhe disse ele?
* Perguntou-me se D. Antnia Xavier j tinha casado. Respondi que no me
constava; mas que por a se dizia que brevemente casava. Perguntou-me com quem.
Disse-lhe o nome do sr. doutor. Ele pediu-me um golo de gua, bebeu-a sentado, e
perdeu a cor. Pensei que desmaiava. Ia-lhe chegar um vidro de sais, quando ele repeliu o
vidro. Depois levou as mos as faces, baixou a cabea, e chorou com tamanhas nsias
que me afligiam. Fiz-me de novas... que remdio! Perguntei-lhe que razes se deram
para acabarem assim uns amores to propiciamente comeados. - Eu no dei nenhumas
* respondeu ele; e mostrou-me a ltima carta que recebera de D. Antnia, quero dizer, a
carta escrita pelo seu criado. O patife tem engenho! Comparei-a com outra que o Frisch
me mostrou, a ltima em que a menina lhe dizia as mais derretidas ternuras. Falsificao
mais perfeita s o pulso do diabo seria capaz de a fazer! O pobre rapaz, mostrando-mas
ambas, uma ao lado da outra, dizia-me: - Como  possvel que dentro em quinze dias
esta cruel mulher escrevesse estas duas cartas! - Eu encolhia os ombros, e dizia:
"mulheres, mulheres!"
* Quero v-la, casada, ou solteira! - exclamou ele, afogado pelas lgrimas - quero
ver com que rosto ela me encara...
* Mau! - interrompeu Eliot exagitado.
* Mau? pssimo! ento j no se ri, sr. doutor? Eu no lhe disse ainda agora que
futurava desgraas? Se ele chega a v-la, se derem explicaes, se se descobre a traio!
Que ser do senhor e de mim? Que escndalo, que vergonha e que infmia!
* Deixe-me pensar! - bradou o francs - no me aturda com as suas exclamaes.
* Eu no o quero aturdir, doutor; mas sinto dizer-lhe que no me acho em bons.130
lenis. Somos trs os perdidos; mas o mais execrvel dos trs sou eu, se isto vem a
descobrir-se. Mandei-o chamar a toda a pressa, para ver como vossa merc. se tira e me
tira deste aperto; que eu, se lhe no vir sada...
* Que faz.... Vai confessar a sua infmia para que lha perdoem? - interrompeu Eliot colrico.
* Ora essa! Ainda mais ouvirei!... O senhor tem coisas...
* Ento que quer dizer?
* Quero dizer que, se vossa merc no remedeia isto, vou fugir de Lisboa, e fugir
do reino; em primeiro lugar, porque atraioei um homem que fiava de mim as suas
cartas e as da sua noiva; em segundo lugar, porque eu participei da falsificao do seu
pajem entregando as cartas verdadeiras; em terceiro lugar, porque fui eu quem mandou
entregar uma das falsas a D. Antnia, e enviei a outra ao meu patrcio; em quarto
lugar...
* Porque voc recebeu quatrocentos mil ris pela traio...
* Isso  desgraadamente verdade...
* E inventou umas mixrdias que eu lhe aprovei...
* Ningum mas compra, sr. doutor, desde que os crditos de vossa merc
perderam a aura pblica... e, a falar-lhe verdade, estou quase to pobre como era...
* E quer que eu o enriquea, no  verdade? - atalhou Eliot rolando de esguelha
os olhos coruscantes de raiva.
* No, senhor, no quero que me enriquea...
* Que quer ento? despache!
* Que me salve destes apuros, pois no percebe? Ora faa de conta que Josse Frisch descobre onde est a rapariga...
* Voc disse-lho?...
* Se eu fosse tolo!... mas cuida o doutor que ele j no o sabe a esta hora? Faa de
conta, digo eu, que ele vai  quinta. O padre  coxo e est em casa. A pequena anda pela
quinta. Eis que o v. Caminham um para o outro... Sim, isto so favas contadas.
Queixam-se ambos ao mesmo tempo. Mostram as cartas, descobre-se a falsidade delas.
O Frisch vem ter-se comigo, e...
* Quebra-lhe a cara...
* Esse pouco! mas o caso no fica a. Eu sou levado ao corregedor para declarar
quem falsificou as letras...
* E voc, est claro, diz quem as falsificou...
* O que eu no quero  chegar a esses extremos, sr. doutor. Se vossa merc fareja
remdio a isto, quero dizer, se est, na sua astcia, modo de fazer que eles nunca mais
se encontrem, bem vamos; mas, se v que artes e manhas no Podem valer-nos, ento, o
melhor  eu pr-me ao largo quanto elites; porque, no aparecendo eu, est vossa merc
mais seguro de no ser incomodado por causa da falsificao.
* Quer dinheiro, j o percebi...
Jcome deu aos ombros, alongou os beios e esbugalhou os olhos - expresso
feia, mas eloquente da necessidade que o forava  segunda cobrana.
Neste lance, Isaac Eliot viu por entre as cortinas de uma alcova a cara de Henrique
Rutier que lhe fazia um gesto afirmativo.
O amo, pestanejando duas vezes, inculcou ao pajem que ficava inteirado.
* Diga o dinheiro que quer - tornou Eliot ao boticrio -, mas pea pouco, porque
eu no tenho muito.
* D-me vossa merc o que entender, pesando na sua conscincia duas
ponderosas consideraes: primeira, que a minha ausncia fecha as portas s indagaes
da justia no caso desgraadssimo de se instaurar devassa por crime de falsificao;.131
segunda, que eu, se no fosse homem de bem, podia ocultar que chegou Josse Frisch, e
deix-lo ir deslindar o enredo com D. Antnia, ou, como vossa merc disse h pouco,
contar-lhe as razes que me arrastaram ao crime, e merecer-lhe o perdo, remediando o
mal em que tive cumplicidade.
* Quer ento o sr. Jcome que eu pese na minha conscincia essas duas consideraes?...
* Sim... dizia eu... que...
* J sei o que disse... No me repita.
Se o boticrio fosse menos parvo que velhaco, o tom das ltimas perguntas de
Eliot gelar-lhe-ia o sangue nas veias; e, se ele tivesse visto a cara sinistra do forado de
Toulon por entre as cortinas interiores das vidraas,  de crer que espiasse o ensejo
favorvel de escapulir-se.
* Pesei na minha conscincia as duas consideraes ponderosas - disse, volvidos
poucos segundos, o filho da agarena, sentando-se um tanto orientalmente nos
almadraques de uma otomana - Pela primeira - isto , pelo favor de se ir embora do
reino, fechando a brecha s indagaes do corregedor - recebe o sr. Jcome cem mil
reis. Acha pouco?
* J disse a vossa merc que pesasse na sua conscincia...
* Mas que lhe parece o fiel da balana? acha que o prato da tal "considerao"
desce, e o dos cem mil reis sobe? Veja l...
* Est a mangar o doutor! - observou o boticrio meio risonho, e meio agastado -
O caso merece mais circunspeco do que vossa merc cuida...
* Bem sei. Mestre Jcome quer lembrar-me que a segunda "considerao
ponderosa" sobe muito de valor; porquanto. est no seu alvedrio desfazer o que fez,
salvar-se da cumplicidade pela denncia, e atirar-me a mim e ao meu pajem ali para o
Limoeiro.
* No digo tanto... nem pensei tal maroteira...
* As maroteiras so como os tremoos: quem come um come um cento. Se voc
fez a primeira,  regularmente lgico que faa dez a fio. Mas diga-me c: eu convidei-o
 feia aco de entregar as cartas que lhe eram confiadas? No foi voc quem mas
vendeu por proposta sua?...
* Essas perguntas que fazem  questo...?
* Fazem que eu, se entrasse em juzo, diria que o infame fundamental neste
criminoso enredo foi o amigo de Frisch que me ofereceu a venda das cartas por
quatrocentos mil reis...
* Mas eu no sabia que o intento do sr. doutor era falsificar a letra delas...
* No obstante, aceitou a mensagem de as mandar falsificadas ao seu destino,
estipulando a clusula de que eu lhe aprovaria uns rebuados para obstrues de bofe, e
um unguento para impigens de humor frio...
* Homem! - interrompeu o boticrio estomagado - Est a com umas ironias que
me fazem subir a mostarda ao nariz! Se no quer pagar a minha sada de Portugal, ou,
por outra, se no quer pagar o meu silncio, fique-se muito embora, que eu farei o que
me parecer.
* No se zangue, mestre Jcome - volveu com sarcstica brandura o mdico -
Estava eu a pesar a segunda "considerao" que  a do silncio, como voc acaba de
dizer. Essa do silncio requer mais dourada mordaa... Veja l: duzentos mil reis? com
cem so trezentos; com quatrocentos que recebeu, so setecentos. E os rebuados? e o
unguento? Onde ir isto montar? Sente-se, e espere um pouquinho que eu vou buscar o
dinheiro.
E saiu da sala a um corredor, e entrou em uma porta lateral correspondente .132
alcova por onde Rutier espreitava e ouvia todo o dilogo.
Entre Eliot e o pajem trocaram-se poucas palavras.
Rutier passou da alcova  parte mais interior da casa. Desceu ao ptio onde dois
negros davam ferro  pelagem dos cavalos empastada de suor, e disse-lhes que os
cavalgassem e passeassem a passo, porque pareciam resfriados; depois, mandou o preto
cozinheiro  praa da Ribeira comprar uma ave que seu amo apetecera. Tudo isto se
operou to rapidamente que o boticrio no reparou na demora.
Na ausncia dos trs criados, Rutier fechou a porta da rua sem estrondo. Depois
subiu de mansinho a escada que dava para a sala, e assomou  porta quando Jcome, de
p, e prximo da porta, soletrava a legenda francesa de um painel pendurado na parede.
 apario silenciosa e sbita do pajem, o boticrio estremeceu e balbuciou:
* Ol, sor Henrique! voc meteu-me medo!... No lhe ouvi os ps.
Proferida a ltima palavra, foi traspassado por uni espadim do peito s costas, e
estirou-se sobre o dorso resfolgando uns rugidos surdos, que o assassino fez calar
repetindo as estocadas na garganta e ventre.
Eliot assistiu  breve agonia da Jcome; e, palpando-lhe o peito, asseverou, como
perito, que estava morto.
* Este homem vinha a perder-nos! - disse Eliot justificando o homicdio  sua conscincia inquieta.
* Depois filosofaremos sobre as vantagens de o matar -observou o prtico Rutier
* Ajude-me a tir-lo daqui antes que o sangue encharque na alcatifa e antes que os
escravos cheguem.
Pegaram do cadver ensopando-lhe nos golfos de sangue algumas toalhas.
Levaram-no da sala para um quarto ao rs da rua, e estenderam-no sobre uma grande
banca tapizada de lona encerada. Depois, fecharam a porta, e abriram as que estavam
fechadas.
Na tarde desse dia, Isaac Eliot, professor de anatomia no hospital real, ordenou ao
mordomo que mandasse a sua casa um determinado cadver para autpsia. No era a
primeira vez que o professor era louvado por semelhante solicitude no seu magistrio.
O cadver conduzido do hospital de Todos os Santos foi levado ao mesmo
anfiteatro, onde o outro fora depositado. Durante a noite, Eliot e o pajem espostejaram
ambos os mortos. Ao romper da aurora, o esquife do hospital recebeu os membros
desarticulados e golpeados dos dois cadveres. Os chamados "homens da tumba" no
indagaram se o doutor pedira um, se dois defuntos da enfermaria. Tomaram o esquife
repleto de carne espatifada, e, antes que o sol apontasse, j a p do coveiro recalcara a
ltima camada de terra no campo em que a Misericrdia, fora de portas, enterrava os
que morriam nos hospitais..133
XXXIII
* Deu-me cuidado a sua falta ontem, doutor! - dizia o padre Francisco ao seu
mdico - O meu amigo, de mais a mais, saiu daqui incomodado com aquela palestra de
moral que eu, pessoa to incompetente, quis fazer-lhe. As suas ltimas palavras, duras e
cruis consigo mesmo, estranhei-as, e, a bem dizer, pareceram-me desarrazoadas. O
doutor Eliot, se no tem na sua vida mais vcios dos que lhe conheo, pode afoitamente
dar-se como exemplo de honestidade  juventude relaxada da corte. Essa rapazice da
concubina francesa, a no se dar a irreflexo de vir com ela  praa, seria caso para
jactncia e no para desdouro. E assim mesmo, doutor, visto que o amigo a estabeleceu
em casa apartada, deixe correr seis meses, que tudo estar esquecido e perdoado,
mormente em estoirando algum outro escndalo; e, se Deus quiser, os escndalos ho-de
estoirar s dzias, enquanto o rei, o infante D. Francisco e os prceres da corte no
acamarem de corrodos, ou a podraga lhes no algemar os ps.  verdade, o seu doente
melhorou?
* Qual doente?
* Pois no me disse antes de ontem que o seu pajem o chamava a toda a pressa?
* Ah! sim... era o conde de Tarouca, atacado de asma... Est melhor.
* Pois eu passei uma cruel noite com as minhas palpitaes... No pude
adormecer deitado, e s de manhzinha. consegui passar pelo sono aqui nesta poltrona.
Foi Deus que o trouxe, porque estou sozinho. Antnia foi esta manh para Odivelas...
* Tem a certeza disso? - atalhou precipitadamente Eliot.
* Se tenho a certeza disso? que pergunta essa, doutor! Aqui est um bilhete de
soror Paula Perestrelo, pedindo-me que deixasse ir a menina passar trs dias com as
suas amigas... Que tem? esse seu semblante incute-me desconfiana!
* Sr. doutor Xavier - disse o mdico pausadamente -Vossa merc tem a certeza
de que soror Paula e soror Catarina aconselham honestamente sua sobrinha?
* Tenho a certeza que moralmente posso ter... Porqu? - A ansiedade do padre
crescia  proporo que o mdico exercitava uma calculada serenidade - Porqu? -
instou Xavier.
* Sabe se essas senhoras aplaudiram ou favoreceram o galanteio da sr D. Antnia
com o alemo Frisch?
* Nada sei; mas que temos ns com essa j esquecida puerilidade?
* Esquecida?!
* Sim... O padre Fr. Andr Guilherme deu-me a sua palavra de que era tudo acabado.
* Mentiu-lhe o frade.
* Mentiu? No posso cr-lo, doutor. Juro-lhe que Fr. Andr Guilherme  incapaz
de mentir.
* Ento, sou eu o caluniador...
* Pode estar enganado, e seduzido pela averso que tem ao frade.
* O meu dever  desmenti-lo... - redarguiu Isaac Eliot - porm, doutor, antes das
provas, oua-me, e perdoe-me j de antemo, porque eu sei que as feridas da minha
alma, em vez de o apiedarem, vo irrit-lo contra mim. Principiarei pelo mais
repugnante da minha confidncia, para que mais tarde a coragem me no falte. Eu amo
sua sobrinha, amo - seja verdadeira em tudo a minha linguagem - amo sua filha, h trs
anos. Nunca houve paixo mais recalcada no peito, nunca homem algum fez maior
esforo por afogar nas obscuras lgrimas os embries de um amor fatal como o
impossvel, e pesado e angustioso como o grilho dos forados por toda a vida. Nunca.134
ousei dizer-lhe meu nobre amigo, que amava sua filha; nunca ousei dizer-lhe a ela mais
que umas tmidas e indefinidas palavras recebidas com a indiferena da inocncia ou do
desprezo. A minha tortura silenciosa era tanto maior quanto eu sabia que a sr D.
Antnia amava outro homem; e que, apesar das aparncias, a correspondncia entre
Lisboa e Berlim continuava todos os correios. Como deixaria eu de suspeitar e espiar
esta correspondncia, se eu, amando to cegamente sua filha, esqueci os deveres de
cavalheiro, e fiz-me espio do meu prprio martrio, no para me queixar, mas para me
flagelar? Porventura, denunciei - a eu, sr. Francisco Xavier? No. Apenas, h pouco
tempo, deixei-lhe suspeitar que os dois namorados se carteavam; e, quando vossa merc
desabridamente exigiu as provas, eu, refreando a vaidade e a paixo, respondi que no
as tinha...
* E tem-nas ? - interrompeu o padre grandemente exaltado.
* L vou, doutor. No lhe mostrei ento as provas, e j. as tinha. Se eu sou
incapaz de caluniar os meus inimigos, como. havia de caluniar a mulher adorada, amada
como esposa, como irm, como filha, como criatura que se acendrara na frgua ardente
da minha alma! No mostrei as provas, porque era honra minha apresent-las somente
na ltima hora do perigo, quando entre o perd-la para sempre e perder um amigo como
o sr. doutor Xavier me restasse o recurso supremo de os salvar a ambos, embora ficasse
eu detestado dela para sempre. Eu esperava essa hora, e desgraadamente...
* Diga!... - exclamou o padre arquejante.
* A hora chegou. Josse Frisch est em Lisboa...
* Em Lisboa! que me diz?!
* Se no estiver em Odivelas a esta hora... Por isso eu lhe perguntei se as duas
freiras protegeriam o galanteio de sua filha.
* Eu vou mandar chamar Antnia a Odivelas! - bradou Francisco Xavier, erguendo-se da poltrona com dolorosos esforos.
* Espere! - contrariou Eliot - Nada de imprudncias inteis. A crise no urge tamanha precipitao. Se Frisch vem raptar sua filha, como presumo...
* Raptar minha filha!...
* Sim, se a vem raptar, no teve ainda tempo bastante para preparar a empresa..
* Mas eu vou j escrever ao corregedor, aos ministros de el-rei e ao prprio D.
Joo V...
* Espere, doutor. No escreva a ningum. Conhece as leis portuguesas. Se o
meirinho eclesistico aqui mandar buscar sua filha, o remdio  entregar-lha para
depsito. Confie-se em mim. Vossa merc zela-a como pai, e eu, deixe-me dizer -
tenho-a aqui no corao despedaado, e sinto que para mim o final desta tragdia h-de
ser a morte; mas hei-de morrer lutando enquanto o pai de Antnia me no disser: "Dou
a minha filha a Frisch". Diga-mo j, que eu ajoelharei aos seus ps renunciando para
sempre  mo de sua filha...
* Nunca! nunca darei minha filha a tal biltre!... Jesus! parece que a morte me estrangula... mas... como sabe que ele a vem raptar?...  Eliot tirou de uma carteira duas cartas. Abriu a primeira, e ofereceu-a ao padre.
*  a letra de Antnia - disse Xavier.
E leu sofregamente.
Nesta carta havia os seguintes perodos:
Bem me custa dar o passo da fuga; queria no dar esse desgosto a meu tio que
est doente e acabado; mas, se no h outro meio de nos unirmos, cumpra-se o destino,
meu querido Josse .............. .............. .............. .............. .............. .............. ..................
Vivo muito aborrecida, muito saudosa e desgraada. Desde que meu. tio me fala.135
em casamento, volto a sentir por ele a repugnncia que lhe tinha em pequena. A morte
de meu pai foi uma calamidade enorme. Tenho tutor; mas nem sequer o conheo; estou
sujeita a este padre que tem impertinncias insofrveis. Se me aceitassem em Odivelas,
eu. iria parra l at que tu voltasses a Lisboa... Vem depressa, meu amado, vem depressa
resgatar-me deste cativeiro... Se te demoras, receio que me encontres morta...
* Esta carta  escrita por Antnia! por ela! por minha filha, que eu adorava! 
ingrata!  perdida! - exclamava o padre a gritos desentoados lavado em lgrimas, com a
mo direita apertada ao corao.
* Coragem, doutor! - acudiu Isaac Eliot - Chore porque a razo das lgrimas 
sagrada: mas no desanime, no se tema de que lhe roubem a filha, enquanto o meu
brao ou o meu cadver puder ser um baluarte contra o ladro. Agora, aqui tem uma
carta de Josse Frisch para sua filha.
O padre no a pde ler de cego pelas lgrimas.
Leu Isaac a parte mais positiva e menos lrica da carta. Dizia assim:
Obtive que a Academia me envie a estudar o reino vegetal na Pennsula. Aceitei a
comisso como pretexto pura que meu honrado pai no desconfie dos meus intentos.
Quem a me chama s tu, minha adorada Antnia, meu primeiro e ltimo amor. No me
chama tua riqueza, e hei-de justificar-me aos teus olhos e aos do mundo trazendo-te,
meu querido tesouro, para a minha ptria, e levando-te aos ps do sacerdote enfeitada
com as jias de minha me. Os poetas so metidos a riso pelo seu desprendimento das
realidades que se pesam no balco das bestas que injuriam a inofensiva independncia
das almas bafejadas. pelo ar fragrante do cu...
Eliot interrompeu-se para interpor esta observao:
* Veja que tolo este! que maravalhas aqui vo, doutor! com este cascabulho de palavrrio que os tais poetas embelecam os incautos espritos das crianas!
* Leia, leia! - disse o padre impacientado com o comento.
O mdico principiava novo perodo; e, se o achava potico e intil ao ponto
essencial do rapto, passava adiante, dizendo:
* Trapalhadas - barafundas - asneiras!
Afinal topou com o derradeiro que era o mais expressivo:
A hesitao da tua ltima carta a respeito da fuga diz-me o Corao que j te no
prende, Antoninha. Confia-te a mim, que devo ser o teu mundo. Se eu sou a tua vida,
como nesta carta me dizes, as consideraes que te estorvam de fugir parece que dizem
o contrrio. Se tivesses um pai adorado ou me estremecida, infame seria eu se quisesse
deslumbrar esses santos amores. Mas eu sei que por teu tio apenas sentes amizade, e
pela senhora do convento a tua ternura, minha querida Antnia,  a necessidade que tens
de acariciar no seio do teu corao rfo aquela religiosa que te chama sua filha e te
beija com um ardor que te era desconhecido.
O mdico regougou uns sons nasais, que significavam estar lendo de fugida
perodos de frioleiras. O padre, erguendo a cabea de sobre as mos em que a descara,
disse impetuosamente:
* Tenho visto... D-me essas cartas...
* Aqui tem as cartas; mas, se me permite, pergunto o que tenciona fazer com elas....
* No sei, hei-de pensar... Primeiramente, vou mandar buscar Antnia....136
* E depois? tenciona fech-la  chave em um quarto para que o alemo a no veja!
* O alemo! - respondeu o padre fremente de clera - o alemo, se aparecer nos
arredores desta casa, h-de ser espingardeado; e ela... pois que cuida o doutor? ela, se
me resistir, se tentar fugir, amarro-a a uma argola de ferro como se faz a uma negra. A
desaforada! ousar dizer ao amante que no podia sofrer as minhas rabugices! e autoriz-lo
a dizer-lhe a ela que sente por mim apenas amizade!...
* A paixo desvaira-o, sr. doutor Xavier... - contraveio Isaac Eliot em tom de
mgoa - Sua filha no deu motivo a que vossa merc lhe chame desaforada. Esse
epteto quadra somente s mulheres impudentes. Se Antoninha o no amou, como as
filhas amam, quem teve a culpa? A culpa teve-a quem lhe ensinou a dar o mgico e
dulcssimo nome de pai a um que no o era. A palavra e no a natureza  que gera a
ternura filial. O carinho e a convivncia de quatro anos com seu irmo Paulo alhearam
de vossa merc o corao de sua filha. Apelo, em nome dela, para a sua alta sabedoria e
brilhante razo, doutor!
* Defende-a?! - retorquiu o padre. - A boas horas me vem com esses argumentos,
sr. Eliot!... Vamos ao que importa, que  evitar que Antnia fuja... O primeiro passo 
tir-la de Odivelas...
* Se ela correr perigo l, isto , se Erisch a procurar em Odivelas; mas  mais
natural que a procure aqui; e, nessa hiptese, o mais acertado  deix-la l estar os trs
dias pedidos, e os mais dias que for necessrio, at sabermos o destino do prussiano. Se
me d licena, vou hoje a Odivelas; verei as duas religiosas e Antoninha. Ao primeiro
lano de vista, lerei no ntimo de todas.
* Faa o que quiser... - condescendeu secamente o padre, quebrado por desnimo
profundo e pelas interiores angstias do corao congestionado.
O mdico tomou-lhe o pulso, e murmurou:
* No est bem isto... Se se deixar esmagar pelo ligeiro infortnio por que est passando, meu querido amigo...
* Quer dizer que morro?... - acudiu o padre aflito.
* Pode morrer...; e, se tamanha desgraa sucede, eu no verei o resto, por que vou
imediatamente para Frana, visto que perdi o meu primeiro e nico amigo; mas, depois,
a sua filha e a sua riqueza... sero de Frisch.
* Isso  atroz! - rugiu o bisneto de Maria. Isabel Traga-malhas - isso  atroz,
doutor... No quero morrer! no me deixe morrer! Salve-me segunda vez... peo-lhe
com as mos postas...
Eliot abraou-o; e, falseando a comoo, balbuciou:
* No morrer!... mas reaja, esforce-se, abra o peito a um raio de esperana...
pense na felicidade de ainda ver sua filha casada com um homem digno, um homem em
cujos braos vossa merc possa reclinar-se como est nos meus...
Francisco Xavier olhou a fito no rosto do mdico, cingiu-lhe um brao  volta do
pescoo, tirou-o para si enternecidamente, e disse:
* Quer casar com minha filha, doutor?
* Se eu pudesse chorar, responderia - tartamudeou Eliot.
*  suprflua a pergunta e a resposta... Sabe como eu adoro sua filha; mas
nenhum de ns sabe se ela me odeia. A certeza de que eu me faria amar  custa de
idolatrias e carcias,. essa tenho-a eu. Estremec-la-ia como pai, porque ela tem quinze
anos, e eu trinta e seis. Aconcheg-la-ia do meu seio em raptos de amor louco, de
paixo delirante!... Oh! sr. Xavier! se eu ainda velarei os dias ditosos da sua velhice
com os desvelos de filho!...
* Eu dou-lhe Antnia!... - repetiu o padre com entusiasmo, com alacridade,
escandecido o rosto de sbitas exaltaes, e os olhos cravados, fascinados, no semblante.137
do mdico. E prosseguiu a vozes intercaladas pelo ofegar da respirao enferma: - Se
ela o no ama, am-lo- quando o conhecer...  uma criana... Naquela idade os
coraes so de cera... O ardor de uma afeio faz delir as imagens que l deixaram as
outras... O doutor h-de saber fascin-la; ver, desde que for sua mulher, como ela o
estima... O amor vir depois...  sempre assim... Sei centenares de exemplos...
* Mas... - interrompeu Eliot.
* Que ?...
* Violent-la... impor-lhe uni marido!... E, se ela me desprezar as Lgrimas da paixo... Se se deixar morrer de inconsolvel tristeza...
* No sabe nada do corao humano... - replicou o padre
* Homem! tenha orgulho, tenha confiana em si! Veja que venceu o mais soberbo
dos pais, o homem que projectava dar a sua filha uma coroa de marquesa!... E receia
no dominar um ente fragilssimo... uma rapariga de quinze anos!...
* Pois bem! - exclamou Ellot, como sacudido por inopinado impulso - Serei o marido de sua filha! - E, ajoelhando, beijou a mo do padre..138
XXXIV
O defunto boticrio prometera a Josse Frisch indagar a residncia do padre
Francisco Xavier, e nessa fingida diligncia sara da botica, despedindo-se do patrcio,
quando foi procurar Eliot.
Voltou o prussiano trs vezes nesse dia  Cordoaria Velha.
O praticante Valebelt esperara o patro para jantar ao fim da tarde; e no dia
seguinte, e nos trs sucessivos Josse Frisch passou o mais das horas acantoado na
botica,  espera do seu conterrneo. O praticante no denotava grande estranheza do
caso. Dizia ele que o seu patro, s temporadas, ia luxuriar nas relvas de Queluz com
alguma scia escolhida na rua dos Vinagreiros ou nas encruzilhadas dos "Fiis de
Deus", e por l se quedava espojando-se em cabriolas de pararia com Baco e Vnus.
Ao quarto dia, quando o prussiano aconselhava o praticante a pedir notcias do
patro pela Gazeta de Lisboa, entrou na botica Henrique Rutier, e perguntou ao rapaz:
* Est c o sr. Jcome?
* No, senhor. Meu patro saiu h quatro dias e no voltou.
* Foi  terra? ou est fora da terra?
* No sei dizer-lhe. Ningum sabe onde ele est. Agora mesmo me dizia aquele
senhor que botasse um anncio na Gazeta.
* E lembrou bem: ou pedi-lo pela Gazeta ou respons-lo a Santo Antnio da S.
E, gracejando, reparava na pessoa indicada pelo praticante.
Reconheceu-o.
* Este senhor no  portugus - disse Rutier, cortejando Frisch com um ademo
cavalheiroso.
O prussiano, como visse um homem bem maneirado, de capa e volta, cabeleira e
espadim, correspondeu ao cumprimento erguendo-se, e respondeu:
* Sou estrangeiro.
* Logo me quis parecer - volveu Rutier em francs -A cor da sua epiderme e dos
seus cabelos afirmam que tenho a honra de falar com um vassalo de sua majestade
Frederico III da Prssia; e no seria grande penetrao conjecturar a nacionalidade do
cavalheiro, encontrando-o na botica do honrado prussiano Jcome Valebelt.
* Sou prussiano - disse laconicamente Josse Frisch.
* E eu sou francs. O sr. viaja?
* Viajo.
* Escolheu m terra. Portugal no tem que ver nem que estudar. H muitas festas
de igreja. Gosta de festas de igreja? de novenas? de lausperenes? de jubileus? Tem disso
todos os dias. Teatros aqui  coisa que ningum v e ouve sem o desejo de ser cego e
surdo. Lisboa  uma cidade velha e corrompida, mas feia como as velhas corruptas. Os
estrangeiros, que aqui aportam por engano, morreriam de fome, se no existisse a
hospedaria francesa do largo dos Remulares. Isto aqui so as runas da Mesopotmia
cheias de camelos. Esta gente  selvagem, e veste-se  francesa, porque o pas  frio. Se
nascessem na frica, andariam de tanga. O gentio baixo traja capote com que encobre o
arcabuz que aperra aos viandantes assim que anoitece. De noite  perigoso sair quando
no h lua. As ruas de Lisboa so canos de esgoto, escuras como as masmorras da Cova
da Ona. Enforca-se gente todas as semanas. Quando descansa o carrasco, trabalha a
Inquisio. Digo-lhe isto na minha lngua. Se lho dissesse na deles, este rapaz ia
denunciar-nos: eu era queimado porque falei, e o senhor era queimado porque no falou.
As mulheres so boais e canhestras. Os maridos, quando sabem que elas farejam
amante pelos raros das adufas, esganam-nas, e depois, ou fogem, ou so degolados..139
Aqui a melhor sociedade  a dos sapateiros, porque so quase todos franceses...
* Est em Portugal h muito tempo? - interrompeu Josse Frisch.
* H dez anos.
* Admira que se afizesse a to ruim terra...
* Entretenho-me a analis-la, tapando o nariz, como meu amo, o dr. Isaac Eliot
faz quando corta cadveres apodrecidos. Estou aqui por afeio ao grande mdico
francs. Nunca ouviu nome-lo?
* Ouvi.
* Talvez em Berlim? H ano e meio que aqui estiveram em Lisboa dois sbios
prussianos, Joo Frisch, e seu filho Josse. Estes sapientssimos viajantes frequentavam a
casa do dr. padre Xavier, onde o sr. Eliot concorria tambm. Talvez esses alemes
levassem a Berlim a fama do grande mdico... Pois, senhor, brevemente sairemos de
Portugal. O sr. Eliot casa um destes dias com uma das mais ricas herdeiras de Lisboa,
com a sobrinha do tal padre Xavier. Feito o casamento e liquidado o dote que monta a
400 000 francos, ou 150 000 cruzados na moeda de c, safamo-nos. Pechincha, hein? E
noiva galante, uma franga de quinze primaveras, capaz de distilar em sonetos quinze
poetas.
E cascalhou uma gargalhada.
Neste momento, Josse Frisch ergueu-se de golpe, deu um passo para Henrique
Rutier, e perguntou:
* Conhece-me?
* Se o conheo? nunca o vi!
* Se me conhece, e tem a coragem de deixar cair a mscara de infame jogral, escarrarei na cara do lacaio de Eliot.
Rutier levou a mo ao punho do espadim, e Frisch abocou-lhe uma pistola 
cabea.
O assassino do guarda das gals e do boticrio inerme enfiou, tremeu e gaguejou:
* Eu que mal lhe fiz, cavalheiro?
Frisch saiu da botica. Ia sereno, o pulso batia-lhe as pulsaes pausadas da
coragem honrada; mas as lgrimas trasbordavam-lhe do corao.
Era hspede do padre Rafael Bluteau. O professor universitrio Joo Frisch
lograva tal nome que at em Portugal ganhara admiradores. Aquele clebre teatino,
ento nonagenrio, prezava o filho do seu amigo, que conhecera em Paris, quando,
acrrimo parcial da rainha Maria de Sabia, teve de retirar-se para Frana.
Josse no revelou a Bluteau o intento secreto que o trazia a Lisboa; porm,
quando o corao lhe estalava  mngua de desafogo, depois do conflito com o
facinoroso pajem de Eliot, desvendou o mistrio das suas lgrimas ao ancio. Bluteau
quis indagar em qual das quintas vivia o padre, quis escrever-lhe e at ir pessoalmente
procur-lo.
* Mas que ir v. reverncia dizer-lhe? - perguntou o moo. - Pedir ao padre que
seja por mim contra a ingratido da sobrinha?
* Irei pedir-lhe que...
* No h que pedir, senhor! Eu no venho a Lisboa solicitar a piedade de Antnia:
venho simplesmente dizer-lhe que eu jurara por alma de minha me ser-lhe fiel. Quero
v-la rosto a rosto; mas desejo v-la j casada para que ela no cuide que eu venho
obrig-la pelos seus juramentos. Se h alguma coisa mais poderosa que a minha
desventura  a minha dignidade.
* Com to nobre esprito - obtemperou o teatino - a mais extremada dignidade, o
complemento da honra,  perdoar e esquecer.
* Perdoar, posso; esquecer, no. A religio manda-me perdoar; mas permite que a.140
saudade me atormente, depois que a ferida da afronta estiver fechada.
Bluteau, sabendo que Francisco Xavier residia na quinta de Camarate, informou o
hspede. Absteve-se de o aconselhar, porque fiava muito da prudncia do moo, e
bastante das distraces cientficas. Prometia-lhe apresent-lo na Academia dos
Annimos, na Academia dos Aplicados, na Academia latina e portuguesa, na Academia
Real da Histria, nos saraus eruditos do 4 conde da Ericeira, etc. O douto velho
imaginava que nenhuma paixo de amor, por mais de ferro que fosse, ousaria resistir
quelas diluentes academias.
No entanto Josse Frisch, avenado com um servo do convento de S. Caetano,
onde era hspede, averiguava em Camarate o dia do casamento de Antnia Xavier. O
informador peitado era o quinteiro ou feitor da quinta dos Nobres..141
XXXV
O padre Francisco Xavier escreveu ao tutor de Antnia pedindo-lhe urgentemente
a sua presena. Era o tutor magistrado austero e catlico intolerante. Chamava-se
Joaquim Rodrigues Santa Marta Soares e era desembargador. Tinha cinco filhas em
diversos conventos, sacrificando quatro  veleidade de uma que se deixara galantear de
certo oficial de marinha holandesa, que no era catlico. Com dois traos temos o perfil
do tutor de Antnia. Privou-se das cinco filhas, vivia s, tinha as pernas inchadas de
gota, ouvia ressonar a escrava preta quando ele gemia com dores, esperava morrer
desamparado e talvez sem sacramentos; mas morreria to bem disposto quanto se pode
morrer, imolando-se a si e  sua famlia, para que uma de suas filhas no casasse com
herege. Dizia ele que o seu martrio voluntrio havia de ter prmio por todos os sculos
dos sculos,
O padre comeou por expender ao desembargador Santa Marta os amores da sua
pupila com um tal Frisch, prussiano, e filho do clrigo calvinista Joo Frisch.
A palavra "calvinista" desarticulou-lhe a mandbula inferior Santa Marta abriu a
boca, e disse tudo naquele horror silencioso. Prosseguindo, exps o padre que resolvera
compelir Sua sobrinha a casar com o cavaleiro professo da ordem de fosso Senhor Jesus
Cristo, o doutor em medicina Isaac Eliot.
*  catlico? - perguntou o desembargador.
* Foi huguenote; mas abraou o catolicismo em Portugal, sem o que no poderia
professar na ordem.
* Bem sei; mas cumpre distinguir: h cavaleiros professos judeus, refinados judeus...
O filho de Jorge Mendes Nobre sentiu abalos interiores; e Santa Marta continuou:
* H cavaleiros professos moiros; h-os luteranos; h-os calvinistas; h-os que
no temem Deus nem o diabo; o manto da sagrada ordem dos cavaleiros de Cristo cobre
muito maroto, muito impostor, muito malvado que os crceres do Santo Oficio
reclamam. Saibamos se a converso desse mdico foi sincera. Mdico em Portugal raro
h um que no seja herege.
* Afiano-lhe, sr. doutor desembargador, que Isaac Eliot....
* Isaac! esse nome  moirisco! - atalhou Santa Marta Soares - Porque no se
crisma o sujeito? Esse nome fede a Mafoma... Isaac!  suspeito!... Frequenta os
sacramentos?
* Pontualmente.
* Bem. Fio-me no padre Francisco. A minha pupila  filha do meu colega Paulo
Xavier, quero-a casada cristmente; ou se no, tirem-me encargos e escrpulos de sobre
as costas. Desquitei-me de cinco filhas; mal de mim se me sobrecarrego com
responsabilidades por filhas alheias. Que mais?
* Alm da sua licena como tutor, careo da licena do prelado para que o
casamento se possa contrair na igreja de Camarate, sem a prvia leitura de proclamas.
* E os documentos do contraente? idade, baptismo, estado, etc.
* Aqui est a certido do baptismo na igreja de S. Domingos, que precedeu a profisso. A certido de solteiro apresent-la-ei quando chegar de Frana.  Responsabilizo-me. H urgncia, sr. desembargador. O calvinista est em Lisboa.
Receio que ele me rapte a sobrinha.
* Est em Lisboa?! qu?
* Sim, senhor; est em Lisboa.
* E o Santo Ofcio onde  que est? Escreva a o nome do homem e a morada. O.142
padre sabe que o calvinista est em Lisboa, e deixa-o andar s soltas?
* No me importa a religio do homem; o que eu quero  livrar minha sobrinha da
contaminao d herege.
* De acordo; mas, se ao mesmo tempo, puder arrancar a alma desse rprobo s
presas de Satans, purificando-lha no tribunal da f, o padre faz-lhe um bom servio, e
purga a sociedade de um monstro, se ele morrer incontrito e relapso, etc.
* Sr. desembargador - obviou o filho do hebreu, e o amante de Catarina de Castro
* rogo a vossa senhoria que me no aconselhe tal vingana. Estou muito enfermo, muito
prximo da sepultura; no quero,  hora da morte, ouvir gemidos. Vossa senhoria sabe
que eu sou filho do seu colega Jorge Mendes Nobre, que o Santo Ofcio atormentou.
No sei se meu pai era um extremado catlico: sei que era honrado e inofensivo. Deixe-mos
o calvinista. Deus o alumiar. Logo que minha sobrinha esteja casada, o rapaz
decerto vai para a sua ptria, e no nos empestar a nossa com as suas doutrinas. Deix-lo
ir. Conheci-lhe o pai, o sbio Joo Frisch. Foi minha visita, e era um honrado velho...
e era, sobretudo, pai. Ser-me-ia acerba a agonia da morte, se nos delrios da ltima febre
entrevisse o aspeito de Joo Frisch a acusar-me da morte de seu filho...
Raiaram-se de lgrimas os olhos do doutor Xavier.
O desembargador, quase compungido, atalhou a comoo, dizendo:
* Est bom, est bom... Que o leve o diabo ao herege para onde no faa mal. As
licenas mande-as buscar amanh a minha casa. Vou daqui  Relao eclesistica, e
tudo ficar. hoje em ordem.
No decurso dos sucessos referidos, D. Antnia Joaquina estava em Odivelas.
Finda a licena dos trs dias, soror Paula rogou ao padre nova concesso. O doutor Eliot
oferecera-se para medianeiro do pedido, e conseguira nesse acto que Antnia lhe
agradecesse a fineza com um sorriso. Facilmente percebeu o espio que a vinda de
Frisch era ainda ignorada.
Francisco Xavier consentiu; mas pedia a soror Paula que lhe enviasse sua
sobrinha, quando ele a chamasse ao seu leito de moribundo. Exagerava muito de plano a
doena em harmonia com a traa combinada; porm, o mdico suspeitava que o padre
inconscientemente dissesse a verdade, O saco aneurismtico entumecia-se, os acessos
da tosse acordavam-no em anseios de asfixia, os sintomas ameaavam-no de morte
sbita.
Obtidas as licenas do eclesistico, mandou o padre buscar instantemente a
sobrinha.
D. Catarina, desde que Eliot lhe asseverara a perigosssima leso de Francisco
Xavier, sentiu-se abrasada em nsias de lhe assistir no transe final. As feies odiosas
do singular corao daquele homem desvaneceram-se, escurentou-as um raio de luz do
passado, a saudade do gentil Xavier de dezasseis anos antes. Pedia secretamente a Paula
que lhe alcanasse licena para ir despedir-se do grande desgraado, que, se a no
tivesse encontrado, seria quela hora uni homem feliz. A desdenhada amante de D. Joo
V impedia com bons conselhos o desatinado desejo; rogava-lhe que no repusesse na
evidncia as esquecidas fragilidades da sua juventude. Catarina sucumbia envergonhada
e contrita; mas, a espaos, escandeciam-na uns frenesis que faziam recear perturbaes
profundas no seu juzo. Estes lances passavam s escondidas de Antnia Joaquina;
todavia, uns dizeres estranhos da sua querida freira, os resguardos de Paula, e uns
misteriosos olhares de Maria da Luz insinuaram-lhe desconfianas, que ela no ousava
formular, dos antigos amores de Catarina com seu tio Francisco Xavier.
Conduzida a Camarate, achou o tio no leito, e s. Nos seis dias de separao,
desfigurara-se, mirrara-se, as plpebras descadas e transparentes davam-lhe o aspecto
cadaveroso. Quando sentiu o rugir dos vestidos da sobrinha, esforara-se, e sentou-se.143
encostado ao espaldar do catre. Dir-se-ia que daqueles lbios trmulos ia irromper a
indignao, o queixume, o vituprio. No. Chorou copiosamente abraado na filha. E
ela, vertendo lgrimas que ele contemplava, arfando em delcias de se ver chorado,
beijava-a, dizia-lhe palavras quebradas por soluos.
* Vou morrer, Antnia! - disse ele, recobrado da comoo - No te quero deixar
remorsos; mas j sabes quando a minha fatal doena comeou. No chores. Escuta-me.
Queria acusar-te; no posso, tudo te perdoei; mais ainda te perdoaria, se mais me
houvesses ofendido nas tuas cartas ao estrangeiro Frisch... Bem vi que perdeste a cor,
filha. Esse pejo  o apelo da tua inexperincia para a minha razo. O que eu te no
perdoaria... era... que fugisses da tua casa com um desconhecido... que deixasses teu tio
a chorar-te a ti e  tua desonra. Entre ti e esse infame que te convidava a transpor o
limiar da tua casa por cima do cadver de teu tio, interps-se a Providncia. No irs,
filha, no irs onde vo as mulheres perdidas, aos braos de um amante, pela porta da...
prostituio. Foi a Providncia. Mentiste-me, quando me dizias que no te
correspondias com o sedutor. Mentiste quando h dias disseste a Fr. Andr Guilherme
que tudo estava acabado...
* No menti a Frei Andr! - exclamou Antnia.
* Mentiste!
* Juro que no menti! juro por alma de meu pai!
* Juras? por alma de... teu pai?... Olha o que disseste, Antnia! Olha que eu posso
provar-te que juras falso.
* No pode - insistiu Antnia com veemncia. - Eu j no tenho correspondncia
alguma com Frisch.
* D-me aquela papeleira preta!... - exclamou sobre-excitado, apontando para o
contador sobre o qual estava a papeleira.
Antnia ergueu-se trmula, ia pegar da papeleira, quando o padre bradou com a
voz rouca e desfalecida:
* No tragas! Tenho compaixo de ti... e de mim... No posso ler... nem poderia
infligir-te a tortura... de te obrigar a ler... o que escreveste de mim.
Antnia fitava-o com os olhos perplexos de terrveis dvidas.
* Senta-te... Senta-te... - volveu ele - Deixa-me descansar... No posso falar...
Espera...
Passados minutos, o padre, humedecendo os lbios e a lngua em goles de gua,
prosseguiu mais sereno e composto de semblante.
* No mentiste, Antnia?
* A Fr. Andr Guilherme, no, meu tio.
* Aceito o teu juramento por alma de teu... tio.
* De meu pai! - emendou ela - meu tio est vivo, graas a Deus.
* Vem c! - rouquejou o padre - Chega-te aqui bem perto do meu corao...
Assim... Agora, escuta, filha. Essa alma por quem juras era de teu tio Paulo... Teu pai...
 outro maior desgraado que ainda vive... sou eu.
Antnia estremeceu nos braos do pai. No vociferou o menor som, nem sequer o
ah! - interjeio convencional de todas as grandes dores, de todos os jbilos
surpreendentes e solenes assombros. Aquele silncio era uni como eclipse da razo, um
pasmo de todas as faculdades. A sbita demncia deve ser assim uma paralisia moral.
* Ouviste? percebeste, minha filha? - perguntava ele, circunvagando a vista com
receio de ser escutado.
E ela, como nos sonhos, ouvia-o sem poder apurar, dilucidar na conscincia o
valor daquelas palavras.
* No me respondes? - tornara o padre, sacudindo-a amoravelmente..144
* Respondo - balbuciou Antnia. - Eu cuidei... que meu pai... tinha morrido...
Estas palavras, que denotavam um profundo abstraimento, uma reconcentrao de
memrias e saudades, soaram dolorosamente na alma do pai. Ele esperava uma
exploso de lgrimas e carcias, quando a filha, ao sair da estupefaco, em vez de o ver
a ele, viu a sombra daquele a quem amara como pai. A sua natural resposta  invocao
do padre, como no podia ser o arrebatamento do amor filial, era a expresso do
assombro. Ela cuidava que seu pai era morto. Rejubilaria como louca se lhe dissessem:
Esse homem, a quem chamavas pai, sem o ser, no naufragou:  vivo..145
XXXVI
Chegara o mdico.
Antnia, aturdida e vacilante como se fugisse de um ambiente sufocador, passou 
ante-cmara da alcova.
Cortejou-a o mdico, e perguntou:
* Est mal seu tio? Vejo-a to perturbada, menina!
* Eu? no tenho nada... Meu tio  que est muito doente...
Eliot entrou na alcova, inferindo da perturbao de Antnia que o padre antecipara
o plano.
Ora, o projecto deplorvel era simular-se o padre em perigo de vida, colher de
sobressalto Antnia, ilaque-la na terribilidade do espectculo da morte, coarctar-lhe as
resistncias, lev-la enfim como um autmato, sem conscincia nem relutncia, a
ajoelhar-se no arco do altar-mor ao lado de Eliot.
O padre, vendo entrar o mdico, e interrog-lo com os olhos suspeitosos, franziu o
sobrolho. Era-lhe mais grata, naquela hora, a presena da filha, apesar da inerte mudez
que to desamoravelmente respondera  abrupta revelao do seu Segredo.
* Temos que conversar, doutor - comeou Francisco Xavier. - Olhe que Antnia
no mentiu a Fr. Andr Guilherme quand0 afirmou que as suas inteligncias com Josse
Frisch eram de todo acabadas A mim mo jurou ela com as mais sagradas clusulas,
agora mesmo.
* Nesse caso, as cartas que vossa merc possui seriam falsas? D. Antnia negou
que fosse sua a letra?
* No lha mostrei...
* Se assim procedeu, respeitando o pudor de sua filha, fez bem, e beijo-lhe as
mos pelo herosmo com que se houve, deixando-se dominar pelo decoro e pela
piedade.
* Andaro aqui algumas cavilaes que ns no possamos rastrear? - volveu o
padre meditativo.
* Cavilaes de que espcie? No o percebo bem, meu amigo.
* Intrigas, trapaas, enfim, patifarias de algum inimigo...
* Se bem o entendo, quer dizer que algum escreveu as duas cartas que entreguei
ao doutor...
* Como as pde o sr. Eliot haver  mo?
* Comprando-as ao medianeiro da correspondncia, como quem compra por
baixo preo, a peonha que havia de matar a honestidade de Antnia e a vida de seu pai.
Se eu no comprasse estas cartas, a esta hora sua filha no estaria aqui.
* Quem era o medianeiro?
* O boticrio prussiano Jcome, morador na Cordoaria Velha.
* Bem sei... Eu no poderia falar com esse homem?
* No, senhor. O boticrio, assim que Frisch chegou a Lisboa, fugiu para o
estrangeiro, com medo de ser descoberto e castigado pelo seu atraioado patrcio. 
mister que vossa merc saiba que Josae Frisch, que eu imaginava ser um simples
menestrel,  um valento facinoroso. H trs dias, encontrando-se na botica de Jcome
com o meu pajem Henrique Rutier, reconheceu-o como um dos meus domsticos, e, 
volta de poucas palavras, sem mais nem menos, meteu-lhe uma pistola ao rosto. O meu
pajem, fulminado pelo sobressalto, no resistiu; e, se resistisse, seria assassinado.
* E no o prenderam?! - interrogou o padre espavorido.
* Nem prendero, porque o patrocinam poderosos padrinhos..146
* Quais?
* S hoje pude colher exactas informaes. Josse Frisch est hospedado nos
aposentos do padre Rafael Bluteau. Rodeiam-no os homens de letras mais graduados.
Escuta-o e recebe-o na sua livraria o sr. conde da Ericeira. Vossa merc sabe que el-rei
manda todas as semanas saber da sade de Bluteau, e o padre, quando sai,  conduzido
ao pao pelas seges da casa real. J conhece quem protege o pactuado raptor de sua
filha. Mas - pergunto eu -tem ele preciso de a raptar? Tolo seria, se o fizesse. Fugindo
com ela, o dote ser-lhe-ia detido atravs de litgios; casando,. levaria a mulher e o
patrimnio. No nos espantemos,. pois, se de um momento para o outro, a sr D.
Antnia Xavier se despedir de ns, visto que a est esperando o meirinho do
eclesistico, que a leva a requerimento de Josse Frisch, protegido por Paula Perestrelo,
por D. Joo V,. pelo propsito de S. Caetano, por fidalgos de primeira bitola..
* No se assuste... - regougou o padre - no se assuste, que eu j no luto com
minha filha...  com as Perestrelos,  com o rei, e com os fidalgos... Que tenho eu com
esses potentados da depravao e do escndalo?... Nesta casa, o rei sou eu! D. Joo V!...
D. Joo IV, o amante desaforado de minha bisav,. fez enforcar meu bisav, que era um
marido dos que no usam pontas de ouro como Joo Loureno da Cunha. Eu tenho dio
de raa a esta famlia relaxadssima dos Braganas! Quando me no queimavam os
parentes, roubavam-mos... Minha filha teria milhes, se a riqueza dos Traga-malhas e a
dos Nobres se no escoasse parte na guerra da independncia e parte nos festins desses
canibais da Inquisio. Meu pai e meu av foram resgatados dos autos-de-f  custa de
dezenas de mil cruzados; e D. Pedro II, que no saldava as dvidas do pai a meu av
Francisco Mendes Nobre, deixava queimar um dos meus parentes, e padecer o outro as
golilhas que lhe fechavam a garganta e abriam os cofres. Veja-me esse grande devasso
que a reina! Sai de pernoitar em Odivelas, e assiste aos autos-de-f, e no se afasta da
tribuna quando as carnes dos hebreus rechinam na fogueira. 46 Sabe que mais, doutor?
No quero morrer em Portugal!... Tenho parentes na Holanda, e cabedal bastante para
me tratar desafogadamente quando a rapacidade de reis e de frades me arrebanharem
esses prdios que a tenho, e esses padres de juro que a esto nesses contadores. Horda
de ladres! viro roubar-lhe a filha? O forasteiro Bluteau, que lambia os ps  devassa
de Sabia, e alastra as desonradas cs nos estrados de D. Joo V, recolhe em sua cela o
herege, e absolve-o da infmia de raptar judicialmente uma criana!... Querem o
dinheiro? levem-no! mas deixem-me a minha filha! Ponham  frente da matilha o
prussiano. Assaltem esta casa, arrombem estas gavetas, levem tudo; mas no me
desonrem, cafres!
O padre,  proporo que bramia, saltava do leito, amparado no mdico, e
envergava o vestido com vertiginosa celeridade.
* Quero esper-los, quero ver cara a cara o tal pimpo das pistolas! - resmoneava
o padre a impar de clera e to rbido que o sangue parecia ressumar-lhe nas faces.
Antnia que l ao longe, no seu quarto, ouvira a troada indistinta daqueles
clamores, aproximou-se e entrou na antecmara do padre, no momento em que ele dizia
com o alento quase exaurido nos braos do mdico:
* Afinal...  a minha filha que me mata!  sr. Eliot! que terribilssima expiao!...
Como Deus me tem castigado com a severidade de um cruel demnio!
* No culpe sua filha, sr. Xavier - disse o doutor - Antoninha  uma criana, 
uma doce alma que a fatalidade quis envenenar... Se o Frisch a no inquietasse no
regao do anjo da inocncia, sua filha seria o blsamo do seu pobre corao ulcerado,
meu infeliz amigo!...
O subtil ouvido do mdico dera tento de Antnia na prxima saleta. Estas frases
46 Nota 14..147
que o seu bom ou mau demnio lhe inspirara, ouviu-as Antnia com admirao e
contentamento. Desconfiava do despeito recndito do mdico; e detestara-o quando ele
lhe suspirara finezas, tendo ela o corao cheio de amor de Frisch. A sua alma era j
outra para agradecer as consolaes da amizade. Figurou-se-lhe, naquele lance, Isaac
Eliot um sincero amigo sacrificado a um falso amor. As expresses afectivas do mdico,
proferidas em sua defesa e na sua ausncia, deram-lhe a reconhecer um bom carcter, e
melhor corao que o do outro que a trara com singular vilania.
O padre passou rapidamente  antecmara; Antnia j no pde fugir: titubeou, e
disse que chegara naquele instante para saber da sade do tio. Ela no usou reticncias
na escolha do grau do parentesco.  que no se lembrava j que ele fosse pai. A
revelao ficara-lhe na concha da orelha, e no filtrou ao corao.
* Ia procurar-te... - disse o padre em vozes intercadentes e picadas pelos
espasmos da respirao difcil. - J que aqui ests, ficaremos aqui. Senta-te, Antnia.
Sr. Eliot, sente-se tambm. Antnia, isto vai acabar. O teu maior amigo vai fechar os
olhos, cansados, cegos de chorar. Eu choro h muitos anos; h tantos quantos tu contas.
 tempo de ir adormecer o sono eterno na sepultura dos meus pais. Antnia, vai-se-te o
primeiro amigo; e eu quero deixar-te amparada no corao do segundo. Se queres que as
minhas derradeiras palavras sejam as de um pai extremoso que te abenoa, aceita como
esposo o sr. dr. Eliot, que te adora h trs anos, e tem por amor de ti sofrido todas as
dores ocultas dos que amam com honra.
Eliot levantou-se: ajoelhou aos ps de Antnia Xavier, e balbuciou:
* O sr. doutor Xavier disse o que os meus Lbios no ousariam proferir. Sr D.
Antnia Joaquina, se seu pai falecer - o que Deus no h-de permitir to cedo - e a
menina precisar de um amigo dedicado como pai, achar-me- sem ser minha esposa. Eu
lhe peo de joelhos, no a sua mo; peo-lhe a sua amizade.
Antnia contemplava-o... e no respondia. Era como se no o ouvisse. No espanto
da vista, ainda assim, havia luz suave; se aquela imprevista cena a angustiasse, o rosto
vibraria em contraces, e as lgrimas golfariam, quando o medo e a obedincia lhe
represassem os gritos.
Eliot esperava de joelhos a resposta. Antnia espertou da sua letargia quando o pai
lhe perguntou:
* Minha filha, ds o teu futuro, os teus haveres e o teu corao ao sr. Eliot?
* Como quiserem - respondeu ela.
O mdico beijou-lhe a mo convulsa. O padre ergueu-se com os braos abertos, e
exclamou:
* Abraa-me, querida filha! e perdoa-me as injustias que eu fiz  tua dignidade...
Agora, creio que no morrerei to cedo...
E sentou-se, quase resvalando dos braos deles, chorando, arquejando e
empalidecendo.
Eliot sondava-lhe o pulso, e dizia entre si:
* Que horrvel desastre, se a comoo lhe rompia o aneurisma nesta conjuntura!.148
XXXVII
Era uma manh nublosa e parda de Novembro de 1729. O borraceiro da noite
gotejava das varas desfolhadas do arvoredo. A revezes, um pego de norte glacial
sacudia as derradeiras folhas que esvoaavam de encontro s vidraas da casa de
Camarate. Nas assomadas dos outeiros ringiam as asas dos moinhos, e os panais,
embatidos pelo vento rijo, trapeavam como no compassado arfar da mastreao do
navio. As nuvens cor de chumbo estiravam-se na ladeira dos montes; e sobre os pauis e
regatos pairava um rolo de nvoas alvacentas. Era, pois, uma triste manh aquela que se
seguia  decidida perdio de Antnia Xavier.
O padre andava a p antes do alvorecer. Estivera at  meia noite com sua filha e
com o mdico na sala de espera onde ardiam as brasas do fogo. Eliot sara quela hora
com o pajem e o lacaio para Lisboa; Antnia entrara no seu quarto; e Francisco Xavier,
temendo as nsias que o afligiam no leito, adormecera na poltrona, acalentado pelo ar
tpido da sala..
Quando espertou, tiritava de frio. O escudeiro quis deit-lo; mas o prior e os
padrinhos do casamento tinham sido avisados Para as dez horas da manh, No se
deitou. Foi o escudeiro aquecer  cozinha o remdio de seu amo, e voltou dizendo que a
criada da menina lhe dissera que a sr D. Antnia toda a noite passeara no quarto, e ao
romper da manh sara para a quinta, apesar do frio. Esta nova entristeceu o pai. Outra,
Porm, mais perturbadora, lhe deu o escudeiro. A criada que denunciara a sada
matutina de Antnia  quinta, acrescentou que, indo ela de uma janela alta da casa ver
se a menina andava no pomar, ouvira tropear um cavalo na azinhaga que passava rente
com o muro da quinta, e avistara um cavaleiro encapotado chegar e parar defronte da
casa, e inclinar-se a conversar com algum que ela no pudera enxergar; disse mais que
o cavaleiro, desembuando-se para descer do cavalo, deixara ver o rosto, e ia jurar,
concluiu a criada, que o sujeito era o estrangeiro de quem a menina gostava; mas
declarava que sua ama, quando o cavaleiro se sumiu, vinha do lado oposto, caminhando
muito devagar, e estivera em p defronte da capela, com a cabea entre as mos, como
quem chora...
* Vai indagar! vai saber para onde foi esse homem! disse o padre ao escudeiro. E
atravessou rapidamente salas e corredores em demanda da filha, que estava no seu
quarto lendo e queimando cartas e poesias de Josse Frisch. Assim que ela o conheceu de
longe pelo bater sonoro da perna artificial, escondeu as cartas ainda no queimadas e
mais o perfumador em que faulavam as cinzas das outras.
* Ests aqui, Antnia? - perguntou ele de fora da porta.
* Sim, tio.
* Posso entrar?
Antnia abrira a porta.
* Que fumo! - notou o padre - Queimaste papis?
* Sim, senhor.
* Que papis?
* Cartas...
* Ah!... Saste j hoje  quinta?
* Sa, tio.
* Onde estiveste?
* Passeei  volta do lago...
* E no estiveste no miradouro que d para a estrada?
* Estive, sim, senhor..149
* Falaste com algum...
* Com o feitor...
* Quem era um homem que passou a cavalo?
* No vi homem nenhum a cavalo.
* Mentes!
* No minto, meu tio.
* Que foste fazer de madrugada ao miradouro?
* No dormi nada, sentia-me aflita, e sa.
Deteve-se Francisco Xavier enfitando-a com penetrante fixidez; e ela, como
cansada de sofrer, sentara-se alquebrada, desviando os olhos da face do pai com um
trejeito desabrido de enfado e tdio.
* Ests arrependida do que prometeste ontem? - volveu ele iracundo.
* No, meu tio: estou s suas ordens.
* Casas obrigada, ou livremente?
* Nem obrigada nem livre: faam de mim o que quiserem.
* No h dvida que viste o infame...
* Que infame!? - perguntou ela espantada.
E no depreendeu nada do ofegar silencioso do pai.
Retirou-se o padre. Antnia excogitava um sentido para as ltimas expresses que
ouvira, e nenhum achou.
* Estar ele para enlouquecer?! - disse ela consigo.
Neste momento a criada, que informara o escudeiro, entrara no quarto com o
propsito de lhe perguntar se vira aquele estrangeiro louro que ia  rua do Outeiro com
o pai. Se lhe faz a pergunta, a noiva de Eliot compreenderia a interrogao acerca do
cavaleiro, e as palavras abstrusas do padre, a respeito de um infame; e ento lanar-se-ia
s estradas em busca de Frisch, e salvar-se-ia. Mas Antnia, de oprimida que estava,
queria chorar sozinha; e, vendo entrar a criada, intimou-a com arremesso:
* Deixem-me!...
A criada saiu carrancuda.
Ao mesmo tempo, o escudeiro colhera as seguintes informaes: que o feitor, ao
romper da manh, viera do lado de Lisboa; que, meia hora depois, s sete, pouco mais
ou menos, chegara um homem a cavalo, e estivera momentos na estrada a conversar
com ele; que apeara, e dera o cavalo a um rapaz de alquilaria, e fora a p para o lado da
igreja.
Foi chamado o feitor  presena do doutor Xavier. No se encontrou o feitor.
s oito horas e meia apeou Isaac Eliot, com o pajem e dois lacaios pretos. O padre
ocultou-lhe as ocorrncias com receio de perturbar as coisas bem ordenadas. A seu
juzo, bem podia ser que Frisch andasse sondando o terreno; mas que mal poderia advir
da a sua filha? s onze horas estaria casada. Ainda assim, pintava-se-lhe na imaginao
inquieta, ao mais leve rumor, que Bluteau e o rei, e a freira Paula, e a jolda dos ladres
lhe arrebatavam a filha. Sentia-se desassossegado, vertiginoso, atormentadssimo na
alma e no corpo.
s dez horas chegaram  quinta dos Nobres duas senhoras extraco alde, irms
do prior. Vinham para acompanhar a noiva, cheias de vaidade da sua serventia em
matrimoniamento de to opulenta menina. Entraram  sala, onde as recebeu Eliot.
Queixou-se uma de obstruo do fgado, indicando o bao; a outra disse que era
rendida. Vieram conjuntamente o padrinho e as testemunhas do casamento: eram uns
proprietrios de Camarate, que tambm exibiram ao doutor alguma parte dos seus
achaques, e todos  uma se congratulavam pela aquisio do mdico mais nomeado da
capital..150
Entrou na sala o padre Xavier com D. Antnia, vestida de seda escura, sem
adresses de oiro ou pedras. As senhoras disseram-lhe que eram horas de ir vestir-se de
noiva.
* Estou vestida - disse ela, sorrindo.
* Vai muito bem - aplaudiu o padre Xavier - A candura e as flores vo na alma;
os enfeites da cabea e a cor branca dos vestidos so artifcios, vulgaridades tolas.
* Deixe l, que parece agouro!-disse a indicada para madrinha das npcias -
Noiva vestida de roxo escuro....
* E manto de seda preta! - encareceu a outra -  minha Linda menina! v mudar
de roupa! Ao menos ponha um vu branco...
* Supersties... - interveio Eliot.
Chegou o sacristo a dar parte que o sr. prior e mais o sr. padre Acrcio estavam 
espera para confessar os noivos, e contou que na igreja j estava muita gente da
freguesia, e muitas raparigas com abadas de rosas de inverno, rosmaninho e alecrim,
porque no havia doutras flores.
Abalaram todos, excepto o padre, que estava febril, entorpecido e oirado da
cabea. Queria ir; mas o mdico proibiu-lho.
Sentou-se ao fogo, e mandou abrir uma janela que dava sobre o espaoso ptio
por onde sara o pequeno prstito.
Dali viu ele a filha entre as duas irms do prior, desaparecer no porto; e chorou.
Neste comenos, o escudeiro entregou-lhe uma carta vinda de Lisboa. Era do padre
Rafael Bluteau.
O sbio ulico de D. Joo V expunha ao seu amigo em linguagem comovente a
histria dos amores da sua sobrinha com o filho do eminente Joo Frisch. Depois, vinha
com grande espanto e mgoa ao lano em que ela o desliga e se desliga de juramentos
sacratssimos, reciprocamente feitos. Descreve a paixo de Josse, a sua vinda a Lisboa,
e o nobre intento dessa vinda. Declara, sob sua palavra de honra, que Frisch no quer
perturbar o casamento de Antnia com Eliot; mas to somente encarar de frente a
mulher que lhe matou a juventude e enegreceu o futuro.
Seguidamente, pergunta ao padre Xavier se ele conhece bem o homem a quem vai
ligar sua infeliz sobrinha; e acrescenta:
"Eu me abstenho de repetir o que dele me consta por depoimento de seus mesmos
patrcios; porm, se vossa merc os quiser ouvir depor, a tem os nomes e residncias...
E nomeava uns franceses estabelecidos em Lisboa comercialmente.
E conclua:
"Rogo a Deus que sua sobrinha seja mais feliz que uma desditosa francesa, a
quem ele dava foros de esposa e a est em Lisboa, recorrendo  caridade dos seus
patrcios. Quando comparo, sr. Xavier, o cirurgio Eliot com o prodigioso mancebo, to
douto quanto honrado, to apaixonado quanto prudente - chego a imaginar, senhor meu,
que vossa merc  vtima de alguns filtros, e sacrifica essa pobre menina que, por
desventura sua mui grande, no tem pai, nem tutor ilustradamente religioso. Minta eu
como profeta, praza a Deus! mas no posso ter mo do meu esprito que no lhe vaticine
grandes remorsos, e remorsos insanveis, se vossa merc ps violncia ao corao dessa
mal-sorteada criatura. Padre Francisco Xavier, se ainda  tempo, arranque-a do abismo.
Se j  tarde... chore por ela como eu choro por este honesto moo de quem me escondi
para lhe escrever ..............................................................................................................".151
O padre amarrotou a carta em ambas as mos, e murmurou:
* Querem matar-me... Bem sei...  uma conjurao... Acharam impedimento na
cria eclesistica e no tutor, e vem agora tentar novo expediente... Viestes a tempo,
velhacos... Protegeis os luteranos e queimais os hebreus... Talvez o queimsseis, quando
ele se apossasse dos meus cento e cinquenta mil cruzados...
Prolongou-se o monlogo, estando o escudeiro  espera da resposta.
* Estavas a? - disse o padre.
* Espero resposta.
* Dize-lhe l de viva voz que minha sobrinha est casada com o doutor Isaac
Eliot, cirurgio-mor do real exrcito, mdico da corte, e cavaleiro professo da ordem de
Cristo. Dize-lhe isto.
Ouviu-se o toque da sineta que chamava  missa.
* A menina ainda no casou - advertiu o velho criado de Paulo Xavier. - Ainda agora  que vai o padre para o altar.
* Que queres dizer nisso tu?
* Queria dizer, meu amo, que, se vossa merc recebeu alguma ruim nova,  tempo
ainda...
* Vai-te! d-lhe a resposta que te dei!
Volveram-se-lhe trs quartos de hora horrendssimos. Desenrugou a carta, e releu-a.
Figurava-se-lhe agora o venerando Bluteau, diante dele, com as cs alvejadas por
noventa e um invernos. Vibravam-lhe aquelas palavras majestosas no ntimo da alma...
"Quem sabe?" dizia entre si. Era terrvel aquela interrogao feita  sua conscincia
hesitante.
* Meu Deus! - exclamara ele; mas a invocao era banal, era o hbito de proferir
o nome do eterno Incgnito, quando a exasperao aceitaria o patrocnio do esprito do
mal. Havia muito que a Providncia fora repulsa das suas agonias e doe seus prazeres.
Entretanto, Antnia e Eliot ajoelhavam no taburno do altar-mor para
comungarem. O povo premia-se para mais de perto ver os noivos depois da bno;
metade da igreja estava despovoada; as raparigas, com as saias escarlates e roupinhas
variegadas, esperavam no adro, empoleiradas no parapeito, para de l espargirem a
folhagem da rosa e as flores da alfazema e do rosmaninho.
Neste comenos, atravessou o adro um mancebo para quem todas olharam, e com
vagaroso passo entrou na igreja pela porta travessa.
* Quem ?!
* Que rapaz to perfeitao!
* A cara  de estrangeiro!
* Eu antes o queria que ao doutor que apanhou a fidalga.
* Aquele homem - disse uma das sabias - chegou esta manh, e entrou para casa
da tia Francisca Relvas, que  me do feitor dos Nobres...
* Eu bem no vi tambm, quando o acompanhamento entrou na igreja. Estava ele
alm na devesa do Joo do Rio, encostado quele sobro, e embuado num capote. Eu s
lhe vi os olhos e o cabelo, mas no me escapou...
As mais curiosas, que eram todas, entraram tambm de roldo no templo.
Josse Frisch estava encostado  pia da gua benta, suspensa na ombreira da porta
travessa.
Os contraentes eram abenoados no mesmo instante que Josse transps a soleira
da porta, e conservaram-se de joelhos ouvindo os bons ditames do prior acerca dos
deveres conjugais. O sacristo furou por entre a m de povo para ir repicar os sinos, e os
criados da lavoira da quinta atroavam os ecos descarregando bacamartes no adro.
* Vo com Deus, e sejam felizes! - disse finalmente o prior..152 Eliot e Antnia voltaram-se para o povo que, suspenso da beleza da noiva, no abria passagem.
Henrique Rutier passou para a frente, e disse mal encarado ao povo:
* Ento? ficaram embasbacados?
Os camponeses desviaram-se a dois lados, e os noivos desceram a par por entre as
alas.
Chegados a meio da igreja, dentre a ala esquerda saiu, com algum esforo, um dos
espectadores, e parou em frente de Antnia Xavier.
Era Josse Frisei.
O primeiro gesto de Antnia confundiu-se com o ltimo. Viu-o, reconheceu-o,
avanou um passo, retraiu-se com as mos nas fontes, abriu os lbios e os olhos
trementes, suspirou um gemido estertoroso, e resvalou sem acordo aos braos do
marido.
Josse Frisch contemplou-a um momento, fitou com o maior desprezo da vida
Isaac Eliot, e, desviando-se da clareira entre as duas filas de povo, saiu pela porta
transversa.
O prior fez conduzir a cadeira paroquial para se assentar a noiva. Eliot,
coadjuvado por trs homens robustos, ergueram nos braos a poltrona, e caminharam
para a quinta.
Os sinos cessaram de repicar. Havia alarido no adro; as mulheres choravam alto, e
algumas clamavam que a fidalga tinha morrido de repente.
O padre debruara-se na janela contgua ao fogo, quando os sinos festejaram o
casamento celebrado. Estava enxugando as lgrimas, e espancando da ideia os agouros
do padre Rafael Bluteau. Figurou-se-lhe ouvir um vozear como de pranto. Chamou o
escudeiro:
* Que ouves tu?
* Ouo chorar, meu amo.
* Vai ver o que ... corre... Os sinos j no repicam... Espera que eu vou... ajuda-me
a descer a escada.
A escada, que descia da sala de espera ao ptio, era precipitosa.
Antes de sair, assomaram no porto as criadas da casa, correndo e bradando:
* Vem morta! vem morta!
* Quem? - exclamou o padre.
* A menina! - responderam elas, dando gritos estridentes.
* A minha filha morta! Oh meu Deus! - bradou ele.
E Francisco Xavier correu quanto lhe permitia o aleijo, para O mainel que
formava um varandim no topo da ngreme escada. Entreviu ento a cadeira cercada de
gente a entrar no ptio. J ento devia ver por entre as nvoas da morte o corrimo de
ferro a que debalde quis fincar-se. A perna artificial no se dobrou quando o tronco se
acurvava em busca de amparo. Caiu rolando de degrau em degrau, e bateu com a fronte
em um dos pilares de ferro que rematavam o corrimo. E expirou fulminantemente, no
da queda que de leve o feriu; mas da ruptura do aneurisma. Foi o espectculo da filha
aparentemente morta que o afogou na onda do sangue represado.
Os trs segundos, que precederam aquele trespasse, deviam ser a sntese de
agonias incalculveis! O escudeiro afirmara que s lhe ouvira duas palavras: - Matei-a
eu!.153
XXXVIII
Eram passados oito dias. Francisco Xavier, o grande desgraado, apodrecia no
jazigo de seus pais e avs. Josse Frisch, velado em perigosa doena pelo padre teatino,
esperava restabelecer-se para voltar ao seu pas, e pedia perdo a Deus pelo crime da
sua apaixonada vingana. Catarina de Castro, avisada simultaneamente da morte da
filha e do desastrado passamento de Francisco Xavier, aps o paroxismo de poucas
horas, recaiu num espasmo de imbecilidade, perda de memria, rindo e chorando, o
idiotismo estpido, espantadio, que tem os risos meigos que nos arrancam lgrimas.
Quando chegou a Odivelas a nova de que Antnia era viva, Catarina parecia recordar-se,
e, beijando soror Paula Perestrelo, chamava-lhe a sua fihinha. A sua desventura era
tamanha que as religiosas de Odivelas, suas inimigas, j diziam compassivamente:
* Deus castigou-a, porque, por amor dela, os quadrilheiros do corregedor nos
insultaram.
E as mais descompadecidas apenas murmuravam com os olhos nos painis dos
santos:
* Foi bem feito. Agora queremos ver tambm como acaba a Paula.
* Ela cair - vaticinava outra - porque lhe faltam as muletas reais.
A caridade tinha limites - os justos limites que a religio bem entendida lhe
abalizou. Segundo as mais versadas em teologia asctica, Deus ensandecera Catarina, e
partira as reais muletas de Paula.
No entanto, Eliot e sua mulher viviam na casa da rua do Outeiro.
Concentremos aqui a nossa ateno, porque todos os outros infortnios derivados
da sua desgraa so contingncias que pouco fazem ao martrio de D. Antnia Joaquina
Xavier.
Profundo torpor, indiferena glacial, uma espcie de sonolncia marasmaram a
filha de Francisco Xavier. Encarava o marido com medo quando ele a distraa da sua
reconcentrao, dizendo-lhe palavras de contrafeita meiguice. Havia o que quer que
fosse que lhe embaraava a lngua, se pretendia justificar a paixo que o propelira a
disput-la ao rival. Como era muito infame, julgava-se dispensado de dar explicaes 
mulher, que no lias pedia. Era sua a herdeira. A parte importante da conquista vingara-se.
A menor, a vassalagem do corao, nem sequer o cime lhe exaltava os quilates. Se
a no amava, quando a solicitou de joelhos, que sentimento se havia de esperar depois
que ela desmaiou na presena de Josse Frisch?
Entretinha-se na liquidao do patrimnio. Eram duas poderosas heranas. A do
desembargador Paulo Xavier, que legalmente, no inventrio, era o pai de Antnia, e a de
seu tio Francisco, arredondavam cento e cinquenta e seis mil cruzados ou treze mil
moedas, segundo a computao de um poeta coevo de que faremos meno. Eliot, como
 de ver, no alterou a paternidade falsa da mulher. Para qu? Esclarecer o nascimento
de Antnia seria litigiar-lhe o dote. At da sepultura, o nome do legtimo pai viria
difamar a filha. Em meio de tanta corrupo, a moral conservava a mscara
carnavalesca.
Os criados do padre conservou-os Eliot, acrescentados com duas das suas criadas.
Henrique Rutier, feito o casamento, recebeu avultada gratificao. Sem despedir-se do
servio de Eliot, alugou casa, onde hospedava bizarramente os seus patrcios. Associou-se
em negcio de instrumentos musicais com um Estvo Gautier, morador na rua das
Arcas. Tinha cavalo e dois escravos. Era odiado de alguns casquilhos a quem ele
disputava com vantagem raparigaas de beleza muito apimentada. Citava-se entre as
mais scias uma Antnia do Sacramento, que h-de ter a sua lauda nesta narrativa,.154
oportunamente.
 casa da rua do Outeiro iam as Caldeiroas, excepto Leonor. Toms Darcet, o
francs, marido de D. Maria Teresa, comia e vestia-se das liberalidades de Eliot. A
esgrima e a gineta nada lhe rendiam. O patrcio adivinhava-lhe as necessidades; e, no
auge da sua magnanimidade, estabeleceu-lhe uma farta mesada. Detestava-lhe a
dependncia, achava-o carssimo para amigo; mas constitura-o tacitamente seu alcofa
ao p de Leonor. Estava no alvitre do pajem: Case com uma e merque a outra. No
obstante, a filha de Francisco Caldeiro da Veiga Cabral, a timbrosa Leonor, nunca mais
pisou as alcatifas de Isaac Eliot, nem o encarava de frente, se casualmente o encontrava.
Antnia Xavier recebia as visitas, que seu marido lhe inculcava, coagida. Cresceu
o nmero delas, todas francesas. Lisboa, desde o reinado da mulher de Pedro II, atrara
muitos artistas e mercadores, principalmente, modistas e alfaiates. Afora estes de ordem
mecnica, grassava em Lisboa uma peste de aventureiros, que se diziam gentis-homens,
vtimas da intolerncia religiosa, e queixavam-se de Roma ali s barbas cristianssimas
de S. Domingos. A Inquisio poupava-os e queimava Antnio Jos da Silva em carne e
osso, e Francisco Xavier de Oliveira, menos ardentemente, em esttua.
Antnia lera na Gazeta, vinte dias depois de casada, que a expedio redentora
dos padres da Santssima Trindade havia entrado no Tejo.. Elogiava-se a o zelo e a
piedosa indstria com que Fr. Andr Guilherme auxiliara o resgate de 224 cativos.
Dilatou-se-lhe o corao; consolaram-na as lgrimas; sentia bafejar-lhe vida a
vizinhana de uma santa alma.
No havia algum que lhe falasse de Frisch; ningum que lhe explicasse aquele
inopinado aparecimento na igreja. Mil conjecturas absurdas e cruciadoras! Que viera ali
fazer Josse, depois que a desprezara? Arrepender-se-ia da ingratido? Era o remorso ou
o amor que o arrastaram? Mas, se fora arrependimento, que lhe serviria mostrar-se 
mulher que era j de outro? Se ia acus-la, com que direito o faria, abandonando-a,
recomendando-lhe at que no lhe escrevesse mais? Esperava, talvez, que ela se
chorasse, apesar da proibio? Era-lhe menos infernal a saudade e a afronta que o
envilecer-se a pedir-lhe a esmola do seu amor.
A alguma destas interrogaes esperava Antnia que o trino Andr Guilherme
respondesse.
Contando com a fidelidade do escravo, por quem enviara as suas cartas ao defunto
Jcome, escreveu ao frade, referindo o processo do seu martrio, desde que ele se
despedira em Camarate. No o convidava a ouvi-la em sua casa, porque seu marido lhe
ordenara que desatasse as suas relaes com ele e com sua famlia. Contava-lhe a
apario de Josse. Pedia-lhe que de algum modo indagasse se ele estava em Lisboa, e
lhe restitusse a ltima carta, que recebera dele, nica de quantas possura que ainda
conservava, delida pelas lgrimas.
Frei Andr Guilherme, apenas entrou em casa de sua me, no regresso de frica,
ouviu a cadeia de infortnios que, em to breve tempo, sucederam na casa de Camarate.
A piedade, o amor fraterno impulsavam-no para a rua do Outeiro; mas o receio de piorar
o viver da sua amiga, reteve-o. Soube logo que Josse Frisch era hspede do padre
Rafael Bluteau; mas ignorava que ele houvesse aparecido na igreja; porque Isaac Eliot e
Henrique Rutier no divulgaram o nome do incgnito mancebo, cuja presena o povo
despercebeu.
Procurando o prussiano, Fr. Andr Guilherme ia cumprir um dever incluso nas
suas obrigaes de padre. Era o seu intento pedir ao mancebo que se retirasse, se por
causa de
D. Antnia Xavier viera a Lisboa; que esquecesse a pobre senhora to secamente
desenganada por uma carta que desmentia todas as outras; argui-lo de imprudente e.155
cruel pela imprudncia de se apresentar no templo de Deus quando Antnia era j
casada; enfim, todo o seu fito era insistir que sasse de Portugal, responsabilizando-o
pelo acrscimo de dores e saudades pecaminosas que sobrepusesse ao infortnio da
infeliz violentamente casada.
Fortaleceu-lhe o desgnio a carta. Respondeu  sua discpula, prometendo acudir-lhe
em todas as suas penas, quanto a religio e a amizade lhe aconselhavam. Pedia-lhe
que se houvesse com pacincia - a arma invencvel que todos os reveses prostra,
quando a meneia o brao inquebrantvel da virtude.
Ao anunciar-se no convento dos teatinos, procurando Josse Frisch, o prussiano
saiu a receb-lo  portaria. Vira-o atravs do corao de Antnia. Sabia que ele tinha
vinte e oito anos. Era uma alma nova. Compreend-lo-ia; absolv-lo-ia da tardia
crueldade que o levara  igreja, pensando que uma mulher capaz de tamanha perfdia
seria incapaz de sucumbir, como Antnia, diante da sua vtima silenciosa.
Fechados na cela do hspede, Fr. Andr Guilherme abriu assim o dilogo:
* Ainda que esta mensagem no parea de frade, como a minha misso  resgatar
cativos na Barberia, poderei, sem escrpulo, ampli-la na redeno de todos os cativos
das paixes funestas. Venho aqui a pedido de D. Antnia Xavier, casada com Isaac
Eliot, entregar a vossa merc uma carta que reprova, e torna estranhvel o aparecimento
do sr. Josse Frisei no momento em que a sr D. Antnia se retirava dos ps do sacerdote
que a ligara perpetuamente a outro homem.
* Qual carta? - atalhou Frisch, estendendo a mo arrebatadamente.
* Esta.
Abriu-a o alemo, e apenas leu a primeira linha, gritou:
* Eu no escrevi isto! esta letra no  minha!... No escrevi esta carta, sr. Frei Andr!
E, consoante descia os olhos desvairados no papel, levava a mo  testa
entumecida de sangue, expectorava uns brados roucos; e, por fim, quando j lia e no
percebia, atirou-se sobre o leito, e curvado, com o rosto nas mos, exclamou:
* Meu Deus! meu Deus! no me deixeis endoudecer!
* Pois no  sua esta carta?! - acudiu o frade. - Oh! desgraados, desgraados!
que fostes ambos vtimas de uma traio do francs!
E aquele valoroso moo, que se defrontara no templo com o celerado Rutier e
com o marido de Antnia, caiu de joelhos aos ps de Frei Andr Guilherme, e soluou:
* V, v pedir-lhe que me perdoe... se eu lhe matar o marido!...
* Jesus! - disse o frade - que atroz pensamento  esse?! Quem castiga  Deus...
Meu pobre moo, levante-se, ampare-se neste corao que lhe ofereo, para as suas
lgrimas e para as lgrimas de minha desventurada irm. Eu lhe direi tudo a ela... eu o
justificarei... Mas... - o frade fez uma pausa, esfregou a testa como quem quer rarefazer
a escuridade interior, e disse: - supondo que o sr. Frisch no escreveu esta carta, 
natural que, no recebendo cartas de Antnia, lhe escrevesse queixando-se da falta, ou
viesse a Portugal saber o motivo extraordinrio do silncio dela.
Frisch abriu a sua maleta, e, pegando em uma carta que era a primeira de um
macete, entregou-lha.
*  de Antnia? - perguntou Frei Andr.
* No  dela...  uma carta falsa como a que eu recebi... - respondeu ansiado o
moo, apoiando a fronte esvada nas mos enclavinhadas.
* Com toda a certeza  tambm falsa... - afirmou Frei Andr.
Josse ergueu a face, fitou com desespero o frade, e articulou em vozes os soluos
que o afogavam:
* Tudo perdido!... irremediavelmente perdido... J no podemos salv-la....156
* Podemos, sr. Josse... D-lhe o exemplo da resignao!...
Quedou-se momentos em muda agonia, e respondeu:
* Triste exemplo vou dar-lhe...
* Em que pensa, infeliz moo? - perguntou Frei Andr com amorvel brandura.
* Penso no suicdio...
* Eis a o covarde desafogo dos que vivem e morrem nas falsas religies! Eis a a
filosofia das trevas que reduz a alma humana  condio de um tumor maligno que se
rompe com a ponta de um ferro!... A famosa sabedoria de seu ilustre pai no lhe ensinou
mais nada acerca do destino do homem, sr. Frisch?
Josse respondera-lhe cravando nele o olhar torvo de ateu, que no pode conciliar
um supremo Criador com a imerecida desgraa da criatura..157
XXXIX
s quatro horas deste mesmo dia, a criada que Eliot levara de sua casa e
constitura acintemente aia da senhora, ou moa de almofada, como ento se dizia,
ouvindo tanger a campainha da porta da rua, saiu  janela, e viu pessoa desconhecida
que disse queria falar  sr D. Antnia.
* Quem lhe hei-de dizer que a procura?
Josse no previu a pergunta; porm, forte de carcter e aflito de mais para
improvisar subterfgios, respondeu:
* Josse Frisch.
Maria Miguel, que assim se chamava a criada, desconhecia aquele nome.
Foi ao quarto da senhora, que estava escrevendo a D. Paula Perestrelo, e deu o
recado.
Antnia levantou-se alvoroada, e murmurou como em segredo:
* O qu?! Frisch!?
* Sim, minha senhora, um rapaz loiro, e muito branco, branco de neve...
* Maria! - disse Antnia atropelando as palavras -conte com a minha gratido
eterna por um favor que lhe vou pedir... Aqui tem este anel de diamantes... dou-lho...
*  minha senhora...
* Dou-lho; mas no diga que eu falei a esse homem... abra-lhe a porta da sala...
sim?... preciso muito falar-lhe... muito...
* Ento, minha senhora, para que as outras criadas o no vejam, o melhor seria
abrir-lhe a porta do escritrio... No acha? Escusa-se de que o ouam subir as escadas
para a sala...
* Pois sim, Maria... - condescendeu a mulher de Eliot acariciando a aia - V
abrir-lhe a porta, que eu deso j...
A este tempo, Antnia ignorava ainda que Fr. Andr Guilherme houvesse falado
com o prussiano.
Maria Miguel subia lestamente, quando a ama descia to trmula e comovida que
se amparava contra a parede.
* Ele l est - disse a aia muito desempenada - Eu fico  espreita na janela...
Feche a porta por dentro  cautela. Se eu vir a sege do sr. doutor, bato trs vezes com o
taco no sobrado; mas ele no vem c antes das onze horas.
* Quem sabe? - disse Antnia.
* Sei-o eu... O Rutier disse-me, h pouco ainda, que ia hoje com o amo ao teatro
espanhol ver a Gamarro... Esteja sossegada, minha senhora.
Antnia recuou duas vezes antes de entrar no escritrio em que Josse a esperava.
Frisch pressentiu-a, e saiu ao limiar da porta. Vendo-a, retrocedeu dois passos para ela
entrar.
Ela ganhou alento; e, com os olhos enxutos e voz firme, disse
* Aqui estou, sr. Frisch... Que pode querer-me?
* Salvar a minha honra, horas antes de perder a vida. Sou acusado de lhe haver
escrito uma carta que no escrevi. A minha letra foi imitada; a minha dignidade  que
no podia ser falsificada, se D. Antnia a conhecesse. No a acuso, porque tambm
tenho de que me acusar...
* A carta que eu recebi no era sua?! - atalhou Antnia vivamente ansiada.
* Esta decerto no era.
Deu-lhe, e prosseguiu, oferecendo outra:
* E esta com certeza tambm no era da sr D. Antnia..158
A atribulada senhora abriu a segunda carta, viu a sua letra, leu as primeiras linhas,
e exclamou:
* Que  isto,  Virgem santa! Esta carta no  minha! que Deus me fulmine, se eu
a escrevi!...  Josse, pelas chagas de Cristo, por alma de nossas mes lhe juro que no
escrevi isto
* So desnecessrios juramentos, Antnia - volveu Josse. Ambas as cartas so
falsas. O homem de quem as confivamos, vendeu-nos a este que  seu marido, e fugiu
de Lisboa quando eu cheguei... Mas que importam j agora as ignomnias que nos
perderam? A nossa desgraa  irremedivel, e eu venho pedir-te que me perdoes o
insulto que te levei  igreja no momento em que aceitavas a tua coroa de mrtir! Se eu
soubesse,  infeliz, que eras como eu a vtima de to grande infmia, iria escarnecer o
teu infortnio? Eu decerto havia de te dizer que no faltei ao meu juramento; mas no
iria atirar s tuas faces cheias de lgrimas a afrontosa irriso dos meus olhos enxutos...
Perdoas-me, Antnia ?
E, ajoelhando, foi compelido a erguer-se nos braos dela, que lhe dizia palavras
cortadas por arrancos angustiosos.
* Serenidade, minha amiga! - volveu ele, sentando-a com brando esforo. -
Serenidade, que deve ser a justificao dos que se suicidam com a sua razo
imperturbada e luminosa. As minhas pobres poesias muitas vezes te disseram que eu
faria  volta da minha alma eterna escurido quando a luz do teu amor me faltasse... Eu
s compreendia o teu amor como compreendo as virtudes nas divinas criaes que esto
mais prximas de Deus. Nunca pensei em te denegrir uma s das tuas canduras de anjo.
Nunca desliguei a sagrao do amor da virtude social do casamento. Ests casada:
perdi-te; podes amar-me; perdida ests para mim e para sempre. A vida assim no a
quero:  um inferno, que eu aceitaria como expiao, se me sentisse criminoso. Tenho a
minha alma cheia de lgrimas; mas no de vcios. Se h outra vida, quem me condenar
porque fugi aos suplcios desta?
* Mas que dizes tu, Josse!? - interrompeu Antnia -Queres matar-te, porque s
infeliz? E eu?...
* Ah! tu!? hs-de ficar desatada do teu poste de martrio, Antnia! O homem, que
nos infamou aos olhos um do outro, h-de entrar as portas da eternidade alguns
momentos antes de mim! Podes tu am-lo? podes tu perdoar-lhe?
* No!...
* Tiveste j o pressentimento de poder aceitar o amor deste homem? Dize-mo
pelas tristezas que me impelem  morte... Poders ainda aceitar resignada a tua sorte?
* Tenho momentos de suave resignao, quando uma voz ntima me diz que hei-de
morrer cedo... Olha... sabes? Eu estava casada havia sete dias... era ao escurecer,
quando uma mulher desconhecida, coberta de luto, conseguiu que a levassem  sala
onde eu estava. Falou-me em francs, e pediu-me uma esmola... Depois que eu lhe dei
quanto tinha comigo, disse-me que era uma desgraada a quem o mundo chamava
esposa de Isaac Eliot; disse-me que era certo ele hav-la recebido; mas que, fazendo-se
catlico, o seu casamento no tinha valia. Depois, disse-me estas terrveis palavras
"Senhora, depois que Eliot me atirou ao abismo, de que eu fujo mendigando,  que eu
soube dos franceses que vivem em Lisboa, que ele havia assassinado duas mulheres,
uma em Constantinopla, outra em Frana. No lhe tenho dio, pobre menina, porque sei
que veio de rojo at esta situao; faz-me imensa pena v-la to nova e to rica entregue
a um malvado que uma vez me falou da filha do padre como de uma mina de que
havamos de sair todos ricos. Eu queixei-me do ultraje, e ele repulsou-me de um s
arremesso  misria de pedir socorros queles que me haviam oferecido os seus coches.
Acautele-se - disse ela com muita instncia - olhe que ele ama outra mulher, que o.159
domina sobre todas, e na hora em que essa lhe puser um p no corao, ele  capaz de a
matar, senhora D. Antnia,  capaz de a matar para casar com ela". - Foi o que ela me
disse, Josse... E eu nem me acautelo nem fugirei  morte, quando chegar a hora...
* No morrers s mos dele, Antnia - contraveio Josse Frisch.
* No o mates... que eu nada lucro com a morte dele, se me tu faltares, Josse! -
clamou ela com arrebatado carinho.
* No te suicides, que to pede aquela ditosa criana de h dois anos... D-me o
exemplo da coragem, que s homem, e tens pai, e tens-me a mim que fico sendo a tua
irm, sim, meu querido Josse? Olha... quem sabe o futuro? quem sabe se Deus castigar
este mau homem? Eu tenho no cu quem pea por mim... L est minha me, e meu pai,
e o meu desgraado... tio, que morreu de repente quando me julgou morta... No te hs-de
matar, no? Enquanto eu souber que me amas por compaixo, hei-de ter momentos
de alegria, hei-de escrever-te muito, e todos os dias. Algumas vezes virs aqui ver-me;
quando a saudade me aniquilar, chamo-te, choro e ganho foras para continuar esta vida
que tu me hs-de fazer cara. Tem esperana, meu querido amigo... Se podes estar em
Lisboa, deixa-te estar; mas tem cuidado: olha que este vilo tem um pajem que a tal
francesa me disse que era um forado das gals que falsificara firmas e matara um
homem na Frana... O teu corao que me responde, Josse? Eu j no vejo o teu rosto,
que  noite; no posso adivinhar o que se passa na tua alma... Responde-me...
Josse Frisch apertou-lhe as mos, levou-as ao corao. e murmurou:
* E, se eu te arrebatasse neste momento, Antnia!... se fugssemos...
As mos de Antnia, e toda ela, tremiam. O corpo convulsionado vacilava, e
pendia para onde as mos eram premidas sobre o arquejar do peito.
Neste instante, ouviu-se o rodar acelerado de uma sege, que parou  porta da casa.
*  ele! - exclamou ela, e fez um arremesso para fugir.
* No podes fugir de ao p de um irmo... - e aperrou uma pistola.
Era Isaac Eliot, com os seus trs amigos, Jernimo Fidi, Toms Darcet e Estvo
Gautier.
Em frente do quarto em que estava Antnia, chamado o gabinete anatmico - (ali
fora anatomizado Jcome, o boticrio) havia outro mais espaoso e ricamente decorado,
onde ainda se viam as livrarias do advogado Jorge Mendes Nobre e de seu filho o
doutor Francisco Xavier.
Era ali que Isaac Eliot recebia os doentes que o consultavam, e os seus amigos
mais particulares nas palestras devassas e nas beberagens alcolicas.
Apearam da calege, e entraram para aquela saleta os quatro franceses. O dono da
casa pediu castiais, garrafas de gua-ardente, de Champagne e Madeira. Em tempo
competente, veremos que Eliot andava reputado pelos poetas como bebedor afamado de
gua-ardente, e to convicto das virtudes medicatrizes desta poo que a receitava em
todos os achaques resistentes ao leito de jumenta.
Bamboavam-se em poltronas; e bebendo a froixo, altercavam confusamente
acerca de jogo e comediantes espanholas. Do falario estrdulo depreendeu Antnia que
seu marido, depois de grande perda, viera a casa prover-se de dinheiro para nos
intervalos dos actos encher o tempo em uma casa de tabulagem contgua ao teatro; e,
quando a hora do espectculo - que at ao ano anterior fora sempre de dia - se
aproximava, Isaac Eliot mostrou aos seus amigos um trancelim de ouro com relgio
ingls, dizendo que o levava de presente  Gamarra, e jurava tir-la ao marqus de
Gouveia e a D. Valentim da Costa de Noronha.
* Foi o relgio que me deu meu tio no dia dos meus anos... - segredou Antnia a
Josse Frisch.
E subiram-lhe as lgrimas do corao que perdoava ao pai, quele funestssimo.160
algoz da sua felicidade.
Isaac Eliot, quando entrava para a sege, perguntou ao velho escudeiro de
Francisco Xavier:
* A senhora?
* Est no seu quarto.
* Dize-lhe que pode cear, que eu venho tarde..161
XL
Frisch confidenciou ao frade trinitrio os sucessos do anterior captulo. Nem
sequer os sofreados mpetos de arrebatar Antnia escondera do austero frade.
* Se ela cedesse  tentao infernal - exprobrou Andr Guilherme - eu pediria a
Deus que me fizesse esquecer a mulher perdida. Sr. Frisch, intenta remediar a desgraa
de Antnia e a sua, com a desonra de ambos? Antnia  digna de compaixo e respeito:
o senhor, segundo entendo, quer torn-la desprezvel e odiosa. Feia aco! Abre-lhe um
abismo como evasiva. E depois? Leva para a sua terra uma concubina, no  verdade?
Seu pai e suas irms, se as tem, desprez-la-o. E o sr. Frisch, ao ver-se desprezado por
causa dela, ser um homem extraordinariamente generoso, se, por comiserao, lhe der
um frio amparo.
* Sr. Fr. Andr Guilherme - replicou Josse - a sua alma no pode entender as
paixes que nunca experimentou. A cincia no basta. Eu tenho de optar entre o meu
suicdio ou a salvao de Antnia.
* Pois suicide-se, que s dar conta de si no tribunal de Deus! - respondeu,
severizando o rosto, o inflexvel frade. E, feita uma longa pausa porque a sua angstia
lhe empecia a respirao, continuou: - A sua ida a casa de Antnia foi o mais acerbo
feito que o sr. Frisch podia cometer, querendo agravar a triste sorte desta senhora. Eu
encarregara-me de lhe escrever hoje, a dar as explicaes justificativas do seu proceder;
o senhor aceitou a minha interveno; e, apenas o deixei, praticou um arrojo que seria
simples loucura, se no fosse crime que pode surtir terrveis resultados. Que foi l fazer,
senhor? Despertar a paixo entorpecida, rasgar lceras cicatrizadas, insinuar  mulher
infeliz que fugisse  infelicidade honrada pela porta do rapto adulterino!? Ora suponha
que essa criada, que lhe abriu as portas, denuncia o procedimento de sua senhora... Se
ela descobrir que Antnia e um homem desconhecido se fecharam em uni quarto, o
marido e o mundo sero caluniadores inferindo desse acto clandestino a presuno do
crime?
* No me fale em crime, sr. Frei Andr... - atalhou Josse - eu estava ao p de uma
irm...
* As irms no suscitam mpetos de arrebat-las, sr. Frisch! Cuida vossa merc
que a sociedade e os maridos aceitam esses fortuitos parentescos com que o crime se
dissimula? O mundo tem menos poesia convencional do que os poetas se persuadem.
Medite na hiptese de que Antnia  acusada pela vil criada que j uma vez deu prova
de sua infmia. Se Eliot, que, no dizer da francesa, matou duas esposas, assassinar a
terceira, pois que tudo conspirou a inculc-la adltera, que remdio dar o sr. Frisch a
essa sobrecarga de desgraa e remorso que pe sobre a sua alma?
Frisch compenetrava-se da argumentao do frade, que foi longa, eloquente e s
vezes comovedora pelas lgrimas.
Concederam-se reciprocamente clusulas: no se repetiria a entrada do prussiano
em casa de Eliot, e cartear-se-iam cautelosamente. O frade esperava que o prolongar-se
a correspondncia iria mitigando os ardores da paixo, e intermetendo delongas e
distncias que afinal seria um quase esquecerem-se. No se arredava muito da
generalizao da verdade o trinitrio; que o esquecimento  pelo comum o desenlace de
muitos amores que descaem como foguetes apagados, logo que sobem s altssimas
regies da quimera; mas semelhantes regras falham quando as esposas, na situao de
Antnia, sentem o incessante espicaar da tortura domstica, e nenhuma voragem se
lhes prefigura mais desastrosa que a presena de um marido detestado.
A correspondncia, permitida por Frei Andr, uma vez por semana, correu.162
regularmente, mediante o escravo.
Encerrada no seu quarto, Antnia Xavier, durante o dia, uma ou duas vezes via o
marido, quando se ajuntavam  mesa. Eliot, muitos dias, ia jantar a casa de Toms
Darcet. O silncio, a tristeza e at o desalinho da esposa alojavam-no. Se ele violentava
um sorriso caricioso, ela reconhecia-lho sorrindo-lhe com igual esforo. Sentiam-se
entranhadamente inimigos; mas nunca entre si, nas curtas ironias que se trocavam,
proferiram palavra ou nome que revelasse cime. Isaac Eliot elaborava muito em
segredo um projecto, qualquer que fosse. No soltava palavra irada que pudesse tra-lo;
mas esquivava-se tambm a mostrar-lhe agrados, porque se sentia humilhado diante da
mulher.
Antnia respirava, quando ouvia rodar, afastando-se, a sege do marido. Voltava
para o seu gabinete, fechava-se, relia as cartas de Frisch e as de Frei Andr Guilherme,
cheias de santos conselhos, de invocaes  sua coragem, de exemplos de esposas que
se santificaram no seu martrio, de casos um tanto acondimentados das insulsarias de
crnicas fradescas. Uma certa filosofia que levanta a alma s nebulosidades do seu
destino, independentemente das contemplaes religiosas, estava ento nas faixas da
infncia; hoje, porm, que essa filosofia est adulta e pende  velhice, tanto monta nos
resultados, que so os mesmos. O frade falava-lhe, com grande uno, de Deus
remunerador, da bem-aventurana dos que choram; e, s vezes, para transigir com o
mundanal, admoestava-a a sair da recluso do seu quarto, a visitar as suas relaes, a
espairecer-se no campo.
Por este tempo, na primavera de 1730, Eliot deliberou passar a estao em
Camarate. Antnia contrariou-o. No podia voltar mais quela casa de horrveis
recordaes. Ali, recobrando-se do desmaio na igreja, abrira os olhos sobre o cadver do
tio. Estas razes irritaram o marido, porque lhe avultavam  fantasia aquele Josse Frisch
que tantas vezes perpassava por ele, com a cabea alta, nas ruas de Lisboa. Eliot
recalcitrou. Antnia disse pertinazmente que no ia para fora da terra. Ele estorcegou os
dedos, e, com um trejeito labial que a mulher nunca lhe vira, resmoneou:
* O que no fazem razes, f-lo- a chibata.
Ficou empedrenida. Era a primeira ameaa que ouvira na passagem dos seus
dezasseis anos. Quando as lgrimas lhe vibraram as plpebras, Antnia ergueu a fronte,
e disse com energia:
* Quero entrar num convento!
* A senhora no tem querer! - replicou ele, voltando-lhe as costas.
Passados dias, Eliot, no fim do almoo, repetiu secamente:
* Amanh vamos para Camarate.
Ela no respondeu. Alegrava-a a esperana de que Frei Andr Guilherme, rogado
com as mais instantes razes, lhe obtivesse entrada em qualquer recolhimento, onde
livremente pudesse escrever, e receber cartas de Josse.
Isaac Eliot exercia o magistrio de cirurgia no hospital real 47 . Ia quotidianamente
a Lisboa. Raras vezes pernoitava na quinta. Dava jantares estrondosos de brindes na rua
do Outeiro  colnia folgaz dos franceses, e pela noite fora improvisavam-se bailes em
que estralejavam as castanhetas das comediantes espanholas. As irms de Frei Andr
contavam ao irmo estas orgias que alvoroavam a vizinhana. O frade pedia-lhes que o
no dissessem  pobre Antnia nas suas cartas.
Em Camarate, era-lhe mais serena e montona a sua dor. O marido recolhia tarde,
e partia cedo. Escrevia muito. Havia ali duas criaturas que a serviam nas suas
correspondncias com a pontualidade de servos que a lamentavam e adoravam: eram
dois escravos antigos do finado Francisco Xavier, que Eliot verberara com um tagante,
47 Sr. J. Silvestre Ribeiro. Histria dos Estabelecimentos Literrios e Cientficos, etc. Tomo I, pg. 173..163
ao terceiro dia de casado.. Entre eles fora pactuada a morte do francs; mas a
conscincia da escravido algemava-lhes os pulsos.
O mdico, estando  mesa, perguntou uma vez  criada Maria Miguel:
* Que faz essa senhora que no vem jantar?
* Est no seu gabinete.
* E que faz?
* Ora l, ora escreve.
* A quem escreve? s freiras?
* No sei, meu senhor.
* Vai cham-la.
A criada voltou, dizendo:
* A senhora no tem vontade de jantar.
Eliot esmurraou a mesa, ergueu-se arrebatado, e encaminhou-se para o gabinete.
Um dos negros, antecipou-se-lhe por um corredor que comunicava para uma porta do
gabinete enquanto o amo se dirigia para a outra porta, atravs das salas. O escravo colou
os beios  fechadura, e murmurou:
* Cautela, senhora!
Era tarde. Quando a porta se abriu de repentino repuxo, Antnia Xavier,
espavorida, deixou cair a pena sobre um papel em que traara estas linhas:
Meu bom irmo. J me custa escrever-lhe. Sou to infeliz que j me no alivia
queixar-me. Esta casa s tem para mim uma atraco:  a capela porque encerra a
sepultura onde irei cedo vingar-me da sorte. Paz e esquecimento!  tudo quanto me 
dado ambicionar! Vai-me faltando o amparo dos dois coraes que amo. A desventura
pode mais que eles. At a luz que me dava a minha querida amiga de Odivelas se
apagou de todo! Soror Paula pede-me que v l, e no posso, porque este homem diz:
"no quero!" Que hei-de eu fazer? Nada posso contra a violncia. Receio ser morta num
mpeto de ferocidade. Tenho escrito ao...
* A quem escreve? - bradou o marido.
* A Frei Andr Guilherme - respondeu ela tremente de medo.
* Pediu-me a senhora Licena para se cartear com esse frade?
* No... - balbuciou ela, recolhendo o papel.
* Mas escreve-lhe... Porque esconde a carta?
* No a escondo... bem a v...
* Quero l-la...
* A tem - volveu Antnia contrafazendo valor.
Eliot leu.
Neste lance, Antnia viu o perfil do escravo por entre os resqucios das portas.
* Quem so estes dois coraes? - interrogava o francs.
E leu: Vai-me faltando o amparo dos dois coraes que amo. Depois:
* Que quer dizer isto? Um dos coraes  o do padre; e o outro?
* O outro, o outro... - tartamudeou ela -  o da religiosa de Odivelas.
* E isto? - prosseguiu Eliot, deletreando pausadamente e ferindo as slabas: Tenho
escrito ao... a quem? que nome ficou no tinteiro? Diga!... quem  este ao!? No
responde?
* Tenho respondido... J lhe disse que me quero recolher a um convento... -gaguejou Antnia amedrontada pela atitude ameaadora do marido.
A cara do escravo mostrou-se de frente pela abertura das duas portadas. Eliot no
o via, e Antnia ganhou nimo..164
* Olhe bem o que lhe digo!... no me escreva mais ao seu amigo frade; seno o
seu amigo frade paga por ele e pela senhora, percebeu?
* Deixe-me!... - exclamou ela - seno salto. por esta janela... ou saio por essa
aldeia fora, gritando por socorro!...
A energia da desesperao esfriou as cleras de Isaac Eliot. Aquelas frias dele
eram pouco menos artificiais. Se ela se precipitasse da janela, naturalmente como a
janela era baixa, fracturaria algum osso, quando muito: era um escndalo de pssimas
consequncias para ele. Se Antnia gritasse por socorro, as testemunhas desse acto ser-lhe-
iam nocivas no futuro,. No lhe convinha a queda, nem a evasiva a gritos pela
aldeia. Saiu do gabinete, e deu de face com o escravo.
* Que fazias aqui, negro? - bradou Eliot.
* Ia passando...
* E paraste? escutas s portas, patife? Vais ser azorragado!
Antnia saiu ao corredor, e bradou:
* No bata nos meus escravos!
* Nos seus?! - refutou Eliot. - Eu lhe provarei que so meus...
* Francisco! - disse ela ao escravo - Vai chamar o teu companheiro!
* Aqui estou, senhora! - respondeu o outro, assomando como um manequim na envasadura de uma porta.
* Vosss ambos so livres... podem sair desta casa.
* Livres! - bradou Eliot - Com que direito os forra a senhora? Eu sou seu marido!
sou o chefe da casa...
* Pode destru-la! - recalcitrou Antnia - Desbarate tudo; que eu s quero salvar
do meu patrimnio estes dois escravos que me criaram. So meus... No os quero
azorragados porque so meus amigos... Podeis ir livres  vossa vida!
* Eu no vou... - disse Francisco.
* Nem eu... Queremos ser escravos da senhora - ajuntou o outro.
* C o senhor no nos bate... - volveu Francisco, mostrando a Eliot a dentadura
alva, por entre um rebitar de beios que semelhava o rosnar do rafeiro.
E entreolhavam-se de maneira os dois negros, que o francs temeu-os..165
XLI
Desde Maro a Setembro daquele ano de 1730, Antnia Xavier ganhou o hbito
da tristeza em absoluta solido.
Fr. Andr Guilherme, fiado no efeito das suas preces ao Altssimo, alegrava-se
inferindo do silncio da sua amiga sinais de conformidade.
Josse Frisch alternava as contemplaes amorosas com as cogitaes cientficas.
Dava-se muito com o naturalista Merveilleux, estipendiado pelo rei, e com os jesutas
italianos, professores de matemtica, Francisco Musarra, Domingos Capacce e Joo
Baptista Carboni. O estudo  a regenerao das almas desbaratadas. Todo o trabalho 
uma redeno. Ainda assim, o jovem naturalista de Berlim, por hbito e por amor,
escrevia cada dia uma pgina de sua vida, e achava sempre meio de enviar, cada
semana, uma longa carta  enclausurada de Camarate. O feitor, que Lhe dera o aviso do
casamento e o acolhera em casa de sua irm, sustentara-se leal a ambos.
Todos os criados do defunto Xavier haviam sido despedidos. O abastado Rutier,
que, nos lances urgentes, reassumia as funes de pajem, encarregou-se de vender os
dois escravos para a tripulao de navios mercantis. Levados  traio a Lisboa, foram
entregues ao comprador, e ameaados com as gramalheiras do uso. As criadas e o
escudeiro, j ancio, foram substitudos, salvante Maria Miguel. No governo da casa foi
constituda Antnia do Sacramento, amsia do pajem; e no ministrio da cozinha entrou
uma Simoa dos Santos, mulata. O servio externo era feito por negros de aluguer,
excepto o das cavalarias, em que se conservavam os antigos lacaios de Eliot.
Deste teor, julgava ele cortadas as suas relaes com o frade trino e com Josse
Frisch.
Neste tempo, levantou-se brava tormenta no corao de Eliot. O amor  menina
Caldeiro entranhara-se-lhe nas podrides profundas da alma como a vbora no
chavascal. Acalcanhado pelo desprezo dela, sobejava-lhe infmia para ador-la em
redobro. Se a encontrava na sala de Toms Darcet, a menina esquivava-lhe as cortesias
de mera urbanidade, e repelia-lhe enfurecida os requebros indirectos. Em dia dos seus
anos, brindou-a com um colar de diamantes subtrado s jias da mulher. A medianeira
no brinde fora a mana Teresa. Leonor lanou-o no pescoo da criada. As manas
lanaram-se  criada, tiraram-lhe o colar, e guardaram-no para no ofender o dadivoso
mdico.
Toms Darcet procurou um dia o seu benvolo amigo para lhe contar que a mana
Leonor era requestada por um primo de Elvas, morgado e galhardo rapaz. Deplorava-se
o patrcio de no poder impedir este galanteio, como impedira outros, j porque o rapaz
era abastado, j porque era fidalgo, j finalmente porque Leonor o amava doidamente.
Infernou-se-lhe o corao ao marido de Antnia. Para haver de tudo na caverna
daquele peito, at lgrimas lhe apontaram nos olhos, quando a nova o fulminou.
* E eu que tinha sonhado faz-la minha esposa, e enriquecer-te, meu amigo, e
levantar a casa dos Caldeires ao prestgio que j teve! - disse ele, ensopando o leno
nas lgrimas.
* Que sonho esse to disparatado! - obviou Darcet - pois se ests casado com
uma menina de dezasseis anos!...
* No te disse eu j que ela herdou a leso do padre...
* Ah! eu cuidei que ela no fora herdeira to universal! - motejou o francs.
* Antnia tem vida para pouco... acredita-me, Toms...
* Sim, eu creio em ti que s o mestre nessas coisas; porm, quando mesmo
enviuvasses, meu querido, quem nos assevera que Leonor te queira, depois de to.166
bruscamente a deixares pela outra que era rica? Eu no to disse tantas vezes? No eras
tu bastantemente remediado com os teus grossos lucros como mdico? com os teus
duzentos mil reis da tena de cavaleiro? Foi o diabo da ambio;... que a formosura
decerto no foi. A respeito de beleza, tua mulher est to longe de minha cunhada que
no h compar-las... e quanto a nascimento, no falemos. Se casasses com Leonor,
estavas agora aparentado com a primeira nobreza do reino; assim, casado com a
sobrinha ou filha do padre Francisco, quem so os teus parentes? uns judeus obscuros.
O dinheiro  bom; sim, eu hei-de confessar que o dinheiro  bom, e tomara-o eu; mas
que importa ser rico, se a fortuna nos vem de uma mulher que nos aborrece, que ama
outro, que...
* Que ama outro? - atalhou Eliot - como sabes tu que minha mulher ama outro?
* O homem! pois no sabe toda a gente que ela amava o alemo que por a tens
visto a passear com o Merveileux?
* Am-lo-ia... mas no o v... entendes?
* Isso  questo aparte. Se o no v com os olhos da cara, v-o com o corao,
que faz o mesmo para a felicidade domstica. E tu sabes l se ela o v com os olhos?
Ela est na aldeia, tu ests em Lisboa, vais l duas vezes por semana, e provavelmente
nunca chegas na ocasio em que o outro l pode estar. Isto no  dizer-te que o
prussiano l vai; mas convence-te de que os maridos como tu no costumam ser os
donos absolutos da sua propriedade. Convence-te de que Lisboa nessa parte  uma
segunda Sodoma, e at no sei se ser uma primeira Sodovia... Mudemos de conversa...
ests a mudar de cor, e a ruminar alguma tolice. Nada de cavalarias da idade mdia,
homem! Tu no amas tua mulher: isso  pblico e notrio. Que te importa o mais?
Deixa-a divertir; no te queiras parecer com estes selvagens de Lisboa que as matam,
quando no so elas que os matam a eles; escreve l isto nos teus papis...
* E Leonor vai casar... - disse abstraidamente Eliot -  Darcet! dize-lhe que no
case... - exclamou ele com suplicantes Vozes - dize-lhe que espere o futuro... Pede-lhe
que me oua, que me deixe mostrar-lhe de joelhos a minha alma... Pede-me tudo... Que
queres, meu amigo? Se eu chego a casar com Leonor, dou-te metade da nossa riqueza...
Palavra de cavalheiro! metade da minha fortuna  tua...
* No fales a linguagem do interesse; - obstou o outro -basta-me ouvir-te a da
paixo, que bastante me comove, amigo Eliot! Eu vou referir a Maria Teresa o que
passei contigo. Minha mulher foi sempre tua amiga, e deve-te grandes finezas de todo o
gnero... No somos ingratos... Persuado-me que ela conversar com Leonor; mas, meu
caro amigo, no ouso agourar-te boa sada. Bem sabes o que  uma menina de nobre
condio, como Leonor, no s despeitada contigo, mas tambm apaixonada por outro...
* Esse outro - exclamou a sbitas Eliot - esse outro... Olha que eu sou capaz de o
mandar atravessar por um estoque! Podes dizer-lho...
* A ela? Deus te livre! Que asneiras te fervem nesses miolos, doutor! Mat-lo!
Que diabo de culpa tem o homem!
Pois tu no mataste o alemo, e hs-de matar o inofensivo gal de minha
cunhada?
*  que eu no amava Antnia...
* Isso entende-se, homem; mas no o digas.
* Digo-te a ti que s o meu ntimo... e tu nunca o repetirs...
* Por minha prpria honra... Sou cavalheiro, creio que o sabes. Um De Arcet teria
pejo de se ostentar amigo de outro capaz de um homicdio por cimes, tendo
desdenhado a menina cujo amante quer matar...
* Estou doido, Toms! estou doido! no faas caso desta cabea que se perde...
V-me s no pobre corao que estala de dor....167
* Pois bem... sossega, doutor... que eu vou daqui falar a Teresa, e amanh te informarei do que houver ocorrido.
Se eu no estivesse quase trasladando uma cadeia de sucessos documentados,
repulsara a fantasia que me sugerisse Isaac Eliot a meditar no assassnio de sua esposa;
mas a histria violenta-me, e todas as suspeitas de inverosimilhana me desfaz. O
homem, a poca, as sevas paixes de todos os tempos, e mormente a devassido e
crueza dos costumes daquele sculo, no seria tudo bastante a compelir-me ao esboo
da monstruosidade de Isaac Eliot, se debaixo dos meus olhos no estivessem as provas.
O protervo pensamento de matar a mulher com peonha, ou a ferro, pretextando
adultrio, devia ocorrer-lhe naquele tempo de refinada corrupo.
A apojadura dos perversos instintos de Eliot supurava na fase mais depravada dos
costumes portugueses. A primeira metade do sculo XVIII deixou em Portugal
profundos vestgios de desmoralizao, que o roar do tempo foi safando. Os monu-mentos
da piedade resistiram com os seus rijos mrmores e granitos; mas quem tiver
escassa luz com que entrar s grandes trevas do esprito nacional daquele ciclo, espanta-se
do sacrilgio que ps as santas coisas de Deus como desmentido pstero  vasta
infmia em que se tecia o viver do rei e dos grandes, na poca em que o povo padeceu
maiores vexames. Os homens de letras emudeceram, rebalados na podrido comum, ou
amordaados pelo terror dos alcaides. Se algum escritor deixou traos da fisionomia do
reinado de D. Joo V, no o procuremos na lngua ptria nem dentro de Portugal. Dos
que a Inquisio propeliu ao desterro, raros protestaram. Apenas um, Francisco Xavier
de Oliveira, queimado em esttua num auto-de-f, assinalou, sarcasticamente sereno, os
crimes do pas em que o homem dotado da liberdade da razo expiava a ddiva funesta
na labareda das fogueiras.
Nenhum crime devera parecer arrojado a Isaac Eliot, robustecido pelo exemplo
dos nacionais. Lisboa, a devassa, era apostrofada desde os plpitos nos sermes de
Bernardes, de Colares e de Rafael Bluteau. O rei escutava-os com calafrios de contrio,
e penitenciava-se, forando os vassalos a pagar-lhe no telnio dos cardeais as
indulgncias remissrias. O teatino Biuteau imputava s doutrinas dos estrangeiros
protestantes a estragao dos costumes. "A Lisboa - pregava ele - (1723) trazem
estrangeiros heterodoxos, com suas mercancias os vcios das suas terras, juntamente
com os erros das suas seitas, e, se os no ensinam, publicamente os professam... Em
Lisboa a suavidade do clima afemina os nimos e s delcias ilcitas os inclina. Em
Lisboa, com dios inveterados, ou com frias repentinas, muita gente se mata, e uma
das razes das muitas mortes  que os ofendidos, supondo que a justia no castigar
aos que os agravaram, com suas prprias mos se fazem justia. Em Lisboa, com uma
folha de papel que se chama carta de seguro, o mais cruel homicdio se abafa. Em
Lisboa qualquer sombra de infidelidade no tlamo conjugal afia o punhal para o
desagravado, e o matar mulheres  ponto de honra. Em Lisboa, negros e viles, quando
no tm padrinhos, talvez se castiguem; para homens de bem, quando obram mal, raro 
o castigo..."
O ilustre fillogo mal se desculpa de lisonjeiro com os portugueses assacando aos
estrangeiros a peonha que viciara os costumes. A lascvia do rei com fidalgas, actrizes,
freiras e ciganas poderiam aferventar-lha os filtros franceses; mas com certeza no lha
acenderam as doutrinas dos estrangeiros heterodoxos, que, por via de regra, se no eram
castos, eram cautos, consoante o conselho do apstolo. As devassides espectaculosas
do duque de Cadaval com a Paulina, e do conde de Tarouca com a francesa Pelles, que
o seu capelo Domingos de Arajo Soares lhe furtou a ele e ao marido, so casos de
peste espordica - no os inoculou a Reforma. Do mesmo teor, eram estranhos a Lutero.168
e Melanchton um certo Bernardino de Vasconcelos Castelo Branco que matou a mulher
em 1684, e D. Guiomar Lusa que matou o marido em 1712. Degolou-os o algoz, (mico
obreiro daquela civilizao, estranho a religies. Nunca lera Calvino o padre Lus
lvares de Aguiar, denunciado  Inquisio e a convicto de prostituio das
confessadas, que eram meninas da primeira nobreza. Este sacerdote era de ilustre
origem e querido da sociedade mais selecta. A Inquisio queimava o hebreu sem f; e,
por caridade, desterrava simplesmente o presbtero que paxalizara com as louras filhas
espirituais. Quanto a cincias que transviam o esprito e o perdem nas veredas da razo,
o padre era ignorantssimo. Sabia um dito de S. Jernimo, e no queria outro evangelho:
O amor  a observncia e resumo de toda a lei, o que as escrituras santas chamam
caridade  isso e mais nada. E l se ia arranjando com a mxima, que no era de Hus,
de Joo de Leide ou de Calvino.
Nem os heresiarcas (nem os pagos - acrescenta o Cavalheiro de Oliveira) -
poderiam referir passagens desta natureza: "Dei ao padre Joo de Carvalho, da
congregao de S. Filipe Neri, meia moeda para missas pelas almas do purgatrio.
Respondeu-me que no podia aceitar a incumbncia, porque tinha de dizer trinta missas
a fio, em cumprimento de unia promessa que fizera s mesmas almas, a fim de que a sua
amada que era freira no recasse na armadilha de um seu antigo amante que deixara por
amor dele. Sentimentos de igual piedade acrisolavam o franciscano que dizia missa
quotidiana, andando em viagem, a fim de que as almas obstassem a que a sua querida
voltasse para o marido".
No so quanto parecem insignificantes estes traos, quando se debuxa o perfil da
proverbial corrupo do sculo XVIII. A histria despreza-os, porque as tradies
picas e o sestro das narrativas enfticas tm impedido que o historiador se apouque e
perfile ombro a ombro do povo. Edmond Scherer, pesando o quilate dessas miudezas na
interpretao de uma poca, aplaude que a histria se enriquea desses "nadas,
despercebidos como o ar que respiramos, mas de valia na totalidade dos efeitos" 48 .
Se querem crimes de maior estrondo, oiam os que a histria moderna apurou nas
tradies de D. Francisco de Bragana, o irmo de D. Joo V. Encovara-se a fera no
antro de Queluz, cevava-se em toda a iguaria ensopada em sangue, matava para
experimentar a pontaria, e completava a infmia visitando oitavrios, novenas e
lausperenes. E porque da raa dos Braganas havia a um infante brioso, esse expatriou-se
voluntariamente, e dezoito anos errou ao longe deste esterquilnio.
Na literatura desse tempo, fora das graves posto que estreis lucubraes do
claustro, espelham-se como na superfcie turva de um charco as feies da sociedade. O
Cames do Rossio, o Lobo da Madragoa, o Pinto Brando, Frei Simo de Santa
Catarina abandalharam o talento para terem talher no convvio dos magnates. Esses
esgotos no sujaram os prelos; mas os contemporneos prezaram tanto os inditos dos
seus intrpretes que eu s por mim possuo mais de quarenta tornos que mos afectuosas
encaparam luxuosamente. No se concebem refinaes mais devassas na linguagem e
na forma! As histrias versejadas so passagens da vida monstica, com os nomes dos
personagens, ou alegorias lardeadas do glossrio mais inventivo em obscenidades que
ainda tivemos. Fr. Pedro de S educara o autor da Martinhada, perrixil afrodisaco que
D. Joo V, esfalfado no corpo e na alma, pagava com a corregedoria do bairro do
Rossio e com a privana.
Num livro desta natureza, mais longa notcia da dissoluo dos costumes
portugueses viria deslocada e impertinente;  porem que farte o esboo. Espanta
relaxao tamanha em um pais onde o carrasco suava no exerccio de suas obrigaes, e
o ferro e a brasa do Santo Ofcio sarjavam fundo nos inchaos da sociedade
48 Nouvelles tudes sur la Littrature Contemporaine - Le dixhuitime sicle, pg. 98..169
apostemada!.170
XLII
Apesar de instada pelo marido, Maria Teresa Caldeiro recusou falar em Eliot 
mana Leonor.
* E agora de mais a mais - reflectiu ela - que o primo Lus Mendes de
Vasconcelos lhe escreve cartas recheadas do mais fino amor, e j lhe chama adorada
esposa! Pois tu no vs - acrescentou a prevista dama - que de hoje para amanh o
Eliot nos pode tirar a mesada, e ficaremos miserveis, se a mana Leonor no casar bem?
Assim que ele perder de todo a esperana de a conquistar com o dinheiro da mulher,
cuidas que nos no manda...
* Bugiar? estou bem certo disso; porque afinal de contas este Eliot  um maroto
de marca maior. H-de ter mau fim... tu veras...
* Dize-mo a mim! pois eu no sei o que os patrcios rezam dele?...
* Assim ; mas, a falar verdade, tem-nos obsequiado...
* Com a pontaria feita  mana Leonor!... Forte amigo!... Destes temos ns muitos
de melhor casta, se os admitirmos a nossa casa... O vilo vai casar com a outra, depois
de nos trazer enganados, e cuidava que uma Caldeiro se vendia ao dinheiro dos judeus!
Fora, patife!
* Tens razo - modificou o professor de esgrima - porm, se ele te falar, no o
escorraces. Deixa ver o que faz Leonor com o primo. Enquanto ela precisar de ns,
precisamos ns dele... bem vs, filha.
* Ai! meus avs! - apostrofou ela voltada para onze lonas rodas nos seus onze
retratos apcrifos de Veigas e Caldeires - se soubsseis a qual baixeza chegaram
vossas netas!...
* Deixa l os monos - interrompeu o marido - Fala comigo que tambm tenho na
Picardia uns figures estupidamente pensativos como estes teus avoengos, e nunca lhes
apanhei um franco. Se o Eliot se entender contigo, d-lhe uns longes de esperana...
* Eu!... tu injurias a minha dignidade, Toms!
* No que eu te conto, menina. O Jernimo Fidi tem enriquecido com o negcio
dos veludos e damascos; e, se eu me associar a ele com o capital de cinco mil cruzados,
tiro lucros bastantes para vivermos com decncia. Ora eu, se estes teus onze avs me
no emprestarem a juro mdico os cinco mil cruzados, tenciono pedi-los ao Eliot. Tens
percebido, amor?  preciso mostrar-lhe a mana Leonor ao longe... por um culo...
percebes? O que tu hs-de dizer  mana Leonor...
* No lhe digo nada! - cortou Maria Teresa.
* Espera... Nada de bazfias... dize-lhe somente que o trate com menos carranca, e
faa de conta que  um diabo que est para a. Que lhe custa a ela isso? Supe tu que o
Lus Mendes, melhor avisado, norteia noutro rumo? Temos um fundo comercial de
cinco mil cruzados; e, se Eliot nos retirar a mensalidade, j podemos viver
desafogadamente.
* E se ele te pedir os cinco mil cruzados que te emprestou? onde os hs-de ir buscar?
* Peo-os a estes onze avoengos... - e apontava para os retratos com dramtica
solenidade.
Ao outro dia, o zombeteiro Darcet respondeu desta arte  sfrega expectativa de
Eliot:
* Maria Teresa acha espinhos na comisso; mas  tamanha a vontade com que te
serve e a amizade que te vota, que todos os recursos esgotar em demover a mana de.171
casar-se com Lus Mendes.
* ptimo! quanto vos devo, meus bons amigos! - clamou expansivo de risos o mdico, abarcando-o pelo peito e costado.
* Maria Teresa  sagaz...
* Se !...
* O plano gizado vem a ser pintar-lhe com as mais vivas cores a tua paixo e o teu
remorso... Chorar at, se for possvel!
* E no mentir por mais que diga, meu Toms...
* Depois, quando o pattico houver coado ao corao da mana, dir-lhe- que tua
mulher est doente, mortalmente doente de leso no peito...
* Muito bem!
* Por fim, das duas uma: se tua mulher falece, casas: sim, digo eu que casas; ponto  enviuvares... Se no falece j, vai-se paliando o negcio...
* No h-de ser preciso: minha mulher tem um aneurisma no ltimo perodo.
* Coitada! morre muito nova... - lamentou Darcet - E a respeito da herana? j
pensaste nisso? Olha que eu desconfio que, no havendo escritura nem testamento, o
que tu herdas e nada  tudo o mesmo. Sempre ser bom consultar... Como a maior parte
dos bens so propriedades... Que eu creio que o padre tinha ainda negcio em
Amesterdo...
* Pequeno...
* A propsito de negcio... sabes que o Fidi, nestes ltimos seis anos tem enriquecido com as sedas e damascos de Leo?
* Sei, sim.
* H dias me disse ele: entra com cinco mil cruzados em caixa, que eu associo-te
em unia quarta parte, e no fim do ano recebers 50 por cento. Fidi, se eu tivesse cinco
mil cruzados, estou que me no convidava... que te parece?
* Dize-lhe hoje que aceitas, e amanh vem receber os cinco mil cruzados.
*  Isaac, tu s o anjo da minha famlia! - clamou Darcet, abraando-o pelos
joelhos - Hoje mesmo a mana Leonor h-de saber mais este rasgo da tua liberalidade! 
assim,  assim que tu hs-de chegar at ao mago dos peitos mais de bronze, amigo,
meu nobre amigo!
Desde aquela hora, Eliot, abalado pelas dvidas de Darcet. acerca da sucesso,
consultou o mais famoso advogado da corte, Joo Miles de Macedo. Contrariado pela
resposta, sondou se poderia vender uns trinta contos de aces chamadas de Boadita;
mas ainda a lhe tolheram os jurisconsultos o intento com a indispensabilidade da
assinatura da consorte. Estas consultas comeavam a rumorejar fora dos escritrios doa
advogados. Perguntava-se se Antnia Xavier estava perigosamente enferma; e o
desembargador Santa Marta Soares, ex-tutor dela, avisou-a por carta que no assinasse
papel algum, sem o consultar a ele.
Malogrou-se o projecto de matar a esposa com veneno.
Invocou a sua segunda conscincia na pessoa de Henrique Rutier. Este homem
sentia-se disposto  regenerao de sua pessoa, porque principiava a auferir boa
ganncia da sua mercadoria, criara relaes, visitava-se com mercadores acreditados,
pensava em se casar com uma cunhada do seu scio Estvo Gautier, enfim, tinha dez
mil cruzados, e uma vez por outra dizia na Casa da ndia e na graderia da rua Nova dos
Ferros aos seus colegas: "eu sou um negociante honrado". 49
Aventurava-se pois a dar bons conselhos ao amo, quando Isaac Eliot levantou a
cabea, franziu a testa, e perguntou:
49 Os mercadores costumavam reunir-se em uni circulo gradeado na Rua Nova dos Ferros: era a
preexistncia da bolsa..172
* A quem vens tu cantar lrias, Henrique! Olha que eu s sirvo para amigo ou
inimigo. Associei-te ao meu destino. A tbua em que eu naufragar h-de ser o teu
esquife. Quando eu subir ao galarim da felicidade, hs-de estar ao meu lado! Escolhe:
amigo at  morte, ou inimigo at ao inferno?
* Estou s suas ordens, sr. doutor; mas cuidado que no naufraguemos. O senhor
quer matar sua mulher como adltera; mas, atenda, se no provar o adultrio, matando-a
em flagrante delito, conte com a forca.
* Retira l essa palavra forca. Os cavaleiros professos na Ordem de Cristo no podem ser enforcados.
* Bem sei, degolam-nos: a diferena no me parece a melhor das consolaes...
Mas como quer o sr. doutor matar sua mulher por adultrio, se no temos o adltero?
Olhe que eu por informaes da sua criada Sacramento sei todos os passos da ama. A
Maria Miguel, sua criada do quarto, diz tudo quanto sabe  outra. Sei que ela recebe
cartas de Frei Andr Guilherme; mas ningum se lembra de suspeitar que ela ame o
frade.
* E porque no? - acudiu Eliot.
* Porque o frade, desde que vossa merc casou, nunca mais viu D. Antnia. O sr.
doutor tem procedido de maneira que ela, se o quisesse obsequiar com um amante, no
poderia arranj-lo. Encarcerou-a em Camarate, cercou-a de espies, tratou-a como se
lhe tivesse um amor ferozmente cioso. Quem quer amanhar um adltero para o apanhar
com a mulher, expe a mulher aos adlteros, como se pe o visco aos pssaros. Para
que a levou de Lisboa? Estava a o prussiano tanto  mo para uma cena decisiva; e o
senhor foge-lhe com o engodo, e corta-lhe todas as avenidas. De mais a mais, sua
mulher, protegida das tentaes do diabo pela cruz vermelha de Frei Andr, se no
escorregou aos braos do Frisch, pode contar que j no escorrega de modo que vossa
merc a veja cair. Quer um conselho? tire-a da aldeia, finja-se mudado com ela, deixe-a
aparecer na missa, nas ruas, nas festas das casas conhecidas, d-lhe conhecimentos
novos, deixe-a esvoaar, e depois veremos o que faz a natureza. Esta  a minha opinio:
agora ouvirei a sua.
* O meu plano era forjarem-se umas cartas - expendeu Eliot - cartas de amor, se
entende.
* Escritas a quem?
* A algum...
* Ao prior de Camarate talvez...
* No gracejes, Henrique. Olha que eu tenho a alma abrasada pela paixo mais
devastadora que ainda experimentei. Se eu no enviuvar, Leonor vai ser doutro homem.
Dizias-me tu que a mercasse: dez mil cruzados j despendi: ainda ontem dei cinco mil a
Toms Darcet.
* Gastou-os mal. Eu, se me desse para a, fazia-lhe isso com dez cruzados. Uma
noite, quando Leonor estivesse ao em casa, atava-lhe uma mordaa, metia-a numa sege
e levava-lha ao pinhal da Azambuja.
* Isso faz-se s mulheres que no se adoram, e eu adoro e respeito D. Leonor -
encareceu o francs, dando ao rosto o enlevo amoroso de um madrigal.
Rutier arregaou um sorriso de farola, e Eliot abaixou os olhos com a gravidade
de patro que se quer respeitado.
Em todo caso, prevaleceu o alvitre do pajem, quanto a mudar Antnia Xavier de
residncia e de costumes, abrindo-se-lhe as avenidas s tentaes. Voltou a esposa de
Eliot para Lisboa. Concorreram famlias de franceses  rua do Outeiro a passar as noites
com as sem-cerimnias usadas entre eles. Ao princpio, Antnia retraa-se estranha e.173
acanhada em tal convivncia; mas Eliot, vexando-a pela sua rudeza e ignorncia da
sociedade fina, dizia-lhe que apertasse as mos aos franceses que ]ha ofereciam, e se
desbastasse de umas grosserias de sabia que tornavam duvidosa a sua educao de
senhora.
Volvido algum tempo, o mdico, encontrando-se com Alberto Borges, cunhado de
Frei Andr Guilherme, queixou-se que sua mulher e irms no visitassem Antnia; e, a
respeito do frade, acrescentou que o no convidava receoso de ser desfeiteado, visto que
os santarres de Lisboa consideravam a assembleia francesa uma bangal de demnios;
no entanto, rematou ele, a sua casa no se fechava ao mestre de sua esposa.
Andr Guilherme admoestou suas irms a no aceitarem o convite de Eliot em
noites de sarau; mas que a visitassem de dia com sua me e lhe oferecessem a sua casa.
Trocaram-se as visitas. O frade nunca se encontrou com Antnia em casa de seu
cunhado nem de sua me, nos primeiros meses.
Maria Miguel, industriada por Antnia do Sacramento, e de antemo galardoada
com ddivas indirectas do amo, forcejou por captar a confiana da senhora. A amsia
aposentada de Rutier operava sob a influncia do pajem honorrio. A conjurao dava-se
pressa instigada por Eliot.
D. Antnia, que tinha o segredo de Frisch na suposta lealdade da criada, confiou-lhe
as cartas escritas a Frei Andr, e enviadas com grandes intervalos. Perguntava-lhe
Maria Miguel se aquele lindo moo estrangeiro, que estivera com a senhora no
escritrio, j no estava em Lisboa. Antnia esquivava-se a encetar confidncias neste
melindroso ponto; mas o corao desejava-as, e afinal deixou-se ilaquear. A criada
estudara as sedues da perfdia: era fcil embair uma mulher de dezasseis anos.
Contou-lhe a sua histria. O interesse da revelao elevara a confidente muito acima de
sua baixa condio. Falava como se a escutasse uma experimentada amiga. So assim
todas as senhoras que o erro e o desvio da linha recta do dever abaixaram ao nvel das
suas ignbeis confidentes.
Incitou-a Maria Miguel a receber Josse Frisch, assegurando-lhe o nenhum risco da
empresa. Encarregava-se de lhe entregar a carta. D. Antnia aceitou jovialmente o favor
de lha levar; mas recusou-se a convidar Frisch a vir a sua casa, porque jurara, por alma
de seu pai, a Frei Andr nunca mais repetir a temeridade de o receber. Maria Miguel,
depois de vrias reflexes tendentes a zombar do beatrio do trino, mostrou-se
suspeitosa de que o frade amasse a senhora, e imposturasse, no zelo da honra dela, uns
biocos de religio com que mascarava o crime. D. Antnia indignou-se secretamente
com a aleivosia da criada; e, desde esta passagem, receou-a tanto que se arrependeu
dolorosamente de lhe contar sua vida. Mas sendo o retrocesso impossvel, e ardente o
desejo de ter cartas de Josse, Antnia dissimulou o medo e confiou de Maria Miguel a
entrega de duas, uma para Frei Andr, e outra para o estrangeiro.
Ambas as cartas, depois de cautelosamente abertas e lidas Por Eliot, chegaram ao
seu destino. A substncia do contedo na de Frisch eram expresses escritas
temerosamente, e mais enigmticas, de onde Josse depreendeu que Antnia se temia da
intercepo da carta. O remate era mais cordial e expansivo: Quando tornarei a ver-te,
Josse? Talvez no cu, onde a presena do Senhor e a tua me ho-de ser o prmio deste
suplcio.
Frisch no respondera, advertido pela sequido de tal carta, depois do silncio de
dois meses. Receou traio, e um facto se dera que o justificava. Algumas vezes se
encontrara face a face com Isaac Eliot. Repugnava-lhe fit-lo; mas o dio tem uns
olhares provocativos a que maquinalmente obedecem os mais prudentes. A covardia 
que finge no ver os inimigos. Portanto, o prussiano frechara de fito com a vista a cara
do francs, e dizia a Frei Andr Guilherme que Eliot era um poltro de tal espcie que,.174
se a sorte o castigasse com outra casta de esposa, os amantes dela poderiam afoitamente
conviver no mesmo domiclio.
* Acautele-se! - recomendava o frade.
Aconteceu passearem no Terreiro do Pao da Ribeira, Josse Frisch e mr.
Merveilleux, o naturalista Cesreo. Concorreu Eliot na sua sege com Darcet. O amigo
do mdico foi cumprimentar o seu patrcio, e Eliot quis ser-lhe apresentado.
* No vs quem est com ele? - observou Darcet.
* Por isso mesmo...
Eliot foi apresentado ao naturalista; e, no mesmo lano, Josse Frisch, apertando a
mo do amigo, retirou-se. Entre franceses, havia matria para desafio, no dizer do
marido da Caldeiro. Isaac Eliot sorriu  reflexo briosa do seu patrcio e disse:
* O desafio h-de ser sem testemunhas.
E, no dia seguinte, Eliot, concorrendo ao mesmo passeio. ao perpassar por
Merveilleux e Josse Frisch, cortejou os dois, e voltando-se para o prussiano, disse com
nfase:
* Eu zelo tanto a minha honra de marido e o nome sem mcula de minha mulher
que, abafando despeitos e melindres. venho declarar ao sr. Frisch que o no considero
meu rival; e no quero que a sociedade de Lisboa o considere tal.  preciso que todo o
mundo me veja falar com o sr. Frisch, porque vai nisso a ressalva da minha dignidade.
Ainda mais, estimarei que frequente a casa onde j esteve com seu pai. J no vive o
sbio doutor Xavier que os recebia e entretinha; mas, se mr. Merveilleux quiser honrar
as salas de um seu patrcio, j eu terei um douto hspede que possa entreter o outro.
Frisch fez um leve meneio de cabea; o naturalista agradeceu o convite, e Eliot
recolheu-se  carruagem.
*  um excntrico! - disse o francs - mas h no sei que de cavalheiresco neste
passo!... Eu, no teu caso, Frisch, ter-lhe-ia apertado a mo...
*  francesa... - murmurou o alemo. - O que eu j uma vez apertei para lhe mostrar o meu afecto foi a coronha de uma pistola.  Frisch relatou estes sucessos a Frei Andr Guilherme.
* Acautele-se! - repetiu o trinitrio.
E, respondendo  carta de Antnia, escrevera estas poucas linhas:
Vamos ao que muito importa. Eu ia hoje falar com minha irm para lhe entregar
um bilhete, minha santa amiga. Previna-se, receie, acautele-se das liberdades que lhe
d esse homem abandonado de Deus. Acabo de saber que ele convidou Frisch para sua
casa, alegando razes que nenhum homem de bem alega. Desconfio que ele forja a
mais execranda das traies. Quer facilitar a ocasio de adultrio para poder justificar
a morte de um ou de ambos. Antnio, minha, querida irm olhe que est  beira de um
abismo. No dia em que vir Frisch em sua casa, fuja para casa de minha me, que eu
depois a defenderei, fazendo-a recolher a um mosteiro. Reze muito  Virgem Maria,
que a proteja. Eu no cesso de pedir pela minha pobre Antnio. Do seu irmo em Jesus
Cristo, o padre Frei Andr Guilherme.
Eliot leu esta carta: e, na vertigem da raiva, f-la em pedaos; mas, momentos
depois, olhando para os fragmentos dizia:
* Que diabo fiz eu!... esta carta era-me necessria!....175
XLIII
Mortificada com o silncio de ambos, Antnia queixou-se  mulher de Alberto
Borges do desafecto e esquecimento do seu querido mestre.
O frade, perplexo por to injusta acusao, pactuou com a irm que o avisasse
quando Antnia voltasse a sua casa.
Eliot afectava-se insensvel s sadas de sua mulher; todavia, as visitas a casa de
Alberto Borges, cunhado do trino, eram-lhe sempre motivo de satisfao, que se
exprimia na ferocidade do sorriso. Recrudescera o rancor ao frade: t-lo-ia feito
assassinar, se  sua vingana bastasse um golfo de sangue lancetado pelo punhal de
Henrique Rutier.
Depois de um ano de separao, Antnia, quando viu o padre Andr Guilherme,
rompeu em pranto desfeito; e ele, suspenso, e atnito da mudana da sua formosa
discpula, quedou-se mudo diante daquelas lgrimas, to carecidas de consolao.
* No recebeu a minha carta, Antoninha?! - perguntou o frade angustiado pela incerteza.
* H dois meses que no tive carta sua.
* Jesus! - exclamou ele. - Eu respondi logo  sua que me enviou, faz amanh oito
dias, por uma mulata. Enviou ou no?
* Enviei por uma das minhas criadas.
* E eu respondi contando-lhe que seu marido convidara Josse Frisch a ir a sua casa.
* No recebi tal carta... meu Deus!
* Est atraioada!... Confiou naquela mulher que abriu a porta a...
Sim...
* No lho disse eu, infeliz? E agora!... Seu marido sabe que eu lhe fiz um aviso que lhe transtorna um atrocssimo plano...
* Quem sabe se a mulata perdeu a resposta?... - reflexionou Antnia, abraando a
iluso inverosmil. - Isaac tem-me tratado do mesmo modo; nem pior nem melhor. H
dias levou de casa toda a baixela de ouro e prata. Disse que era para emprestar ao
ministro de Frana que dava um jantar. Hoje tambm levou a moblia nova de uma sala,
e mais os espelhos antigos que estavam em Camarate Quase tudo que era de minha av,
e at o faqueiro que tinha a firma de Angela Nobre, tudo tem ido no sei para onde...
* Eu lhe digo. minha senhora - interveio Alberto Borges - a moblia da sala
entrou para casa de Rutier, e a baixela de ouro e o faqueiro com a firma de sua bisav
sei eu que est em casa do aventureiro Toms Darcet. Disse-mo pessoa que l se
banqueteou antes de ontem, e me asseverou que todos os seus haveres em menos de trs
anos seriam absorvidos pela voragem das Caldeironas.
* Que importa? - volveu Antnia - o que eu queria era um cantinho em qualquer
Recolhimento! Sr. Frei Andr, faa-me esta esmola que tantas vezes lhe tenho pedido!...
Pois teme que eu seja assassinada, e no me salva? Ser pecado o fugir eu de um marido
que me abomina?
* Vou cuidar sem demora de a salvar, sr D. Antnia.  tempo. Tenho de ouvir o
sr. patriarca a tal respeito e tambm consultar o sr. desembargador Santa Marta Soares a
respeito dos bens. Entretanto, senhora, nem uma palavra por onde seu marido possa
suspeitar o meu intento... Olhe que no segredo est talvez a sua vida, e... pode ser que a
minha... Deus me  testemunha que me no aflige a perspectiva da morte. Morra eu sem
crimes, e o Altssimo se haja misericordiosamente com os meus erros. Mas eu no
quisera que a minha morte viesse a ser mais uma dor em tantas que a despedaam..176
minha querida amiga!
E nas faces plidas e gentis do moo frade derivaram duas lgrimas
profundamente misteriosas, duas lgrimas que Deus receberia na urna dos seus
incensos; porque o corao que as chorava purificara todo o seu sangue nelas, todo o
seu amor, primeiro e nico, sufocado, recalcado, e oferecido ao Senhor nas sejanas da
Barbaria, quando, no resgate de cativos, lhe pedia de mos postas que o resgatasse da
saudade de... Antnia.
E a divina providncia escutara-o; porque, na volta de frica, ouvindo a nova do
casamento dela, ajoelhara ante o oratrio de sua me, e murmurara:
* Dai-lhe a felicidade, Senhor!
Antnia contemplava-o. A sua vida de criana espelhou-se-lhe na memria com
todo o colorido luminoso das alegrias infantis. Via aquele moo de dezoito anos a
educ-la com amorosa pacincia, a desculp-la das impertinncias da mestra, a inventar-lhe
brinquedos em que o raciocnio pudesse ter parte, e a fomentar-lhe vaidades
inocentes que lhe sortissem aproveitamento no estudo. Nada mais via, at  idade dos
quinze anos; porque os lbios do mestre extremoso tinham sido como um selo de bronze
do corao.
Na contemplao de Antnia, pois, cifrava-se tudo em uma saudade; e as duas
lgrimas de Frei Andr Guilherme compendiavam a histria de uma vida inteira, que
todas as angstias devorara na escuridade, excepto as duas lgrimas nicas que Antnia
vira,  hora em que j no podia compreend-las. Raro e santo herosmo o daquele
homem!.177
XLIV
Porque se julgara atraioada pela aia, D. Antnia repeliu-a da sua presena, e
dispensou-se de criada do quarto. Pensou em despedi-la; mas sentiu-se desautorizada.
Se a despedisse, Eliot impor-lha-ia, sobrepondo  perfdia a humilhao, na presena
dos servos.
Maria Miguel guardava ainda o segredo da entrada de Frisch, porque era
cmplice; assanhada, porm, pelo desprezo da ama, revelou o caso a Antnia do
Sacramento.
Rutier avisou Eliot, e disse-lhe:
* Que excelente ocasio lhe fugiu, sr. doutor! e quantas se perderam com a ida de
D. Antnia para a quinta!...
Pouco depois da denncia, Eliot entrou inesperadamente na alcova de sua mulher.
Surpreendeu-a orando, de joelhos, aos ps do leito, amparando a face nas mos erguidas
em splica.
Antnia ergueu-se sobressaltada.
* Menos oraes e mais virtudes - disse o protervo Cnico.
Ela, no replicou  injria. Sentou-se, porque sentia desfalecer-se em terrores da
morte. Transia-lhe a alma o medo de ser assassinada
* Diga-me c, senhora - prosseguiu ele, sentando-se no leito, e bamboando as
pernas cruzadas. - Estava pedindo aos seus indulgentes deuses que lhe perdoassem o
adultrio?
* O adultrio! - exclamou Antnia, erguendo-se erecta, majestosa de ira, e espanto.
* Comdia! - resmoneou Eliot sarcasticamente. Eu no represento, ouviu? Que
veio fazer a esta casa. Josse Frisch? veio rezar consigo? Diga l... Veio ou no veio aqui
o seu amante Frisch?
* Veio - respondeu ela com a voz estrangulada.
* Rezar consigo?
* Chorar...
Eliot cascalhou uma risada estridente.
Depois, desceu-se da cama, carranqueou o aspeito, e disse:
* Que me atraioasse, explica-se; mas que faa de mim parvo,  original! Com
que ento, uma dama casada fecha-se com um amante, ao fim da tarde, em um quarto,
e... choram ambos, s escuras! A senhora  to devassa como tola!...
*  Virgem Santssima! - murmurou Antnia, relanando os olhos a um retbulo
pendente sobre o leito.
* Veja se interessa a Virgem nas suas virginais choradeiras com o versista loiro...
Vamos ao ponto essencial. Frisch esteve com a senhora fechado em um quarto desta
casa, sendo a senhora minha esposa?
* Esteve.
* Basta!
E, abrindo de par em par a porta da alcova, disse para fora:
* Entrem.
Entraram Henrique Rutier, Antnia do Sacramento, Maria Miguel e Simoa dos
Santos.
* Ouviram o que esta senhora acaba de confessar?
* Ouvimos - disse Rutier.
* Que recebera nesta casa o seu amante fosse Frisch repetiu Eliot..178
* Isso mesmo - confirmou o pajem.
* Podem sair - voltou o mdico. - Se um dia forem interrogados a tal respeito,
respondam o que ouviram. Quanto  senhora, fique entendendo que as minhas criadas...
so minhas criadas. Aqui governo eu.
Uma das criadas saiu chorando. Era Simoa dos Santos, a cozinheira.
Eliot desceu ao escritrio com Rutier, o qual, cruzando os braos, perguntou:
* Isto de que serve? no me dir, sr. doutor?
* De que serve?!
* Sim, pergunto: que lucrou o sr. Eliot com o espalhafato das testemunhas?
Provavelmente, vai matar o prussiano; depois, mata sua mulher. Feito isto, declara que
matou os adlteros, e prova-o com o depoimento dos seus servos. Est bem aviado!
* No percebes nada, Rutier. A vida mercantil bestificou-te.
* Desconfio que sim... Queira alumiar a minha bestidade.
* H-de haver um segundo adltero e o primeiro ser a confirmao do segundo.
* Estou cada vez mais bronco, sr. doutor.
* Fecha bem aquela porta, e vem c.
* Eis-me.
* O adltero h-de ser o frade...
* Andr?
* Sim.
* E ele aceita o papel... real ou fantstico? Vossa merc tem a cabea opiada pelo
marguill de Constantinopla, perdoe as demasias da minha amizade, ou explique-se.
* No me deixas explicar, diabo! Eu hei-de encontrar nesta casa o frade com Antnia em flagrante delito.
* Ah! pois o frade tambm... H-de encontr-los em flagrante delito?
* Supe...
* Sim, suponho; mas  ou supe-se...
* Faze de conta que ... e, colhidos no crime, so mortos.
* Por quem?
* Por mim.
* Ah! isso, pode ser... Cuidei que me ia dizer que seria eu o executor da alta justia...
* E no eras?
* No, senhor.
* Como ests mudado, Henrique!
* No  mudado:  cansado...
* Ests rico:  o que queres dizer... Esqueceu-te a provenincia dos teus doze mil
cruzados...
* No me esqueceu, sr. doutor; mas vossa merc dispe de mim por maneira que
eu receio esquecer na escada da forca os favores que lhe devo - respondeu gravemente
o pajem.
* Palavra de cavalheiro! o senhor est perdido! Aquela
D. Leonor  a perdio de ns todos... Deixe-a, com dez milhes de diabos. Deixe
o frade, que  to amante de sua mulher como eu. Se no quer viver com ela, meta-a
num convento, e alegue que ela o atraioou com o prussiano...
* No te peo conselhos, Henrique... Lembra-te do que eu j te disse: a minha tbua de naufrgio h-de ser o teu esquife.
* Bem me lembro...
* Enquanto eu subir, subirs tu... - rugiu desentoadamente Eliot - D-me Leonor
que eu dou-te tudo... T-la, ou morrer, entendes? mas antes de me matar, ho-de cair, a.179
ferro e fogo, todos os obstculos. No sabes o que  uma paixo sem lgrimas?  uma
congesto de sangue...  a fome do tigre... Estou perdido!
* Fale baixo! - admoestou Rutier - Olhe que o pode ouvir na rua algum que
saiba francs... Deixa-me dar-lhe um parecer? Venha comigo... Saia desta casa por
algum tempo... Tem a minha casa. Pensaremos, meditaremos, resolveremos, l, e...
* Resolvi... - interrompeu Eliot.
* Que resolveu?...
* Quebrar estas correntes, seja como for.
* Mas, se premedita aproximar o frade de sua mulher, o passo que hoje deu, com
toda a certeza, produz o efeito contrrio. Pois cuida que ela se atreve a receber aqui um
segundo homem, depois que o senhor convidou testemunhas contra o primeiro? Est
cego, sr. Eliot! O que o senhor devia fazer, se reflectisse ou me consultasse, era pr-se 
cacha com o segredo do Frisch, e ajeitar-lhe modo de ele c tornar. E que fez o senhor?
Espantou a caa! Agora, espere-o ca...
* Tens razo... - acedeu Isaac Eliot - Leonor fez de mim um sandeu! Era isso o
que eu devia fazer... Porque mo no aconselhaste?
* Quando? o sr. doutor tem a notcia; sai da loja de bebidas onde lha dei, manda-me
chamar a sua casa, leva-me com as criadas para a saleta, entra na alcova de sua
mulher, e faz o destampatrio que se viu!... Quando nos mandou entrar, que remdio
havia? Ora agora, sua mulher est aqui est, em casa do desembargador Santa Marta ou
da irm do frade. E depois? Bem sabe que ela, rodeada de criadas que detesta, h-de
estar sempre a recear que a envenenem; v-se s, sem ningum que a proteja, e safa-se.
E depois, pergunto eu? Divrcio. E a fortuna? a quem  que a d a lei? j consultou?...
A vai uni conselho, quer?
* Dize l - aceitou o amo bastante abalado pelas ideias jurisperitas do pajem.
* V ter-se com Alberto Borges, e com a irm do frade. Conte-lhes o acontecido.
Diga que o cime foi a causa do seu destempero. Pea  mulher do Alberto que venha
aqui fazer companhia a D. Antnia, ou a leve para sua casa por algum tempo. Mostre-se
ofendido do adultrio; mas diga que est disposto a desculp-la, atendendo  maneira
como se fez o casamento. O senhor tem palavriado quando quer. O grande caso  evitar
que sua mulher fuja, e v pr em alarme os amigos do pai e os inimigos do doutor, que
so muitssimos, bem o sabe. Deixe passar algum tempo. No venha a casa, v fazer
uma viagem a Frana.
*  impossvel! - refutou Eliot - No posso viver longe de Leonor...
Pois se quer estar bem perto dela, v ser hspede do Toms Darcet, que ele h-de
estimar muito, como bom explorador que .
* No ofendas o meu amigo!
* Pelo contrrio, gabo-lhe a esperteza. No me disse vossa merc que j l vo dez
mil cruzados, afora a baixela de Prata e ouro? E o mais que h-de ir... Enfim, j agora 
aguentar-se meu bom amigo. Convm-lhe o conselho?
* No vejo outra sada... Tens razo... O divrcio no me convm. Esmagava-me
a justia, que  portuguesa, e de mais a mais esta no desembargo o tutor, e o frade  todo
do patriarca, e o Frisch  hspede do Bluteau que o rei respeita...
* Tudo isso, e uma coisa de que vossa merc se esqueceu; e  que o testemunho
dos seus criados no prova nada contra sua mulher... Ande-me, doutor! V falar  mana
do frade.
Entretanto, Antnia escrevia  irm de Frei Andr pedindo-lhe que sem demora
instasse com o irmo no recolher-se a um convento; porque se via na maior afronta, e no
extremo apuro de morrer ou matar-se.
* Mas quem me levar esta carta? - dizia ela, suspendendo a escrita..180 E, descaindo a face sobre o papel, chorou em crebros soluos.
Ouviu ento um bater surdo e pressuroso na porta. Foi abrir, e viu a criada Simoa
dos Santos, que lhe disse muito baixinho, guinando os olhos a todos os lados:
* Minha senhora, olhe que eu fui obrigada a escutar o que vossa senhoria disse.
Perdoe-me pelo amor de Deus... Venho saber se quer jantar, que ainda est em jejum,
coitadinha...
* No quero nada... mas... fazes-me tu um favor, Simoa?...
* Sim, minha senhora...
* Levas-me esta carta  rua da Oliveira, a casa do sr. Alberto Borges?
* Mas as outras vem-me ir... e depois...
* No importa... vai... eu vou entrar num convento, e levo-te comigo...
A cozinheira aceitou a mensagem; e com o pretexto de ir ver sua me, foi  rua da
Oliveira..181
XLV
Quando Antnia esperava em nsias a resposta do bilhete, chegou a irm do
trinitrio com seu marido.
* Bem hajam que me acudiram! - exclamou ela, abraando-se na amiga. - Eu j
temia que te no dessem o meu escrito...
* Estava l teu marido quando o recebi.
* Meu marido!... ah! foi contar-te que eu... O filha! eu estou inocente... O teu irmo sabe que eu estou inocente...
* Sabemo-lo ns tambm - afirmou Alberto Borges - alis no estaramos aqui,
sr D. Antnia. O sr. Eliot pareceu-me atribulado; mas, contra o que era de esperar, ia
arrependido do feio espectculo que deu aos seus domsticos. Minha mulher,
convencida da virtude da sr D. Antnia, disse a Eliot: "sua esposa est pura e inocente
como os anjos". Ele quis saber em que bases assentava a nossa convico. Disse eu que
meu cunhado Frei Andr Guilherme possua os segredos das duas conscincias
suspeitas a Eliot. Ele ento mais consternado se mostrou, e pediu-nos que em seu nome
vissemos rogar a sua esposa que lhe perdoasse. Diz mais ele que, envergonhado do seu
pssimo proceder, no ousa aparecer  sua vitima, e talvez v passar alguma temporada
em Frana.
* E eu ento - acrescentou a irm do trino - pedi-lhe que te deixasse ir para a nossa companhia...
* Muito agradecida, minha querida amiga... - atalhou Antnia - eu quisera antes
ir para um convento.
* Meu irmo Andr j deu alguns passos nesse sentido; mas encontrou embaraos;
 preciso justificar a separao, ou obtt3r consentimento de teu esposo.
* Porque no lho pede, sr. Alberto? - rogou Antnia.
* Pedir-lho-ei. Entretanto, venha a menina para nossa casa; e mais devagar meditaremos, de harmonia com meu cunhado.
Nessa mesma hora, Antnia saiu de sua casa, com uma pequena arca da roupa de
uso. Deixou todas as preciosidades em jias, j muito desfalcadas por ignominiosas
subtraces do marido. As Caldeironas, exceptuada Leonor, e as madrilenas da
companhia de Antnio Rodrigues, enfeitavam os pulsos e as orelhas com as manilhas e
pingentes de Maria Isabel Traga-malhas, e de Angela Mendes Nobre, filha do regicida.
Quanto a Leonor, essa, de todo alheia aos conluios de seu cunhado, continuava a
requestar o primo Lus. Ouvira dizer muitas vezes  mana Maria Teresa que Antnia
tinha leso mortal, e que Eliot ficaria vivo muito cedo com cento e cinquenta mil
cruzados.
* Pobre Antoninha! - dizia Leonor compadecida - ma estrela lhe deu a sorte! Eu
folguei que alguma mulher me livrasse deste homem odioso; mas no queria que fosse
ela, to meiga, to galantinha! Adivinhava o seu destino aquela tristeza que a dominava
sempre!...
* Deixe-o enviuvar.- observou Darcet - e ver a mana quantas formosas de Lisboa o disputam.
* Pode ser; mas eu, se fosse uma dessas formosas de Lisboa, e tivesse lacaio,
mandava-o baldear  rua, se ele me subisse a escada para me oferecer a sua mo e o
saco dos cento e cinquenta mil cruzados; e, no tendo lacaio, como no tenho, fazia-lhe
assim...
E tirando do avental de seda azul um leno branco, salivou nele com uma visagem
de nojo..182
Estas palestras em famlia eram s vezes interrompidas por Isaac Eliot.
Uma vez, logo que ele arrastou cadeira para junto do canap em que as senhoras
recebiam, perguntou-lhe Leonor:
* Como est Antoninha?
Era a primeira vez que o interrogava a tal respeito.
* Penso que est melhor - disse ele.
* Pensa! Est ou no est?
* Eu no a vejo h um ms, minha senhora.
* Essa  boa! que marido  o sr. Eliot que est um ms sem ver sua esposa?!
* Folgo muito que a sr. D. Leonor seja bastante inocente para ignorar os motivos.
* Agradeo-lhe ento que mos no diga...-E, decorridos alguns minutos, ajuntou
voltando-se para as irms: -  triste coisa que haja nos casamentos estas ms e
misteriosas razes que obrigam dois esposos a no se verem um ms!... O sr. doutor
Eliot, decerto sem querer, obriga-me a passar esta noite em claro; como tenciono
brevemente ser casada, quero antecipadamente calcular onde esto ocultos os baixios de
tais naufrgios.
Desta linguagem transparecia o malicioso propsito de se fazer riscar do nmero
das formosas que seu cunhado imaginara a competirem na conquista do vivo.
Eliot gaguejou uns dizeres to entalados nos gorgomilos, que tresandavam a
parvoces de namorista bisonho.
A menina retirou-se para uma janela da sala de espera quando soaram onze horas.
Maria Teresa foi repicar nas teclas do cravo uns sarambotes sevilhanos. D. Joana, a
mais velha, foi para outra sacada com um prebendado da real baslica, seu primo em
quarto grau, e, ao mesmo tempo, pai duns rapazolas que estudavam em vora, e vinham
atravs deste contorcido parentesco a ser filhos tambm daquela sr D. Joana Caldeiro,
Eliot acercou-se de Darcet, que parecia dormitar, afoufado em uma poltrona que
fora do uso do dr. Francisco Xavier.
* Ouviste? - perguntou Isaac.
* O qu?
* O que tua cunhada agora disse?
* No; que disse ela?
* Que ia casar.
*  tola minha cunhada... No faas caso... O Lus Mendes j anda a namorar a
Maria Incia, cunhada do general Pedro de Sousa, senhor do Guardo. O negcio est
por minha conta. Quando for tempo, aparece; por enquanto, ests casado, homem.
Eliot abeirou-se do parapeito de uma janela, e viu que Leonor conversava com um
encapotado. Deteve-se indelicadamente na janela; e a menina, irritada pela espionagem,
inclinou-se para o vulto, e disse:
* Porque no sobes, primo Lus?
*  tarde, prima Leonor.
* Ento at amanh, que est muito fresca a virao do mar. Eu amanh respondo
 tua carta.
Eliot recolheu-se, pegou do chapu e despediu-se desabridamente.
Darcet acompanhou-o at  sege.
Quando desciam para o ptio, disse-lhe o mercador de veludos e damascos:
* Que tens?
* Tenho a convico de que me tens logrado, Toms...
* Que ?
* Tua cunhada mata-me; mas... o teu oprbrio h-de ser pblico.
E meteu-se  sege, mandando largar a trote..183
O seu nico amigo nas aflies enormes era Henrique Rutier. Foi aldravar-lhe 
porta na rua de S. Jos. F-lo erguer. Relatou-lhe o sucedido em casa do ladro Darcet, e
da ladra da mulher. Adjectivando-os deste feitio, fora justiceiro pela primeira vez na sua
vida.
Rutier ouviu-o, bebeu algumas taas de uma aguardente que Eliot deglutia com
frenesi, como se estivesse bebendo o sangue do tredo patrcio, e disse:
* Amigo meu sr. doutor. se vossa merc hoje fosse livre e rico, a sua vingana
havia de ser redonda, perfeita, digna de um filho das Glias. Sabe o que eu faria? eu?
este homem que aqui v? Raptava-lhe aquela mulher como o boi raptou Europa;
entregava-lha nas fronteiras, e dizia-lhe: "leve-a para a Franca ou para o inferno; e,
quando se enfastiar dessa boneca de cera, mande-a de presente ao primo Lus Mendes
ou ao diabo".
* Falas srio, Rutier? - exclamou Eliot, empunhando um copo de aguardente.
* To srio como quando espreitei o defunto boticrio por detrs da vidraa...
*  tua sade, meu nico, meu adorado amigo! - bradou Isaac emborcando a taa,
e quebrando-a na mesa. - Tu s o meu crebro, s o meu brao, s o meu corao que
adora e que se vinga, s a garra poderosa do meu rancor, s o homem que eu desejara
ser, quando houvesse outro que me estimasse quanto eu te quero.
E, embriagado de dio, de lascvia e aguardente, beijava-o nas faces e nos olhos,
abarcando-o pela cintura..184
XLVI
Dois meses depois, em Outubro de 1731, Isaac Eliot parecia reconciliado com a
esposa, que voltara para a rua do Outeiro, e achara nas duas criadas, Antnia e Maria,
cortesias, submisses e respeitos desacostumados. No obstante, Simoa dos Santos,
muito a ocultas, segredava-lhe:
* Olhe que elas murmuram muito da senhora. Eu desconfio de alguma tramia. O
Henrique, antes da senhora vir para casa, fechava-se com elas l em baixo, e o sr. doutor
sei eu que as tem presenteado com coisas de oiro, e a mim no me deu o valor de um
chavo galego. Tenha cuidado, senhora...
Antnia via a mido Frei Andr Guilherme, e pedia-lhe sempre que, pelas chagas
de Cristo, lhe alcanasse a licena para entrar no convento. Ia a Odivelas e pedia a
mesma proteco a Paula Perestrelo. A freira, posto que desamada do rei, correspondia-se
com alguns ministros. D. Joo V, o lbrico beato, viu a carta que solicitava a licena,
e respondeu:
* No permita Deus que o imprio intervenha incompetentemente nas atribuies
da igreja. No nos compete a ns, rei fidelssimo, entender com os direitos outorgados
aos maridos pelo sacramento do matrimnio.
Dizia-o ele, o amante de D. Lusa Clara de Portugal, esposa de D. Jorge de
Meneses, e me dos Meninos da Palhav!
Neste ms de Novembro fazia anos D. Antnia. Eliot convidou algumas famlias.
Concorreram, entre as mais distintas da colnia francesa, algumas nacionais: as duas
senhoras Caldeires, sem a mana Leonor, que estava constipada; as irms e a me de
Frei Andr Guilherme; Alberto Borges com sua mulher e irms; alguns professores de
cirurgia do hospital real com suas esposas.
Durou o sarau at ao dia. A vizinhana ouvia as msicas maravilhada: era a
primeira festa que se presenciava naquela opulenta casa!
Antnia, na florescncia dos dezasseis anos, parecera triste, desmerecida de cores
e brilhantismo de olhos. No danara nem fizera parte dos jogos. Cumpria
primorosamente os deveres de senhora festejada pelos seus hspedes; e, assim que a
dispensavam, acantoava-se com a sua amiga, irm de Frei Andr.
* Nem sequer podes fingir-te alegre, Antnia! - disse-lhe a outra.
* Fazes-me lembrar umas palavras que meu tio Francisco dizia muitas vezes:
Triste  minha alma at  morte...  a primeira vez que os meus anos se festejam, e
adivinho que  a ltima. De hoje a um ano, lembra-te desta hora e desta profecia.
* Que ideias, santo nome de Jesus!
* Vai l dentro, ao meu quarto, e l esta carta. Recebi-a hoje j de noite. Olha que
prenda de anos! Depois, guarda-a, e amanh manda-a a teu mano, sim?
* De quem ?
* Da Leonor Caldeiro.
A carta continha isto:
Minha boa e infeliz Antoninha. No a vi h ano e meio mas todos os dias me
lembro da sua desventura. Bem queria eu escrever-lhe muitas folhas de papel; mas
falta-me tempo, e a Possibilidade de o fazer em segredo. Resumo em poucas linhas o
que s em muitas poderia explicar. Fuja da companhia de seu marido o mais breve que
possa. Ele  capaz de a matara como diz meu cunhado que j o fez a outras. H uma
senhora que o despreza, e ele persegue com vilssima impertinncia. Esta senhora.185
acaba de receber uma carta dele em que lhe pede que seja sua esposa quando ele
enviuvar. A respeito do casamento com Antoninha d infames desculpas. Se Eliot no
fosse um malvado sem igual, eu cuidaria que ele estava embriagado quando escreveu
tal carta a uma criatura que o abomina e desfeiteia sempre que o pode fazer como
senhora. Quisera eu enganar-me, - permitisse-o Deus! - mas receio muito que
Antoninha seja assassinada com veneno, se no foge desse algoz.
Sua do corao - Leonor da Veiga Cabral.
Frei Andr Guilherme, lendo esta carta, comunicada pela irm, considerou-a
documento valioso para mover o patriarca a favor da enclausurao de Antnia.
Apresentou-a a D. Toms de Almeida, e obteve do prelado a promessa de deferir
ao requerimento da esposa de Eliot. Retirou-se contente o trinitrio, e facilmente
transmitiu a Antnia a boa-nova. Todavia o patriarca, por saber que el-rei estimava o
mdico francs, quis esgotar os recursos conciliadores, mandando chamar Eliot. Exps-lhe
as reiteradas solicitaes que se lhe faziam para dar refgio a sua mulher em con-vento;
deplorou que ele desse motivos a isso; insinuou que tinha em seu poder provas de
um plano to singularmente odioso que tinha pejo de o referir. Disse, finalmente,
contestando as redarguies do francs, que o procurador de Antnia Xavier era um
frade de exemplares virtudes que no podia mentir, e muito honrava a sua cliente.
* Fr. Andr Guilherme? - atalhou Eliot.
* Sim, senhor.
* E quem disse a vossa eminncia que esse frade no  amante...
* Amante?... de quem?...
* De minha mulher.
D. Toms levantou-se colericamente majestoso, e bradou:
* Saia desta casa! Esconda-se de mim, caluniador monstruoso! Eu podia esmag-lo
com uma carta, que tenho aqui, em que o sr. Eliot  exactamente retratado por quem
lhe conhece de perto a alma aleijada pelos vcios! Eu j sabia da voz da fama as proezas
da sua vida. Agora as acredito, e me pejo de o receber nesta sala.
Eliot sara s recuadas como se cada frase do trovejante prelado lhe fosse um p
arremessado ao estmago.
Como de costume foi apear-se em casa de Rutier; e, em curto dilogo, discutiu-se
e fixou-se o ltimo e decisivo plano: matar Fr. Andr Guilherme em flagrante adultrio
com D. Antnia Xavier!
Henrique, fiel ao seu propsito de reformao em matria de homicdio, ratificou
energicamente que no matava ningum.
Eliot dispensou-o; mas exigiu-lhe que escrevesse cartas amorosas de sua mulher
ao frade, e as respectivas respostas.
Pediu Rutier a letra do trinitrio para exame e ensaio. Eliot ofereceu-lhe uma
quitao redigida e escrita por Andr, quando ainda era estudante, em que sua tia se
dava por paga e satisfeita das mensalidades que ajustara com o doutor Francisco Xavier
pela educao de sua sobrinha. No havia outro modelo. Rutier desdenhou-o como
safado e ruim de imitar.
* Estas cartas ho-de ser examinadas por peritos? - perguntou Rutier.
* Veremos, quando o frade estiver no inferno  espera do patriarca...
A irm de Fr. Andr costumava festejar os anos de seu esposo em 18 de
Novembro com uma merenda  portuguesa antiga. Reunia Alberto Borges a mais
selecta poro de comerciantes, e muita parentela da classe mdia. Depois de um lauto
banquete, danavam-se danas honestas, minuetes graves sem o desnalgado das.186
sarandas e sarambeques. Concorriam ali religiosos de boa conta, e alguns da Santssima
Trindade, convidados pelo cunhado do respeitvel Borges.
Eliot foi convidado com sua esposa. Aceitou muito agraciado o convite, e
recomendou a Antnia que comprasse vestido novo e se enfeitasse a primor.
* Dizem por a, menina - ajuntou ele - que andas muito desmazelada no teu
vestir, porque vives desgostosa. Quisera eu que desmentisses esta gentalha. A ests tu
vestida sujamente. Essa saia de cetim branco matizada conheo-ta h quatro anos: est
surrada que faz nojo! esse mantu de baetilha seria insuportvel nos ombros de uma tua
criada. H mulheres que por dentro e por fora afugentam os maridos. E esse penteado?
quem te penteia?
*  a cozinheira.
* Bem se v... O penteado  como as iguarias que ela faz... Caiu-te no goto esta
Simoa! At a improvisaste cabeleireira!...
Era este o estilo de Eliot quando mais forcejava por embair a esposa com jeitos
carinhosos.
Ela escutava-o silenciosa, e ouvia o arquejar alvoroado do seu corao. Tinha-lhe
medo. Pedia a Simoa que estivesse perto dela, quando o marido entrasse, e no comia
sem Eliot lhe dar o exemplo.
* Tem cuidado que me no deitem peonha na comida... - dizia Antnia  cozinheira, que nunca saia da beira do fogo.
No dia 18 de Novembro, estiveram na festa natalcia de Alberto Borges. Eliot
cumprimentou Fr. Andr Guilherme, com expresses de respeitosa e antiga
considerao. O frade respondeu cortesmente, sem lhas retribuir. E evitava encontr-lo
na sala.
Ao fim da tarde despediu-se de Antnia, a quem singelamente cumprimentara. No
acto de se despedir, ela apertou-lhe a mo, e murmurou:
* Ainda no?
* No dia 1 do ms que vem, recolhe-se ao convento de Santa Ana - disse o frade.
* Graas, meu Deus! - exclamou ela radiando alegria dos olhos, e apertou-lhe,
segunda vez, a mo convulsamente.
Neste acto, caiu-lhe unia luva. Fr. Andr abaixou-se a erguer a luva, que beijou e
restituiu com a polida graa e cortesos requintes daquele tempo.
Desde este dia at 26 de Novembro o mdico jantou sempre com sua mulher.
Uma ou outra vez, perguntava-lhe:
* Que dizias tu a Fr. Andr, quando lhe apertavas a mo sacudindo-lha  inglesa?
* Nem me lembro, Isaac...
* Que esquecida!...
E desandava logo para o gracejo.
Na manh daquele dia 26, Eliot madrugou em casa de Rutier, e disse-lhe:
* H-de ser hoje.
* Seja - condescendeu o outro mal-humorado.
* Deixa ver o bilhete...
* No est perfeito; mas remediar. A o tem.
Eliot leu:
Meu caro amigo. Estou sozinha hoje s 4 horas e meia. Ele vai para fora da terra
s 3. S vem depois de amanh. Temos duas tardes livres. Se hoje lhe no falo, se me
no acode, dou um passo desesperado. Venha infalivelmente. - Sua infeliz Antnia.
* Est bom, perfeitamente bom - aplaudiu Eliot - E as cartas do frade? e as dela?.187
* Seis de cada um. As dele no me agradam. Tem pssima letra, muito engaratujada... Isto  muito difcil...
Eliot confrontou a quitao com as cartas falsificadas; alongou os beios, e
desdenhou:
* A falar verdade, no foste feliz... mas servem... Mau ser se isto vai aos tribunais...
* Oh! se vai! - emendou Rutier - O senhor que cuida? Tudo nos h-de ser preciso
para nos salvarmos... se nos salvarmos...
E o flagrante delito?... - replicou o mdico - Pois no entendes, homem? Estas
cartas so a prova do crime que eu vou punir...
* Doutor! - contraveio Rutier pensativo - doutor, este mundo  governado por Deus ou pelo diabo...
* Sim? tens medo?
* Tenho, palavra!
* Que se tem importado Deus ou o diabo com as tuas aces?...
* Ainda no  tarde... - murmurou o celerado forando um sorriso de incredulidade..188 XLVII
s dez horas da manh, deste dia, Antnia do Sacramento subiu esbaforida a
encosta do castelo, e entrou na portaria do convento da SS. Trindade. O irmo porteiro,
a quem perguntou pelo padre Fr. Andr, respondeu-lhe que estava no altar dizendo
missa.
* Pois eu no me posso demorar. Entregue-lhe vossa paternidade esta carta que
vem da casa da irm.
Fr. Andr erguera-se naquele dia com o propsito de escrever a Antnia, a fim de
sossegar de uns sustos que lhe desvelaram a noite. Josse Fnisch havia-lhe dito, no dia
anterior, que estava de vspera de viagem para Berlim, no tendo mais nada que fazer
nem que esperar em Lisboa. Estas palavras, ponderadas pelo frade, figuraram-se-lhe
misteriosas. Tempestuou-lhe na alma a conjectura de que Antnia se evadia com Josse,
no lhe restando, pois, a ele mais nada que fazer nem que esperar em Lisboa.
Abriu a carta que lhe entregou o porteiro da parte de sua irm. Quando chegou 
terceira linha, e leu: "Se hoje lhe no falo, se me no acode, dou um passo desgraado"
pensou consigo aflitamente:
* No me enganei! Josse Fnisch quer arrebat-la!
Entrou na cela e escreveu uma longa carta ao prussiano, cheia de queixumes, de
censuras, de mximas divinas e humanas; e afinal, depois de muito discursar no vago da
sua conjectura, pedia-lhe em nome de Deus que no infamasse Antnia usurpando-a ao
santurio onde ia asilar-se, depois de tantos estorvos, aflies e sustos da morte.
Josse tinha partido para Sintra com o naturalista Merveilleux, a colher exemplares
da Flora da Serra. O padre Rafael Bluteau recebeu a carta, e disse ao portador que seria
entregue no dia seguinte.
Frei Andr, ainda assim no sossegou, supondo que o padre hospedeiro de Frisch
era tambm enganado.
Por volta das quatro horas e meia entrou na rua do Outeiro; e, como nunca
houvesse frequentado a casa do doutor Francisco Xavier desde que ele se estabelecera,
ignorava a residncia de Antnia. Entrou em uma loja de mercearia perguntando onde
morava o doutor Eliot.
*  acol - apontou o merceeiro - mas, se o vai procurar, no o encontra, que saiu
de sege s 3 horas.
O frade agradeceu; e, quando se avizinhava da casa indicada, viu por entre uma
cortina de janela de peitoril a cabea de Antnia, olhando para ele e logo debruando-se
muito agitada no peitoril.
Aproximou-se da porta, e tirou pela campainha.
Antnia pensara que ele ia passando; mas, ao v-lo parar e bater, exclamou:
* Que ser?...
E correu ao seu quarto para se vestir com menos desalinho, porque sucedera estar
to negligentemente trajada que baixara as cortinas para no ser vista da vizinhana
fronteira.
Antnia do Sacramento levou-lhe recado de que estava ali o sr. Fr. Andr
Guilherme, e que lhe abrira a porta da cozinha porque no encontrara a chave da porta
principal.
Traspassou-se-lhe de terror a alma; a custo se tinha em p; saiu como estava 
porta da cozinha, e exclamou:
* Que motivo o traz aqui, sr. Fr. Andr Guilherme?
E, sem dar tino do que fazia, encaminhou-se com ele para a sala de visitas..189
* Que motivo me traz aqui? pergunta a sr D. Antnia! pois no me escreveu a chamar-me?
* Eu!...  Virgem! socorrei-me! No lhe escrevi!  uma traio que lhe fizeram...
Estamos perdidos!
E caiu quase esvada de alento sobre uma preguiceira. E ento o frade, sentando-se
ao lado dela, com a serenidade dos legendrios mrtires, pegou-lhe da mo e disse-lhe:
* Se  uma traio, vou ser... ou vamos ser assassinados... Deus se compadea de
ns, e no permita que a nossa memria seja caluniada!
E, erguendo-se, ajoelhou diante dela, e prosseguiu com muita uno de lgrimas:
* Antnia, levantemos as nossas almas ao Altssimo, que v a nossa inocncia,
roguemos-lhe que nos deixe ainda encontrar na sua divina presena....
* Se pudesse fugir!... fuja, sr. Fr. Andr!... - balbuciou ela emergindo da atrofia com desesperado mpeto.
* Os inocentes no fogem! - disse ele - e, quando a porta da sala se abria de
repelo, acrescentou: - Adeus!
Era Isaac Eliot, empunhando duas pistolas. Entrou e rodou a chave da porta. No
patamar, da parte de fora, ficara Henrique Rutier.
* Apanhei-vos! - bradou o francs.
E desfechou uma pistola ao peito de Fr. Andr, que, aps uma breve tremura, caiu
sobre o dorso. Desfechou a outra ao peito da esposa; mas errou o tiro. Antnia fugiu,
gritando, para o interior da casa. O marido arrancou do bolso uma faca de amputaes e
cravou-a no peito do padre, at que a lmina do instrumento, esgarando pelos ossos, se
dobrou e partiu. Depois, correu em busca de Antnia, que quisera salvar-se pela porta
da cozinha, que encontrou fechada. Eliot ferrou dela pelas madeixas desprendidas,
levou-a de rojo  sala de jantar, e a, quando ela pedia a brados e de mos postas que a
no matasse inocente, a voz ia-lhe esmorecendo, e soltou o derradeiro gemido ao
vigsimo stimo golpe de espadim.
*
Em respeito  sensibilidade de quem l esta pgina, escrita com a rapidez de uma
angstia que me oprime, abstenho-me de particularizar o martrio de Antnia. H a
barbaridade que atinge o inverosmil! Quem tiver nimo frio e curiosidade das supremas
perversidades que se passam  face de Deus, leia o DOCUMENTO 1.
Quem leu o Auto de exame de corpo de delito prescinde de saber como Eliot,
voltando da carniaria da esposa, acabou de matar Fr. Andr Guilherme. Do processo e
depoimento de testemunhas consta, como o leitor h-de coligir dos subsequentes
documentos, que o dilacerado trino, ao receber os ltimos golpes, murmurava:
* Eu no o ofendi na sua honra, sr. Eliot!
Henrique Rutier instava pela fuga, puxando pelo amo, quando ele ainda amolgava
a cabea do cadver com a coronha da pistola j desaparafusada.
Simoa dos Santos era ento retida pelas duas criadas e levada a rastos para um
recinto interior, com ameaas de a matarem, se gritasse. Os vizinhos, atrados pelos
tiros, enchiam as janelas, e desciam s testadas da sua casa. O povo apinhava-se  porta
de Eliot, quando ele, com Rutier, a passo rpido, ganharam a Cordoaria Velha, e se
embarcaram na sege, mandando a toda a brida para a portaria de S. Domingos.
A rel seguia de longe a sege, vozeando gritos sem significao.
 portaria de S. Domingos, Eliot, apeando com o pajem, pediu ao padre porteiro
que lhe desse guarida porque era perseguido por haver matado sua mulher adulterando.190
com um calvinista. O prior dominicano, conquanto fosse sincero inimigo de calvinistas
e adlteros, respondeu que no dava asilo a fugitivos qualquer que fosse o motivo.
O povo estacara em volta da sege. A agresso era s de longe e a gritos. Eliot e
Rutier passaram inclumes atravs da multido que lhes abriu passagem, quando o
francs bradou:
* Arredar, canalha!
* Para Santo Anto! - bradou Rutier ao muxila.
O porto da casa jesutica estava fechado, porque j haviam soado as Av-Marias.
* Para a igreja de S. Lus - ordenou o mdico.
Aquele templo dos franceses, privilegiado com grandes foros, demorava a curta
distncia de Santo Anto. Estava ainda aberto, porque os padres iam ali rezar vsperas
em comunidade.
Entrou Eliot e disse que pedia asilo para dali poder, ao abrigo da gentalha, avisar
o cnsul francs. Receberam-no; e, atentas as razes que dava do seu desforo, os
circunstantes houveram piedade do seu infortnio.
E ali pernoitou.
A multido rarefez-se, tirante dois pretos que velaram a noite sentados na escada
da igreja: eram os dois escravos de Antnia, que Henrique Rutier vendera e entregara
traioeiramente ao comprador navegante. Haviam saltado em terra naquela tarde. Iam
v-la, com licena do senhor, quando o povo clamorosamente gritava que o francs
matara a mulher. Nortearam-se pelo alarido da turba, e chegaram a S. Lus, quando a
porta da igreja era trancada. Quedaram-se ali apostados a matarem Eliot.
Ao outro dia, o cnsul francs foi a S. Lus. Ouviu a exposio do seu patrcio, viu
as cartas atribudas ao frade, achou brioso o desforo, e mandou arvorar a sua bandeira
na fachada do templo. O povo ia e vinha; mas os negros permaneciam.
Ao anoitecer do dia 27, o corpo de Fr. Andr foi conduzido  claustra do seu
convento, e o de Antnia Xavier  igreja dos Mrtires. Afora alguns padres que
responsaram o cadver da adltera, o coveiro que desterroava uma sepultura, e alguns
transeuntes curiosos que desejavam ver a cara da morta, apenas havia uma pessoa que
chorava: era Josse Frisch.
Despejado o templo e apagados os crios, o estrangeiro estava ainda de joelhos ao
p do esquife. E, quando o coveiro chamou o ajudante para transportar a tumba de sobre
o catafalco raso, Josse Frisch pegou de um lado do caixo, e disse:
* Eu ajudo-o.
O coveiro contemplou-o, e disse entre si: "Era talvez irmo da pobre criatura!"
Ao erguerem o esquife, o sangue escorria das junturas. Frisch embebia no leno as
gotas que estilavam do seu lado. Quando o atade bateu em cheio no fundo da cova, o
moo, hirtos os cabelos e as faces lvidas, curvou-se  ourela da sepultura, e disse na
voz inaudvel de sua alma:
*  mrtir! perdoa-me! Resgata deste mundo o desgraado que te matou!.191
XLVIII
Ao cabo de cinco dias, no primeiro de Dezembro, ainda os criminosos estavam na
igreja, protegidos pelas guias francesas.
Eliot havia enviado dezenas de cartas, relatando a fidalgos, eclesisticos de alta
jerarquia e a desembargadores o adultrio de sua mulher, colhida em flagrante com o
frade trino. s pessoas mais valiosas enviava cartas de Antnia e de Fr. Andr, e pedia
que lhas devolvessem para provas de sua defesa. Vozes autorizadas divulgaram que
Eliot desafrontara a sua honra. O ministro de Frana pedia s justias portuguesas carta
de seguro para os dois asilados se defenderem nos tribunais.
Quando o reviramento quase geral da opinio pblica chegou aos ouvidos de
Rafael Bluteau contado por Frisch em dilacerante angstia, o ancio pediu ao moo as
cartas que tinha de Fr. Andr Guilherme e as de Antnia. Saiu do leito, onde quase
entrevecera, e, levado por uma sege de mo, foi falar a D. Joo V, e disse:
* O nonagenrio padre Bluteau, antes de sair desta vida, vem dar prego da
inocncia de dois assassinados perante vossa majestade. Antnia Xavier e o padre
Andr Guilherme morreram inocentes. Os matadores esto a ponto de ser libertados
para se defenderem. Que se defendam, real senhor, mas que o faam desde a masmorra
dos grandes facinorosos! Que se defendam; mas que no o ousem diante del-rei, meu
senhor, depois que vossa majestade se dignar ver estas cartas!
* Cartas... de quem, padre Rafael? - perguntou el-rei.
* Do virtuoso frade que defendia a desgraada menina de uma paixo... santa, quanto elas o so na inocncia dos catorze anos.
D. Joo V leu parte das cartas de Fr. Andr, e disse com alegre rosto:
* Veio levantar-me de sobre a alma um peso imenso, padre Rafael! Eu chorava a
religio afrontada por um frade adltero, a quem pouco h abracei pelos apostlicos
servios que nos fez na redeno dos cativos de Argel. V muito confiado em mim,
padre. A inocncia dos infelizes ser proclamada e vingada.
Nesta mesma hora el-rei mandou perguntar ao ministro de Frana com que direito
asilava dois criminosos de tal vulto. O ministro respondeu com as imunidades da igreja
francesa e com a justia do marido desafrontado.
O corregedor, segundo as ordens recebidas, no se deteve a refutar as razes do
ministro. Endireitou com alguns soldados e esbirros para a igreja de S. Lus, e mandou
arrombar as portas.
Apenas o machado rompeu brecha, a multido viu coarem dois negros para dentro
da igreja; e, ao abrirem-se de par em par as portas por ordem do prprio ministro
francs, saiu Eliot amarrado por enleias com os braos para as costas, e cada um dos
negros tinha mo da corda por uma das pontas.
O povo urrou aplausos aos dois escravos. O corregedor quis tirar-lhes o preso para
dar mais seriedade ao acto; mas a arraia-mida no consentiu. Quanto a Rutier, esse,
com os braos livres, foi levado na onda do povo de encontro aos soldados.
O leitor logo ver como os poetas coevos contaram os pormenores da priso de
Eliot.
Entraram no Limoeiro de tropel. A espaos, algumas mulheres de Alfama davam-lhes
saltos de hienas com as unhas aduncadas em garras. Os negros jogavam com o
mdico, repuxando-o pelas cordas. a fim de o defenderem das arremetidas do povo,
mantendo-o em equilbrio. Os escravos de Antnia haviam compreendido e prelibado o
espectculo do carrasco: do contrrio, mat-lo-iam com louvor da multido
Ao mesmo tempo, entravam no Limoeiro as trs criadas de Eliot. Antnia e Maria.192
iam gritando no meio dos quadrilheiros. Simoa dos Santos, chorando, mas sem
exaspero, apenas dizia ao meirinho:
* Eu estou inocente... A alma da minha ama bem o sabe... Ela me defender.
O primeiro alvitre da justia, estimulada pelo monarca, respeitador integrrimo do
Santo Padre, foi pedir a Clemente XII, a requerimento do Fiscal das Ordens, que
permitisse  Mesa da Conscincia e Ordens relaxar o ru  justia secular, sujeitando-o
ao julgamento de uma s instncia, e no  de trs, como era de uso com os cavaleiros
professos. O Pontfice, quatro meses depois. assinava o Breve impetrado: 50 e el-rei
decretava que a devassa baixasse ao corregedor do crime e casa. 51
A Mesa da Conscincia e Ordens fez os autos sumrios ao ru, mandando que
respondesse de facto e direito dentro de cinco dias.
O advogado de Eliot era Noutel de Carvalho Brando, que escreveu uns
miserveis embargos contra a nulidade do Breve. A Mesa da Conscincia, mandando
despir o hbito ao cavaleiro professo, relaxou-o  cria secular.
Abstenho-me de repetir minudncias que constam das peas transcritas do
processo. 52
O escrivo dos cavaleiros notificou a sentena ao ru. Embargou-a Isaac Eliot; e,
tendo j confessado na tortura a inocncia, da esposa, recrudesceu na infamao de uns
Memoriais escritos de seu prprio punho e enviados aos deputados da Mesa. 53
Voltou com segundos e terceiros embargos, sempre desprezados.
O advogado negou-se a escrever no processo, e disse-lhe:
* Recorra ao rei, e depois a Deus.
Escreveu a D. Joo V uma petio lardeada de figuras retricas e clusulas latinas,
com um estilo retorcido em antteses, e velhos artifcios de pssimo gnero desta ordem
de splicas. No h a relevo de frase comovente, nem vislumbre de remorso que fira a
corda da compaixo! A carta, copiada do traslado do processo. dizia assim:
Senhor! Implorando a soberana proteco e Augusta Clemncia de V. Real
Majestade, prostrado aos seus reais ps, se representa Isaac Eliot, cavaleiro professo
da Ordem de Cristo, preso no crcere do Limoeiro desta corte, pelos enormes,
aleivosos e sacrlegos crimes que cometeu, por impulso do seu inquo e mal
intencionado nimo, executando na maior inocncia os efeitos da sua cruel tirania,
confessa a gravidade do seu delito, e reconhece a exmia e magnfica benevolncia de
V. M. com que, sem deslustre da sua justia, tem por dbito a comiserao dos seus
vassalos, principalmente para aqueles que, para remdio de sua prpria vida, recorrem
ao real patrocnio e augustssima piedade de V. M.
Graves so, invictssimo e poderosssimo Senhor, os delitos por que em este
tenebroso crcere me acho preso, e sua prpria graveza  o motivo por que imploro a
vossa augustssima piedade; pois o rgio perdo da Majestade no se emprega nos
benemritos, seno nos indignos. E assim V. M. deve ostentar sua real demncia com os
facinorosos mais execrandos; pois do perdo dos seus mais abominveis delitos resulta
o maior lustre da Majestade, pois esta tanto mais brilha quanto mais benigna com
aqueles a favor de quem se ostenta, e quanto maiores so os crimes tanto mais cresce o
motivo da comiserao, e quanto mais um homem se faz indigno com o labu da sua
culpa tanto mais o Soberano Monarca o avalia por mais capaz do emprego de sua
piedade.
50 Documento 2.
51 Documento 3.
52 Documento 4.
53 Documento 5..193
Pediu David a Deus que lhe perdoasse uma grave culpa, que tinha cometido
contra a sua divina bondade, e fez-lhe a sua petio nesta forma: propter nomen tuum,
Domine. propitiaberis peccato meo, multum est enim. "Senhor! - diz David - heis
perdoar-me o pecado que cometi contra vs, porque  pecado enorme!" Pois esta  a
razo que David alega, esta a causa que aponta? Aponta e alega David a enormidade
da culpa para alcanar a absolvio? No  evidente que as pecados quanto so mais
enormes tanto se fazem mais indignos? Pois porque se empenha David em lhe
encarecer as indignidades quando trata de lhe pedir misericrdias? A razo no 
outra mais que querer David experimentar a Deus muito misericordioso (propitiaberis
peccato meo) porque sabia que tinha Deus por braso de sua majestade olhar muito
para o encarecimento da indignidade da culpa, mostrando-se-lhe muito indigno
(multum est enim). Quer Deus ter neste mundo um grande nome (propter nomen tuum,
Domine); e o logro dos nomes grandes no se granjeia com o perdo de delitos
pequenos, que quanto maior  o delito de quem peca quanto maior  o nome de quem
perdoa: por isso David no fez mais que encarecer a Deus a graveza do seu pecado
para do mesmo Deus segurar o perdo e encarecer-lhe a grande dignidade que tinha
para conseguir a grande misericrdia que esperava.
Da mesma maneira, Serenssimo Senhor, suplico e imploro a vossa real piedade
pelo mesmo mtodo com que o real profeta soube facilitar de Deus as misericrdias, e
assim lhe sirva a V. M. de exemplo o mesmo Deus para me perdoar.
Alegou David a Deus que era enorme a sua culpa multum est enim, para assim
ter melhor despacho a sua splica, e assim eu, invictssima Senhor, confesso e
reconheo a gravidade do meu delito, porque de sua prpria graveza tiro eu o motivo
de o perdo da Vossa real piedade; e, coma Deus ps os Prncipes na terra para
imagem do seu poder, e para sombras de sua soberania, parece e mostra dever ser a
majestade uma na imitao da divina, e como esta para no mundo ter grande nome,
como suplica David: Propter nomen tuum, Domine! deve granjear com o perdo dos
delitos graves a majestade humana, e no deve engrandecer seu nome com os
pequenos.
Nasceu Cristo Rei, e no seu nascimento se lhe chamou SOL: orietur vobis sol: e
por nenhuma outra razo seno porque vinha para perdoar e remir o gnero humano
da gravssima culpa em que tinha incorrido nosso primeiro pai. Intitulou-se sol, porque
nele tudo havia, de ser piedades: tudo nele havia de ser clemncias, e tudo nele havia,
de ser misericrdias: porque um rei com todas estas propriedades  um resplandecente
sol: orietur vobis sol.
Sol racional  Vossa Real Majestade; e assim, debaixo da sua real proteco, se
devem amparar as vidas dos seus vassalos; para crdito de seus luzimentos  que
costumam acumular-se esplendores dos raios de sua real piedade. Grande , Senhor, o
delito que cometi, e to grande que parecer irracional a minha splica a quem lhe
faltar o conhecimento da real demncia de V. Majestade, pois toda a culpa, ainda que
grave, est na esfera do seu real poder, e tanto maior quanto mais digno se faz do
perdo de um tal soberano monarca: pois  todo o delito pequeno a respeito de uma to
grande majestade.
Esta , invictssimo Senhor, augusto Rei e soberano Monarca, a splica com que
humildemente me ofereo aos ps de V. M. No alego para a minha defesa mais que a
mesma gravidade do meu delito para assim ter mais lugar a Vossa real piedade, e a
generoso nimo com que se ostenta vossa augustssima demncia! A minha vida est
nas contingncias do seu ltimo fim, e s na vossa proteco poder encontrar o
melhor remdio, pois o perdoar delitos graves  a maior glria, assim humana como
divina. Esta guarde a V. M. por dilatados anos por que a nao portuguesa se.194
jactanceie em ter um Soberano Monarca, e em sua coroa cada vez mais se acumulem
maiores aumentos e felicidades.
ISAAC ELIOT.195
XLIX
Em uma quarta-feira, 26 de Novembro de 1732, pontualmente no primeiro
aniversrio da morte de Antnia Xavier, a sala livre do Limoeiro foi decorada com os
cortinados da Relao, e o altar, onde os condenados ouviam missa, ornamentado.
Dispuseram-se trs mesas: uma com a cadeira de espaldar e duas cadeiras rasas; outra,
com duas cadeiras de espalda, s ilhargas da mesa; e a terceira com assentos rasos. Na
primeira, sentava-se o prior do convento de Nossa Senhora da Luz, com o seu secretrio
e outro clrigo. Na segunda, abancavam o desembargador Joo Marques Bacalhau, juiz
dos cavaleiros, e relator da sentena da Mesa, com o desembargador Jos Vaz de
Carvalho, corregedor do crime. Na, ltima, estavam o escrivo dos cavaleiros Caetano
da Costa Loureiro, e o solicitador da justia Francisco da Costa Ferreira.
s trs horas da tarde, o cavaleiro Pedro de Castro Correia, vestido com o manto
da ordem, desceu  enxovia, e fez revestir Isaac Eliot com o manto, a espada, o bentinho
e a cruz. O condenado entrou na sala acompanhado de dois padres da Companhia e do
padre Xofreu de Rilhafoles, famoso pelas converses maravilhosas de alguns justiados
a quem assistira.
Eliot e os padres ajoelharam no taburno do altar. O assassino circunvagava os
olhos espavoridos, e pelo hbito da quase escuridade da masmorra cerrava as plpebras
contra a luz forte do sol que se espelhava nas superfcies polidas das mesas.
O cavaleiro Pedro de Castro conduziu Eliot  mesa do prior da Luz, para ouvir ler
a sentena pelo escrivo dos cavaleiros.
* Ajoelhe - disse o cavaleiro ao ru.
Ajoelhado Eliot, o prior proferiu uma orao, e despiu-o do bentinho, hbito e
manto pela cabea, depondo as insgnias sobre a mesa, ao mesmo tempo que o cavaleiro
lhe desafivelava a espada. Seguiu-se outra orao latina pronunciada em toada
plangente pelo prior. O cavaleiro fez ao ru um gesto que se retirasse. Os trs padres
seguiram-no at ao alapo da enxovia. Os da Companhia de Jesus retrocederam, e o
padre de Rilhafoles desceu com Eliot.
Trs dias depois, nos cunhais das praas mais concorridas, lia-se uma pastoral do
vigrio geral do patriarcado em que o ru Isaac Eliot era proclamado sacrlego e pblico
excomungado, reservada a absolvio a sua Santidade.
A substncia deste edital, quando a notificaram ao preso, devia de ser-lhe
medianamente aflitiva, salvo se o padre Xofreu vingara amolecer-lhe as sevas
entranhas.
Interpuseram-se alguns dias concedidos a requerimento de Noutel de Carvalho,
nomeado curador da menor Simoa dos Santos, que era inocente e pedia que a soltassem,
chorando s grades da enxovia.
Em 8 de Janeiro de 1733 reuniu-se a Relao. s 8 da manh, o corregedor Jos
Vaz de Carvalho comeou a propor o processo, e s 6 e meia da tarde foi lavrada a
seguinte sentena 54 :
O que tudo visto, gravidade do caso, disposies do direito e Ordenaes; e,
estando Isaac Eliot confesso em as mortes de que  arguido, no provou de sorte
alguma o adultrio com que se defende, e que neste injusto facto associou o seu criado
Henrique Rutier, os condenam ambos a que com barao e prego pelas ruas pblicas
sejam levados  do Outeiro, aonde em uma forca que se levantar em a frente das
casas, em que cometeu o delito, padecero morte natural, e depois se lhe poro as
54 A sentena vai integralmente copiada no Documento 6..196
cabeas no mesmo lugar em dois postes levantados aonde se conservaro at o tempo
as consumir e os condenam outrossim a que pelos bens dos ditos RR. se pague ao
convento da Santssima Trindade por cada um deles a quantia de dois contos de ris, e
outra tanta importncia para as despesas da Relao; e o restante dos mais bens
pertencentes ao R. Isaac Eliot aplicam na forma da lei aos herdeiros obintestados da
sua defunta mulher, e no caso que no tenha descendentes que segundo a mesma lei lhe
possam suceder, mandam que tendo-os lhe paguem vinte contos de reis em que em tal
caso o condenam para os ditos herdeiros, e aos mesmos passar tambm a fazenda do
R. Henrique Rutier. E as RR. Antnia do Sacramento e Maria Miguel condenam
outrossim a que com barao e prego pelas ruas pblicas costumadas sejam aoitadas
e degredadas por tempo de sete anos para o reino de Angola, e por no se considerar
igual culpa na R. Simoa dos Santos a condenam somente que com barao e prego seja
degredada para o mesmo reino por cinco anos, e pagaro as primeiras duas RR. as
custas dos autos. Lisboa oriental 8 de Janeiro de 1733. Vaz de Carvalho - Costa -
Almeida - Silva - Dr. Pereira e Pinto.
Nesta sentena ressalta uma atroz injustia. Simoa dos Santos  condenada a cinco
anos de degredo, porque, tendo dito que vira sua ama encostar a cabea do religioso,
declarou depois que fora em aco de chorar. 55
Lavrada e notificada a sentena, requereu Isaac Eliot que em ateno ao seu
grau de mdico e s honras que fruiu de cavaleiro da nobilssima ordem de Cristo, lhe
fosse demudada a pena da forca em decapitao. Devia de lembrar-se de uma ironia de
Rutier, quando o pajem teve certas previses da forca.
* Retira l essa palavra forca! - exprobrara o amo - Os cavaleiros professos na
ordem de Cristo no podem ser enforcados.
* Bem sei - replicara Rutier - degolam-nos: a diferena no me parece a melhor
das consolaes. 56
No dia 8 de Janeiro, o alcaide da priso com o padre Xofreu e o padre Lus
Baptista da Companhia de Jesus conduziram o condenado ao Oratrio.
Rutier, acompanhado de outro jesuta, foi levado a oratrio diverso.
Era extremo o abatimento de Isaac Eliot. Reclinara a cabea na espdua do
virtuoso ancio de Rilhafoles, e sentira no rosto o gotejar das lgrimas alheias, as nicas
que olhos humanos lhe deram. Quanto a Henrique Rutier, dispensou-se de amparo, de
lgrimas e de catequeses religiosas. Engolia aguardente a tragos vertiginosos, e,
alquebrado no sopor da embriaguez, desencovava a espaos os olhos esgazeados, e
fitava estupidamente o padre e a imagem de Jesus Cristo crucificado.
Isaac Eliot, no oratrio, pedira papel e tinteiro. Escreveu de alto a baixo duas
meias folhas de papel, e deu cada metade a um dos padres, dizendo:
* Publiquem vossas reverendssimas depois da minha morte o que a escrevi, se eu
o no disser na forca; receio que l no possa ou mo no deixem dizer.
O padre Xofreu e o jesuta leram os papis, e abraaram Eliot. O ancio exclamou
lavado em lgrimas:
* Desa sobre ns a uno das santas palavras, e sobre ti a divina misericrdia!
s duas horas da tarde de dez de Janeiro de 1733, saram do Limoeiro os
padecentes, acompanhados de cento e cinquenta irmos da misericrdia. Ladeavam
Eliot os padres da Companhia, e o padre Xofreu mais  beira dele. Chegados ao Largo
do Esprito Santo, Eliot desmaiou, e foi mister transport-lo to devagar, que soavam as
55 Documento 6.
56 Nota 15..197
Av-Marias quando se defrontaram com o patbulo. O primeiro justiado foi Henrique
Rutier. Subiu a escada da forca desgarradamente, repelindo com a mo os clamores do
sacerdote.
Eliot no erguera a face do seio do padre Xofreu, seno quando ele disse:
* Filho! esperam-te! nimo! invoca o nome de Jesus, at que a tua alma suba aos
ps da sua justia misericordiosa!
Isaac foi amparado at  escada da forca; fez meno de falar, e falou
sonoramente nos seguintes temos:
Senhores! pela hora em que me acho, declaro que desde o dia em que pela
misericrdia divina detestei os erros da heresia em que vivera, e passei  religio
catlica, sempre cri e creio tudo o que ensina a santa Madre Igreja Catlica romana,
em cuja f morro com grande consolao, e desejara que a morte que padeo por
minhas culpas a merecesse padecer em protestao de qualquer das verdades que
nossa Santa Igreja nos ensina; pois morro conhecendo que ningum se pode salvar sem
crer tudo o que cr e ensina a santa Madre Igreja Catlica romana. E, porquanto eu
correspondi to mal a este singularssimo favor que Deus me fez de me tirar da heresia,
caindo em. tal cegueira como foi matar injustamente a minha prpria mulher e a um
religioso da SS. Trindade, ofendendo com isto a Deus, a sagrada religio, a minha
prpria mulher e seus parentes, escandalizando toda esta corte e toda a Europa onde
tiver chegado a notcia deste meu pecado, e o mundo todo; pelo que, agora arrependido
e ajoelhado com as lgrimas nos olhos, peo de novo perdo a Deus Nosso Senhor
desta e de todas as minhas culpas. Peo tambm perdo  sagrada Religio, e aos
parentes de minha mulher, e a todos geralmente, pois a todos ofendi, com to grave
escndalo e mau exemplo, esperando da piedade de todos querero perdoar este meu
pecado, para merecer de Deus o perdo de todas as minhas culpas e eterna salvao,
como espero pelos merecimentos de Cristo Senhor nosso, mediante a poderosa
intercesso de Maria Santssima Senhora nossa e de todos os santos. Peo tambm e
espero da piedade de todos me favoream depois de morto, aplicando-me alguns
sufrgios pela minha alma, para que Deus seja servido lev-la ao eterno descanso pela
sua infinita misericrdia. 57
As cabeas dos justiados, arvoradas nos postes, ai estiveram doze dias; e, quando
o fedor incomodava os moradores da rua do Outeiro, o almotac requereu que as
descessem. Assim se fez s 9 horas da noite de 19, e as levaram ao cemitrio de Santa
Ana, onde estavam sepultados os corpos.
No dia 30 de Maro saram Antnia do Sacramento, Maria Miguel e Simoa dos
Santos a percorrerem as principais ruas de Lisboa. As duas, condenadas a aoutes,
levavam as costas rajadas de sangue. A outra, a compadecida amiga de Antnia Xavier,
ia morrer em Angola e esperava que sua ama lhe alcanasse de Deus a bem-aventurana
dos que padecem sem culpa.  o que ela dizia, chorando; mas ningum lhe dava mais
crdito que os juzes que a condenaram.
Pelo que respeita aos benefcios que resultam da forca, j como espectculo, j
como terror aos instintos perversos, o que apurei dos costumes ulteriores ao suplcio de
Isaac Eliot nada prova em favor da pena de morte. No ano seguinte de 1734, foi
degolado o fidalgo Lus lvares de Andrade e Cunha porque fez assassinar sua mulher
por um mulato; e, no ms seguinte, para variar de sexo assassino, era degolada Catarina
Gonalves porque matara o marido. O sculo da religiosidade, da magnificncia, da
57 Copiado textualmente de uni dos papis escritos pelo prprio punho de Isaac Eliot e adjuntos ao
traslado do processo. (Nota 16)..198
patriarcal, de Mafra, da Capela de S. Roque com seu altar estreado pelo Papa, da
Inquisio, e finalmente da forca! O que seria Lisboa, no sculo XVIII, sem aqueles
correctivos!.199
CONCLUSO
 herana de D. Antnia, Joaquina Xavier concorreram trs famlias de Lisboa,
vora e Tavira que se apelidavam Nobres. Para honrarem a sua parenta reabilitada pela
sentena, os herdeiros requereram a exumao e trasladao do cadver para o jazigo de
Camarate, e lhe mandaram fazer solenes sufrgios na igreja paroquial dos Mrtires.
A quinta de Camarate coube aos Nobres de vora, que a deixaram entregue ao
antigo feitor do padre Francisco Xavier.
Na, espaosa casa hospedava-se alguns meses dos anos, decorridos at 1739,
aquele estrangeiro loiro que as mulheres se lembravam de ter visto atravessar o adro,
quando os sinos festejavam o casamento da fidalga. Achavam-no envelhecido, quando
acertavam de o ver perpassar como um espectro nos arredores da quinta.
Naquele ano de 1739, Josse Frisch, com o auxilio do feitor, abriu o sarcfago dos
Mendes Nobres, e extraiu o crnio sobreposto a outro, deslocando-o facilmente das
vrtebras cervicais.
Depois, abraou o feitor, repartindo com ele das lgrimas que derramava sobre a
caveira da mrtir.
O restante, releiam-no os leitores desmemoriados no prefcio deste livro.
Nesta histria de Antnia Xavier, ltima representante de Domingos Leite Pereira
e Maria Isabel Traga-malhas, a menos desgraada foi Catarina de Castro; porque,
enlouquecendo, morrera, digamo-lo assim, antes da filha; e, acabando de morrer, na
filha do Faial em 1740, nos braos de Paula Perestrelo, no levou desta vida a mnima
recordao.
FIM.200
NOTAS
NOTA 1
"Os guardas no comero nem bebero com os presos, nem com eles tero
comunicao particular, nem falaro s, e quando lhe levarem de comer sempre um
andar  vista do outro... nem traro aos presos nem deles levaro recados a pessoa
alguma, ainda que parea a matria muito justa, nem lhes daro notcia ou nova de
coisa alguma, sob pena de serem castigados com grande rigor..."
Regimento de Santo Ofcio da Inquisio, ordenado pelo bispo D. Francisco de
Castro, inquisidor geral.
NOTA 2
Entre vrios poemas, que circularam manuscritos com referncia ao famigerado
causdico, no vejo alguns dignos de memria seno pelo que valem como provas
histricas. O soneto que algum infame annimo lhe dirigiu, e o confessor porventura lhe
levou, aconselhando-lhe a resposta pelas mesmas rimas, no desmerece a publicidade,
tanto mais que deu azo a que eu possa estampar o nico poema conhecido do neto do
regicida Domingos Leite Pereira. As trovas de um tal Miranda, que parecia
escandalizado da benignidade da sentena, revelam-nos a baixeza dos homens que
emergiam mais  tona do profundo lodaal de ignorncia e malvadez daquele sculo. A
bruteza das almas tinha perversidades congnitas. Mais de uma vez no decurso desta
narrativa nos vir a ponto escavar as podrides dos que ento representavam o talento, a
poesia, a graa. Custa a compreender como naquele sculo avultaram alguns nomes que
no desdouram o encadeamento dos escritores benemritos de nota na histria literria!
Acertadamente disse Rebelo da Silva:
"As letras e as cincias, perfumadas, guindadas e mesureiras, padeciam de lisonja
incurvel, e no se levantavam das contnuas genuflexes aos poderosos, seno para
irem espojar-se nos tablados ignbeis ou em stiras indecentes nos teatros, nas pulhas
mtricas, e nas loas e outeiros dos crios, abadessados e aniversrios", Poderia
acrescentar o eminente literato que nem as catstrofes completadas pela carniaria e
pela forca impunha silncio aos goliardos das trovas, que se desonravam a si mesmos
para justificarem o desprezo que os inutilizava.
Eis o soneto:
A Jorge Mendes Nobre
SONETO
A Cristo foi traidor, como Absalo,
Este, na f mais cego que Tobias;
No tribunal no quis ser Zacarias
Por temer a catstrofe de Amo.
Negou a Trindade que adorou Abrao,.201
Fez mais lamentaes que Jeremias;
E, esquecido do fogo do alto Elias,
O bezerro adorou que fez Aaro.
Foi Judas, mas no foi Judas Tadeu,
Dentro pegou no irmo como Jacob
Em nada com valor de Macabeu.
Agora est mais pobre do que Job,
E d graas a Deus como Eliseu,
Porque o livrou do fogo como Lot.
Resposta de Jorge Mendes
J fui mas no serei Absalo;
J fui, mas no serei cego Tobias;
J sigo a voz do grande Zacarias,
J Mardocheu me fiz; no ou Amo.
J confesso a Trindade como Abrao.
J choro culpas como Jeremias,
J em zelo me abraso qual Elias,
J detesto os dolos de Aaro.
J sigo a Cristo como So Tadeu
J espero ver a Deus como Jacob,
J Jorge Mendes sou, no Macabeu.
J ouo, vejo e calo como Job,
J peo ao cu alentos de Eliseu
E j espero salvar-me como Lot.
Segue a deslavada injria do outro:
A Jorge Mendes Nobre, letrado, que saiu no Auto-de-F, ensambenitado, este
ano de 1708
DCIMAS
Jorge Mendes! espantado
Se mostra o mundo ao presente
Sares ru delinquente
Sendo to grande advogado.
Porm que muito que errado
Andasses nas letras, se
O mais cndido da f
Denegriste com borres,
Ignorante das lies.202
Do catlico A-b-c?
Que fazeis conta, sei,
Que somente se salvava
Quem seguia e idolatrava
De Moiss a antiga lei.
Mas, meu Jorge, conhecei
Que andastes mui temerrio
Em fazer extraordinrio
Conta tal, quanto vos vemos
Esquecido dos extremos
Que houve na cruz do Calvrio.
Conheo que antigamente
A vossa lei dos judeus
Foi muito amada de Deus
E querida grandemente;
Porm depois que inclemente
Vosso povo ousou fazer
Em vil madeiro morrer
A Cristo sem ser culpado,
Sois o povo mais danado
Que no mundo pode haver.
Certo, que pelo apelido,
Sois nobre; porm, sereis
L desses rabinos reis
Descendente mui luzido.
Como tal, bem conhecido
Sois j com grande razo,
Pois a sacra Inquisio
Justamente vos aprova
No por cristo da lei nova,
Mas da lei velha cristo.
Tnheis timbre de letrado,
Dveis conselho a qualquer;
Mas quem d o que h mister
A parar vem nesse estado.
Fazeis com gro cuidado
Razoados cento a cento.
Mas oh! grande sentimento! -
Que tantas razes fizsseis
E da razo no tivsseis
O cabal conhecimento!
Que pouco vos importaram
Os estudos de direito,
Se esses tais, com efeito,
Jamais vos endireitaram?.203
Estes que digo chegaram
A pr-vos numa cadeira;
Mas vossa torpe cegueira
Vos fez pr publicamente
 vista de toda a gente
Com afrontosa canseira.
Se alguma sentena destes
Injusto sempre julgastes,
Pois tanto que a pronunciastes
Demais vos arrependestes.
E, supondo que excedestes
Nisto alguns, no  grandeza
Nem em vs nova proeza,
Porque, sem que vos de susto,
Se sentenciais o justo,
O agravais por natureza 58 .
Poderei supor que lestes,
Algum tempo, as Escrituras;
Porm, ficando s escuras,
Jamais nunca as entendestes;
E, se acaso conhecestes,
Lendo-as, vosso grande erro,
Mais duro que o duro ferro
O sentido lhe trocastes,
Mordendo-as o quanto baste,
Polo que tinhas de perro.
Fizestes servios tais,
Seguindo a lei de Moiss,
Que chegastes desta vez
A alcanar prmios iguais.
Dois hbitos, pois, lograis,
De Cristo, no; pois que, vista
Vosso proceder malquisto
Doutra sorte vo-lo deram,
Porque em vs no estiveram
Mui seguros os de Cristo. 59
Estes tivestes somente,
Meu amigo, por agora:
Vais degredado p'ra fora
Por confessar claramente;
Mas porm, se, impenitente,
Na vida andares errado,
E ensejo de denunciado
58 No percebemos a conceituosa trapalhada desta dcima.
59 Parece querer dizer que o hebreu foi exautorado das Insgnias de cavaleiro da Ordem de Cristo, quando
lhe vestiram o sambenito..204
A vossa maldade busca,
Temo que para a Chamusca 60
Sejais mui bem degredado.
Faciebat Miranda
Trasladarei outra poesia recheada de admoestaes pias em que rev o pesar do
insulso poeta, cuja veia daria mais de si, se lhe chegasse o calor da fogueira:
Ao licenciado Jorge Mendes Nobre, que lhe escreveu um seu conhecido,
depois de ter saldo no auto-de-f, sambenitado, em 9 de Setembro de 1708.
Amigo Jorge Mendes
que todo a nobre metido,
no sei em que texto achastes
ser nobreza e sambenito!
Nobre vos nomeveis;
isso j c era antigo;
mas que haveis de ter hbito
no era c presumido.
Enfim, a vossa nobreza,
j temos bem conhecido,
que  nobreza de merc,
mas no  merc de Cristo,
S se  feita no Calvrio,
quando por seus inimigos
rogou ao Eterno Padre
lhe perdoasse os delitos.
Se vossos pais l se acharam
ajudando ao sacrifcio,
entendei que dai nasce
a merc que em vs advirto
S o que daqui reparo
 que os vossos servios
fossem logo despachados
sem ajuntar f de ofcios!
Grande valimento tendes!
pois sem haverdes requerido
logo hbito vos deram
to galante, e to lindo!
S por um quarto 61 que tendes
60 Fogueira..205
saireis tambm servido;
que fora se os outros trs
foram do mesmo distrito!
Creio, se me no engano,
saireis mais luzido;
se j no  que um s quarto
vos remonta a ser mais fino.
Boas letras aprendestes,
vosso estudo  mui subido,
mas a lei Interpretastes
tal como o vosso focinho.
Em tantos livros que tnheis
nunca achastes nenhum livro
que vos desse o desengano
se o Messias seria vindo? 62
No achastes no Talmude
nem em os vossos rabinos
que o Messias verdadeiro
foi e  o mesmo Cristo?
Dizei, letrado ignorante,
no podeis ter sabido
que a Deus nada se esconde,
nem tambm ao Santo Ofcio!
Aprendestes o Direito,
e ao torto eis seguindo;
assim o deveis fazer
s partes por Jesus Cristo.
S  nossa Ordenao
sabeis dar mil sentidos,
e nunca destes nenhum
 Ordenao de Cristo!
Que diabo vos meteu
na cabea ou no juzo,
ou onde achastes ser bom
seguirdes o judasmo?
P'ra isto com cabeleira
andveis muito garrido!
tanta fartura no corpo,
e na alma to faminto!
61 Um quarto de judeu.
62 O poeta ignorava que Jorge Mendes fosse preso por heresia e no por judasmo..206
Eu no sei que leis fazer
s igrejas to contrito,
aonde no escapveis
dias santos nem domingos!
De que eis a escarnicar
 o que fica entendido!
que alma em corpo de judeu
no  devota de Cristo!
Tambm  vossa mulher
foste dar to bom ensino!...
Enfim como era da casta
era mui certo seguir-vos.
Enfim, j que c tornastes
sejais bom cristo vos digo,
e no queirais usar mal
da piedade de Cristo.
Deixai pelo amor de Deus
os erros do judasmo,
olhai que, se os seguirdes,
vereis vosso enterro em vida.
Pois, se a Misericrdia
vos ensinar o caminho,
vos aquentareis ao fogo
inda que no faa frio.
E olhai que desta sentena
que eu aqui vos profetizo
no suspende a apelao
nunca no suspensivo.
Nem l achareis autor
Com texto algum contra isto
ainda que tenha estudado
pelas leis do judasmo.
Com isto, Deus vos guarde
e vos d to bom juzo
que, emendando os vossos erros,
no tomeis ao Santo Ofcio.
Raro floresceu advogado ilustre sobre quem a Inquisio no sculo XVIII no
pusesse a mo ardente. Entre todos o mais infeliz e mais talentoso foi Antnio Jos da
Silva. Um famoso jurisconsulto, Francisco Trigueiros de Gis, mencionado na
bibliografia do sr. Inocncio F. da Silva, tambm saiu de sambenito em auto-de-f.207
(1720, conjecturo eu). Ao propsito uni dos poetas emritos e encartados nestes triunfos
da religio, poetou desta forma:
.........................................
Eu o vi com saltimbarca
ir para o auto da f.
Por certo ia ento a p
chorando pecados seus
por ter ofendido a Deus;
mas sempre nesta contenda
nunca tiveram emenda
os que so finos judeus.
Que sois o Procurador
da mitra diz o povo;
mas, como sois cristo novo,
eu no o creio, doutor!
Mas, enfim, seja o que for;
eu direi em caso tal,
no falando nisto mal,
que vossa infame nao
nunca teve estimao
mais que s em Portugal.
Quanto  estimao que logravam os hebreus em Portugal, em abono da assero
do poeta, leia-se o Alvar de 1 de Setembro de 1774, onde se afirma muito aqum do
nmero exacto que desde 1540 at 1732 foram penitenciados em autos pblicos 23 068
pessoas, e relaxadas em carne (queimadas) 1454. Aqui no se contam os que morreram
nos crceres, nem os que no safram nos autos-de-f.
NOTA 3
O bispo do Par, D. Fr. Joo de S. Jos Queirs, deixou nas suas Memrias mal
recatado o segredo da morte de Supico. O facto era notrio em Portugal; mas quem
ousaria estamp-lo O autor da Biblioteca Lusitana, seu contemporneo e muito
conhecido, menciona-o como escritor; mas nem lhe diz a naturalidade, nem o ano do
nascimento e o do bito. Preito servil, deferncia as intrigas sanguinrias que lavravam
no grmio realengo.
Escreve, pois, o bispo, a pg. 109 e seguintes das Memrias: "PEDRO JOS
SUPICO DE MORAIS. Este homem matou tiranamente uma mulher em seu estrado no
bairro de Mocambo. Escapou de morrer em Benfica s mos do padre Frei Estvo
Cotrim, monge de S. Bento; porque, estando este padre na quinta de uma cunhada, junto
 quinta do clebre Diogo de Mendona, Corte Real, divertindo-se a ver passar gente, 
janela, em companhia da dita dama - expectvel objecto naquela idade - passaram um
conde e Supico a cavalo; e, como era menos discreto nos seus bons ditos, invejou a
situao do padre, proferindo unia expresso grosseira. Tinha Frei Estvo ao p de si
unia espingarda de que se servia no divertimento da caa; prontamente lanou mo dela,
e os cavaleiros correram  espora fita.
"Noutra ocasio correu perigo o Supico, porque, encontrando-se na varanda dos.208
Caetanos, em Lisboa, com o senhor de Mura, a quem tinha ofendido, este, to louco
como ele, Lanou-lhe as mos ao pescoo, e valeu a ambos o padre Rafael Bluteau e D.
Jos Barbosa, separando este o Supico, e o outro o senhor de Mura.
"Continuou o Supico nos seus desacertos; e, introduzindo-se com o infante D.
Francisco (irmo de D. Joo V) se presumiu que lhe inspirava sentimentos indignos do
nascimento de infante, com infidelidade  coroa, desconfiana que se agravou com a
retirada dele para Inglaterra. Lembrou algum que havia conluio com os ingleses para
virem procurar com poderosa armada o infante, e, ir coroar-se rei ao Brasil, correndo a,
negociao entre Amrica e Londres. No fico por fiador da ideia: direi porm o que se
seguiu.
"Soube-se que estava em Bayona de Frana, Pedro Jos Supico, e algum lhe
armou o laa pelo modo seguinte: chegara de Moambique o padre Antnio Serra,
religioso domnico, sujeito de quem a sua ilustre ordem no far meno nos seus
hagiolgios nem meter entre os vares ilustres. Este homem, capaz de qualquer
empresa, escreveu a Supico, persuadindo-o ser muito preciso conferirem ambos em
Compostela matrias gravssimas; e assim dirigisse sua viagem para tal tempo em que
ele padre Serra o estaria esperando em designada estalagem da cidade.
"Preparou-se Supico, e meteu-se a caminho com um criado unicamente. Oito dias
antes de chegar a Compostela, apareceu em S. Tiago uru moo valente, bem feito,
trigueiro, ou bao, sem criado, montado em um forte e ligeiro cavalo, com espada e
clavina, pistolas e maleta de veludo.
"Este homem aquartelou-se em casa de um clrigo de Barcelos, exterminado do
reino, grande citarista. Ocupou o armado incgnito seu tempo em visitar as estalagens,
perguntando se chegara algum francs a elas, chamado Joo Satur: tal era o nome que
devia ter Supico fora de Frana. At que finalmente chegou uma tarde  hospedaria do
ajuste, perguntou por Frei Antnio Serra; e, como o no achasse, justou um prprio que
imediatamente expediu com carta ao Serra, que se achava em Amarante. Deixemos
caminhar o prprio.
"Na mesma noite, entra o portugus da diligncia ponderada; e, dando com Joo
Satur, lhe falou conforme as instrues amigavelmente, louvando-lhe muito a
sinceridade da gente daquela terra. Convidou-o para, enquanto se fazia a ceia, irem
ambos a casa de umas senhoras que moravam perto, onde veria danar e cantar com
muito agrado e gosto as hijas espanholas. Supico desculpou-se com a fadiga; mas a sua
fatalidade o conduziu por condescendncia aos importunes rogos do fingido amigo.
Fora doe muros da cidade lhe cravou este um punhal com cabo de prata no alto da
cabea; e, montado a cavalo, se fez na volta de Portugal. O assassino e fatal instrumento
daquela ruidosa morte era filho do carcereiro de Lisboa, que morreu enforcado por
ordem de D. Joo V.
"No se explica o horror que semelhante facto causou, por ser cousa mui rara o
homicdio em Galiza. Soube-se logo que fora um portugus o matador. E das camisas e
outras cousas do morto inferiam ser pessoa distinta, e erradamente assentaram que era
o marqus de Gouveia que tinha fugido com a sr D. Maria da Penha de Frana, a qual
eu conheci depois recolhida em uru convento de Redondela, na Galiza. Nesta hiptese
lhe fizeram exquias na catedral com pompa e generosidade de missas gerais como as
poderiam fazer a Filipe V, seu monarca 63 .
63 Podemos com os pormenores que nos d o bispo determinar o ano e aproximadamente o ms em que
Supico foi assassinado. Acerca do rapto do marqus de Gouveia, traslado a noticia que j dei nas Noites
de Insnia, n 4, pg. 43 e seguintes. "O mordomo-mor que fugiu era D. Joo de Mascarenhas, 4
marqus de Gouveia e 7 conde de Santa Cruz. Tinha 25 anos e era casado com unia espanhola chamada
D. Teresa de Moscoso e Arago, filha do 7 conde de Altamira, prncipe de Aracina. A senhora que fugiu.209
"J neste tempo - continua o bispo do Par - estava preso o criado de Satur para
dizer quem era seu amo; ele, porm, ignorava-o, dizendo que aquele cavaleiro o
convidara para o acompanhar na jornada, visto j ter vindo com ele outra vez a S. Tiago
e lhe dava um tanto. Foi solto.
"Chegou enfim de Portugal o prprio (que Supico mandara ao padre Serra) e logo
preso declarou o seguinte: que chegara  portaria de S. Gonalo de Amarante, e dando a
carta ao padre Serra este mostrou afligir-se de no ter cumprido a palavra de encontrar-se
com mr. Satur em Galiza no tempo destinado; porque estava mal de hemorridas e
sem liteira. Escreveu a Fernando de Magalhes, que lhe mandou dez moedas, as quais o
padre Serra entregou ao prprio, e no dia seguinte resolveu montar a cavalo at Valena
do Minho, onde disse ao galego que no podia continuar a jornada. Neste tempo estava
o padre Frei Loureno Brando, monge beneditino, em companhia dos senhores
d'Aguiar, em Compostela; e, voltando para Portugal, na feira da Arrifana se encontrou
com Fernando de Magalhes, e este lhe disse: "J sei que estava em Compostela quando
mataram Joo Satur". - Sim - disse Frei Loureno - e voc me h-de dizer quem  Joo
Satur. - Mudou de cor e conversao. Retirou-se, e Frei Loureno o seguiu, e com
amizade o apertava; mas o Magalhes lhe pediu que no instasse porque no podia falar,
e naquela matria lhe pedia inviolvel segredo.
"At hoje se ignora em Galiza quem fosse o morto.
"No sei como ao pensamento me veio em Lisboa se seria este defunto o Supico;
e muito casualmente perguntando ao padre D. Celestino Teguineau da Providncia que
fim tivera, respondeu-me que ouvira muito em voz baixa dizer que o mataram em
Compostela, intervindo uru religioso na morte; e, muito apertado por mim, nomeou o
padre Frei Antnio Serra, acrescentando que Supico morrera em castigo de maquinar
conspiraes contra D. Joo V".
NOTA. 4
Diz o bispo do Par, nas Memriias, que o frade, chegando a Holanda, judaizou,
inscrevendo-se na Sinagoga; mas, em honra da religio verdadeira e da memria do
capucho, cumpre declarar que ele se fingiu judeu como outros se fingiam catlicos -
para no morrer de fome.
A freira fez penitncia l fora. O cnego D. Joaquim Bernardes viu-a agachada
num canto da igreja em quinta-feira santa. D. Joo V mandou-lhes dizer que voltassem,
e seriam perdoados. No aceitaram, e talvez tivessem juzo. Provavelmente, se
voltassem para Portugal, entrariam no grmio da igreja pela porta da Inquisio.
NOTA 5
A descrio do interior do palcio da freira apareceu em tempo impressa, e
novamente a reimprimiu o sr. dr. Ribeiro Guimares no 2 tomo da sua estimvel obra
chamada Sumrio de vria histria. Diz assim:
com ele era D. Maria da Penha de Frana, tambm casada com seu primo-irmo D. Loureno de Almada,
muito moo. Tinham casado em 1722. Em Junho de 1723 deu D. Maria da Penha de Frana  luz uma
menina, que se chamou Violante. E, na noite de 11 de Novembro de 1724, a esposa, abandonando marido
e filha, fugiu com o marqus, etc.".
Foram presos em Tui. Ele, desembaraado facilmente dos esbirros, foi para Londres, e ela entrou no
mosteiro ainda em Novembro de 1724. Provavelmente, ainda neste ano foi assassinado o agente do
infante D. Francisco, que em 1722 D. Joo V desterrara com outros criados de seu irmo..210
"O quarto de cima, onde assistem, tem oito casas, todas de xadrez, e os tectos de
entalhados dourados e de boas pinturas, e todos os materiais com a maior riqueza e
perfeio.
"A primeira casa consta de melania com armao cor de fogo, com passamanes
cor de ouro, toda a casa em redondo com sanefas de entalhado douradas, duas papeleiras
todas de espelhos dourados com relevos e figuras douradas, e quatro espelhos de toda a
parede do mesmo modo com relevos e figuras douradas; em cada bufete duas
serpentinas de prata, com velas de trs lumes cada uma; uma dzia de cadeiras de
veludo cor de fogo, com gales de ouro, com os braos e ps das cadeiras de talha
mida dourada; e nas outras duas paredes oito placas de espelho douradas, quatro em
cada uma, tudo posto por cima da armao.
"A segunda casa tem armao de melania verde, com gales de seda crua cor de
ouro, com dez portas com sanefas de talha dourada; em uma parede dois espelhos de
toda a parede, e com mais singularidade dourados, e dois bufetes tambm dourados e
melhores, com duas serpentinas cada um de prata de trs lumes; oito placas de espelhos
dourados e um relgio de parede que d, horas e tange minuetes; uma dzia de cadeiras
de veludo verde, com gales de ouro todas douradas. E nesta mesma casa tem uma
varanda toda de vidros cristalinos, o cho  de xadrez de pedra, as paredes de talha
dourada e as colunas, toda rodeada de pinturas, o tecto de talha dourada e pinturas com
cortinas de nobreza brancas com gales de ouro e borlas de fio de ouro, como todas as
cortinas das casas, tem requife cor de ouro. E a varanda tem seis tripeas com os ps
azuis e ouro e o assento de veludo cor de fogo e ouro; dois bufetinhos de charo negro e
uma banca de veludo verde com os ps de charo cor de fogo e ouro.
"O oratrio tem em baixo uma tribuna para a igreja, donde pode ouvir missa, com
cortinas carmesins bordadas de ouro; e em cima o oratrio todo de talha dourada, no
meio Nossa Senhora da Graa, e nos lados 8. Bernardo e S. Bento, e virando-se o painel
se v o Evangelista com um pano bordado e cortinas bordadas de ouro e borlas de ouro,
com duas serpentinas de prata de trs lumes cada uma, com uns poucos de ramos de
prata e castiais, uma almofada de tissu, coberta com um pano bordado de ouro.
"A casa onde comem  toda armada em redondo de melania amarela, com
passamanes e franja cor de prola e todas as mais armaes que tenho dito as tem da
mesma cor dos passamanes, uma dzia de tamboretes todos dourados, e os assentos de
veludo amarelo com passamanes de prata, e oito placas de espelhos dourados, com um
bufete de charo negro e ouro.
"O camarim da irm mais pequena tem a armao carmesim com franjas e
passamanes de seda crua cor de ouro; um leito da moda, com armao da mesma
melania carmesim e as mesmas franjas do mesmo, com uma lmina de prata 
cabeceira, com um folho de fita de prata; com lenis de Holanda com boas rendas,
travesseiro da mesma sorte, cobertor da mesma melania, e o pano de cobrir do mesmo;
quatro cadeiras de damasco carmesim com franjas de ouro e ps dourados; duas tripeas
do mesmo veludo, com os ps negros e ouro; e em cima de um bufete dois pratos de
Alemanha, de prata dourada, com um penteador e uma toalha de cambraia com
preciosas rendas bordadas, e um avental da mesma sorte; e uma caixa de lixa encarnada
com pregaria e fechos de prata que serve de guardar os brincos, e uma arcada de charo
doirada, e em cima um espelho com molduras de prata e muita quantidade de brincos e
aviamentos, tudo de prata doirada, que no tm nmero, prato e jarro, escovas, tesoura,
salva, pcaros, campainha, e todos os aviamentos de toucador, de prata; e um espelho de
vidros, e dourado, e duas placas, e bispote de prata, metido em uma arca de cristal,
dentro em uma bolsa de veludo.
"A casa, onde dormem Paula e Maria da Luz, tem armao de melania carmesim,.211
com franjas e gales cor de ouro, dois escritrios de charo negro e ouro, grandes e
todos com ps e topetes de talha dourada maravilhosa, sanefa de talha dourada, dois
bufetes dourados maravilhosos, dois espelhos de toda a parede; oito placas de espelhos
e dourados, um relgio de parede que d horas e tange minuetes; uma dzia de cadeiras
carmesins, com ps e braos de talha dourada e passama2nes de ouro. A cama de Paula
 de melania carmesim com o sobrecu todo em tomados, com franjas e gales cor de
ouro; o leito da moda, com unia lmina de prata dourada, abrindo-se por trs partes, e os
santos de ouro macio em relevos, com um floro de fita de ouro. Os lenis de
Holanda muito boa, com preciosas rendas, e travesseiros do mesmo modo todos
crespos: os cobertores da mesma melania e o pano de cobrir. A cama da irm  deste
mesmo modo, menos a lmina de prata, uru bufete  cabeceira de charo dourado, com
um pano coberto, em cima um prato de prata grande, de Alemanha, e dois bispotes do
mesmo e nas mesmas caixas de vidro com as mesmas borlas.
"O gabinete, em que se touca Paula,  armado de melania carmesim com franjas e
passamanes cor de ouro, duas sanefas de talha dourada, quatro tripeas com ps
dourados e azuis de charo com assento de veludo; uma arca de charo azul e ouro, com
dois pratos de prata, um com o penteador, outro com o avental e toalha de boas rendas,
cobertos com um pano bom; uma arca de lixa negra, toda com pregaria e fechos de
prata; um espelho e seis placas de espelho douradas; um bufete de charo com uma
cobertura de cambraia, com rendas de trs palmos de largura; com um espelho com
molduras de prata, com todos os aviamentos de prata, caixas, prato, jarro, salva, castial,
copos, fruteiros, tesouras, campainha, escovas, e tudo que no pode repetir-se, de prata.
"O outro gabinete de Maria da Luz concertado com a mesma armao, com os
mesmos adornos, com os mesmos brincos e riquezas, sem diferena.
"Entre as camas h duas pias de prata para gua benta.
"A casa de todo cima que  a ltima e a maior de todas,  toda armada de melania
azul com gales e franjas de seda crua cor de ouro; as sanefas de talha azul e ouro, e so
doze; dois escritrios de charo azul e ouro extraordinariamente bons e grandes, com
ps, topetes, e ilhargas douradas de mui mida talha; oito placas de uma parte, e oito da
outra, todas de vidro; uma dzia de cadeiras de veludo azul, com mos douradas, com
topetes e gales de ouro e prata, e um relgio de parede que d horas e tange minuetes;
dois espelhos extraordinariamente grandes, com mais perfeio na talha dourada; dois
bufetes dourados, com umas tarjas azuis e ouro; duas serpentinas em cada bufete, de
seis lumes cada uma, de prata, e todos os bufetes tm serpentinas de prata, com pratos e
tesouras de prata.
"Pelas escadas e corredores lampies de cristal, metidos na parede, com talha
dourada, em todas as portas reposteiros de pano berne bordado de cores.
"O quarto de baixo tem sete casas; uma grande est com dezoito caixes de lixa
negra com pregaria, de prata, e todos cheios de prata, com que fez uma copa e sobejou
muita, porque dizem so trs baixelas; e muitas arcas de roupa de cheiro, e dizem que
so das fitas, brincos e vestidos; mas isto ainda se no viu.
"Vieram-lhe trs mulatas e duas criadas, e quatro que tinha, so nove".
NOTA 6
A substncia deste conflito encontra-se impressa j nos escritos romanescos
referentes a D. Joo V, j em manuscritos do tempo, e tambm nos livros histricos,
nomeadamente na mui noticiosa Histria de Portugal, do sr. Manuel Pinheiro Chagas,
tomo 7, pg. 53. Por motivos mais circunspectos, no mesmo reinado, as freiras de.212
Santa Mnica saram de cruz alada e ciriais, em 17 de Setembro de 1721, cantando o
Miserere. O motivo da evaso era respeitvel. Tinham fome, e iam pedir ao perdulrio
D. Joo V que lhes mandasse restituir os seus dotes. Chegaram ao Terreiro do Pao, e
no entraram no palcio, porque o secretrio de Estado as impediu, dizendo-lhes que el-rei
atenderia ao seu requerimento.
Sobre tal assunto escreveu o Cames do Rossio as seguintes dcimas inditas em
que transluz a musa chocarreira do clebre magistrado:
A impulsos da vontade
que abraa o entendimento
as Mnicas do convento
foram em comunidade
a pedir  Majestade
a rao que lhes faltou,
em cujo acto se achou
o secretrio de Estado
que as mandou com um mandado
com que a boca lhes tapou.
De nscios no se abstm
os que na corte julgaram
que as Mnicas mal andaram
no dia que andaram bem;
porque no dir ningum
que os estatutos quebraram
das regras que professaram;
que a regra mal no se fez
se em dezassete do ms
um ordinrio buscaram.
Dizer-se que de Agostinho
as madres no pareceram
filhas, quando se atreveram
a sair do ptrio ninho,
parecem coisas de vinho
estas razes sem razo;
pois, se as madres voos do
para o pao, guias se assinam,
porque aos raios se examinam
do sol El-Rei D. Joo,
Com estas e outras lisonjas ao rei Sol - que se desvanecia com o arremedo de Lus
XIV - granjeou o poeta a confiana absoluta de 1). Joo V, mas decerto no passou do
estalo dos medocres versejadores do seu tempo.
NOTA 7
Este fragmento  trasladado das Memrias da Junta da Companhia do comrcio,
copiadas dos manuscritos de Manuel Pereira de Faria..213
O original autgrafo deve existir na livraria do marqus de Pombal. Faria, em
1769, pediu que a Junta da Companhia se restabelecesse, e a pedido do ministro da
marinha, Francisco Xavier de Mendona, escreveu o Papel Histrico. Morreu naquele
ano o ministro, e Faria deu o papel ao marqus, que leu, elogiou grandemente o escrito e
nada fez. A respeito deste negociante letrado escreve o sr. Inocncio Francisco da Silva,
no seu Dicionrio Bibliogrfico, tom. 6, pg. 80: "Manuel Pereira de Faria, um dos
scios fundadores da Arcdia Ulissiponense, com o nome de Slvio Aquacelano. Da
particular amizade que existia entre ele e Garo do testemunho as odes VI e XI deste
poeta. Se devemos fiar-nos no seu apelido arcdico, era natural de Melgao (Aquae
celenae). Exerceu em Lisboa a profisso de negociante. Em 1761, por ocasio da nova
organizao do tribunal do Errio Rgio, dirigida e efectuada pelo ministro marqus de
Pombal, foi nomeado contador de uma das quatro contadorias em que se dividiu aquela
repartio com o ordenado de 1.600$00 reis. Morreu a 23 de Setembro de 1787.
Debalde se procuram as obras deste que como as de tantos outros conscios na Arcdia
no chegaram a gozar do benefcio da imprensa, perdendo-se de todo, ou existindo
talvez ignoradas em mos particulares, incapazes de apreci-las".
NOTA 8
Do mbar e do rei Joo V, conta o bispo do Par o caso que vem de molde: "Joo
Jacques de Magalhes deu a essncia do mbar ao sr. D. Joo V, de que resultaram os
sabidos efeitos para os quais o acompanhava um Manuel da Costa. Dizia o doutor
Bernardes, seu fsico-mor: "Cure-o Joo Jacques que sabe o que lhe fez, e Manuel da
Costa que sabe o que ele faz". Memrias, etc. pg. 151.
NOTA 9
Um viajante francs que escreveu em 1730 o livro, intitulado Description de la
Ville de Lisbonne, etc., fala assim dos mdicos portugueses e do seu patrcio Estienne:
Les mdecins du pays passent dans l'esprit de la nation pour tre fort habiles;
cependant ils sont extrmement prodigues de sang, et ne connaissent presque d'autre
remde que la saigne. Dans les maladies ordinaires ils commencent par ordonner uma
meia dzia de sangrias, demi douzaine de saignes; et quand le mal se rend opinitre,
ils poussent l'ordonnance jusqu' quinze et vingt; tellement que ce qui peut arriver de
mieux au malade, c'est d'en tre quitte pour un puisement dont il a bien de la peine 
se remettre. Au reste, si leurs remdes n'oprent pas, et que le malade tombe dans un
tat dsespr, ils lui ordonnent gua do francs qui veut dire de l'eau du franais, et on
prouve souvent que les malades recouvrent leur sant par l'usage de cette eau. Le
franais qui la dbite est un provinal nomm Estienne tabli  Lisbonne depuis
longues annes, laquel sans tre mdecin ni chirurgien, donne pour toutes sortes de
maladies cette tisane dont il dit avoir appris la composition en Turquie. Il fait voir des
certificats d'une infinit de personnes, qu'il a parfaitement guries; et quoiqu'en
montrant le crdit de sa tisane ou ses cures merveilleuses, il ait grand soin de garder le
silence sur les occasions o elle a eu l'effet contraire, toutefois il est certain qu'elle lui a
procur de gros biens, et qu'elle conserve toujours sa rputation avec la mme force.
Mais quelque utile que soit ce remde, ii ne saurait rparer le prjudice considrable
que ces nombreuses saignes causent aux tempraments; aussi voit-on quantit de
jeunes gens qui en prouvent de tristes suites; ayant la vue si faible, qu'ils sont obligs.214
de porter des lunettes. On attribue encore cette incommodit  la grande clart qu'a le
ciel dans cette partie de notre hmisphre, et  l'incontinence extraordinaire de la
nation".
Todos os forasteiros reparavam na profuso dos culos em Portugal. D. Frei Joo
de S. Jos Queirs, bispo do Par, escreve ao propsito o seguinte: "Os culos de que
usam os portugueses so objecto de galhofa nos pases estrangeiros. Mr. de la Brue, na
Viagem a Cacheu em 1700, pinta um portugus com um esmerilho ou bacamarte
esperando outro para o matar, pondo primeiro os culos, e atacando-os com priso s
orelhas. O autor do livro intitulado Le Voyageur faz outra reflexo semelhante. Algaroti
tambm zombeteia dos culos portugueses. Que a nao padece falta na vista,  certo, e
presumo nascer de ter horizontes muito claros... Os padres beneditinos em Coimbra
fazem-se reparveis por nenhum deixar de trazer culos: o certo  que arge falta de
vista e mortificao... Conheci um monge chamado Fr. Cipriano, natural de Miragaia.
Foi este condiscpulo do mestre Fr. Incio de Jesus, em Basto, onde lia filosofia o
mestre Frei Isidoro de Santa Ana. Encontraram-se os condiscpulos em frias, e, como
Fr. Cipriano andasse de solidu e culos, perguntado para qu, respondeu ao
condiscpulo: "Amigo, isto  propter farsolam"... Querer parecer douto com os culos 
necedade que se v atravs dos vidros. Dizia um estudante de Coimbra, grande
investidor, a um novato, sustentando por mais autoridade uns culos no nariz: "Vejo um
asno diante de mim". - Responde o inocente: "No  muito que os culos lhe sirvam de
espelho". Em o livro Description de Lisbonne tambm os culos dos portugueses vm 
dana. Dizia um espanhol: Esto en los portugueses  es astro,  es mania. Fique-se em
problema 64 ".
NOTA 10
Ana Armanda du Verg, escreve o sr. Pinheiro Chagas com outros historiadores;
porm, o visconde de Santarm, trasladando documentos franceses, escreve Duverger.
A me desta senhora foi um expeditssimo agente secreto que Lus XIV teve em
Portugal. Ao respeito, escreve o visconde de Santarm: "...Teve sempre esta potncia (a
Frana) em a nossa corte agentes secretos que a tinham ao corrente de quanto de mais
ponderao corria. Um dos que melhor desempenharam esta delicada misso foi uma
certa madama Duverger, av do sr. D. Miguel, legitimado del-rei D. Pedro II. As
relaes que ela tinha com este soberano, e por conseguinte com grande parte da
nobreza, e o bom acolhimento que em todos achava, a punham em estado de informar
os ministros de quanto acontecia. Acrescia a isto ter esta senhora um filho que fazia em
todo este intervalo as vezes de cnsul de Frana, o qual era destrssimo sobretudo em
matrias comerciais sobre as quais foi encarregado pelo governo francs de redigir
vrias Memrias, coisa que ele desempenhou cabalmente". Quadro elementar das
Relaes polticas e diplomticas de Portugal com as diversas potncias do mundo.
Tom V. Introd., pg. XIII e XIV.
Ana Armanda Duverger houve dois filhos de D. Pedro II: D. Miguel de Bragana,
primeiro duque de Lafes, casado com D. Lusa Casimira de Sousa, herdeira da casa de
Arronches. D. Miguel morreu afogado no Tejo em 13 de Janeiro de 1724. O outro filho
foi arcebispo de Braga, e chamou-se D. Jos de Bragana.
NOTA 11
64 Memrias de Fr. Joo de S. Jos Queirs, Porto, 1868..215
Esta D, Feliciana sofreu o desaire de ser sacrificada pelo inconstante Afonso a D.
Ana de Moura, tambm religiosa de Cister. Trocaram-se ento as. duas freiras umas
poesias que pela primeira vez apareceram  luz da crtica, depois do grande estrondo
que ento fizeram na corte e nos mosteiros. H nelas equvocos chistosos e um
engenhoso jogar de vocbulo, como dizia o padre Vieira.
O poema atribudo a Afonso VI  to ordinrio que no duvido atribuir-lho. Se 
dele, a casa de Bragana teve o seu primeiro poeta indito, se o infante D. Duarte,
infeliz irmo de D. Joo IV, no precedeu o sobrinho. A vai o pugilato mtrico,
fielmente copiado de um Cancioneiro que mo curiosa e benemrita coligiu naquele
tempo.
D. Feliciana de Milo ao rei
Meu monarca, o vosso amor
e vosso trato amoroso
tanto tem de primoroso
quanto de pai e senhor;
mas, ainda assim, causa dor
e no com pouca razo
ver que esta vossa afeio
muito tem que a desdoura,
pois adoras uma Moura,
sendo vs um rei cristo!
Freira podereis achar
mala digna que esta ter
f para vos merecer,
descrio para adorar:
isto no  invejar
essa mais que feliz Ana,
que posto que soberana
e to endeusada est,
"Ana felice" ser
mas nunca Felice Ana.
D. Ana Anglica de Moura a D. Feliciana de Melo
A Flor do Sol entretm 65
seu resplendor no desdoura,
porque quanto tem de Moura
tanto de Anglica tem.
No seu mal o vosso bem
tomreis vs converter!...
e podendo escolha ter
no que no tendes parelha,
no freis vs crist velha,
freis mais gentil mulher.
65 Chamavam assim a D. Ana de Moura os fidalgos da malta de D. Afonso VI..216
Com rara desigualdade
vs murchais, ela florece:
Ana deidade parece,
Feliciana de idade.
Deixai pois essa vaidade
porque a todos nos enfada,
pois que sendo s chamada
ser escolhida queirais,
maiormente quando estais
afeita a ser enjeitada.
O rei a D. Feliciana pelos consoantes das suas dcimas
Minha freira, o meu amor,
o meu enleio amoroso
nada tem de primoroso
por ser de rei e senhor.
Assim, no vos cause dor,
que no h disso razo;
porque esta minha afeio
nada tem que a desdoura,
pois adorar a tal Moura
pode bem um rei cristo.
Nunca podereis achar,
nem menos podereis ter
quem me possa merecer
como ela, nem me adorar,
para mais invejas dar
a todas, amo a Dona Ana
por prenda a mais soberana,
e, se em minha graa est,
"Ana felice" ser
e mais que Felice Ana.
Contra D. Feliciana
Senhora Feliciana
A quem o tempo tirou
o felice e s deixou
a lngua que a todos dana;
pois o tempo desengana
basta j de requebrar,
que enjeitada heis de ficar,
porque sempre foi mofina,
achaque que, de menina,
vossa estrela vos quis dar.
Atrevida, empreendeis guerra
contra Ana, mimo de amor,.217
por lhe usurpar o favor
do gro-monarca da terra;
mas como nela se encerra
tanta gala e descrio
contra as foras de Milo
guerreira defende o posto,
e jura pr-vos no rosto
o nome de um seu irmo. 66
D. Feliciana a D. Ana de Moura
De ser ditosa se enfada
quem ditas prprias apura;
que examinar a ventura
 diligncia arriscada;
agora, por declarada,
ficais, madre, escurecida;
deixais de ser conhecida
agora que vos mostrais;
e mais ignorante estais
depois que estais entendida.
Pesai-vos, primeiro, mana,
e vireis a achar depois
que, Ana, mui pesada sois,
porque sola mui leviana.
Por favor vos desengana
quem vos culpa a presuno.
Mal pode haver afeio
onde no h semelhante;
pois para amor to gigante
 vosso amor muito ano.
Sois Loba, e parece mal,
por no ser coisa que quadre
que queira a loba de um padre,
parecer opa real!
Moura sois, e, como tal,
 justo que em vosso amor
sofrais qualquer dissabor
sem tomar tanta licena;
que vai muita diferena
de uma moura a seu senhor.
Mais que louco atrevimento
 disparate cantado
avaliar por cuidado
o que  s divertimento. 67
66 Gil-Vaz; porque D. Ana de Moura era irm de Gil Vaz Lobo.
67 A poetisa conhecia bastantemente os amores simplesmente divertidos do monarca..218
Neste vosso pensamento
julga o prudente varo
que  ridcula ambio
esperar vossa fraqueza;
j que o Lobo vos despreza
que vos estime o Leo. 68
Suspendei vossa carreira,
pobre barca de pescar;
que ides meter-vos ao mar
saindo de uma Ribeira. 69
No vos engolfeis ligeira,
pois tendes j descoberto
que estais posta em tal aperto
e em tal p'rigo estais posta
que se no derdes  costa,
dar nos cachopos  certo.
Mas destas guas quelas
no vedes vs quanto dista?
e no pode ser bem vista
quem anda s apalpadelas?
Recolhei as fracas velas
porque ides muito enganada;
errastes por confiada;
donde podeis entender
que, errando e sendo mulher,
ficais por mulher-errada. 70
E deste feitio e doutros piores passavam seu tempo os reis ungidos e as esposas de
Jesus Cristo.
NOTA 12
Um viajante francs, que permaneceu em Lisboa simultaneamente com os factos
desta narrativa, observou o seguinte:
"Presume-se que elas (as portuguesas) so fidelssimas aos esposos, e que  raro
haver unia desleal, se o marido lhe no abre a ocasio. Confessemos, todavia, que o
descompassado cime dos maridos, e as extraordinrias cautelas que empregam contra
elas, fazem supor que o temperamento das mulheres  bastante diverso do que se diz.
Como quer que seja,  tristssima a sorte delas! Encerram-nas to apertadamente que at
uns simples mercadores tm missa em casa para que as mulheres e filhas no tenham
que fazer na rua. Falar s lho permitem com frades e padres. Comrcio de lngua com
homens estranhos, inteiramente cortado. Concede-se-lhes, como nico recreio, ver
atravs das rtulas das janelas quem passa na rua. S na igreja  possvel lobrig-las. O
68 Aluses que elas l entendiam.
69 Aluso genealgica.
70 Sinnimo do mais injurioso nome que se podia desfechar contra a rival..219
seu lugar  na nave, separadas dos homens; isso, porm, no tolhe que se faam sinais e
bugigangas com os dedos, substitutos da lngua; e esses trejeitos de parte a parte so
imaginados com tal subtileza e mestria que um forasteiro ignorante de tal uso jurar que
eles no significam uma palavra. Esperam elas impacientssimas as procisses de
Quaresma, porque ento lhes  concedido ir ver as cerimnias; e as que quiserem
empregar a liberdade em outros mesteres, podem faz-lo impunemente, sem receio de
espionagem, por ser muito o mulherio, e uniforme a vestimenta de todas. Destarte vo
quinta-feira de noite visitar os templos; e enquanto os maridos ressonam
tranquilamente, graas ao preconceito geral de que no  lcito impugnar a devoo
verdadeira ou falsa das mulheres, presume-se que os rendez-vous so em barda, e que
muitas ento se desforram do tempo que estiveram aferrolhadas".
Description de la Ville de Lisbonne, Paris, 1730.
NOTA 13
Desde o fim do sculo XVII at 1740 a casa que o padre citou era uma espcie de
moderno Restaurante onde as mais celebradas calhandreiras iam acamaradadas com os
rapazes fidalgos aligeirar as noites em orgias que deram muito que fazer ao corregedor
do bairro. O dono da casa, Tom Rodrigues Terra, de alcunha o Campolide, foi
imortalizado em letra redonda naquele tempo, lenho a prova da sua valia com os
literatos em um opsculo, impresso em 1733, e intitulado: Notcia de dois animais
monstruosos, etc. A se diz  posteridade que a estalagem da rua de S. Joo, era bem
celebrada pela grandeza com que hospeda todos os dias mais de cem pessoas, isto ,
levando conquibus. Ali se acham as mais gostosas sopas de vaca adubadas com o
melhor presunto, paio e chourio. Ali se expe ao gosto, cadveres alados, isto ,
frangos to recheados que parece morreram de hidropisia ou de abafamentos; perdizes
de espetada, coelhos em verde, pescadas em postas, e o forte camaro despertador do
apetite, etc. Ali se bebe do Grego, do Falerno, do Florentino, do Borgonho, do
Charapagne, e do melhor que produziram as vinhas de Cima-Douro. Sem receio de que
o notem, entra nesta casa o grave e o que o no ; privilgio de que goza h muitos
anos contra a presuno dos portugueses. Pouco mundo tem visto quem padece fome e
sedes para sustentar brios.
NOTA 14
A devoo com que D. Joo V assistia aos Autos-de-f inspirou a um
contemporneo o seguinte e indito soneto, condigno do assunto e do heri:
Ao grande zelo e amor da Religio
com que el-rei N. S. D. Joo V assiste
ao Acto-de-f todas as vezes que se
celebra nesta cidade de Lisboa.
Esse zelo eficaz, rei proeminente,
Vos deixou j no mundo eternizado;
Pois na honra de Deus todo inflamado
Vos anima da f o impulso ardente..220
incansvel, activo e diligente
Vos mostrais contra os erros empenhado,
Deixando o corao acrisolado
No calor com que pune ao delinquente.
 vosso peito dilatada esfera
Do fogo, onde o castigo se prepara
Ao vil ru que obstinado persevera.
Nenhum deles do incndio se escapara,
Pois quando o material o no fizera,
O ardor de vosso zelo os abrasara.
No sei se foi este mesmo poeta que, na agonia final de D. Joo V, cantava em
saltrio chocarreiramente afinado estes cantares:
Qual de baixo qual de cima
anda a morte com el-rei;
e, na verdade, eu no sei
que espera, que o no vindima!
Nos tiros que ela lhe arrima
eu bem o esforo lhe gabo;
porm, diz lhe no d cabo
por ter destinado a sorte
no ser justo o leve a morte;
mas sim o leve o diabo.
J estava para o levar;
eis seno quando ao partir,
diz ele: "pois hei-de eu ir
sem o amigo Frei Gaspar? 71
Isso no! quero esperar
que ele se avie primeiro;
que, em arrasando o mosteiro
de S. Vicente de fora,
h de ter pouca demora
em ir ser meu companheiro".
Consentiu nisto o tinhoso
por lhe fazer a vontade;
pois que, a falar a verdade,
no ficou muito gostoso;
porque teme que o Moscoso 72
lhe tome o governo ao leme,
nesse lago aonde geme
71 O varatojeno que depois se fez o valido do monarca. Fez-se meno deste membro da casa de Aveiro
nos captulos IV e VI.
72 D. Gaspar da Encarnao, antes de se fradar, era D. Gaspar de Moscoso..221
de Aqueronte a negra barca,
pois  de sorte o Alparca 73
que o mesmo demnio o teme.
E logo a S velha entretanto
arrasar manda tambm
porque no causa a ningum
de ele ir ao inferno espanto;
pois no ficando ali santo
nem altar privilegiado
que no seja profanado,
por certo o mundo h-de crer
que quem tal manda fazer
ao inferno est condenado.
As rezas da Patriarcal
de nada lhe ho-de valer;
que as que l se vo fazer
so em pecado mortal;
antes o maior fiscal
h-de ser o da iniquidade
com que rouba  caridade
j da esmola os exerccios,
fazendo se aumentem vcios
e fique extinta a piedade. 74
Deus lhe acuda finalmente;
mas no lhe vejo eu bom jeito
que a contrio em seu peito
 nula at ao presente;
nem sequer engana a gente
com se fingir bom cristo;
mas, se for sem confisso
ao inferno direitinho,
l tem o padre Martinho
que lhe deite a absolvio 75 .
NOTA 15
No achei no processo o documento comprovativo de que Eliot requeresse a
degolao, como prerrogativa de cavaleiro, posteriormente ao acto de ser despojado das
insgnias e expulso da ordem; mas um seu contemporneo, digno de crdito, o monge
beneditino Fr. Joo de S. Jos Queirs, que depois foi bispo do Par, nas suas
73 Referncia ao calado dos varatojanos.
74 Todos os asilos de piedade foram desfalcados enquanto o rei necessitou de expoliar a nao em
proveito das suas magnficas edificaes.
75 Este padre Martinho, legendrio nos poemas fesceninos, foi o heri de um poema obsceno intitulado a
Martinhada, escrito pelo corregedor Caetano Jos da Silva Souto-Mayor, antonomasticamente o Cames
do Rossio. D. Joo V deliciava-se a ouvir ler o desbragado poema..222
Memrias, pg. 146 e 147, escreve... Para mim tenho que as prendas em grau relevante
enobrecem, por isso o cirurgio Eliot pretendeu no exoricdio, isto , no assassnio de
sua inocente mulher, ser degolado por insigne na sua arte, alm de cavaleiro na ordem
de Cristo; porm, nem o rei nem o ministro Bacalhau estiveram por isso;  todavia
certo que o direito qualifica e enobrece aos insignes de humilde nascimento, etc.
NOTA 16
Nem a morte de Antnia Xavier e Fr. Andr Guilherme foi referida na Gaveta de
Lisboa, nem o suplcio dos assassinos tampouco! No se compreende este resguardo,
desde que se provou a inocncia de Fr. Andr Guilherme. Omitir a tragdia em que
figurava desonrosamente um ministro da religio, era desculpvel por amor da religio
ultrajada; porm, justificada a inculpabilidade do virtuoso mancebo, no se percebe o
melindre do gazeteiro Montarroio Mascarenhas. Fr. Jernimo de S. Jos, cronista da
ordem da SS. Trindade, foi menos reservado que o outro, e mais era frade da, mesma
ordem. A pgina 427 do 2 tomo escrevia ele, referindo os actos insignes do redentor
geral Fr. Francisco Couto: "Entrou justamente com outro irmo seu chamado Fr.
Antnio de Lacerda, a quem sucedeu inculpavelmente no ano de 1710 o caso de
Odivelas em dia de S. Bernardo, bem semelhante ao do padre Fr. Andr Guilherme com
o Eliot, na rua chamada do Outeiro em 26 de Novembro de 1731, nos quais tiranamente
terminaram as vidas".
Quanto aos documentos que publiquei  certo, que nem o processo nem a sentena
foram impressos coevamente ou depois da tragdia. Da sentena manuscrita correram
cpias, e de uma delas nos d notcia o sr. Inocncio Francisco da Silva na Lista das
sentenas que possui ou teve conhecimento: (Dic. Bibliog. T. 7, pg. 233). Sentena da
Relao de Lisboa contra Isaac Eliot, cirurgio, e seu criado Henrique Rutier, ambos
enforcados, por terem matado D. Antnia, mulher do primeiro ru, e Fr. Andr frade
trino a ttulo de adultrio. (Datada de 6 de Janeiro de 1733). Manuscrita..223
DOCUMENTOS
DOCUMENTO 1 76
Auto que mandou fazer o doutor Manuel Nunes Martins, juiz do crime do
Bairro Alto, para por ele tirar devassa das mortes feitas ao padre Frei Andr
Guilherme, religioso da Santssima Trindade, e a D. Antnia Joaquina Xavier.
Em 26 de Novembro de 1731, nas casas de morada do doutor Juiz do Crime, veio
a notcia que no dito dia, das 4 para as 5 horas da tarde, havia Isaac Eliote, morador na
rua do Outeiro, dentro na mesma casa, morto a sua mulher e a um religioso da
Santssima Trindade; com a qual notcia, foi o dito juiz do crime em companhia de mim
escrivo Manuel Sanches Leirs da Costa, e Julio Vieira, cirurgio da casa do dito
Isaac Eliote; e entrando na dita casa pela porta da cozinha (por a da sala principal estar
fechada e sem chave) damos ns escrivo nossa f ver, na casa imediata  dita sala,
morta e passada da vida presente, a uma mulher moa e de pouca idade (segundo
parecia) deitada de costas no meio da casa, em proporo direita, vestida com um colete
branco, atacado com as ilhoses do atacador j alguns rotos, um avental branco, uma saia
de seda muito usada de listras, e por baixo desta outra de cetim branco com flores de
matizes tambm muito usada, e por baixo um mantu de baeta, com meias de linha
branca, e j enxovalhadas, e a pouca distncia do cadver umas chinelas de couro
amarelo, com saltos pretos, e sem taces, que mostravam serem as que trazia caladas e
terem-lhe caldo dos ps. A qual tinha vinte estocadas na regio vital do peito, e trs
delas se alcana serem penetrantes; e assim mesmo no brao direito duas estocadas, uma
delas quase na mo, junto ao dedo grande, que penetrou de uma parte a outra; e, na mo
esquerda, duas feridas, como de picadas; e mais outra ferida cortante junto ao dedo
mostrador, mais no brao esquerdo outra ferida que passou do sangradouro pela parte
inferior, e junto a esta outra ferida perfurante, que todas mostram serem feitas com
espadim, todas de couro e carne cortadas, abertas e sanguentas, as quais ditas feridas
todas viu, examinou e atentou o dito cirurgio, bem como viu na casa grande cpia de
sangue. E, saindo desta casa e passando a outra (que parecia cmara por estar nela um
leito com sua cama), e, entrando em uma sala que  a principal das casas, estava,
outrossim, morto e passado da vida presente um religioso da Santssima Trindade,
deitado de costas no meio da casa, em proporo direita, e envolto em grande
quantidade de sangue, composto e vestido com o hbito da dita ordem, com sua capa
branca posta nos ombros, o qual tinha duas feridas no osso da clavcula do peito, que
parecem feitas com balas ou quartos; e mais outra ferida junto  nuca de dois dedos de
largura, inclinada para o peito. Item, mais abaixo duas feridas mais pequenas que
correm direitas para o espinhao, que mostram tambm penetrao; mais outra ferida na
cabea na parte baixa da parte direita, feita (segundo parece) com instrumento cortante
de carne e couro e perulania com uma cisura no osso. Item, outra ferida na parte
posterior da cabea feita com o mesmo instrumento cortante. Mais uma estocada por
baixo da costela mendosa 77 da parte direita, que mostra penetrao. Mais duas picadas
junto  segunda e terceira costela, todas de couro e carne cortadas, abertas e sangrentas,
as quais tenteou e examinou o dito cirurgio. E, na sala onde estava morto o dito
religioso, se acharam duas pistolas de alcance, que tem quase dois palmos de
comprimento entre cano e coronha, francesas, com ferragens de lato, ambas
76 No traslado dos Documentos no alterei a ortografia errada dos nomes prprios.
77 Eram assim chamadas as falsas costelas no articuladas com o esterno..224
descarregadas com suas pedreneiras e os ces delas cados na forma que ficam as armas
de fogo quando se descarregam atirando com elas, e uma delas quebrada pela coronha
junto aos fechos de forma que todas as peas se acharam separadas umas das outras, e a
palheta da culatra do cano virada para a parte superior e rendida, cujos sinais foram
presuno de se haver dado com a dita pistola depois de descarregada; e bem assim pela
parede fronteira da porta da parte direita dois buracos que pareciam de balas, e pela casa
se acharam trs balas de chumbo, uma delas com sinal de haver dado em parede, por
estar cheia de cal, e um p de uma banquinha de nogueira, que no dito stio est cortado
de uma bala, e debaixo dela as buchas de papel chamuscadas; e ao p do dito religioso
defunto uma ponta de espadim toda cheia de sangue que ter uma mo travessa de
comprido. E logo por trs mulheres que na dita casa estavam, e disseram ser criadas
dela, foi dito que o dito religioso se chamava Frei Andr Guilherme, e que pouco antes
havia chegado quela casa, e era a primeira vez que nela entrava, e que a defunta era sua
ama D. Antnia Joaquina Xavier, mulher de Isaac Eliote; e que os ditos defuntos foram
por ele mortos, associado de um pajem chamado Henrique Roter, por um cime que
teve da dita sua mulher estar em casa com o dito religioso. O que tudo visto pelo dito
juiz do crime, mandou fazer este Auto para que ele devassar do dito caso e mortes. E eu
escrivo dou f passar o contedo dele na verdade, em f do que me assinei com o dito
juiz do Crime e Cirurgio. E eu Manuel Sanches de Leirs da Costa o escrevi. - Martins
* Julio Vieira.
DOCUMENTO 2
Breve de Roma
Clemente Papa XII. Ad futuram rei memoriam. H poucos tempos nos fez
representar o nosso amado filho procurador fiscal das ordena militares do reino de
Portugal, que em certo tempo, a saber no dia 26 de Novembro de 1731, Isaac Eliote,
cavaleiro professo da ordem de Cristo, debaixo da Regra de S. Bento, que na cidade
Lisboa ocidental, e em sua prpria casa, com ajuda de seus criados, matara tiranamente
a sua mulher Antnia Joaquina Xavier e Andr Guilherme presbtero e frade
expressamente professo da ordem da Santssima Trindade, e redeno dos cativos, isto
tanto de propsito e nimo deliberado que para matar a dita sua mulher muitos meses
antes viveu separado, e teve intentado alguns dias a morte do dito Andr Guilherme
talvez para encobrir a maldade e crueldade do dito uxoricdio ou morte da mulher;
porm destas maldades se originou, tanto pela gravidade delas, como pela honestidade
dos costumes, nascimento dos mortos, um grande escndalo, que muito aumentaria, se o
referido Isaac Eliote escapasse da pena da morte principalmente, porque se tem por
certo que alguns dos cmplices destes delitos ho-de ser a ela condenados; e os
cavaleiros da dita ordem, fiados na imunidade, facilmente tomariam ocasio de
cometerem enormes excessos. No podendo, porm, sem o nosso especial indulto e
desta Santa S, como acrescentamento  dita representao, pelo privilgio de que goza,
ser condenado  morte e entregue  cria secular para nela ser castigado o dito Isaac
pelo juiz dos cavaleiros, ou freires, soldados e Senado, ou tribunal das ditas ordens que
vulgarmente chamam Mesa da Conscincia, a quem por seus graus pertence o
conhecimento das sobreditas atrocidades: o mesmo procurador fiscal deseja muito lhe
dmos faculdades para que os Deputados da mesma Mesa da Conscincia e Tribunal
das ordens, propondo e dando o seu voto o juiz dos Cavaleiros, freire e soldados acima
referidos, possam livre e licitamente relaxar e adjudicar sem apelao  dita cria.225
secular ao referido Isaac Eliote, ouvindo sumariamente de plano, convencido ou
confitente, que derrogssemos o Estatuto das mesmas ordens, confirmado pelo Pontfice
Eugnio IV de feliz memria fosso predecessor, chamado de trs instncias, pelo qual
se ordena que as causas dos mesmos freires soldados se examinem em trs instncias, e
outrossim derrogssemos outras quaisquer causas que pudessem impedir ou demorar a
execuo da tal faculdade, e que alis provssemos oportunamente nas premissas do que
procede; que querendo ns, como  justo, que se administre justia e se obvie o dito
escndalo, e conceder s justias do mesmo procurador fiscal neste negcio quando
podemos como Senhor, e absolvendo e julgando absoluto, pelo teor destas, de quaisquer
sentenas, censuras e penas de excomunho, suspenso, interdito e outras eclesisticas a
jure vel ab homine, por qualquer ocasio ou causas fulminadas, ou em algumas que de
qualquer modo houver incorrido, ou somente para conseguir o efeito das presentes:
Inclinado s peties que em seus nomes nos foram acerca disto humildemente
oferecidas por conselho de nossos venerveis irmos Cardeais de Santa Igreja Romana,
deputados da imunidade eclesistica e controvrsias de jurisdio, contendida a
crueldade dos delitos de que se trata com a autoridade apostlica pelo teor das
presentes, ordenamos e mandamos, que, constando dos dois homicdios referidos, sua
atrocidade, e qualidades das pessoas dos ditos Andr Guilherme, Presbtero e frade
professo da ordem da Santssima Trindade e Redeno dos cativos, e de Antnia
Joaquina Xavier, mulher do dito Isaac Eliote, Ru afirmado ou presumido, em uma s
instncia e sem apelao alguma seja privado do hbito, da sobredita milcia de Jesus
Cristo, pelo juiz dos cavaleiros ou freires soldados, e Tribunal das trs ordens chamado
Mesa da Conscincia e ordens; e depois disto, como despojado do privilgio do foro,
por esta privao do hbito, seja entregue  cria secular para o efeito de proceder
contra ele como de direito, etc. 78 Dado em Roma em Santa Maria Maior debaixo do
anel do Pescador ao 26 dias do ms de Maro de 1732, no ano 2 do nosso pontificado -
Cardeal Oliveira.
DOCUMENTO 3
Decreto de El-Rei
Sendo-me presente pela conta que me deu o Desembargador Joo Marques
Bacalhau de que, na devassa que por Decreto meu de 3 de Dezembro do ano prximo
passado tirou das mortes que em casa de Isaac Eliote se fizeram na tarde do dia de 26 de
Novembro do dito ano, ficaram pronunciados o mesmo Isaac Eliote e seu criado
Henrique Roter e trs criadas: E, sendo-me outrossim, presente que o dito Isaac Eliote
por ser notoriamente cavaleiro da Ordem de Cristo com tena que j cobrava, lhe
compete o privilgio para ser remetido ao foro das ordens: sou servido mandar remeter a
dita devassa  Mesa da Conscincia e ordens para a ser julgado sumariamente na
conformidade de um Breve do Santssimo Padre que com faculdade minha se impetrou
pelo procurador geral das mesmas ordens; e, sentenciado que for como parecer justo
pelos Deputados da mesma Mesa, e pelo Desembargador Joo Marques Bacalhau, como
juiz dos cavaleiros, que ser relator, se remeter a devassa ao corregedor do crime da
corte e casa, em cujo distrito se cometeram as ditas mortes, para tambm o sentenciar
pelo que toca  sua jurisdio, segundo os merecimentos das culpas dos pronunciados,
com adjuntos, que o chanceler da casa da suplicao, que serve de Regedor, lhe
78 Encurtmos o Breve cuja verso trasldamos do processo, onde o encontrmos visivelmente
desfigurado pela incapacidade do tradutor..226
nomear. A Mesa da Conscincia e Ordens e o mesmo Chanceler o tenham assim
entendido e o faam executar pela parte que lhes toca. Lisboa ocidental, 14 de Maio de
1732. Com a rubrica de S. Majestade.
DOCUMENTO 4
Sentena da Mesa da Conscincia 79
Vistos estes autos que se fizeram sumrios ao ru preso Isaac Eliote, na
conformidade do dito Breve, e Decreto de S. M. mandando-se pela graveza do caso e
prova dele o ru dissesse de sua justia de facto e de direito no termo de cinco dias, que
depois lhe foram reformados, e concedidos mais trs que pediu por restituio de preso:
mostra-se por parte da justia que, sendo no dia 26 de Novembro, prximo passado,
pelas 4 para as 5 horas da tarde, na rua do Outeiro desta cidade, em as casas onde o ru
morava, fora achada morta a mulher do ru, D. Antnia Joaquina Xavier, passada com
grande nmero de feridas declaradas e confrontadas no auto da devassa, exame e corpo
de delito, que mostravam ser feitas com instrumento de ferro; e bem assim fora tambm
achado morto nas mesmas casas dele ru mas em outra separada, que era a, principal em
que se recebiam as visitas, o padre Fr. Andr Guilherme, sacerdote religioso professo da
ordem da Santssima Trindade e conventual do seu convento desta corte, tambm
passado com grande nmero de feridas, confrontadas no mesmo auto e algumas delas
mostravam ser feitas com tiros e balas de armas de fogo que com efeito foram achadas
na mesma casa e junto do cadver do religioso, e eram duas pistolas descarregadas, e
com o co desarmado, e uma delas com a coronha e ferros do couce e fechos quebrados
e separados, mostrando-se que se havia usado dos tiros das ditas armas e ferros delas
para pancadas e feridas de contuso; e tambm se achara no mesmo cadver, alm de
outras muitas feridas, que mostravam ser feitas com arma penetrante de ferro, que
tambm foi achada quebrada no hbito do dito religioso: e, tirando-se devassa destas
cruis mortes, por decreto de S. M. sendo a mesma devassa que foi servido remeter
como Rei e Gro-Mestre ao juiz relator, nela se acha o ru pronunciado e certamente
convencido de haver perpetrado estes delitos, associado de um criado seu; e, sendo o ru
metido em questo 80 e legitimamente perguntado, confessou haver ele cometido as
referidas mortes, sabendo que o referido religioso havia de ir naquela tarde a sua casa,
por ser chamado e convidado para isso por carta ou recado que lhe levou uma criada do
ru, e de seu consentimento e industriada por ele, e que tambm o mesmo ru mandou
espreitar pelo dito criado quando o dito religioso entrava, estando tambm o mesmo ru
espreitando-o, e esperando a notcia e aviso do criado nas lojas da primeira e segunda
testemunha da devassa, e to preocupado do mau pensamento que tinha, como declaram
as mesmas testemunhas; e, logo que o dito criado lhe foi dizer em lngua estrangeira que
o dito religioso havia entrado para casa do ru, partiu com ele apressadamente para sua
casa, e fechando-se a, porta da rua, por ordem do ru, se preveniu este das ditas armas
de fogo, que j tinha preparadas em um armrio de uma casa do quarto baixo; e,
entrando acauteladamente na casa principal das visitas, em que a dita sua mulher estava
recebendo o religioso, logo disparara neste uma das ditas pistolas, e com o tiro dela lhe
fizera as feridas confrontadas no Auto e depois disparara a outra pistola na sua mulher, e
a errara; e, detendo-se com acabar de matar o dito religioso com uma faca do seu ofcio
79 Omite-se um prvio e longo arrazoado tendente a validar o Breve que o advogado de Eliot contestava
para interpor tempo.
80 Tortura..227
de cirurgio, deixando-o por morto, foi a buscar a dita sua mulher que havia fugido para
as casas interiores, demandando a porta da escada pela cozinha (que era a nica que
estava aberta) e, achando impedimento para descer por ela, voltara para a cozinha, onde
o ru a, achara, e a levou para outra casa imediata a esta, e lhe fez com o espadim, que
tinha  cinta, grande nmero de feridas, confrontadas no Auto, mpia e cruelmente, por
mais que a dita sua mulher, chamando ao ru seu querido marido lhe dizia que o no
tinha ofendido, e que antes a metesse em um convento, e pedira repetidas vezes
confisso, at que, passada de estocadas, expirou sem confisso. E dizendo o dito criado
ao ru que se retirasse, lhe respondera o ru que ainda lhe restava outra diligncia; e foi
 casa de fora, onde tinha deixado o dito religioso mortalmente ferido, e lanado no
cho; e, voltando-o com o p, como o achasse ainda com alguns espritos vitais, se no
satisfez a crueldade e fereza de nimo do ru, sem que lhe fizesse exalar os ltimos; e
por mais que o dito religioso lhe protestou que o no havia ofendido, o ru dando-lhe na
nuca com o couce e fechos de uma pistola o acabara de matar; e fora visto sair
apressadamente de casa com o dito criado; e isto sem achar o dito religioso cometendo
adultrio, nem em acto algum preparatrio dele; nem se prova que o ru houvesse
proibido ao dito religioso nem  dita sua mulher que falassem e conversassem; antes,
constando que o haviam feito em presena do ru em algumas ocasies, em que
concorreram, no devendo ser suspeitosa aquela visita, sem embargo de constar ser a
primeira que fizera (em uma hora que no devera)  mulher do ru, sendo para isso
chamado e convidado por carta de recado, que de consentimento lhe levara ao seu
convento a dita criada, pela grande amizade e conhecimento de criao que havia entre
a mulher do ru e a me e irms do dito religioso, com tal correspondncia e civilidade
que se visitavam e merendavam reciprocamente uns em casa dos outros com
consentimento e assistncia do mesmo ru, como no domingo antecedente se havia feito
em casa da irm do dito religioso, casada com Alberto Borges, onde o mesmo ru
conduziu sua mulher, e onde em presena do ru seu marido falou com o dito religioso;
porm, a maldade do ru tomou o pretexto da visita para executar o desordenado dio
que muito dantes tinha concebido contra a dita sua mulher, havendo premeditado mat-la,
para o que tinha feito a preveno de retirar de casa ocultamente algumas peas de
ouro e prata, e roupas de mais preo, que fizera conduzir para casa do criado e outras
casas, no podendo entretanto dissimular a ma vontade que tinha  dita sua mulher,
desprezando os agrados com que o tratava, a que respondia com desprezos ainda na
presena de pessoas de fora, que se escandalizavam daqueles desabrimentos que a
mulher do ru sofria com mais prudncia do que cabia nos seus poucos anos, posto que
algumas vezes se queixasse a pessoas da sua confiana, sendo tudo nascido do mau
animo e terrvel gnio do ru, como havia j mostrado com outra mulher com quem
vivera muitos anos com voz e fama de casados, e enfadando-se dela a expulsou de casa,
movendo-lhe demanda sobre a validade do matrimnio, pondo-a em tal desamparo, que
a fizera totalmente depender da caridade de algumas pessoas honradas que a recolheram
em sua casa, s quais o ru estranhava este recolhimento, at que aparecera servindo em
uma casa: de que tudo se conclui haver o ru perpetrado os referidos homicdios dolosa
e premeditadamente sem causa alguma, pelo que devia ser relaxado  justia secular,
sendo primeiro despedido da ordem e privado do hbito, honras e bens dela, em
conformidade do dito Breve, e condenado nas mais penas que por direito merecesse.
No alegou o ru coisa alguma em defesa dos referidos delitos nos repetidos termos que
para isso lhe foram concedidos.
O que tudo visto, e o mais dos Autos, disposio de direito no caso; e, como o ru
esteja confesso e convencido pela prova da devassa em haver feito com indstria e
nimo premeditado a cruel sacrlega morte do dito religioso, e da mesma sorte o.228
uxoricdio da dita sua mulher, tambm qualificado de parricdio sem que os achasse
cometendo-lhe adultrio, nem em acto algum dos que costumam ser preldios dele, nem
prova de maneira alguma que lho houvessem cometido, antes consta por bastante e legal
prova de justia, do honesto proceder e modstia de ambos os mortos, e que foram
vistos e achados os seus vestidos interiores sem sinal algum de haverem tido acto
desonesto, convencendo-se pelo depoimento da criada Antnia do Sacramento, nas suas
perguntas, e acareao que se lhe fez com o ru, e alegao que este fez nas suas
perguntas de achar a dita sua mulher na indecncia em que disse os achara, declarando a
dita criada que enquanto durara a visita no faltara ela na casa e companhia da dita sua
ama seno o tempo em que se possa rezar uma Salve-Rainha, no que tambm
contestaram as outras duas criadas Maria Miguel e Simoa dos Santos com pouca
diferena; e que voltando, achara o dito religioso e sua ama sentados no espreguiadeiro
com a mesma postura em que os deixara, sem haver visto aco em que se pudesse fazer
reparo, seno chegar a dita D. Antnia uma mo ao dito religioso, no que no faz prova,
no s por ser singular, mas suspeitosa e convencida como abaixo se declara, ainda
quando nisto fosse verdadeira no se diminua com isso sua modstia, porque ela o
costumava fazer a qualquer pessoa do seu conhecimento; e ainda em presena do ru
seu marido como depem de vista a testemunha o desembargador Joaquim Rodrigues
Santa Marta Soares, a folhas 79 da devassa, ou por facilidade e sinceridade de gnio,
como declara a dita testemunha, ou porque o ru a havia acostumado a tratar, conversar
e danar com pessoas da sua nao, que tem por usana e civilidade a, aquelas e outras
facilidades de que algumas vezes se queixava a mulher do ru, como depem as
testemunhas de devassa a folhas 129 132, reconhecendo o mesmo ru nas suas
perguntas do Apenso 5 folhas 38 que no teria razo para fazer as ditas mortes, se
achara sua mulher com o religioso em companhia de qualquer criada pelo conhecimento
e trato que havia entre ela e seus parentes, ou se os no achasse, como disse o ru nas
segundas perguntas a folhas... do mesmo Apenso, a indecncia em que declarou os
achara; sendo que em uma e outra coisa o convenceu a dita criada Antnia que era a
testemunha que se achou presente na acareao que se fez com ela e o ru: constando,
outrossim, que no s no houve acto algum desonesto na referida visita; mas
persuadindo-se por veementes conjecturas que nem para esse fim fora feita pelo dito
religioso nem aceita pela mulher do ru: porque, suposto que esta se lhe havia queixado
no domingo em que se fez a merenda, em casa de sua irm 81 (aonde tambm estava o
ru seu marido) e o dito religioso s no ter ido a sua casa como depe a testemunha, a
folhas 27 da devassa, que outrossim declara haver-lhe feito primeiro a dita queixa,
contudo se infere com grande verosimilidade que a mulher do ru no esperava naquela
ocasio a visita do dito religioso, e menos para o mau fim que o ru atribuiu; pois que
consta do Auto de corpo de delito, e depoimento das mesmas testemunhas de devassa,
estar sem enfeite ou adorno algum, com um colete velho, e com umas chinelas da
mesma sorte, e  proporo a mais roupa e vestidos, que eram os que costumava trazer
por casa de semana, vindo receber o dito religioso  porta da cozinha que era s a que
estava aberta, acompanhada da dita criada Antnia do Sacramento, como ela depe, e a
criada Maria Miguel nas suas perguntas, no Apenso 1 e 2; e, conduzindo-o na
companhia da mesma criada Antnia para a casa primeira das visitas, de que o ru tinha
fechado a porta principal da escada, e guardada a chave, como consta da devassa e ele
confessa; e, passando, como era preciso, para ir para a dita sala de visitas pela casa de
cmara mais oportuna para actos desonestos, se esse fora o intento, e outrossim no
haver sinal que tivesse o dito religioso assim pelo sossego do nimo e propsito com
que pouco antes havia conversado na loja da testemunha Benedito Bsu, como ele
81 Irm de Fr. Andr Guilherme..229
depe, e o seu caixeiro Jos Ferreira Simes, f. 137 e 138 da devassa, e perguntando na
mesma rua do Outeiro  testemunha Alexandre Pereira onde o ru morava, e mostrando-lhe
a porta entrara o dito religioso por ela sem cautela alguma e o mesmo jura a
testemunha a f. 28 da devassa; e com a mesma sinceridade entrou para a dita casa, para
onde a mulher do ru o conduzira com toda a urbanidade; e, falando-lhe de joelhos
como depem as ditas criadas Antnia e Maria Miguel nas suas perguntas; o que tudo e
o mais que depem as testemunhas de devassa em abono da modstia e bom
procedimento do dito religioso e da mulher do ru assaz exclui o desonesto intento a
que o ru atribuiu o da visita, que se no presume de terem conversado em uma casa
principal, e mais a propsito para receber uma honesta visita com a porta aberta e  vista
de uma criada, maiormente no constando que o ru houvesse proibido, e com as
circunstncias necessrias por direito ao dito religioso, que falasse a sua mulher; antes,
havendo-o feito em alguma ocasio em que concorreram na presena do mesmo ru,
como foi na ocasio da merenda e divertimento a que o ru a conduziu a casa da me e
irm do dito religioso; convencendo-se, por grande nmero de testemunhas da devassa,
quando se acharam presentes na mesma ocasio, e motivo, que o ru alegou, nas suas
perguntas do Apenso, da desconfiana ou zelotipia que ento concebera da dita sua
mulher com o mesmo religioso, e da mesma sorte a confisso da dita criada Antnia que
disse, nas suas primeiras perguntas do 1 Apenso, que sua ama lhe fugira de um sculo,
que lhe dera o dito religioso, assim pelas inverosimilidades que nas ditas perguntas se
lhe argem e pelas falsidades em que foi convencida, e de ser ela quem foi a principal
motora dos enredos e infortnios com que falsamente arguia com suspeitoso zelo e
honrado procedimento da mulher do ru; e, no dia antecedente ao da sua morte, a havia,
ameaado, dizendo-lhe que no dia seguinte no havia ela de estar contente, acusando-a e
entregando-a ao ru como ela confessou depois de convencida pela outra criada Maria
Miguel; escrevendo as cartas que disse escrevera a dita sua ama para o dito religioso,
sendo que se no prova a verdade da mo de quem lavrou as ditas cartas, nem a que se
diz fora resposta do religioso para a mulher do ru, em cuja mo se achavam; e no
consta que nenhuma fosse a poder da pessoa para quem diz foram escritas, maiormente
negando o dito criado do ru, nas suas perguntas do Apenso 4, e acareao que se fez
com um e outro, haver feito tirar a cpia  imitao do original, que se diz fora a
resposta do religioso para ser entregue  mulher do ru, para ela esperar pela visita do
mesmo religioso; sendo que na carta que o ru diz fora feita por sua mulher ao religioso
tal visita lhe no demandava; e, ficando-se o ru, como ele diz, nas suas respostas, com
esta cor, para prova de sua defesa, em que cuidava muito, se acha na resposta que se diz
fora feita pelo religioso, como satisfao  queixa que lhe fazia a mulher do ru de lhe
no aparecer o dito religioso, ou lhe no falar no domingo na igreja do seu convento,
sendo que a carta em que se lhe fazia a dita queixa no foi a poder do dito religioso,
como o ru declarou nas perguntas, nem deu boa resposta a esta dvida, suposto
declarar a criada Maria Miguel que lhe no dissera palavra, como o ru disse,  tal
queixa: O que tudo, e as mais incoerncias e inverosimilidades concluem serem falsas
as ditas cartas, fabricadas para pretextar e encobrir a maldade do uxoricdio, que o ru
muito antes premeditava, aconselhando-se, sobre a futura sucesso nos bens de sua
mulher muito mais moa, com o advogado Joo Miles de Macedo, e sobre a forma da
sucesso e venda de algumas aces de Boa-dita 82 como jura o mesmo advogado a
havendo retirado ocultamente para casa do dito seu criado alguns bens mveis
preciosos, como jura o homem de ganhar 83 que os conduziu a f. 6; dizendo que a teno
com que premeditava matar sua mulher por adultrio foi porque ela lho confessara
82 Crdito de devedor seguro.
83 Carrejo..230
debaixo da imunidade que ele lhe prometera, com Josse Frisch 84 ; e o dizem as
testemunhas que o ru acumulou contra a modstia e honrado procedimento da dita sua
mulher, da qual fazia fiscais as suas prprias criadas, e lhes prometia prmios para que
lhe descobrissem os seus defeitos; sendo muito natural que por este meio as induzisse a
que falsamente a criminassem e acusassem, como se averiguou hav-lo feito a dita
criada Antnia do Sacramento, nas acareaes que se lhe fizeram com o ru, que dava
crdito  dita criada e lhe ouvia os ditos enredos, tendo-a em melhor conta do que
merecia, como declarou nas prprias perguntas, do que depois se arrependeu
inutilmente e mudou de conceito nas segundas perguntas e com conselho admitia as
criadas de suspeitoso procedimento na companhia de sua mulher moa e de to pouca
idade. Pelo que de tudo se conclui haver o ru feito dolosamente e cruelmente as
referidas mortes com indstria e nimo premeditado sem causa alguma seno movido
do seu terrvel e arrogante gnio, o que j havia mostrado com outra mulher com quem
vivera muitos anos em voz e fama de casados; e, enfadando-se dela, a expulsou de casa,
e lhe fez demanda sobre a invalidade do matrimnio; e a ps em tal aperto que algumas
pessoas honradas a recolheram em sua casa, e mui padeceu servindo em uma como
consta da devassa. E pelo conhecimento que tinha do gnio cruel do ru, o seu nacional
Andr Lombardon lhe aconselhou que no casasse como jura a f... da mesma devassa.
Portanto condenam o ru em pena de expulso da ordem de N. S. Jesus Cristo de que 
professo e o privam do hbito e tena que tem a titulo dele, e dos privilgios de
cavaleiro da dita ordem, e o declaram por sacrlego e incurso em excomunho maior de
que deve pedir absolvio, e o relaxam  justia e cria secular com o costumado
pretexto de direito cannico; e pague o mesmo ru as custas em que o condenam. Mesa
20 de Junho de 1732. Com sete rubricas dos deputados e presidente da Mesa. -
Bacalhau.
DOCUMENTO 5
Memorial de Eliot 85
Formou Isaac Eliot, preso na cadeia da corte, embargos  sentena contra ele
proferida no Tribunal da Mesa da Conscincia e Ordens, mostrando no dever ter
execuo o Breve em que a mesma se funda, assim porque nele se no acham transcritos
per formalia os Breves e indultos concedidos aos cavaleiros para no serem expoliados
dos privilgios do seu foro, sem o que no se presume que o santo Padre tivesse notcia
deles para derrog-los, como porque no se justificam as narrativas do mesmo Breve,
etc... No se verifica que o suplicante com premeditado e deliberado nimo cometesse
as mortes de que se trata e sem causa como se persuade na splica com que o dito Breve
foi impetrado; antes dos autos se mostra que o suplicante levado da justa dor da honra,
vendo um frade sentado com sua mulher em um espreguiadeiro, lugar apto para o
delito, e em uma casa interior j de muito tempo antes vedada pelo suplicante a sua
mulher para visitas de homens, e no havendo parentesco entre ambos, com que fosse
permitida a confiana de se sentarem em semelhante lugar, ss, e sem companhia
alguma; em aco de que s se podia presumir pecado e no cortejo, os matou a ambos,
o que havia de fazer qualquer outro homem que tivesse honra, se achasse a um frade da
mesma sorte sem confiana na casa, ter muito com sua mulher, e estar justamente
sentado no lugar suspeitoso e com aces menos honestas ainda que lhe faltassem as
84 A sentena escreve Frique.
85 Refugmos do Memorial as razes j alegadas em outro documento..231
antecedncias com que o suplicante se achava na certeza de que se correspondiam com
cartas de amores. Com estes e outros fundamentos provados de facto e de direito,
embargou o suplicante a dita sentena e se acham os ditos embargos conclusos para se
determinarem.
P. ao sr. desembargador Alexandre Ferreira que, vendo os ditos embargos com
ateno que merece matria to grave, favorea ao suplicante na recepo deles, dando-lhe
livramento ordinrio para poder mostrar a inocncia com que se acha em rigorosa
priso, que experimenta, a justificada causa que o forou a executar as ditas mortes. E.
R. M.
DOCUMENTO 6
Sentena final
Acordam em Relao, etc., que no recebem as excepes declinatrias por sua
matria nem os artigos de imunidade; porque ainda quando se verificasse serem os RR.
Isaac Eliot e Henrique Roter extrados ou presos em lugar a que fosse a dita imunidade
devida, exclua, segundo a expressa resoluo da lei do reino, o propsito, meditao e
insdias com que notria, e inegavelmente se cometeram as mortes de que se trata, nem
outrossim recebem os embargos de nulidade deduzidos em adio da sua defesa fl. 51
at fl. 53 por ser a de que nele se trata afectada e reconhecida j por caluniosa; e,
deferindo afinal sobre o merecimento dos autos, e, depois da relaxao a fl. 163 do
processo apenso, se fizeram sumrios aos RR. Isaac Eliot e seu criado Henrique Roter, e
criadas Antnia do Sacramento, Maria Miguel e Simoa dos Santos, se mostra, quanto ao
R. Isaac Eliot que, sendo em a tarde 26 de Novembro de 1731, havendo sado da sua
casa, que tinha na rua do Outeiro, em uma sege, junto s 3 horas, e depois de ter jantado
amigavelmente com sua mulher D. Antnia Joaquina Xavier, se foi apear junto  botica
que foi de Jcome Valebelt no canto da Cordoaria velha, mandando a sege para a porta
do marqus de Tvora, e, entrando para a dita botica, passou depois para uma loja de
bebidas da Rua Larga, s Portas de Santa Catarina, at que, sendo j mais de 4 horas, o
veio chamar o R. Henrique Roter, por quem tinha mandado espiar quando em a dita sua
casa entrasse o padre Frei Andr Guilherme da ordem da Santssima Trindade que sabia
havia a ela de ir, como se confessa nos artigos 24, 25 e 26 da defesa fl. 58, em razo do
suposto aviso, ou carta que em nome da dita sua mulher lhe tinha mandado; e que,
voltando logo, esta notcia em companhia do dito seu criado para sua casa onde o dito
religioso tinha entrado muito pouco antes, que a testemunha a fl. 25 declara seria menos
de meio quarto, e, achando conversando com sua mulher, os matou cruelmente a ambos
com dois tiros de pistola e repetidos golpes e feridas feitas com vrios instrumentos
segundo se percebe do Auto de corpo de delito fl. 6. Mostra-se que para o R. cometer
este escandaloso, sacrlego e horrvel crime no teve causa nem fundamento algum, e
menos que o possa relevar; porque ainda que quisesse persuadir com as cartas que logo
escreveu, e que vo a fl. 4 do Apenso 5 e fl. 2 do Apenso sumrio, achara aos
sobreditos cometendo-lhe adultrio, que era a nica defesa que por direito lhe competia
para invadir a pena ordinria, no s o no prova com a legalidade necessria, mas antes
plenamente se justifica por quase todas as testemunhas da devassa ser aquele refgio
afectado, e a dita, D, Antnia, mulher muito honesta, bem procedida e virtuosa sem nela
haver aco culpvel em que se pudesse fazer reparo, pelo no merecerem aquelas vezes
que, por no faltar  obedincia do ru seu marido, e querendo com ela praticar o uso da
sua ptria, a levava a alguns divertimentos e quintas, a casa de pessoas com quem tinha.232
familiaridade; e, alm de o convencerem com a dita afectada escusa a que recorreu
assim os indcios que resultam da grande compostura com que foi achado o cadver do
dito religioso, como do lugar e casa onde estavam por ser a das visitas e mais pblica,
em que havia janelas para a rua que estavam abertas, e patentes aos vizinhos defronte,
que podiam ver o que na dita casa passava como com efeito viram as testemunhas fl. 88,
19 e 27 e outras, e de cuja abertura juram as testemunhas fl. 27 e 59, como bem assim o
ali estar perto a R. Antnia do Sacramento sua criada, estando as duas mais que na casa
havia em parte donde a podiam ver por se no fechar porta alguma, provando-se
claramente pelos depoimentos e confisses das mesmas a compostura e cortesia com
que a dita D. Antnia recebeu a visita do religioso, e a com que este lhe falava e que
suposto se assentassem juntos em um preguiceiro, no houve entre eles aco imodesta
ou repreensvel, e que no pudesse facilitar a grande correlao, trato e amizade que a
dita D. Antnia tinha com a me e irms do religioso, como referem as testemunhas fl.
18 e 21, e muitas mais de fl. 65 em. diante; e, concorrendo outrossim para confuso o
pretexto do R. a variedade com que referiu o sucesso, e forma com que disse achou os
supostos delinquentes segundo bem se divisa do que primeiramente escreveu em as
cartas mencionadas; quanto mais que, ainda dado que o R. achasse a dita D. Antnia
Joaquina em lugar, tempo e aces que lhe parecessem suspeitosas (o que assim no foi)
no era isto obstante a se lhe demorar a pena do seu delito, em razo de que, suposta a
certeza que o R. tinha de que Frei Andr Guilherme havia de vir a sua casa, o que por
ele ainda presentemente se confessa se no verifica, em que lhe viesse na sua pessoa
aquela justa e repentina dor em considerao que em outra qualquer podia intervir, se
inopinadamente achasse sua mulher com pessoa de suspeita em actos que inculcassem
menos decentes. Sendo que, devendo-se nestes termos seguir as disposies de direito
comum, por no estar tal caso previsto pelas leis do reino, se faz indubitvel que,
segundo elas, para o R. evadir das penas da morte, que cometeu, se lhe fazia preciso, na
hiptese referida, o verificar-se que, pela sua parte, tinha por trs vezes avisado aos que
julgava culpados para que se no vissem nem comunicassem; nem aos RR. podem mais
relevar as cartas amatrias de que se pretendem valer, porquanto se no justifica de
sorte alguma a verdade das ditas cartas, em razo de que as que dizem ser de D. Antnia
Joaquina se mostram no o ser pelos multiplicados exames que  vista da sua verdadeira
letra se fizeram, tendo a das tais cartas, segundo se assevera em auto a fl. 124, mais
semelhana com a do R. e com as que se acham a fl. 131 do processo apenso, que o R.
em seu depoimento a fl. 119 declarou no serem escritas por letra de sua mulher, e,
posto que nas razes prximas se diga que a diversidade que reconheceram os peritos
nasceu de diversos tempos em que umas e outras cartas se escreveram, sendo as
indubitveis feitas dois anos antes das que se duvidam, isto se refuta vendo-se ento as
cartas mais antigas de muito melhor letra do que as modernas, o que no costuma
acontecer, por ser mais natural o escrever-se melhor depois de mais exerccio, tirando-se
tambm da contextura das ditas cartas uma grande presuno para se reputarem como
falsas, para se colher e alcanar delas mais trato e correlao, e maior correspondncia
do que se prova, e pelas confisses dos mesmos RR se percebe e inculca; sendo digno
de reparo que, tendo D. Antnia (como se diz) escrito tantas cartas, que se lhe tinha
segurado estavam entregues, no reparasse nem formasse queixa da falta delas; e dado
que a carta fl. 5 do Apenso 8 que se declara ser feita pelo padre Frei Andr Guilherme
pareceu a alguns dos peritos ter semelhana com a letra da quitao do Apenso 6 que se
assegura ser dele, persuade evidentemente ser alheia e no da mo do dito padre, o
declarar-se nelas que o padre sabia a residncia do R. e pelos depoimentos das
testemunhas se faz crvel que o dito religioso no entrara em tempo algum na casa de
Isaac Eliot, onde foi morto. Ao que acresce no s a inverosimilidade j ponderada em.233
a, sentena dos autos da contrariedade, carta e resposta de outra que ficou na mo do R.,
mas tambm da antecipao com que nelas se assinava o dia de quarta-feira para a
segunda visita, sendo coisa que se podia ajustar na primeira, sem merecer o reparo ou
sinal da cortina, quando consta que D. Antnia a punha para no ser vista querendo
coser  janela. Demais que sendo, como se quer persuadir na dita carta a tal cortina
demonstrativa de que o ru no estava em casa, fica a mesma carta convencendo,
jurando a testemunha fl. 90 que vira a toalha a horas de jantar, e a testemunha fl. 124
que, chegando s 3 horas  janela, a achara j posta, o que junto  declarao que o ru
faz de que sara de casa s 3 horas e um quarto, mostra no haver tal sinal. E argui
outrossim a verdade da tal carta 86 a reflexo de que dizendo o ru que fora trasladada
na portaria do convento de S. Francisco, e a R. Maria Miguel na igreja da freguesia da
Encarnao, sendo este acto tal que necessitava de tempo, nem em unia nem em outra
parte, sendo to pblicas, h notcia que se visse fazer o dito traslado, nem para ele se
pedisse o necessrio, o que nas suas perguntas corrobora a declarao que o R. Henrique
Roter faz de no ter como o R. de facto nem concorrido para o tal traslado; e ainda que a
falta deste no argui directamente a dita carta de falsa, a falsidade que nesta parte se diz
s faz argumento para se no supor a outra, e sempre se mostra no esperava D. Antnia
por aquela visita, pois no consta tivesse aviso de dito religioso - o que comprova o
desalinho e descompostura com que foi achada, alm dos encontros, variedades e
incongruncias que sobre a verdade das ditas cartas se deduzem das declaraes que nas
suas perguntas fizeram tanto ao R. como s RR. Antnia do Sacramento e Maria
Miguei, suas criadas; sem embargo de que ainda, contra o que fica ponderado, se
verificasse serem as ditas cartas verdadeiras, sendo simplesmente amatrias, sem
confisso de torpeza alguma, no faziam a favor do R. prova de adultrio de pretrito
como lhe era necessrio, mas to somente um receio de o poder haver para o futuro, o
que o ru prudentemente devia evitar sem que lhe fosse permitido o execrando excesso
a que se precipitou, e que pela inspeco e merecimento dos autos se deve
necessariamente atribuir a diversos motivos e  m vontade que o R. tinha a sua mulher,
a quem consta maquinara a morte (muito tempo antes de entrar em a malfadada
desconfiana que alega teve do dito religioso) como claramente se colige dos conselhos
que tomava sobre a sucesso de seus bens, e a da alheao das jias mais preciosas,
tirando de sua casa os mveis mais ricos que nela havia, sobre o que compridamente
juram as testemunhas.1... e o R. confessa nas suas segundas perguntas fl... E no se
fazem em beneficio da defesa do R. atendveis as desconfianas que para ele se afectam
em razo de que havia 8 dias antes passado em um festejo que se fez em casa de uma
irm do padre Frei Andr Guilherme, onde este se achou e o R. e sua mulher igualmente
concorreram, por se verificar concludentemente por juramento de todos os assistentes
no houve naquele acto aco repreensvel em que se pudesse fazer reparo. Nem
ultimamente as imposturas com que em suas perguntas pretendeu macular a honra e
honestidade de sua mulher e diversas pessoas em que os mais RR. o adjuram; porque
no se faz crivei que o ru remitisse tantos adultrios verdadeiros, quando to
severamente. castigou um que s foi imaginado... Nem a referida alegao o relevava
dos crimes, e podia cooperar para o livramento de alguma das mortes que confessa fez,
pois que nem o religioso devia pagar as culpas alheias, nem D. Antnia Joaquina, pela
posterior coabitao, as outras estavam, se fossem verdadeiras, remetidas. Concluindo-se
assim com evidncia achar-se o R. Isaac Eliot incurso em a pena condigna s ditas
duas mortes com as agravantes qualidades do sacrilgio e parricdio, sem que se possa
86 Paria se entender este aranzel convm saber que Eliot dizia ter sido trasladada a carta de Antnia
Joaquina para o frade; alis no poderia ele saber a hora que ela aprazara para a visita. Os juzes
aproveitam-se da divergncia dos locais em que dizem fora trasladada a Carta..234
atender para delas ser relevado a alegao que tambm faz dos embustes das suas
criadas de quem refere se fiava; pois a vileza dos seus costumes que o R. conhecia lhes
tirava o crdito e ainda a capacidade para as haver de pr e conservar em a companhia
de sua mulher. Mostra-se quanto ao R. Henrique Roter haver-se associado a seu amo
Isaac Eliot concorrendo igualmente para os delitos referidos, dando-lhe auxlio, no s
em o mesmo acto, mas ainda com precedente tratado, que assaz justifica a espera que
fez ao padre Frei Andr e aviso que ao mesmo seu amo levou de ter este j entrado em
sua casa, havendo tambm prova de intervir e cooperar para as mesmas mortes, como
no s depem as mais criadas reputadas scias do delito, mas ainda a testemunha
maior de toda a excepo fl. 88, e as duas que por informao depuseram fl. 51, o que
fica mais evidente com a alegao total que o R. faz no s deste facto mas de muitos
outros, em os quais todos se acha plenissimamente convencido, e ainda que o dito seu
amo o pretendesse escusar, dizendo o deixara  porta s para impedir que no subisse
alguma pessoa que pudesse estorvar-lhe os malefcios, que pretendia executar, nisso
mesmo lhe vinha a dar o auxlio em que intentou buscar-lhe desculpa; e concorre mais
do depoimento das testemunhas que o ru era mal afecto a sua ama D. Antnia, como o
dizem as que juram desde fl... a fl... o que se mostrou ainda em  tempo de suas
perguntas, levantando  sua mesma ama alguns testemunhos em matria to grave como
a da sua reputao e crdito, no que o contradisseram as mesmas pessoas a quem o R. se
refere. E, como conforme a direito e lei do reino, os scios em o delito em que se trata
afiancem s o seu lesamento na defesa da R. principal, se fica legitimamente concluindo
que estando este convencido no que alegou, se acha o R. Henrique Roter incurso na
mesma pena. Enquanto s RR. Maria Miguel, Antnia do Sacramento e Simoa dos
Santos se mostra intervirem e ajudarem com as suas falsidades e enganos e mexericos a
que se fizessem as ditas mortes, no sem presunes mui veementes de concorrerem
para a falsidade das cartas, e com cincia e notcia delas, segundo se colhe de terem
ajustado entre si certa forma para responderem na mesma conformidade s perguntas
que se lhes fizessem sendo oposta a que depois declarou Maria Miguel contra o
declarado nas primeiras perguntas, e a fl. 5, que mentira em o juramento que tinha dado
na devassa a instncias da R. Antnia e esta por comprazer com a dita Maria Miguel. Na
mesma falta concorreu Simoa dos Santos porque tendo dito que vira sua ama encostar a
cabea ao ombro do religioso, declarou depois fora em aco de chorar no que
diversifica muito do que na primeira assero se podia coligir, sendo mais convencida
Maria Miguel em dizer que tinha declarado a seu amo a histria das cartas em o dia de
segunda-feira, provando-se pela testemunha fl. 76 foi no Domingo como o R. Isaac
Eliot declara, e Antnia do Sacramento em os defeitos que quis arguir a sua ama por se
verificar igualmente serem supostos. E assentando-se que uma delas disse, no dia
antecedente ao das mortes, que no dia seguinte no havia sua ama de andar muito
alegre, diz Antnia que isto o dissera Maria Miguel, tendo j antecedentemente dito esta
que Antnia fora quem o dissera; e vendo-se todas na ocasio das mortes, em tal
sossego, sequido, e empenho em as desculpar, que isto se fez em toda a vizinhana no
somente estranhvel, mas ainda suspeitoso, reparando-se outrossim em no darem vozes
nem chamarem por socorro ao menos depois de sair seu amo, segundo o que juram as
testemunhas de ri... Sendo ainda mais repreensvel a alegria, o jantar, e o jogar no dia
seguinte, que referem as testemunhas de ri... O que tudo visto... 87
87 O restante da sentena est trasladada a pg. 403 e seguintes..235
POESIAS RELATIVAS  TRAGDIA
Os dois seguintes sonetos so do Cames do Rossio, Caetano Jos da Silva Souto-Maior:
De que serve esta vil barbaridade,
inda do agravo a errada fantasia,
se a descrdito unindo  tirania
te adquiriu outra injria na Impiedade.
Seria a sem razo a atrocidade,
remdio o desagravo, e no porfia;
est longe da honra a aleivosia,
na paixo justa  injusta a iniquidade.
A infmia, que supes, quando se faa,
acha na morte horrvel recompensa
que a desafogue e no que a satisfaa.
Na dvida  melhor a indif'rena,
porque a traio podia ser desgraa,
mas a vingana sempre foi ofensa.
No faz ao monge o hbito inocente,
Se a vida no tiver justificada;
No justifica uma teno danada
Um pretexto suposto e aparente.
Por adltera morre uma inocente
De um trino  na morte acompanhada;
Pelo hbito que tem da aco malvada,
Fugir  pena intenta o delinquente.
Se hbitos cobrem peitos desta sorte,
Tm achado os tiranos um bom meio
Com que dar na justia um grande corte.
Mas este o no ver, segundo creio,
Pois no lhe ser asilo contra a morte
A cruz que desprezou no peito alheio.
V-se Eliote no lao
Em que a desventura o ps,.236
E j sente andar-lhe o algoz
Calculando-lhe o cachao.
Por uma venialidade
O acusa o povo insolente,
Quando o que fez foi somente
Matar a mulher e um frade.
Muitos nas mos lhe morreram,
E nem por isso o culparam,
Antes mui bem lhe pagaram
A morte que padeceram.
Agora, qualquer se envia
Ao pobre por matar dois,
Quando se soube depois
Que um pelo outro morria.
Contam pois para o culpar
O caso muito ao revs,
Quando mostrou no que fez
Que lhes queria... a matar!
Soube que  mulher j vinha
Chegando o ltimo prazo,
Por ter estudado o caso
Como no caso convinha.
Para que no lhe faltasse
Companhia neste aperto,
Lhe chamou um frade esperto
Que na morte a acompanhasse.
Ela nas mos lhe morreu
Da morte que ele previa,
E o funde nesta agonia
Expirou do que lhe deu.
............................................
............................................
Mas, como ao triste Eliote
Deseja o vulgo enforc-lo,
Diz que ele, por seu regalo,
Fizera os dois em gigote.
No foi aco desumana
Pr em praxe o seu ofcio
Em que era por exerccio
Cortador de carne humana..237
Se lhes fez este servio
Foi to desinteressado,
Que, fazendo-os em picado,
Nada lhes levou por isso.
E, assim, se pelo que fez,
A culpa lhe ests formando,
Disso est ele zombando,
Porque no fez; mas desfez.
Dizem mais que ao prprio filho,
Por nascer, sacrificou,
Com que provar intentou
Que a mulher o fez novilho.
Se ela rs viera a ser,
Sendo Isaac fora razo;
Mas era injusto qu'Abrao
Se quisesse Isaac fazer.
Se tal fez, a lei quebranta
Com razo, e a razo fundo
Em nos no deixar no mundo
Um garfo de to m planta.
Mas o pobre  um coitado
Para ter maus procederes;
Pois matou muitas mulheres,
E nunca saiu culpado.
Antes o mal que receia
As esposas lhe causaram,
Pois as que a mo lhe alcanaram
O meteram na cadela.
A LIOTE
DCIMA
A muitos quebraste o casco
ou o corpo traspassaste;
dos crimes sempre zombaste,
fazendo das mortes chasco.
Porm, agora o carrasco,
pondo-te a vida num fio,
te dir com modo pio:.238
Por seres sempre Liote,
em corpo e alma huguenote,
pelo pescoo te lio.
ROMANCE
CONTRA ELIOTE, O SEU NASCIMENTO E ORIGEM, VIDA E INFELIZ
SUCESSO DE DOIS INOCENTES
Sossegue a Nobreza toda,
a plebe e vulgo servil,
que eu prometo, na verdade,
dar novas certas de mim.
Contarei com mais certeza
este sucesso infeliz
pois vejo que todos falam
por modos mais que de mil.
Primeiramente Eliote
me chamaro sempre a mim;
nem em Frana fui gerado,
mas em Constantinopla sim.
De um francs renegado,
e de uma turca nasci;
logo as herticas seitas
constante sempre segui.
J depois de ser adulto,
para Frana me parti
onde a cirrgica arte
peritamente aprendi.
Porm, por certos indultos,
banido cheguei aqui,
onde fui logo estimado
por minhas curas subtis.
Para lograr meu desgnio
catlico me fingi,
e com to feliz estrela
que assim tudo consegui.
O Soberano Monarca
(que viva sculos mil)
me honrou com hbito e tena.239
para entre os nobres luzir.
Ricos e nobres me davam
ninfas belas e gentis,
para que, em doce himeneu,
passassem vida feliz.
Ignorando os pobres pais
ser to perverso e ruim
que a duas castas consortes
a vida lhes exauri.
Ajustei-me finalmente,
e por ltimo recebi
com exorbitante dote
um precioso Serafim.
Porm, como o meu projecto
sempre intentou destruir
de Deus os sacros preceitos,
traidor, com ela vivi.
A um Religioso Trino
uma carta lhe escrevi
pela inculpvel chamado
ser com engano fingi.
Cortesmente veio o padre
logo em continente vim,
e  violncia dos tiros
a vida lhe despedi.
Mas que muito se era Trino
a quem sempre aborreci
por ser disfarado herege
da canalha mais ruim!
A casta mulher dei morte
com o meu prprio espadim
e por seu lcteo peito
vinte feridas lhe abri.
As ternuras dos suspiros,
to cruel me emudeci,
que tiranamente ousado
lhe acabei de ver o fim.
Desculpando o meu delito,
adultrios argui,
no chegando nem por sombras.240
a inocente a delinquir.
Depois de assim satisfeito
ao sagrado me acolhi:
mas a Igreja no defende
a quem a profana assim.
Finalmente desprezado
por dois fortes beleguins,
fui levado ao Limoeiro
em o qual darei meu fim.
Dcimas joco-srias e satricas dedicadas a monsieur Eliote pelas obras e
maravilhas que fez to boas como seus narizes.
Este Eliote afamado,
l em Frana, pelas manhas,
por obrar tantas faanhas,
foi em esttua levantado.
Por se ver hoje alcanado
(direi antes que me esquea)
que devem logo, e depressa,
premiar este francs;
e, se atenderem ao que fez,
pode levantar cabea.
Grande homem se ostenta
pelas coisas aparentes,
porque, matando inocentes,
ser Herodes representa.
E, se por muitos se assenta
deitar o preto no poo,
do carrasco dizer posso
que tem um poder mais rgio,
porque tem o privilgio
de pr-lhe o p no pescoo.
Deste Eliote se conta
com achaques se enternece;
mas de muitos que padece
s se sente da garganta.
J todo o mundo se espanta
ver enfermo o Eliote;
pois, tendo por grande dote
ser da Cirurgia filho,
se livrar do garrotilho,
no escapa do garrote.
Se no larga o postemeiro,.241
se ao serrote 88 inda acode,
com ele s serrar pode
as grades do Limoeiro;
mas temo que o carcereiro
lhe sacuda bem o couro,
querendo por seu desdouro
amans-lo de caminho,
por que sendo to mansinho,
se quis converter em touro.
Se to valoroso era
matando com tanto asco,
sujeito a um carrasco
agora se considera.
J no mata como fera,
j l vai a valentia,
j lhe no vai cirurgia,
todo o rigor o ameaa,
temendo s que se faa
nele alguma anatomia.
Este famoso valente
prezado de carniceiro
l tem outro companheiro
que mata bastantemente:
sobre qual  mais ciente
sua disputa faro;
ambos os dois cortaro
cada um com seu serrote;
pelo podre o Eliote,
o carrasco pelo so.
Razo  que o povo veja
que, se buscava o sagrado,
porque a lei no h guardado
no lhe valeu a igreja;
alas, suposto que assim seja,
direi que teve ventura
no achar a priso dura;
nem a tenha por desprezo,
que suposto esteja preso
sempre  parte mais segura.
Priso de tal luzimento
nunca se viu celebrada;
a gente toda pasmada
ia em seu seguimento.
Um grande acompanhamento
levava na companhia;
88 Instrumentos cirrgicos..242
mas ele bem presumia
lhe iam fazer a cama,
que por ser homem de fama
toda a honra merecia.
Levava no seu estado
pelas ruas de Lisboa
junto da sua pessoa
dois pretos e um criado.
Deles no foi separado
porque to amigos eram
que do amor se prenderam
com nsias to eficazes
que dizem, por terem pazes
que liga todos fizeram.
O povo com gritaria
dizia em voz levantada
que fosse bem castigada
tal traio e aleivosia.
Ajuntou-se a rapazia
o os que eram mais capazes,
todos foram seus sequazes
a ver este homem banido
passar de touro fingido
a ser touro de rapazes.
.....................................
ROMANCE
(De Toms Pinto Brando)
Indito 89
Ao espectculo horrendo
daquela mortal figura
que de trs paus no teatro
o papel faz da fortuna;
Rebuado o sol em nvoas,
coberta em guas a lua,
caso que, at de admirada,
o quis ver parada a chuva.
89 O deplorvel eclipse que se fez nas letras portuguesas do sculo XVIII autorizara Toms Pinto a
laurear-se um dos primeiros poetas do seu tempo.
Este romance, modelo de perverso intelectual, e no sei se diga de mau corao, foi pea muito
aplaudida e recopiada. No reluz a um verso em que as vtimas sejam dignamente carpidas, nem o algoz
execrado com a indignao do poeta, ou lastimado com a piedade do cristo..243
Cega a luz, o vento imvel,
e em variedade confusa,
despovoadas as casas
e cheias de gente as ruas:
Ento conheceram todos
que a glria do mundo dura
quanto a vida de quem mata
quanto a bolsa de quem furta.
Saiu pois Isaac Ellote
daquela infame espelunca
cuja fbrica sustentam
fortes de, ferro colunas;
casa de jogo velhaca,
como se v, se as mos julga
ou no que de fino rouba
ou no que falso trunfa;
casa enfim to apertada,
to medonha e to escura
a todo o que nela mora
e contra vontade a aluga.
Sem embargo de que a paga
no que o senhorio ajusta,
lhe parea ao regist-la
para que bem se confunda;
Por qualquer parte caverna;
e por qualquer parte furna,
toda a terra o duvidava,
no por ignorar-lhe as culpas;
Nem porque o no merecesse
uma crueldade absoluta
mas como tinha este Isaac
toda esta corte por sua,
cuidou que algum anjo houvesse
que ao sacrifcio lhe acuda,
que, s vezes, a trs paus
faltam a quem largamente truca.
Entrou na rua do Outeiro:
quem duvida ou quem no cuida
que aqui teve o pior trago
nesta rua da amargura..244
Pois por onde entrou rodeado
j em sege ou j em estufa,
agora em camisa entra,
que ainda que  alva  mais suja.
Preso  vista das janelas
onde to livre se punha,
que se no mudam as casas
posto que a gente se muda.
Uma esquadra de soldados,
e de alcaides outra chusma
lhe guardavam a pessoa,
no por temerem que fuja;
mas por ser aquela usana
em tais procisses comua,
pois com muito menos gente
ir podia mala segura.
Apenas do prego deram
sinais as vozes difusas
por todo aquele auditrio
que enternecido as escuta,
por elas  que souberam
que do corpo se lhe trunca
a cabea para exemplo,
e na forca se lhe punha.
Ento o vi descorado
com uma mortal brancura,
arrepiando o cabelo,
e a barba entre branca e ruiva.
As mos postas em algemas,
e ainda assim com elas puxa
as roupas, que no lhe estorvem
a carreira que, s, busca.
Nelas um Cristo levava
de to devota escultura,
que o corao lhe derrete
em guas que no enxuga.
Ao patbulo chegava;
aqui a vista se turva,
aqui a voz titubeia,
aqui o corao pula..245
Aqui o medo se espalha,
aqui o valor se oculta,
aqui o matador treme,
aqui o ladro se assusta.
Aqui o casado aprende,
aqui o solteiro estuda,
aqui a senhora fala,
aqui a criada escuta.
Aqui toda a alma esmorece,
aqui todo o corpo sua,
e aqui finalmente pra
quem nos vcios continua.
Tudo isto acontece a uma alma
que mais ao corpo se ajusta;
subiu ao degrau mais alto,
e, voltando-se em postura
de ver oriente e ocidente
nas duas Lisboas juntas,
a Lisboa viu duas vezes
e Lisboa o viu por uma.
Ali se deixou ver todo
da nobreza e mais da turba
(que de tudo ali se achava);
e alguns, somente com uma,
mais visitas lhe pagaram,
que um bom cirurgio faz muitas.
J preparadas estavam
as gargantilhas imundas,
do pescoo afogadores,
que so mais que adorno injria.
Subiu mais; e, sendo ao cu,
se achou em melhor altura.
Segundo afirma o piloto
Chofreu, 90 que no mar das culpas,
Indo com ele at ao cabo
da esperana que em Deus funda,
cr que em trs paus o salva 91
quem por ele em dois se cruza 92
90 O padre que lhe assistiu no suplcio.
91 Os trs paus so a forca.
92 Jesus Cristo..246
e quem por nossos pecados
os mares de sangue sulca.
Por ltima cerimnia
mais crist e mais segura,
mandam que em um credo acabe,
e a diz-lo o povo o ajuda.
Oh! penso d'obstinados
de Lisboa!  coisa dura
que esto vendo enforcar sempre
e que no se emendem nunca!
Que no Pelourinho topem
tanta nobreza defunta,
e que na cabea alheia
no faam exemplo  sua!
Tapou-lhe de todo os olhos,
e ali ps  dependura
para sempre em uma corda
aquela passada fruta!
De escada acima um criado
o lado direito ocupa,
que foi na sua crueldade
companheiro e testemunha.
E, sendo-o na vida e morte,
o foi at  sepultura.
Cortou-lhe enfim as cabeas
o verdugo; e, vendo as duas
por igual desfiguradas,
duvidou qual fosse alguma;
e, dando um salto com elas,
onde manda el-rei que suba,
ali as deixou pregadas
at que o tempo as consuma
ou at  Misericrdia
que da Trindade se cuida.
E, como levar quiseram
as conscincias bem puras,
curando as duas maldades,
disseram ambos  uma
que fratricidas fizeram
tanto aquela morte injusta.247
como da outra inocente
que culpada se supunha.
Permita Deus que se encontrem
no cu as quatro almas juntas,
as duas martirizadas,
e arrependidas as duas.
Ali ficaram, expostas
ao sol, ao vento e s chuvas,
naquela porta sem casas
aquelas tristes figuras.
Aquele Outeiro escalado
e arrasada aquela altura,
aquelas rvores secas,
pagas aquelas verduras,
aquelas cabeas calvas,
aquelas calvas esprias,
aquela fbrica em terra,
aquela pompa caduca.
E enfim, vendo estes autos
porque a Relao conclua
a sentena bem lanada,
e quem a ler pague as custas.
Um douto da Companhia
que lha fez boa na angstia
da morte, que o esperava,
enforcando-os com brandura
tomou as duas cabeas
por assunto, e fez em suma
no plpito de uma escada
uma prtica oportuna
a todo aquele auditrio
que, como doutrina, o escuta,
especialmente dizendo
ao que mais dos vcios usa:
"Se no quer's ter tal morte,
pecador, de vida muda";
e recomenda aos solteiros
emenda em suas estrdias;
para que entendam melhor,
no suponham todas umas;.248
aos casados que no faam
na honra apressadas curas.
E antes que de ouvida sangrem
tomem de vista uma purga;
e s mulheres que no tomem
criadas to dissolutas
como aquelas que esto presas,
causas de tais desventuras;
a criada que s pegue
ou bem na roca ou na agulha;
no se meta em pontos de honra,
nem meadas falaras urda.
As donzelas que no faam
bichos de carta nenhuma;
que, ainda que a no tem, ter podem
peonhenta mordedura;
aos pais e s mes que lhe evitem
semelhantes travessuras,
por que a doidices no cheguem,
e por que no vo a frias.
Aos vivos que encomendem
a Deus as suas defuntas;
e, se foi boa a primeira,
no esperem por segunda.
A mesma ou outra advertncia
faz s mais ricas vivas;
porque h destros estudantes
que s constrem pecnia.
Aos tortos 93 que no pernoitem
fora das suas clausuras
E tambm que no perdiem 94
sem companheiro na rua;
e enfim a todo vivente
que da corda e cortadura,
livrar quer sua cabea
que ponha os olhos nas duas.
Deu fim s Ave-Marias
93 Tortos chama o poeta aos frades, pelo grande dio que tinha a Fr. Simo de Santa Catarina, que era
vesgo.
94 Como usou o verbo pernoitar, entendeu que enriqueceria o vocabulrio engenhando o verbo perdiar. A
raa de Toms Pinto ainda vive e medra para criar palavras..249
o tal sermo, que insinua
a alcanar de Deus a graa
e a glria, ad quam nos perducat.
DCIMAS
1
De uns nscios quero falar
que com mdulto juzo
fizeram trovas de riso
de um caso para chorar:
se Isaac  riso, mudar
deve o seu nome Eliote
Bblia em choro para que note
que em crimes de tanto espanto
o deve afogar o pranto
primeiro do que o garrote.
Isaac  o mesmo que riso.
Risum fecit mihi Dominus.
incut Nomi Genez 21 V. 6.
2
No tem da vida esperana
j que sem violncia quis
da casa dei S. Lus
saltar por el-rei de Frana;
mais que a justia se lana
ao triste, o povo; e insolentes
o queriam lees rompentes
da garra dos quadrilheiros
e unha de uns ces rafeiros
tirar com unhas e dentes.
Comumente so sapateiros.
Ia amarrado por dois pretos.
3
A corte se iluminava
e tanto archote ardia
ao pobre lhe parecia
pira em que se abrasava;
queimem o huguenote clama
o povo, e do Limoeiro
 sombra nesse braseiro
do abismo o neto de um mouro
arda no incndio do ouro
o carvo do seu dinheiro.
 filho de uma moura.
As treze mil moedas se lhe tornaram
em carvo e cinza, como os tesouros
sonhados, como o ouro da esttua, quae
reducta est quasi infa vilam..250
4
Do relgio o renegado
o sequestro tambm chora
que foi naquela m hora
relgio desconsertado.
Temendo ser confiscado
dos quartos ao rudo acorda
da pndula que recorda
a pena a que no resiste
no sabendo a hora o triste
em que lhe ho-de dar corda.
5
Era (antes das impiedades)
por honra, e no por desdouro,
ele escravo em grilos de ouro
aos ps de ilustres deidades.
Hoje nas escuridades
do caos em que vive preso
com ignomnia e desprezo
o chega a martirizar
mais da soltura o pesar
do que do grilho o peso.
Cortava as unhas dos ps a certas
senhoras.
Se o peso molesta, o pesar molesta
mais; e onde  mais o peso ali  maior a
opresso.
6
De curar mais se despea
toda a queixa com aguardente
se o seu mal pede, e consente
aguardente de cabea;
este suplcio merea
quem mostrando nesta aco
que  hereje e no cristo,
quis ser por sua desonra
el medico de su honra
sendo s cirurgio.
7
Nesta atroz anatomia
com nimo irracional
fazer da casa hospital
de incurveis pretendia;
e querendo da teologia
aprender a faculdade
ilustrar na habilidade
investigar quis como rudo.251
o Aristotlico estudo
os arcanos da Trindade.
FIM DAS NOTAS E DOCUMENTOS.252
Obra digitalizada e revista por Deolinda Rodrigues Cabrera. Actualizou-se a
grafia.
(c) Projecto Vercial, 2000
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